Killer

30 Um Raio de Luz na Escuridão


Notas iniciais
Hello, coisas linda da tia Rhyenx. Eu disse que ia aparecer por aqui só depois que atualizasse a minha outra fanfic, mas surpresa, apareci antes. Era para eu ter postado esse capítulo ontem, na verdade, mas não consegui terminar a tempo. Entretanto, ainda quero dedicá-lo a minha querida leitora Jéssica Salvatore, como um presente de aniversário atrasado. Jéssica, minha flor, Feliz aniversário! Te desejo muita saúde, muitas felicidades e muitos anos de vida! Agora vamos ler? Espero que gostem. Boa leitura ^^

[Bryan P.O.V]

Quando você se torna um Ceifeiro você sente dor. Não uma dor física, mas uma dor emocional. Quando você tira uma vida humana é como se a sua própria alma se fragmentasse e, apesar do que as pessoas acreditam, essa tarefa não se torna mais fácil com tempo.

Os primeiros dias como Ceifeiro são realmente os piores. A primeira vida que você tira quase te leva à loucura e creio que não fossemos imortais, haveria um alto índice de suicídio entre os ceifeiros, porque muitos não aguentariam aquela dor e o sentimento de luto e de culpa que a acompanha.

Tirar uma vida humana machuca e machuca tanto que nunca consegui entender como um humano podia acabar com a vida de outro e não sentir remorso. Não sentir dor. Não sentir como se ele mesmo estivesse morrendo.

Por muito tempo a explicação que ouvi foi que o problema não era com os humanos. O problema era com Lúcifer, o demônio que corrompera seus corações e os fizera se afastar de nosso Pai. Eu acreditei nisso.

Ouvi essas palavras por eras e realmente acreditei que toda a maldade do mundo residia naquele ser egoísta que destruía tudo o que tocava, realmente acreditei que Lúcifer era a única vil que o Altíssimo tivera a infelicidade de criar, mas eu já não acreditava mais.

Enquanto o caixão de Loren era baixado ao solo e eu ouvia as palavras de pesar que o reverendo local proclamava, eu só conseguia pensar no quanto nós tínhamos nos enganado. Sempre atribuímos a culpa de todos os males do mundo a Lúcifer, mas agora eu sabia que Miguel podia ser infinitamente pior.

Ao tirar a vida de Loren ele sequer piscara. Sua desculpa era a de que estava seguindo as ordens do Altíssimo, cuidando para que as regras fossem respeitadas, mas eu me perguntava quantas de suas atitudes eram movidas por propósitos tão egoístas quanto os de Lúcifer? Há quanto tempo vivíamos sob a sombra de um tirano e não sabíamos?

– Isso é tão injusto. – ouvi Jess, uma das amigas de Loren, exclamar.

Ela estava abraçada a Norah, ambas vestidas de preto e com rostos marcados por lágrimas que nunca chegavam a secar realmente. Seus olhos se fixavam no caixão negro a sua frente e suas mãos se agarravam ao caule de uma rosa branca como se ela precisasse de algo em que se apoiar.

– Ela era tão jovem. – Jess continuou – Tinha uma vida inteira pela frente. Ela não deveria ter morrido assim. Não é justo.

Norah assentiu levemente, mas passou as mãos pelas costas da amiga, confortando-a.

– Talvez ela esteja num lugar melhor agora, Jess. Um lugar bem diferente daquele hospício onde a trancaram. Um lugar onde ela finalmente tenha encontrado paz.

– Isso tudo é besteira! – Jess exclamou novamente – Ela está morta. Podia estar se formando com a gente e indo para a faculdade ano que vem. Podia ter encontrado um cara legal, se casado e ter sido mãe, mas ela não vai, Norah. O corpo dela vai apodrecer embaixo da terra, se decompor e isso não é justo!

Jess soltou a rosa branca que segurava, deixando a cair sobre a grama aos seus pés e se soltou do abraço de Norah, correndo de volta até a pequena igreja que ficava a poucos metros dali.

Algumas pessoas a encararam com desprezo, certamente repudiando sua reação e a avaliando como uma total falta de etiqueta social e eu me perguntei quantas daquelas pessoas realmente sabiam o que era estar de luto por alguém que você amava. Eu tinha muitas delas não faziam a menor ideia do que era isso.

Quando Norah jogou a rosa que segurava na sepultura de Loren e seguiu para a igreja atrás de Jess, meu olhar recaiu para o pai de Loren, que estava a direita do reverendo, ladeado por sua nova esposa e pelos filhos dela.

A postura dele era rígida e seus olhos estavam cobertos por óculos escuros. A rosa branca em sua mão, praticamente pendia por entre seus dedos, como se ele não quisesse segurá-la de fato e aquilo me fez cerrar os punhos.

Aquele homem já tinha perdido a esposa e os pais. Passara por três funerais e agora estava enterrando sua única filha, carne da sua carne e sangue do seu sangue e, ainda assim, não estava de luto. Não derramara uma lágrima sequer.

Eu queria ir até ele, segurá-lo pela gola do terno preto bem alinhado e lhe dizer o quão bastardo e indigno de qualquer forma de amor ele era. Queria olhá-lo no fundo dos olhos e dizer que havia um belo lugar reservado no inferno para ele, que eu estaria lá para recebê-lo quando ele chegasse, mas isso era tudo o que eu podia fazer. Desejar. Porque mesmo sendo um caído agora, eu sabia que não podia confrontar um humano assim. Pelo menos não ali e não com todas aquelas pessoas assistindo.

Engoli minha raiva e apenas fechei os olhos e me concentrei nas palavras do reverendo.

Ele citava algumas passagens do Livro de Salmos. Palavras que o Senhor usava para confortar o coração de seus filhos e enxugar suas lágrimas e eu realmente queria que ele enxugasse as minhas. Queria que ele ainda me ouvisse e que confortasse o meu coração, pois eu tinha cometido erros, mas ainda O amava.

Quando abri meus olhos novamente, o caixão de Loren já havia sido coberto pela terra. Sua sepultura ainda não possuía uma lápide, pois ela só seria colocada ali algum tempo depois, mas eu queria saber o que tinham escrito em seu epitáfio. Provavelmente nenhuma palavra faria jus ao que Loren realmente tinha sido, mas eu esperava que as palavras gravadas ali fossem belas e sinceras. Em resumo: nada que seu pai frio e sem coração pudesse fazer de fato.

Recolhi a rosa que Jess deixara cair e esperei até que aquele pequeno grupo de pessoas ali dispersasse. O sol já estava se pondo no horizonte e lançava raios avermelhados sobre o mar de lápides de granito a minha volta, tornando a paisagem ainda mais triste e, embora aquela não fosse a primeira vez que eu ia a um cemitério, era a primeira vez que sentia a aura depressiva que emanava daquele lugar.

Aproximei-me da sepultura de Loren e depositei a rosa que segurava sobre as outras demais.

– Eu sinto muito. – sussurrei – Eu não deveria ter te deixado sozinha. Deveria ter estado lá quando você precisou de mim, mas eu falhei e eu sinto muito.

Senti um nó se formar em minha garganta e fui obrigado a engolir em seco.

– Eu te amo, Loren. – prossegui – Eu sempre soube que te perderia um dia. Sempre soube que um dia a sua vida terminaria, porque você era humana e não poderia viver para sempre, mas eu nunca imaginei que seria tão difícil. Eu dizia a mim mesmo, todos os dias, que estava preparado para isso, que estava preparado para te deixar ir quando fosse a hora, mas eu não sabia que estava apenas mentindo para mim mesmo até te perder.

Minha voz falhou e senti as lágrimas, que eu nem sabia que podia derramar, escorrerem por meu rosto.

– Eu não estou preparado para viver sem você. – declarei e senti o vazio deixado por sua perda me consumindo por dentro – Eu preciso de você aqui comigo, Loren. Preciso te ver, preciso te tocar... Você se tornou uma parte de mim. Não ter você aqui machuca e eu não sei o que fazer. Eu nunca me senti tão perdido quanto agora.

Desolado, caí de joelhos e apenas deixei que todas as lágrimas viessem à tona, pois ali, diante do túmulo de Loren, eu tive a certeza de que nunca estaria realmente preparado para perdê-la.

Eu havia contrariado todas as regras e me apaixonado por um mortal. Havia colocado esse amor acima de tudo e tinha certeza que se algum dia estivesse diante de um dilema, minha escolha sempre seria ela. Minha felicidade em troca da felicidade dela. Minha vida em troca da vida dela. Eu nunca conseguiria vê-la partir.

De joelhos, me permiti sofrer por todos os erros que cometi, por todos os momentos que perdi, por todas as vezes que tive a chance de estar ao lado de Loren e não estive. Me permiti sofrer por tê-la perdido tão cedo, por ter pedido o nosso filho e me permiti sofrer por não poder voltar atrás em cada uma das minhas ações e trazê-la de volta.

Não sei dizer, exatamente, quanto tempo fiquei ali, remoendo todos os meus arrependimentos e tristezas, mas quando finalmente consegui ter forças para me colocar de pé de novo o sol já havia se posto e o cemitério começava a ser banhado pelos raios prateados do luar.

Eu sabia que aquela era a hora de ir embora, de dizer adeus e deixar que Loren repousasse em paz, mas ao mesmo tempo eu não sabia para onde iria ou que faria. Não havia mais atividades de Ceifeiro para desenvolver ou favores a serem prestados para Miguel, havia apenas o inferno, sombrio e escuro, para onde eu não queria voltar, apesar de saber que não poderia evitá-lo por muito tempo. De repente, toda a minha vida havia se tornado vazia e sem qualquer objetivo.

Comecei a me perguntar por quanto tempo eu resistiria àquilo sem enlouquecer. Lúcifer havia dito que, mais cedo ou mais tarde, o inferno sugaria todas as coisas boas que eu tinha e me deixaria como ele, uma casca vazia e sem sentimentos.

Sem Loren ali para me manter desperto, quanto tempo demoraria até que isso acontecesse? Eu me tornaria uma versão mais amarga de Lúcifer? Indiferente a todo e qualquer tipo de dor, inclusive a minha? Eu esqueceria até mesmo o amor que eu tinha por Loren?

Eu não queria que isso acontecesse. Eu também temia que não tivesse escolha.

– Bryan. – uma voz ecoou através do cemitério vazio, arrancando-me de meus pensamentos e fazendo-me olhar ao redor sobressaltado.

Eu não havia sentido qualquer aproximação e não sabia se isso era um efeito de minha distração ou de minha Queda. Ainda pego de surpresa, forcei meus olhos a se acostumarem a penumbra e, então, pude ver Lorelei parada a alguns metros de mim.

– Lorelei? – questionei – O que você faz aqui?

– Eu precisava te ver. – ela respondeu em voz baixa – Jeremyah e eu estávamos preocupados.

– Jeremyah? Ele está aqui?

– Não. Eu vim sozinha. – Lorelei saiu das sombras e caminhou em minha direção, mas parou a alguns passos de mim, mantendo distância – C-Como você está?

– Como parece que eu estou? – perguntei e minha voz soou bem mais amarga do que eu gostaria.

Ela retorceu as mãos, nervosa.

– Eu sei. Foi uma pergunta estúpida. – disse rapidamente – Me desculpe.

Apesar de toda a amizade e consideração que Lorelei parecia ter por mim, eu podia notar, mesmo a distância, que ela estava com medo. Creio que esse era o mesmo motivo pelo qual Jeremyah não tinha ido até ali com ela. Ambos receavam que eu tivesse me tornado alguma espécie de demônio, como o próprio Lúcifer, ao ser banido para o inferno.

Balancei a cabeça e respirei fundo.

– O que faz aqui, Lorelei?

Ela engoliu e seco e, mais uma vez retorceu as mãos.

– Eu queria saber como você estava e queria conversar.

– Conversar sobre o que?

– Sobre você. Sobre a Loren. – ela respondeu baixinho – Bryan, ela estava mesmo esperando um filho seu?

Aquelas palavras me atingiram como facas afiadas. Virei às costas para Lorelei e encarei o chão.

– Isso não importa mais, importa?

– Importa. – ela reduziu a distância entre nós e levantou a mão para mim, mas não me tocou – Por favor, só... responda. A Loren estava grávida?

Cerrei os punhos e, mais uma vez, respirei fundo. Eu achava que nunca mais seria capaz de falar sobre Loren sem sentir essa dor imensa crescendo em meu peito e se apoderando de mim. Era como chegar ao fundo do poço e descobrir que era possível continuar descendo.

– Ela estava. – assenti e me voltei para Lorelei – Foi por isso que Miguel a matou.

– Bryan... – Lorelei franziu o cenho e mordeu o lábio, encarando o chão, pensativa.

– O que foi? – questionei.

– Nós não a encontramos.

– Do que está falando, Lorelei?

– Loren. – ela respondeu rapidamente – Quando soubemos sobre o que aconteceu no Saint Auguste, eu e Jeremyah fomos ao Segundo Céu procurá-la. Nós sabíamos que a Loren era uma profetisa e que a alma dela deveria estar lá, mas não estava.

– Como assim não estava? – ignorei o medo que Lorelei tinha de mim naquele momento e a segurei pelos ombros – Lúcifer me disse que Loren não está no inferno.

– Eu não esperava que estivesse.

– E o que isso que dizer? – eu tinha medo da resposta – Se ela não está no inferno e também não está no Segundo Céu, onde ela está, Lorelei?

Lorelei me encarou por um breve instante. Seus olhos azuis acinzentados pareciam prateados sob o luar e alguns fios de seu cabelo loiro balançavam para lá e para cá ao ritmo do vento.

– Viva. – ela respondeu quase com sussurro – Acho que a Loren ainda pode estar viva, Bryan.

Notas finais
OMG, e agora? Sua autora malvada disse que a Loren estava morta e enterrada, mas... será que existe mesmo a possibilidade de ela ainda estar viva ou estou apenas alimentos suas falsas esperanças? ~musiquinha de mistério~ Vejo vocês no próximo capítulo XD Beijos e mais beijos!