Killer
11 Jogo de Ilusões
Notas iniciais
[Loren P.O.V.]
Enquanto a água fria caía sobre o meu corpo, pensei no que Janete havia me dito. Eu não conseguia acreditar que tinha imaginado a presença de Bryan naquele quarto. Ele era real demais para ser apenas fruto da minha mente e, cá entre nós, aquele beijo também havia sido real demais.
Suspirei um pouco ao me lembrar de como o corpo de Bryan estava quente sobre o meu e do timbre grave de sua voz ao meu ouvido quando se deitou ao meu lado. Aquilo não podia ser imaginação minha. Simplesmente não podia.
– Acabou o seu tempo. – Janete gritou para mim abrindo a porta do banheiro.
– Eu já estava saindo. – respondi, pegando de sua mão a toalha velha que ela me estendia.
Vesti minha roupa branca novamente e esperei que ela me desse um pente para que eu pudesse desembaraçar meu cabelo, mas ela apenas fez um gesto, exigindo que eu me virasse para me algemar novamente.
– Preciso pentear meu cabelo. – disse eu, passando a mãos pelos fios negros e embaraçados.
– Pedirei a uma das enfermeiras que o penteie para você. Não deixamos que os pacientes tenham acesso a esse tipo de objeto.
– Um pente? – questionei abismada – Que mal eu poderia fazer com um simples pente?
– O mesmo tipo de mal que conseguiu fazer com uma bandeja. – Janete retrucou.
Vendo que não a convenceria a me dar um pente, me virei e permiti que ela recolocasse a algema plástica em mim e depois me guiasse até o meu quarto no sétimo andar.
A bagunça que eu causara no dia anterior já tinha sido perfeitamente arrumada e não havia nenhum indício de que qualquer coisa houvesse manchado o chão límpido daquele quarto.
Janete retirou as algemas novamente e depois saiu do quarto sem olhar para trás. Sentei-me na cama e encarei a paisagem lá fora através das grades de minha janela. O sol estava brilhando a todo vapor lá fora e deixava o verde da copa das árvores e o azul do lago – que ficava há alguns quilômetros dali – muito mais intensos.
O Saint Auguste tinha uma localização maravilhosa, que seria perfeita para um balneário ou um Spa, mas ao invés disso, ali estava eu, presa num quarto desprovido de mobília, com a terrível impressão de que morreria um pouco mais a cada dia que ficasse ali.
A porta de meu quarto se abriu e uma enfermeira gorducha de rosto redondo como uma lua cheia, adentrou em meu quarto trazendo um pente.
– Meu nome é Madeline Murdock. – apresentou-se a enfermeira.
– Loren. – disse eu.
– Não perguntei seu nome. – Madeline retrucou de forma grosseira – Vire-se para lá para que eu possa pentear seu cabelo. Quanto mais quieta ficar, menos vou machucar você.
Eu não imaginava que pudesse haver alguém mais mal educada de Janete no Saint Auguste, mas Madeline me fez mudar de opinião.
Como não me movi ela se dirigiu até minha cama, virando minha cabeça com brutalidade para a janela e depois começou a pentear meu cabelo. A cada vez que Madeline passava o pente pelos fios embaraçados eu reprimia um grito. Meu cabelo estava sem condicionador, o que dificultava ainda mais na hora de penteá-lo e fazia com que Madeline arrancasse uma boa quantidade de fios.
Quando ela finalmente terminou, minha cabeça latejava.
– Venha. Vou levá-la para a sua recreação. – disse ela, puxando-me da cama em direção à porta, fazendo-me tropeçar alguns passos.
Descemos os sete andares que separavam meu quarto da ala de convivência que ficava no térreo e me perguntei por que eu não podia ficar na ala do quarto andar. Minhas pernas doíam só de pensar em subir sete andares de escada mais uma vez.
Madeline usou o seu cartão magnético para abrir a porta da ala de convivência e depois praticamente me jogou dentro dela.
– Volto em uma hora. – disse ela – Espero encontrá-la viva ainda.
– Como é que é? – perguntei, mas Madeline fechou a porta na minha cara e se retirou.
Virei-me devagar e observei as pessoas ali. Algumas pareciam tão entorpecidas que nem notavam a minha presença e outras me olhavam com certa curiosidade. Uma senhora negra e de cabelos crespos e grisalhos, aproximou-se de mim com uma folha de papel e um giz de cera vermelho. Na folha havia um rabisco indecifrável.
– Minha casa. – disse ela num tom infantil, mostrando-me o desenho.
Olhei para ela com ternura. Apesar da idade avançada, ela me lembrava as crianças da casa de caridade onde minha mãe era voluntária. Eu costumava acompanhá-la sempre que ela ia à casa de caridade e havia visto muitas crianças usando esse mesmo tom infantil ao mostrar-me os desenhos que faziam.
– Essa é a sua casa? – perguntei a ela, apontando o rabisco vermelho indecifrável.
– Minha casa. – ela repetiu sorrindo.
– É muito bonita. – retribuí o sorriso.
Ela se afastou e foi até um dos outros pacientes, mostrando para ele também o desenho que fizera de sua casa. O homem, que também estava com folhas e giz de cera ao seu redor, pegou a folha das mãos da senhora e com um giz de cera azul começou a rabiscar aqui e ali por cima do desenho vermelho.
– Vai ter uma piscina bem bonita aqui. – disse ele – Uma piscina bem grande.
A senhora tentou tomar-lhe a folha, mas ele se afastou dela, mantendo a folha no alto para impedi-la de pegá-la de volta e ela começou a gritar e a correr atrás dele.
– Uma piscina! – ele repetia – Eu vou fazer uma piscina.
E assim eles se afastaram de mim. Procurei algum guarda ou enfermeiro ao redor, mas não havia nenhum ali. Ao que parecia, na ala de convivência os loucos resolviam seus problemas sozinhos.
Apesar de não encontrar nenhum guarda ali, encontrei algo que me chamou a atenção.
Bryan estava sentado sozinho em uma das mesas de xadrez que ficavam no fundo da sala. Havia mais duas mesas daquelas, onde alguns pacientes usavam as peças de xadrez para travar batalhas, como se elas fossem soldadinhos de brinquedo. Bryan, por outro lado, estava apenas encarando as peças.
Caminhei até ele e me sentei na cadeira a sua frente.
– Tentando mover as peças com o poder da mente? – perguntei.
– Não. Eu só estava pensando. – ele respondeu sem olhar para mim.
Ele encarou as peças por mais um instante e depois moveu uma Torre branca quatro casas a frente, logo após moveu um Peão preto para a diagonal capturando um dos Bispos brancos, depois moveu a Rainha branca três casas na diagonal para capturar a Torre preta e depois moveu o Bispo preto duas casas em diagonal, parando-o uma casa antes do Rei Branco.
– Xeque-mate. – disse derrubando o Rei branco.
Olhei para o tabuleiro e vi que o Rei branco estava encurralado pelo Bispo preto e, além dele, por um Cavalo e por um Peão.
– Estava jogando contra si mesmo? – indaguei impressionada.
– Sim. E me dei muito trabalho. Precisei de quatorze movimentos para me vencer. Acho que foi um recorde. – ele se recostou na cadeira e recolocou as peças em seus devidos lugares – Quer jogar?
Olhei para ele pensando na proposta. Eu costumava jogar xadrez quando era mais jovem e sabia perfeitamente que jogar sozinho era bem diferente de ter um adversário. Além do mais, eu não jogava tão mal, então seria interessante.
– Aceito. – respondi confiante e isso o fez sorrir.
– Eu não vou pegar leve com você.
– Eu é que não vou pegar levar com você. – retruquei.
Por cortesia de Bryan eu fiquei com as peças brancas e pude ser a primeira a me mover no tabuleiro. Em cinco movimentos, entretanto, meu rei estava absolutamente encurralado pelas peças de Bryan e este exibia um sorriso de triunfo.
– Não acredito que me deu um xeque-mate pastor. – comentei estarrecida – Eu nunca fui tão humilhada na vida. Como foi que você fez isso?
– Não fui eu quem fiz. Foi você. – ele deu de ombros e eu estreitei meus olhos para ele.
Um xeque-mate pastor é o xeque-mate conquistado com o mínimo de movimentos possíveis numa partida de xadrez, ou seja, cinco movimentos. Exatamente o que Bryan havia feito comigo. Eu sabia muito bem que era necessário que o adversário cometesse quatro erros consecutivos para que você pudesse fazer um xeque-mate pastor, mas eu tinha certeza que não havia errado tanto.
– Você se equivocou aqui, aqui, aqui e... Aqui. – Bryan explicou, recolocando as peças nos lugares e repetindo nossos movimentos – Foi por isso que eu venci.
Eu o encarei descrente. Ninguém nunca tinha me dado um xeque-mate pastor na vida e, por mais que ele tivesse me mostrado exatamente onde eu havia errado, não queria admitir que eu havia perdido de forma tão vergonhosa.
– Eu quero revanche. – disse eu, rearrumando as peças no tabuleiro – Mas dessa vez eu não vou perder para você. Um raio não cai duas vezes no mesmo lugar.
– Depende do raio. – ele sorriu e fez um gesto com a mão indicando que eu fizesse meu primeiro movimento.
Franzi o cenho para ele sem entender aquela afirmação, mas não me esforcei para tentar entendê-la. Fiz o meu primeiro movimento e, mais uma vez, em cinco movimentos meu rei estava em xeque. E o mesmo aconteceu nas outras três partidas que tivemos.
– Isso não é possível! – exclamei inconformada – Simplesmente não é possível!
– Há mais coisas entre o céu e a terra do que crê a sua vã filosofia. – Bryan deu de ombros.
– O que? – questionei.
– Hamlet. – disse Bryan, pondo-se de pé e derrubando meu rei branco – Ato I, Cena V.
– Sim, eu sei, mas... Você está citando Shakespeare?
– Eu não o citei exatamente. Mas posso fazê-lo se quiser.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa ele andou até o meu lado da mesa e se pôs de joelhos, segurando minha mão com ternura.
– "Põe-me como selo sobre o teu coração e como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte". – recitou.
– Romeu e Julieta? – arrisquei, sentindo um rubor tomar conta de minhas bochechas.
– Cântico, Capítulo 8 Versículo 6. Bíblia Sagrada. – ele me corrigiu e abriu um pequeno sorriso.
Bryan se levantou e caminhou até a janela cheia de grades da ala de convivência, encarando a paisagem lá fora, enquanto eu o observava com certa curiosidade. Havia muitas perguntas que eu queria fazer a ele: Quem é você? De onde veio? Porque está aqui?Por acaso matou seus pais ou seu cachorrinho de estimação?... Mas naquele momento havia uma que eu precisava fazer mais do que qualquer outra. Uma pergunta que colocava à prova minha sanidade mental.
– Você é real? – perguntei e ele não se preocupou em se virar na minha direção.
– Porque está perguntando isso? – questionou parecendo incomodado.
– Hoje de manhã você não estava no quarto branco e quando perguntei a Janete sobre você, ela disse que não havia mais ninguém lá além de mim ontem a noite. – expliquei – Então das duas uma: ou ela mentiu para mim ou você é apenas uma ilusão criada pela minha mente.
– E qual dessas opções você acha que está correta?
Levantei-me e aproximei-me dele, tocando seu ombro, sentindo seus músculos fortes por baixo da camiseta branca.
– Você parece bem real para mim – respondi – Mas ao mesmo tempo, não parece real o suficiente.
Finalmente ele se virou e me encarou confuso.
– Como assim não pareço "real o suficiente"?
– Eu sei que você está aqui, porque eu posso tocar você... Sentir você. – eu segurei sua mão e senti o calor que emanava dela – Mas ao mesmo tempo, você é tão diferente de tudo que eu poderia pensar encontrar nesse lugar, que não tenho certeza se você se encaixa no contexto.
– Isso é um hospício, Loren. Não é preciso se encaixar em um contexto para estar aqui.– disse ele.
– Mas você não é louco, é? – eu indiquei o tabuleiro de xadrez, onde ele havia me derrotado cinco vezes tão rapidamente – Você é inteligente e habilidoso e não se parece em nada com as pessoas desse lugar. Não consigo colocá-lo em um perfil como consigo fazer com o restante dessas pessoas. Há algo errado em você. Algo que eu não consigo decifrar. E... Às vezes, é como se, de alguma forma, eu te conhecesse.
Ele me encarou por alguns segundos e depois soltou uma gargalhada tão alta que precisei olhei olhar ao redor para ter certeza de que não tínhamos perturbado nenhum dos outros internos.
– Isso é sério mesmo? – ele perguntou.
Não respondi, pois estava ofendida por ele estar rindo da minha cara dessa forma, mas era sério, sim. Havia algo errado naquele garoto e a forma como ele agia comigo não era natural. Não para alguém que eu havia conhecido na noite anterior e em circunstâncias tão estranhas. Nós tínhamos muita afinidade para duas pessoas que nunca tinham se visto antes e isso ele não poderia negar. O que eu queria entender era por que. Quem era ele, afinal, e que conexão era essa entre nós?
Ele percebeu que eu não estava brincando e parou de rir. Então, pôs as mãos em meus ombros e olhou no fundo dos meus olhos.
– Você com certeza não me conhece, Loren. – ele disse com seriedade.
Eu ia retrucar, mas a voz de Madeline chamando o meu nome me sobressaltou. Virei-me para ela que estava parada na porta com sua expressão ranzinza e depois me voltei para Bryan novamente para me despedir. Entretanto, tudo o que encontrei foi o ar e a janela gradeada à minha frente. Não havia sinal algum de que Bryan, ou qualquer outra pessoa, tivesse estado naquele lugar a meio segundo atrás.
– Mas o que...?! – exclamei confusa, enquanto olhava de um lado a outro da sala, procurando por ele.
– Vamos, Schinnyder, eu não tenho a tarde toda. – Madeline berrou, vindo ao meu encontro e segurando-me pelo braço.
– Não. – protestei – Espere. Eu preciso encontrá-lo. Ele não pode ter sumido assim.
– O que? Do que você está falando, garota? – Madeline indagou impaciente.
Usando toda a força que eu tinha, soltei-me dela e percorri a sala, procurando por Bryan. Eu sabia que não o havia imaginado. Ele era tão real quanto a roupa que eu vestia naquele momento e, sendo assim, tinha de estar em algum lugar, porque pessoas reais não desapareciam como fumaça.
– Volte aqui agora. – gritou Madeline, mas apenas ignorei a ordem e continuei a procurá-lo em todos os cantos, sem sucesso.
Eu não queria admitir que talvez, e só talvez, eu estivesse enlouquecendo. Tudo o que eu ainda tinha em minha vida era a certeza de que eu era perfeitamente sã e se começasse a duvidar disso agora, não me restaria nada mais. Então eu precisava encontrá-lo. Ele não podia ter simplesmente evaporado.
– Se eu tiver que ir atrás de você, farei você se arrepender. – Madeline ameaçou-me e comecei a ficar assustada com a possibilidade de eu ter imaginado aquilo tudo.
– Onde ele está? – perguntei exaltada – Onde ele está, Madeline? Onde ele está?
– Quem, diabos, você está procurando, Schinnyder?
– O Bryan! – respondi, aproximando-me dela – Ele estava bem ali. Bem ali, Madeline. Ele não pode ter sumido assim de repente!
Madeline me encarou impassível, enquanto eu apontava para a janela da ala de convivência de onde Bryan havia misteriosamente desaparecido. Ela bufou e depois segurou meu braço apertando-o um pouco mais forte dessa vez para que eu não me soltasse novamente e me conduziu em direção à porta.
– Precisam aumentar a dosagem da sua medicação. – disse ela, com uma expressão severa – Precisam mesmo.
E, então, fui arrastada para fora da ala de convivência.
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