Tudo aconteceu rápido demais.

Em um instante, Sora e Kairi apenas flutuavam pelo espaço, alheios a tudo e a todos. O silêncio era tão absoluto e tão absorvente que era quase como se tudo houvesse desaparecido. Mas, mesmo se uma implosão pudesse ser ouvida ao lado deles, na certa seria solenemente ignorada, pois os olhos de um estavam completamente mergulhados nos do outro.

Mas aquilo era algo que realmente não dava para ignorar.

De repente, foi como se algo os sugasse na velocidade da luz. Levou uma fração de segundo até que percebessem que era a Axiom, que havia mudado violentamente o seu curso e agora disparava em alguma direção desconhecida.

“Droga!”, pensou Sora, enquanto agarrava uma das mãos de Kairi e disparava na direção da nave com toda a força que sua propulsão tinha. Ele não sabia se estava irado por seu momento com Kairi ter sido destruído daquela forma, intrigado pela Axiom de repente assumir aquela velocidade espantosa, ou simplesmente apavorado por estar tentando se agarrar a uma nave velocíssima, sabendo que se ficasse à deriva no espaço nada poderia salvá-lo.

O pior de tudo era a ausência total de comunicação. Ele precisava saber o que estava acontecendo lá dentro, e precisava saber o que Kairi estava pensando. E precisava de um plano, de preferência algo mais eficiente do que ficar indefinidamente agarrado a um cabo qualquer do exterior da nave e rezar para que aterrissassem em algum lugar habitável sem que explodissem ou que ele se soltasse.

Não. Ele não podia pensar naquilo. Precisava tomar alguma atitude, e rápido.

Com esforço, ele conseguiu alcançar uma das hastes externas da nave, e segurou-a o mais forte que pôde. Uma vez seguro, começou a pensar no próximo passo. Talvez eles estivessem voltando para a Terra, o que, apesar de ser um alívio, era também preocupante. Eles precisavam entrar na nave antes que chegassem perto da atmosfera da Terra, ou as coisas ficariam realmente complicadas.

“Subir”, ele pensou. “É isso, preciso chegar ao topo da nave, lá deve ter alguma passagem para dentro ou algo assim. Subir, subir, subir...” Olhou para Kairi, que não largava seu braço por nada, e acenou com a cabeça, esperando que ela entendesse seu sinal.

Com um impulso, começou a saltar de uma haste para outra, de um cabo para uma plataforma. Não era nada fácil, a velocidade da Axiom tornava tudo mais difícil e perigoso. Kairi o acompanhava e o ajudava, sem soltar a sua mão. Se ela estava tão apavorada quanto ele, estava fazendo o possível para manter seus sentimentos escondidos.

Por fim, chegaram a uma área mais plana. O topo da nave.

Mas, então, Sora percebeu uma coisa na qual não havia pensado...

O topo era completamente liso. Nenhuma reentrância, nenhum cabo, nenhuma haste ou placa. Apenas a interminável superfície plana e lisa de metal pintado de branco.

Um beco sem saída.

“Essa não...”, ele pensou, desesperado. Por instinto, segurou a mão de Kairi com mais força, mesmo sabendo que ela não iria sentir. Não havia para onde ir. Tentar alcançar outra borda era perigoso demais, e também não daria tempo. E a pressão se tornava cada vez mais insuportável, também.

Então, aquele era o fim. Um fim silencioso, isolado de tudo e de todos.

“NÃO!” As coisas não terminariam daquela forma. Naquele momento, não havia mais nada a perder. Decidiu arriscar tudo em um último movimento, e lançou um olhar significativo a Kairi. Era como se ela traduzisse seu plano. Com a mão livre, segurou-se com força ao último pilar antes do topo, e com a outra, inverteu posições com Sora, segurando a mão dele.

Aquela podia ser a sua última chance... e ele precisava fazer com que ela fosse aproveitada.

Então, ele soltou a mão com que se segurava à nave, e por um momento, pendeu no espaço, quase sendo jogado longe. Logo, porém, recuperou o equilíbrio e invocou a Kingdom Key com a mão livre, e fincou-a no casco da nave com toda a força, enterrando-a até quase metade da lâmina. Depois, lançou um olhar rápido para Kairi, que fez o mesmo, soltando-se do apoio da nave, invocando a Moonbeam e cravando-a na nave, um pouco à frente. Eles fizeram isso mais algumas vezes, até que tivessem avançado o suficiente sobre o casco da Axiom. Pelo que puderam entender do sistema básico da nave, aquelas pequenas avarias não representariam risco a quem estivesse dentro da nave, mas para eles, do lado de fora, elas eram a salvação.

Eles permaneceram parados naquela posição, presos apenas pelas duas Keyblades fincadas à nave, por algum tempo. Eles não sabiam, porém, quanto tempo aquilo ia durar. A pressão e a velocidade iam aumentando cada vez mais. Eles precisavam de ajuda, e rápido.

Mas então, como um milagre, a ajuda veio.

Sora olhou para o lado, de relance, e se deparou com Riku, segurando-se na borda oposta da nave. Eles trocaram um olhar rápido, e Riku acenou com a cabeça, antes de ligar a sua própria propulsão, cravar a Way to Dawn no casco da nave, e deslizar na direção deles. A Keyblade o mantinha fixo à nave, e os foguetes o empurravam na direção de Sora e Kairi.

“Isso é loucura!”, pensou Sora. Mas, talvez exatamente por isso, aquele plano podia dar certo.

Riku continuou seu trajeto até alcançá-los. Quando conseguiu, desligou a propulsão e fincou-se ao metal da nave. Depois, estendeu a mão livre a Sora, que a segurou. Era uma posição muito instável: Riku segurando Sora, que por sua vez segurava Kairi, que estava se agarrando à Keyblade fincada ao metal. Riku engoliu em seco. Aquele plano parecia mais idiota a cada momento que passava.

Agora era a parte mais crítica. Kairi deveria se soltar.

Ele lançou a ela um olhar. Maldito vácuo sem som! Rezando mentalmente para que ela entendesse seu plano, fez um gesto com a cabeça, tentando sinalizar.

E, aparentemente, ela entendeu. Porque no instante seguinte acenou negativamente com a cabeça.

“Ah, pelo amor de Deus!”, ele pensou. O tempo deles se esgotava rapidamente. E não poder falar atrapalhava tudo...

E foi então que Sora interveio.

Foi preciso apenas que ele a encarasse, e acenasse com a cabeça. Por um momento, Riku pensou ter visto uma fagulha de medo nos olhos metálicos de Kairi, mas ela apenas acenou com a cabeça também. E, no segundo seguinte, ela fez com que a Moonbeam desaparecesse.

E, por uma microscópica fração de segundo, tudo era silêncio e vazio.

Logo depois, a pressão. Apenas uma Keyblade os mantinha fixos à nave. Por um momento, a velocidade da nave provocou um tranco no braço de Riku, como se fosse arrancá-lo fora. Ele conseguiu se segurar, mas não sabia por quanto tempo.

Agora, a segunda parte.

Ele ligou seus propulsores outra vez, se deslocando no sentido oposto ao do movimento da nave. O peso agora era maior, e o movimento bem mais lento, mas Riku simplesmente não se permitia mais pensar. Aquilo daria certo, de qualquer forma. Aquilo daria certo.

E foi então que, por um momento, tudo se perdeu.

Os propulsores falharam, engasgaram por alguns instantes, e depois pararam completamente, deixando o trio inerte, pendurado a uma gigantesca bala de metal que viajava a centenas de quilômetros por hora.

Toda a esperança de Riku naquele resgate se evaporou. Eles estavam condenados.

Por alguns instantes, eles ficaram ali parados. Riku observou a imensidão do universo... tantos pontos brilhantes, tão distantes. Era lindo, tão calmo e pacífico. A decepção e a certeza de que nada mais poderia ser feito entorpeceu seu medo. Naquele momento, tudo em que ele pensava era em observar o infinito. Uma sensação muito estranha de calma e paz o preencheu. Era uma forma estúpida de morrer, sem dúvida, mas pelo menos teriam uma belíssima vista naqueles últimos minutos.

Mas uma coisa o incomodou...

Por um instante... parecia que era aquilo que ele queria.

Mas foi então que Sora decidiu que não terminaria daquela forma.

De repente, eles voltaram a se mover. Mas não era graças a Riku – era Sora, que havia conseguido fazer a sua propulsão funcionar e agora os conduzia. E, de repente, Riku se sentiu burro. É claro, os dois haviam sido transformados no mesmo tipo de robô! O que o fazia pensar que só ele poderia tirá-los daquela enrascada?

A propulsão de Sora era suficiente para fazê-los se mover, mas não seria por muito tempo. Então, Kairi também começou. A propulsão dela era bem mais fraca, mas já era suficiente para estabilizar seu curso pela superfície da nave. Riku conduzia e os mantinha num certo curso usando a Way to Dawn como estaca.

E a pressão aumentava e aumentava... e eles tinham que manter o foco.

Foi então que apareceu o que deveria ser a salvação deles. Era uma fresta, que aparentemente conduzia ao interior da nave. Ele percebeu que os três começavam a perder velocidade, e isso o deixou preocupado. Eles não suportariam aquilo por muito tempo, e isso era fato.

“Mais um pouco”, ele pensava, à medida que a fresta ia ficando mais e mais próxima. “Mais um pouco... mais um pouco, droga, não chegamos até aqui pra nada!”

E então, com um baque, eles passaram pela fresta. E, minutos depois, ela se fechava.

Eles perceberam que aquele era um tipo de almoxarifado da nave. Por um instante, os três ficaram no chão, parados, ainda meio paralisados de medo e de excitação. Sora foi o primeiro a se levantar, e começou a conduzir o grupo até que eles voltassem para os corredores da nave.

–Isso foi loucura – murmurou Kairi – Como ainda estamos vivos?

–Eu não faço idéia – respondeu Riku, sincero – Vamos achar os outros, está bem?

Eles começaram a caminhar pelos corredores, estranhamente desertos. Depois de algum tempo, porém...

–O efeito do feitiço! – disse Sora – Passou!

Eles olharam para si mesmos. Já estavam de volta às suas formas humanas, o que era bem mais confortável... Sora e Kairi trocaram um olhar rápido, e logo desviaram os olhos. E Riku escondeu uma risadinha. Na certa, era muito mais difícil se encararem quando não estavam protegidos pelas expressões metálicas... Ele apertou um pouco o passo e deixou os dois para trás.

Havia tanto em que pensar... tanto ainda a fazer...

–Ah, então vocês estão aí! – era a voz de Leene, que estava com os olhos arregalados de preocupação e medo – Pensávamos que vocês tinham morrido, sei lá! E você! – os olhos dela se estreitaram na direção de Riku, que recuou alguns passos – Por que você nunca pensa antes de fazer algo idiota? Por que você tem que ser tão... tão... tão você?

Tudo o que Riku pôde fazer foi rir. Aquilo era tão Leene...

–A sala de controle parece ser o cerne de tudo isso – disse Donald – Precisamos ir pra lá agora, a nave ta instável demais. É possível que alguém aqui saia ferido, e eu tenho medo disso.

–ALERTA! INTRUSOS! ALERTA! INTRUSOS!!!

De repente, os corredores foram tomados pelo barulho ensurdecedor dos alertas. E, no monitor, apareceram as fotos de Goofy, Leene e Donald.

–Isso é brincadeira, né? – protestou a garota – Como assim?

–Tentamos invadir o sistema deles, lembra? – observou Goofy – Pra tentar achar aqueles dois que eles estavam perseguindo.

–E onde eles estavam na última leitura? – perguntou Sora, olhando por cima dos ombros.

–No depósito de lixo. Fica alguns andares abaixo, mas acho que podemos chegar lá.

Mas, antes que pudessem se mover, uma profusão de robôs de defesa começou a surgir de todos os lados, cercando-os.

–Uau, eles não eram tão rápidos assim – murmurou Sora.

Mas, então, ele olhou mais de perto. Havia algo muito errado com aqueles robôs. Muito errado mesmo...

–Riku, eles são o que eu acho que são? – ele murmurou, de costas para o amigo.

–Sim – ele respondeu – O que quer que tenha tomado essa nave, é maligno e provavelmente nos conhece. Algum plano?

–Que tal o de sempre? – sugeriu Kairi – Bater neles até fazê-los chorar?

–Bem, soa bom pra mim – concordou ele – Ao meu sinal... Um, dois, três... AGORA!

E, no segundo seguinte, os cinco abriam caminho à força entre os robôs-Heartless.

Definitivamente, a forma humana era muito melhor para lutar do que a forma robótica. Os Heartless eram pequenos, mas sabiam lutar em grupo, e partiam para cima deles como falanges compactas, sem abrir uma brecha para um ataque.

- Seus raios agora seriam muito bem-vindos, Leene – disse Riku, nervoso.

- Genial, Riku – sibilou ela, em resposta – Aí eu já aproveito, causo uma pane elétrica generalizada na nave e mato todos aqui, não é?

É. Aquela realmente era uma idéia idiota.

- Não temos tempo para segurar todos aqui – disse Sora, por fim, chutando longe um Heartless mais atrevido – A gente precisa ir para o depósito, e rápido.

Goofy jogou o escudo contra os Heartless, desmantelando a sua formação pelo tempo suficiente para que eles pudessem abrir caminho entre ela e correr o mais rápido que podiam. Por fim, eles chegaram a um elevador de carga, e conseguiram, por fim, seguir até os andares mais baixos. Felizmente, estava tudo deserto, e eles andaram, rapidamente, até chegar ao depósito de lixo.

–Onde eles estão? – murmurou Sora, procurando com os olhos. Então, ele viu uma pilha de metal um pouco diferente. Uma pilha que se mexia. Sem hesitar, correu até a pilha. Era ele, com certeza, o robozinho enferrujado que estava sendo perseguido. Mas havia algo estranho nele, algo diferente. Algo quase humano. Era quase como se ele estivesse sentindo dor.

–Ai, caramba... – ele murmurou, fazendo sinal para que os outros se aproximassem – Ele tá danificado. Precisamos fazer alguma coisa...

–Wall-E – o robô emitiu um som baixo, como se estivesse se apresentando.

–Eu sou Sora – murmurou ele – E vai ficar tudo bem, nós vamos te ajudar.

Quando se virou, porém, deparou-se com o outro robô, o branco. E ele apontava uma arma na sua direção, completamente irado.

–Calma, calma, calma! – Donald tomou a dianteira – Somos amigos. Queremos ajudar.

–EVA... – dessa vez, o som que Wall-e emitiu foi ainda mais baixo. A outra parecia preocupada, e correu até ele, mostrando alguns circuitos. Nenhum deles, porém, era compatível.

Foi então que Wall-E mostrou algo a ela. Uma pequena plantinha, numa bota velha. Ela a ignorou, mantendo suas atenções nele, mas ele insistiu. Sora apenas observava a cena, tocado pela humanidade dela. Então era naquela plantinha que todas as esperanças deles se concentravam... e Wall-E, mesmo danificado, mesmo ferido, queria terminar aquilo...

–Diretriz... – ele murmurou.

Então, EVA se virou na direção deles. E eles entenderam o recado.

–Vamos ajudar vocês – disse Riku, em tom de desafio – É só nos dizerem onde é o centro de controle.

EVA emitiu um holograma com um mapa, com pontos brilhantes no lugar onde estavam e no ponto de destino. E, no segundo seguinte, prendeu-se a Wall-E, pegou a plantinha e disparou pelos túneis. Sora olhou para cima, observando-os desaparecer, e depois disse:

–Bem, gente... temos uma nave pra salvar!

Eles seguiram as instruções de EVA, correndo. A nave estava um pandemônio completo. Seus ocupantes, em suas poltronas flutuantes, estavam apavorados, e ficavam ainda mais ao vê-los correndo por ali. Não havia tempo para explicar. Eles só sabiam que precisavam chegar ali.

E, quando entraram na sala de comando central, entenderam tudo.

–É claro! – murmurou Riku, já invocando a Way to the Dawn – É o piloto automático. Ele se tornou um Heartless. Isso explica toda essa bagunça!

–Onde está o capitão, lata velha? – rosnou Sora – Leve-os para a Terra agora mesmo!

–Minha diretriz determina que devo mantê-los no espaço para sempre – disse a voz metálica do piloto automático – E não admitirei contestações quanto a isso.

Outros robôs-Heartless apareceram. Aquilo já estava se tornando repetitivo.

–Procure o capitão, Kairi – murmurou Sora – Leene, vá ajudar Wall-E e EVA. Quanto aos outros... vamos chutar esse cara daqui.

–É você quem diz – Goofy deu um sorriso – VÃO LOGO!

As duas garotas correram em direções separadas. Kairi logo encontrou o capitão, preso em um dos cômodos próximos da nave. Com a ajuda da Moonbeam, conseguiu abrir as portas e libertá-lo. Assim que ele saiu, disse, urgente:

–Precisamos chegar à praça central, abrir a escotilha e inserir a amostra de vida lá. Auto acionou o hiperespaço para dificultar a nossa chegada. Siga o corredor, você chegará lá rápido. Consegue fazer isso? Eu vou distraí-lo, OK?

–Deixa comigo! – ela concordou na hora, e correu na direção apontada pelo capitão.

Agora, a luta contava com a ajuda do capitão. Sora e Riku davam conta dos pequenos Heartless que protegiam o mecanismo de desativação, enquanto Donald e Goofy tentavam descobrir uma forma de desativar aquele monstro de uma vez por todas.

–É inútil resistir – dizia Auto – A diretriz A-113 será cumprida, nem que para isso tenha que eliminar todos os opositores.

–Você fala demais – rosnou Riku, enquanto lançava sua Keyblade contra um grupo distante – Capitão, consegue chegar ao controle?

–Estou tentando – disse ele, ofegante. Auto, por sua vez, começava a disparar contra eles, e a tentar impedi-los – NÓS VAMOS VOLTAR PRA CASA, QUER VOCÊ QUEIRA OU NÃO!!! – e ativou o sistema de abertura da escotilha.

Kairi alcançou Leene ainda no corredor, e as duas chegaram juntas à praça central. Lá era o auge da bagunça. Havia montes de pessoas lá. E, bem no centro, um pilar. Wall-E e EVA estavam lá, mas Heartless os impediam de chegar ali. EVA tentava afastá-los com sua arma, mas eles eram muitos.

–Bem, pelo visto as garotas irão salvar o dia – Leene abriu um sorrisinho – Vamos ajudá-la.

As duas se aproximaram da escotilha, afastando cada Heartless que se aproximasse do pilar. EVA percebeu, e passou a dar cobertura a elas, até que o caminho estivesse livre para que eles pudessem subir até a escotilha. E eles se aproximaram, a amostra pronta, quando...

A escotilha se fechou. E Wall-E estava bem no meio do caminho.

–Ah, droga! – praguejou Kairi, tentando se aproximar da escotilha e sendo seguida por Leene – Não vou deixar que isso aconteça, não agora... não tão perto!

Enquanto isso, a batalha na sala de controle continuava feroz. Auto usava tudo o que tinha contra eles, e não poupava esforços para tentar destruí-los.

–Isso já está ficando ridículo – sussurrou Goofy – Tem que ter um jeito... capitão, de quanto tempo o senhor ainda precisa?

–Ele não está me deixando chegar perto! – respondeu o capitão – Os robôs dele me impedem!

–Ah, chega! – sibilou Sora, por fim – Vamos resolver isso da minha forma...

Então, ele acertou a Kingdom Key contra um dos painéis. Era como se o próprio Auto se contorcesse de dor.

–Perfeito... – murmurou Riku – Então você não gosta disso, coisa feia? Que pena... AGORA!

Os quatro começaram a acertar os sistemas de Auto. Ele berrava, dizendo:

–Parem, isso é inútil! Só estão danificando a nave e dificultando ainda mais a sua própria volta para casa... PAREM, EU JÁ DISSE!

–Capitão, essa é a sua chance! – disse Donald – AGORA!

E, então, finalmente, o capitão conseguiu desativar Auto de uma vez por todas. E, no instante seguinte, EVA conseguiu inserir a amostra na escotilha. E o programa de retorno foi ativado. A nave deu uma outra guinada, dessa vez para a direção oposta à qual estava indo.

–Estamos indo pra casa... – disse o capitão, aliviado – E graças a vocês.

Enquanto isso, perto da escotilha, Leene, Kairi e EVA rodeavam Wall-E. Quando Auto foi desativado, ele foi libertado, e ela conseguiu inserir a amostra e ativar o programa de retorno. Mas o custo havia sido muito alto. Wall-E havia ficado ainda mais danificado.

–Droga, eu queria poder fazer alguma coisa – murmurou Leene, desconsolada. Ela observou EVA, que não saía do lado de Wall-E – Vamos ajudá-la a consertá-lo, tá bem?

EVA as encarou por um instante, e acenou com a cabeça. A nave seguiu seu curso até chegar à Terra. O pouso não foi muito tranqüilo, mas todos saíram da nave inteiros e bem. Assim que chegaram, EVA disparou em uma direção, enquanto Leene e Kairi levavam Wall-E para o lado de fora. Ele estava, na falta de uma palavra melhor para definir, “desacordado”. Ela voltou, depois, com peças, e foi consertando-o quase com desespero.

As três esperaram, ansiosas. E, então, seus olhos se acenderam. Ele estava vivo. E bem.

Ou talvez não...

Ele se movia e funcionava, como antes. Mas algo nele havia deixado de existir. Aquela nota quase humana em seus olhos, a sua forma gentil e curiosa de tratar as pequenas coisas... haviam desaparecido com suas peças antigas. Ele funcionava, mas o verdadeiro Wall-E havia partido. Agora, tudo o que restava era uma máquina de compactar lixo, sem personalidade, sem sentimentos, sem alma.

–Não... – murmurou Kairi – Não... por favor, não agora...

Mas EVA era quem estava mais desconsolada. Ela se aproximou dele, tentando provocar alguma reação. Nada. Então, sob os olhares de pena de Leene e Kairi, ela chegou bem perto dele e deu o que só poderia ser chamado de um beijo: uma pequena faísca elétrica, que o atingiu e que atravessou todo o seu corpo.

E foi aquele beijo que o fez despertar.

Sob os olhares de espanto das duas, ele piscou, e observou EVA, e olhou em volta... e, de repente, ele voltou a ser o mesmo Wall-E de sempre. Era lindo. EVA o abraçou de uma forma tão carinhosa e gentil que era quase como se eles fossem apenas humanos, nada mais. Um final feliz, sem dúvida nenhuma.

–Você não vai chorar, vai? – perguntou Kairi, observando.

–Não – Leene disfarçou a voz hesitante – E você vai?

–Hum... não... – ela também teve que diminuir a voz em duas oitavas para disfarçar – E os outros, onde estão?

–Ei! Meninas! – Sora acenou para elas – Tá tudo bem?

–Sim, está! – Kairi acenou de volta, com um sorriso – Agora está. Acho que já podemos ir.

–Donald foi buscar a nave – explicou Riku – Ele não vai demorar.

–O que vai acontecer com o pessoal daqui agora? – perguntou Leene.

–Eles vão reconstruir o mundo, oras – respondeu Goofy – Humanos, robôs, todos juntos. E vão plantar árvores, e cultivar coisas... até pizza! – e riu – É, acho que eles vão ficar bem. Graças ao capitão.

–Não só a ele – disse Kairi – Graças a Wall-E, e a EVA também...

Então, os dois robôs se aproximaram do grupo. Wall-E tinha algo nas mãos, mas estava um pouco tímido. Foi EVA quem lhe deu um empurrãozinho, e ele estendeu a Kairi um presente.

–Uau... é lindo... – era uma chave de prata, entalhada com o formato de uma rosa. Ela engoliu em seco. Uma chave em formato de rosa... as coincidências se acumulavam – Muito obrigada!

E, quando a Fantasia chegou, eles partiram, acenando para todos. Havia sido um mundo interessante, sem dúvida. E, mais do que isso, Wall-E e EVA acabaram apresentando a eles um novo conceito de humanidade, algo que eles não esperavam encontrar ali.

–Eles tinham corações, é tudo o que eu posso dizer – disse Leene – Nada mais explicaria o que eles fizeram.

–Eu só não entendo duas coisas – disse Sora – Primeiro: como Auto se tornou um Heartless? E, segundo: como essa chave foi parar lá?

–Algo parece inter-relacionar todos os mundos pelos quais passamos – disse Riku, pensativo – Algo que tem relação com os símbolos de Waterfall City. A rosa, a lua... mas qual é essa relação?

Eles desembarcaram em Radiant Garden, e relataram brevemente a Cid e ao rei o que havia acontecido. Logo depois, saíram para a praça, mas minutos depois foram chamados de volta, às pressas.

–Celsius e Traverse Town, respondam AGORA! – berrava Cid para o monitor – Twilight Town está sendo atacada, preparem-se para ir para lá imediatamente!

–O quê? – a reação de todos, tanto os que apareciam nos monitores quanto os que estavam na sala, foi exatamente a mesma.

–É isso mesmo, garotos – a voz de Cid falhou – Twilight Town está sob ataque cerrado. Precisamos de todo mundo lá, entenderam? Todo mundo!

–Estamos indo agora mesmo – em Traverse Town, Tifa era a porta-voz – Chegamos em pouco tempo.

–Estamos por perto, podemos dar suporte às equipes – Yuna falava pela Celsius – Podemos chegar em menos de uma hora e averiguar a situação.

–Cid, quanto tempo temos? – perguntou Leene – Quando as leituras começaram a enlouquecer?

–Os sensores mudaram há minutos atrás – respondeu o engenheiro – Mas sabemos o que significam, o que quer dizer que, em poucas horas, não haverá mais nada pra salvar por lá, a menos que todos ajam rápido, e juntos. Tentem chegar o mais rápido possível. Estou tentando contatar outras pessoas para ajudarem vocês, mas não posso prometer nada – ele abaixou a cabeça por um instante, engolindo em seco – Vão logo, por favor. Temos pouco tempo. Câmbio final.

–Certo, precisamos agir rápido – no Primeiro Distrito de Traverse Town, havia um grande movimentação, e Leon coordenava a distribuição dos times – Somos em cinco, precisamos nos dividir, e precisamos chegar lá a tempo. Traverse Town ficará protegida enquanto o feitiço do cristal durar. Tifa, Yuffie, vocês vêm comigo na Ragnarok. Aerith, você vai com o Cloud na Fenrir. Provavelmente, vocês chegarão antes de nós, então nos mantenham informados, OK? Em quanto tempo podemos partir?

–Imediatamente, as duas naves estão prontas para voar – respondeu Tifa prontamente – Vou checar o cristal antes de irmos, e depois disso podemos ir.

–Beleza, vou dar uma olhadinha nas naves só pra confirmar – Yuffie fez um sinal de positivo, e as duas desapareceram pelas ruas do Primeiro Distrito.

Aerith, Cloud e Leon ficaram para trás. Não era difícil ler o que estava escrito no rosto de Cloud, e foi Aerith quem traduziu a expressão dele em palavras.

–Eu sei o que vai dizer. E a resposta é não, eu não vou ficar para trás, OK?

–Vai ser perigoso demais – ele disse – Por favor. Fique aqui, é mais seguro – e, para Leon – Diga alguma coisa, oras!

–É a decisão dela – respondeu Leon – Eu tenho que respeitá-la.

–Além do mais, eu não sou feita de vidro! – a moça estreitou os olhos – Sei me defender, sabia?

–Eu não acho que isso seja uma boa idéia – insistiu o primeiro – E vou insistir pra você ficar.

–E vai fazer o quê? – Aerith estreitou os olhos outra vez – Me amarrar num saco e me deixar aqui?

–Sabe que eu não vou fazer isso – ele suspirou, por fim – Vou levá-la.

Ela deu um sorriso. Tifa e Yuffie voltaram, e os grupos se dividiram entre as duas naves. Não havia ali espaço para discutirem possíveis temores ou apreensões – mas, se houvesse, com certeza Leon e Cloud teriam algo a dizer sobre o que estava acontecendo ali.

Enquanto isso, em Radiant Garden, duas naves se preparavam para a luta.

–Precisamos colocar a Highwind no ar – disse o rei – Donald, Goofy, vocês vêm comigo. Sora, você leva a Fantasia. Precisamos ir o mais rápido possível.

–Certo! – concordou Sora, na mesma hora. O coração dele estava disparado. Um ataque... em Twilight Town. Era terrível demais até para pensar no assunto.

E, então, ao mesmo tempo, cinco naves dispararam, de diferentes pontos, indo todas na mesma direção. Acabava de começar uma corrida contra o tempo. Naquele momento, ser rápido era uma prioridade absoluta. Essa seria a única forma de salvá-los, a única chance.

Mas – essa era uma coisa em que todos evitavam pensar – ser rápido seria o suficiente?