Kepler's Farm
1 Solidão.
Notas iniciais
How did you find me?
Where did you read my story?
Pulled from the papers
Desperate and hardened
seeking a momentary fix"
Trecho da música "Mercy" - One Republic.
"Eu tinha mais ou menos 8 anos quando meus avós maternos morreram. Sempre fui muito ligados a eles, mas naquele momento não pude reagir, fiquei sem palavras. Estávamos todos na sala. Papai sentado com Théo no sofá, vendo o jogo. Jennifer com seu namorado Billy no corredor. E a mamãe segurando Bel enquanto arrumava o carrinho. O telefone tocou, meu pai atendeu e olhou para mim com os olhos arregalados. Ainda lembro da reação de todos, chocados, amargurados, tristes. Eu apenas soltei meu carrinho na mesa, olhei para cada um e subi as escadas para meu quarto. Nunca fui muito bom em entender meus sentimentos, mas sempre soube identificar aqueles ao meu redor. Mais a noite mamãe apareceu na porta me pedindo pra separar algumas roupas pois eu e meus irmãos iríamos passar alguns dias na casa de meus tios paternos. Tio Alfred conversava muito comigo, acho que era porque eu sempre me interessava pelos seus assuntos. Ele adorava contar histórias, principalmente as de sua juventude. Acho que por isso conseguia me expressar com ele, por passarmos por algumas coisas parecidas. Os valentões da escola e a dificuldade de fazer amigos, o medo de ficar sozinho a noite… Tia Marina não contava histórias, mas fazia um macarrão com bacon delicioso. Antes do Bel nascer, ela me mimava muito. Cafuné, colo e toda atenção voltada pra mim. Théo me falou que isso ia acontecer quando descobrimos que minha mãe estava grávida, mas eu não liguei… Não naquele momento. Pra falar a verdade, não entendo essa paixão que as mulheres têm por bebês. Não são bonitos ou fofos. A maioria parece um joelho, é muito raro ver um bebê bonitinho de verdade. Quando meus pais voltaram, pareciam ter brigado. Nos colocaram no carro e voltamos pra casa sem que eles conversassem, nem mesmo pra jogar palavras fora. Aquilo me preocupou muito, mas não tive coragem de perguntar e parecia o único a me importar. Então decidi deixar pra lá..."
Foi a última vez que escrevi alguma coisa no meu diário virtual. Sério, não dá. Rodrick, um idiota ruivo e cheio de espinhas encontrou meu usuário, e então começou a me stalkear. Não que eu disponibilizasse meus textos para leitura online, mas de alguma forma ele acessou meus dados e imprimiu tudo… Noutro dia na escola, ele saiu espalhando tudo para todo mundo, inclusive a minha patética reação ao conhecer Julia. Eu tinha escrito algo como linda menina dos olhos negros e cabelos loiros que fazia endurecer até as camadas mais moles de mim. Certamente, não foi bem interpretado. Obviamente, não demoraria muito para que os professores ficassem sabendo do assunto. Alguns dias depois ligaram para meus pais, e para os pais da Julia. Ela me pediu pra ficar longe, e até então eu entendi. Só que o pai dela apareceu lá em casa, dizendo ao meu pai que se eu me aproximasse dela, ele nunca mais me veria. Foi aí que eu perdi todas as esperanças de um dia, falar com a Julia, entender meus sentimentos e casar, ter filhos e morrer aos 68. O meu nível de estresse deve ter reduzido minha vida para os 45, talvez até 38. O pior nem era isso, o pior foi quando a prima da Julia foi morar com ela. Não sei bem a história, acho que os pais dela não tinham condições psicológicas para ficar com a menina que de alguma forma sobreviveu até os 17 lá. Não, não é essa parte a ruim, é essa: Ela foi para a sala do meu irmão, Théo. E aí viraram uma espécie de amigos. Não sei que tipo de amigos dormem na casa um do outro quase todo fim de semana alegando para os pais que vão dormir na casa de outro amigo. É, tem sempre um terceiro ser na história. Sorte dele que a namoradinha não assumida não contou ao tio que ele é meu irmão. Com sorte vou viver até os 45 mesmo, no azar, o pai dela descobre. Para acabar mesmo com a minha sanidade mental, amanhã é o aniversário de 21 da minha irmã mais velha. A Jennifer ao mesmo tempo que é uma princesa linda e comportada, é uma aberração da natureza. Bom, não que ela não tenha sido útil pra mim algumas vezes, como no dia que eu quebrei o vidro da mesa e ela disse ao pai que foi culpa de um dos gatos do vizinho que entrou na sala e ela tentou tirar. Ou no dia que fiquei de recuperação em matemática e ela passou a semana inteira se dedicando a fração e porcentagem. É, no final ela é uma boa irmã. Não é muito parecida com a mamãe, mas sim com o pai. Cabelos escuros, olhos verdes. Não é alta como ele, e tem as mãos da mãe. Sempre usando roupas curtas, sai a vontade com o namorado desde os 16, aliás, é um namoro repleto de altos e baixos. Sempre tiveram problemas e terminavam, mas volte e meia, ou melhor, hora e meia e lá estavam eles se pegando de novo. Nunca foi necessário que a mãe ou o pai intervissem. O Billy no geral até que é um cara legal. Ele lutava boxe, não é o tipo de garoto que as meninas adoram. Cabelos pretos e olhos castanhos. Tem um carro velho que eu nunca decoro o nome e trabalha num sex shop. Sempre traz filmes novos para o Théo, enrolados numa fronha de travesseiro. Théo até hoje não sabe que o pai descobriu. Bom, mas o pai é o que menos pode falar já que também pega alguns filmes com ele. O mais sinistro que já tive o desprazer de encontrar, era uma versão adulta e obviamente pornográfica do filme Comer, Rezar, Amar. Bom, era literalmente assim. Acho que era pelo fato do Billy ser um expert nesse assunto que a Jennifer não consegue largar dele.
No aniversário dela todos estavam presentes, o tio Alfred e a tia Marina, aqueles que eu contei. O vô Bernardo, esse é o pai do meu pai. A vó se separou dele quando meu pai era jovem, desde então nunca mais tiveram notícias. Os primos e os amigos dela. Na verdade, o grupo de jovens adultos hoje em dia é tudo igual. Podemos dividir em duas categorias no caso dos homens: Os fãs de rap, que estão sempre de calça larga, blusa arrebentada e boné e os bombadinhos musculosos que passam o dia todo tirando foto com aquelas blusas de decotão e regata, fora as horas que passam na frente do espelho masturbando o ego e a autoestima mentalmente. E as mulheres em: Finjo que sou virgem na frente dos meus pais para ganhar mesada e já dei para metade da escola. Depois de todos aqueles aniversários padrão Jennifer, começaram os discursos do pai.
"Sabe, tudo na vida muda quando temos um filho, principalmente quando é menina. De repente você para de pensar como um homem normal e se sente na obrigação de proteger aquela pequena pessoa na sua frente. E dentro de todos os seus desejos e sonhos é vê-la feliz. Cuidar da roupa e do tamanho da roupa pois sabe que quanto mais ela vai crescendo, mais os meninos começam a se ligar nela. E nós pais, sabemos no que vai dar, afinal, já fomos meninos. E acreditem, não é nada legal, aos 10 anos já começam a enfiar o negocinho em qualquer buraco. E você para e diz: Não na minha filha. Infelizmente minha menina tinha uma personalidade forte igual a mãe e eu não pude fazer nada. Um rapaz entrou na vida dela aos 16 anos e a fez a menina mais feliz do mundo, isso tenho que agradecer. Billy, onde está a aliança?! Já tem planos pra casar? Não?! Enfim, só há 4 mulheres que eu amo nessa vida, a primeira é a minha mãe, a segunda a Scarlett Johansson, pois não tem como não amar essa mulher. A terceira é a minha esposa que amo incondicionalmente, eu sei, sou um fofo. E essa menina linda, minha filha."
Bom, vocês já conhecem grande parte da minha família, falta só os meus irmãos. Vou começar pelo Théo. Ele é um esquisito. Nem parece meu irmão. É viciado em Internet e coisas de computadores. No seu celular tem tanta pornografia que seu cartão sd de 128 gb são tão lotados que se reiniciá-lo, são 2 horas pra carregar os arquivos. Eu até tenho medo de deixar ele com o Bel, vai saber o que aquele maníaco vai ensinar pro menino. Ele tem cabelos pretos assim como toda a família e olhos verdes. Não me lembro de alguma experiência legal que tive com ele. No geral é um babaca com todo mundo e se acha melhor que qualquer um, mesmo sendo incrivelmente burro. Acho que o cachorro da vizinha é mais inteligente. O Bel tem apenas 5 anos, então não tem muito o que falar dele. Exceto sua ingenuidade e criatividade, essas são verdadeiras características dele.
Eu sempre me senti muito sozinho, apesar de viver numa família grande e ir com frequência as aulas. Talvez seja esse o motivo de não entender completamente meus sentimentos, sendo necessário assimilar ao das pessoas a minha volta. Por exemplo, sei quando estou triste, mas não entendo o motivo. Talvez entender meus sentimentos não seja a expressão certa. Por outro lado, chego a entender o motivo de sentir solidão. Acho que ser 7 anos mais velho que meu irmão mais novo, torna difícil chegar a uma atividade juntos, o nível de maturidade é muito diferente. Meu irmão Théo, que é 4 anos mais velho, também não mantém uma relação muito legal comigo. Nós não temos absolutamente nada em comum, e ele passa metade da vida na frente do computador. Minha irmã mais velha, Jennifer, é 10 anos mais velha que eu, então nem existe uma maneira de manter muito contato. Bom, meu pai apesar de se esforçar para ser o melhor pai do mundo, mal tem tempo para conversar comigo, principalmente depois que o Bel nasceu. Fora o trabalho que absorve a maior parte do seu tempo. Quanto a mãe, não tento ocupar o tempo dela. Afinal, é ela quem cuida da casa, dos irmãos… Na escola, tenho apenas um amigo, se bem que ele quase não vai as aulas. Os dias que tem mais presença são quarta e sexta. Joe é inteligente, infelizmente esse dom não faz sentido se comparado ao seu fascínio por alienígenas. Ele fala sobre isso todas as horas do dia, exceto quando está dormindo por que aí ele sonha. Assim é a minha vida, vou as aulas, estudo, volto pra casa e almoço, logo faço a tarefa, jogo um pouco, nada anormal para um garoto de 12 anos. Minha vida começou a mudar quando uma coisa aconteceu...
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