Kepler's Farm
8 Uma Ajuda Inesperada.
Notas iniciais
Eu ouvi gritos depois de alguns minutos que Ruy desceu. Acordei Bel com meu pé. Ele levantou, ficou zonzo por causa da pancada, me olhou e me ajudou a me desamarrar. Disse pra ele pegar o machado e olhar pela porta se Ruy estava vindo. Eu levantei, abri o armário e peguei um casaco pra Jennifer, que parecia estar em outro mundo após tudo aquilo acontecer com ela. Sem tagarelar muito, e com pressa, falei: “Jenny, eu não sei como você está se sentindo, mas todos aqui estão muito mal com isso, inclusive eu. E o que aconteceu ao Billy, isso foi horrível. Mas, Bel precisa de você! Eu preciso. Então, deixa o luto e deixa a dor pra mais tarde por que precisamos agir, precisamos achar o Théo e sair daqui. Temos que fazer esse homem pagar pelo que fez. Então por favor, seja a pessoa mais forte e determinada que eu conheço, seja a Jennifer e nos ajude a sair desse inferno!” Ela concentrou seu olhar em mim, balançou a cabeça com um sinal de “sim” e assim que eu desamarrei ela da cama, colocou o casaco e se levantou. Ela tinha um olhar raivoso, destemido e focado. Se levantou, pegou o machado com Bel e nos fez sinal pra vir com ela. Fomos para a escada, e olhamos pela janela do corredor, nos deparamos com o carro dos nossos pais. Bel gritou “mamãe” e saiu correndo pelas escadas, que acabou nos entregando. Quando desci com Jennifer, encontramos meu pai brigando com Ruy e minha mãe jogada no chão. Eu corri até ela com Bel e Jennifer foi até eles. Ela tentou golpear Ruy com o machado, mas ele foi mais rápido e segurou a mão dela, deu uma cabeçada na testa dela e puxou o machado com tudo. Rapidamente ele deu uma cotovelada no queixo do meu pai, que escorregou por causa do mato molhado. Ele pegou meu pai pelos cabelos de cima da cabeça e bateu o rosto do meu pai até o vidro da janela do carro quebrar. Meu pai caiu no chão, muito afetado por causa da série de golpes. Elizabeth segurou o braço de Ruy que levantou ela e jogou em cima do capô. Foi quando meu pai teve um surto de adrenalina e empurrou Ruy no chão. Erik estava tão furioso, que acertou uma série de socos no rosto de Ruy, até ele quebrar o nariz. Jennifer pegou um pedaço de madeira no chão. Minha mãe disse pra mim ir ajudá-los, mas eu fraquejei e não consegui me mexer. Enquanto meu pai se distraia socando Ruy, ele conseguiu pegar o machado bem pela ponta do cabo, e acertou uma costela do meu pai, que soltou ele e ficou no chão. Ele se levantou e quando ia se preparar para tentar matar meu pai, Jennifer pegou o pedaço de madeira e deu um golpe na barriga de Ruy, mas não fez muito efeito. Jennifer ficou pasma. Ele soltou o machado e pegou a madeira que estava na mão de Jennifer e jogou longe. Ruy segurou Jennifer pelos cabelos e jogou no carro, ela bateu a lateral do rosto na porta e acabou caindo no chão de tanta dor que sentiu. Depois, Ruy pegou o machado novamente e se posicionou ao lado do meu pai, que estava caído no chão. E com muita força, cortou o tórax do meu pai. Minha mãe soltou um grito de dor horrível e começou a chorar, Bel também. Jennifer estava caída e não viu o que aconteceu. Eu fechei meus olhos para não ver. Minha mãe se levantou, pegou Bel pelas mãos e olhou pra mim: “Leve o para dentro, cuide dele e se escondam. Tá bom?” Eu fiz isso o mais rápido que pude. Entrei de volta no porão. Minha mãe se preparou para enfrentar Ruy, mesmo sabendo que ela não sairia dali bem, ou viva. Eu fiquei olhando pela janela. Ela correu até Ruy que estava de costas e o empurrou. Como o chão estava escorregadio, ele tropeçou e caiu no chão. Minha mãe puxou Jennifer pelos braços e correu pra dentro. Ruy se levantou e quando chegou à varanda, Théo apareceu gritando: “Saia de perto da minha mãe!” Foi só isso que consegui ver pela janela, o resto foi apenas barulhos, gemidos de dor e coisas quebrando. Disse pra Bel ficar ali, pois, pela primeira vez na vida tive coragem de fazer algo. Saí do porão e cheguei à varanda devagar. Quando entrei Ruy estava surrando Théo. Vi as pernas da minha mãe caídas no chão, ela estava toda machucada, mas estava viva. Eu só não vi Jennifer. Foi quando entrei correndo, com toda a minha força e empurrei Ruy, que caiu no chão. Ajudei Théo a levantar e ele foi até a minha mãe, pegou ela e apoiou nos ombros, assim como fez com Jennifer. Quando olhei pra trás, Ruy estava de pé, segurando um castiçal de cobre que pegou caído no chão. Eu só vi o movimento do braço dele, ouvi um barulho forte na minha testa e caí no chão. Minha visão ficou turva, vi Théo e ele se golpeando. Minha mãe estava apoiada no sofá com a barriga sangrando. Eu olhei para as escadas e ali, vi algo. Era a menina que vi no porão, ela descia devagar, se aproximou de mim e deitou do meu lado. Sussurrou algumas palavras impossíveis de entender, mas aquelas que eu entendi foram: “Esse já não é mais meu irmão, Enzo. Preciso que o leve para baixo, e eu os ajudarei a acabar com isso.”
Retomei minhas forças e me levantei. Empurrei Ruy pro lado e puxei meu irmão, que estava com o rosto já inchado de tanta porrada que levou. Disse pra ele, vai para o porão e leve a mãe. Eu cuido dele. Foi o que Théo fez. Eu subi as escadas e lá de cima joguei meu tênis em Ruy, que estava apoiado no sofá. Ele se levantou e me olhou, de lá mesmo ele sorriu e apontou pra mim e começou a subir as escadas bem rápido, eu corri para o meu quarto e entrei fechei a porta. Coloquei minha poltrona na porta para que o impedisse de abrir, mas não surtiu muito efeito. Abri a janela e quando ele quase me pegou, deslizei pelas telhas até a varanda, que era onde o telhado era reto. Ele desceu também mas por ser maior que eu, não conseguiu se equilibrar e tropeçou, caindo no chão. Eu pulei da parte mais baixa, abri a porta do porão e entrei. Estavam todos lá. Quando ele apareceu perto da porta, pedi para que todos seguissem pelo caminho que Bel e eu encontramos enquanto fugíamos daquela criatura do celeiro, e expliquei que daria do outro lado da casa. Ele puxou minha mãe pelo braço e seguiram pra lá. Théo ficou e enquanto Ruy tentava abrir a porta, me disse:
— Cara, você tem certeza que vai ficar sozinho aqui? Eu posso te ajudar.– Falou, esfregando a manga do casaco no sangue que escorria do rosto.
— Olha bem pra sua situação, não preciso, eu estou melhor que você. E fica tranquilo, não vou enfrentá-lo aqui. – Respondi.
— Ei, Enzo, obrigado por me ajudar, tá? Te espero lá fora. – Disse ele enquanto apertava minha mão.
Eu fiz sinal de “sim” com a cabeça e o empurrei para o caminho, quando ele saiu, tranquei a porta. Ruy desceu as escadas lentamente, e quando chegou ao solo, começou a se remoer em lembranças. Eu não precisei fazer nada, apenas fiquei olhando ele contorcer de dor, mesmo sem entender nada. Melanie apareceu, e me disse: “As lembranças desse lugar são muito fortes pra ele, ele não aceita a verdade. Nunca foi meu pai quem abusou de mim, sempre foi ele. Quando meu pai descobriu, tentou corrigi-lo, mas ele brigou com meu pai e o matou. Minha mãe nunca ficou sabendo da história, ela trabalhava fora e durante a noite, então quando ela chegou meu pai já estava morto. Eu nunca consegui contar a verdade, então ele a manipulou e ela acreditou nele. Quando seus avós nos encontraram, depois de alguns anos, eu contei a verdade pra ela. Minha mãe foi conversar com ele, mas ele a matou. Eles acreditaram que ela acabou se acidentando no celeiro. Ela nunca aceitou a morte que teve, então seu espírito ficou aqui, mostrando sua dor. No começo, quando descobri, não aceitei as coisas. Eu era fraca, e achei que a morte da minha mãe era culpa minha. A ultima vez que ele tentou me estuprar, eu acabei surtando. Eu não sabia o que estava acontecendo comigo. Mas eu fiquei tão furiosa que acabei atacando ele. Seus avós ouviram, e quando chegaram aqui, nesse mesmo lugar, eles acreditaram nele... Eu... Eu não conseguia me explicar, na verdade, eu não conseguia falar. Quando tentava me comunicar, minha voz não saía como a minha, minha fala não podia ser decifrada. Então, acreditaram que algo havia me possuído. Por três longos anos, fui mantida em segredo da sua família, então, um dia, ele apareceu. Disse que seus pais e seus tios já não voltariam mais, que foram morar longe. Eu estava amarrada, então, ele conseguiu forçar sexo comigo mais uma vez. Foi quando eu consegui soltar um dos meus braços e peguei uma colher que usavam para me dar remédio, que estava bem ali, naquele quarto. Eu furei o braço dele com ela. Ele ficou com raiva e me enforcou. Não conseguiu se controlar. Eu morri ali, e foi ele quem me matou. Agora, é hora de acabar com isso de uma vez por todas. Saia daqui, pegue seus irmãos e sua mãe e vá embora. Esse lugar vai virar um inferno.”
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