Keep Your Head Up
35 Capítulo 35
Notas iniciais
Chegando em casa do trabalho, eu penso que parecia que tinha acontecido ontem o drama todo do restaurante, mas já havia passado um mês, realmente parecia ter sido a algumas horas atrás. Também penso no quanto estou cansada daquele rotina que estava levando e todos os dias me lembrava de Amanda, de como ela tinha piorado. Estava morrendo de saudades dos três. Não veria minha irmã tão cedo, e eu nem preciso continuar. Eu sentia falta, eu estou triste, profundamente, de novo.
Cada dia era um pesadelo, trabalhava e trabalhava mais. Eu estava ganhando pouco, mas o que eu economizava e as compras que eram feitas pelo dinheiro do Lucas me ajudavam, eu passava meu final de tarde vendo filmes ou séries com ele, e depois íamos dormir. Estávamos sem diálogos. Nas minhas folgas eu sempre tentava arrancar algum dinheiro do montinho que estava juntando, pra sairmos juntos, mas as coisas já não eram as mesmas e nós não saímos mais. Passavamos olhando um pra cara do outro sem saber o que falar. Nossas vidas eram tão bobas e tão monótonas, não tínhamos novidade. Eu estava cansada daquilo, estava cansada desses meses que parecem anos.
Com o tempo tive que me acostumar e é claro e eu o amo, não o deixaria. Mas eu estou pensando seriamente em fazer algo pra mudar isso. Me mudar. Viajar. Fazer algo acontecer. Eu preciso disso. Meu corpo e minha mente estavam pedindo, necessitando.
Depois de três semanas e meia tomei coragem pra poder ter uma conversa seria com ele, sobre algo que possa acontecer, sobre o que ele achava disso.
"Fala" disse ele me olhando com uma cara de curiosidade. "O que acha da gente viajar?" "ahn sim" aquilo não agradou, o conheço bem. Odeia mudanças. E o silêncio continuava. "Pra onde?" "não sei, a única coisa que tenho certeza é que iremos ficar no lugar, procurar empreg..." ele não deixa eu terminar "você está louca???" e eu desabo por dentro, nunca o vi daquele jeito. "Não não... Não irei abandonar minha família. Meu amor me desculpa, mas não quero ir... Eu não quero te perder... Não vai, que ideia maluca" ele me encara de um jeito decepcionado e faz entender que não iria de jeito nenhum. "Eu preciso disso... Só me escuta. Eu estou cansada de acordar e ir trabalhar pra ganhar uma miséria, estou cansada de ver você pagando as coisas pra mim. Eu preciso ocupar minha cabeça com algo. Eu preciso viajar, preciso ver o mundo, nem faculdade fiz. Não era esse futuro que eu planejava. Eu preciso ir estudar, trabalhar, eu estou exausta dessa rotina repetitiva, dessa falta de algo que eu nem sei o que é, dessa escuridão que só cresce em mim" termino chorando. Fui sincera com ele, precisava que ele fosse comigo. "E se eu te dissesse que eu não quero ir..." meu coração parte em pedaços. Meus olhos estavam exarcados, eu estava tremendo de nervoso, era uma resposta difícil, mas era o certo a fazer, continuar sendo sincera. "Eu irei sozinha" respiro fundo, e tento não chorar mais. Ele se vira de costas e posso ouvir que está chorando. Quando estico minha perna para ir para perto dele, ele sussurra "você irá morar? e pra onde vai?" "sim eu vou morar, vou ficar lá e procurar algo e eu vou pra onde eu achar melhor, vou pra onde me sentir encaixada". Ele começa a chorar mais alto. "Eu te amo, porra eu te amo" ele levanta a voz "eu nunca faria isso com você... Eu estou sempre aqui... Como podes simplesmente..." ele se vira para mim "... Dizer que vai embora?". Ele estava me fazendo me sentir mais mal ainda. "Se você realmente me ama estaria me apoiando..." mal termino a frase e ele me beija. Me beija com intensidade, me beija como se tivesse passado anos sem me ver. Eu simplesmente retribui. Nos beijamos e ele me joga no sofá. "Não vá, por favor... Eu te peço... Não conseguiria... Não conseguiria viver sem você... Não faça isso, não me abandone" sussurrando em cima de mim ele me beija logo depois. Ele pega no meu corpo e me faz de moradia. Eu paro de chorar e contínuo beijando ele no mesmo ritmo. Isso me lembrava de nosso primeiro beijo. De nossa primeira vez. No sofá, a temperatura aumentando a cada toque, mãos na minha cintura passando para minha perna, voltando para o meu peito. Minhas mãos no seu pescoço. Eu sentiria sua falta, como eu sentiria, mas eu precisava achar meu caminho, precisa pensar um pouco em mim.
Olho ao redor e tento me levantar... Meu Deus minhas costas estavam quebradas. Me sento no sofá, esfrego o rosto, me estico e o olho dormindo. Sua respiração controlada, seus olhos pequenos, a linha torta que formava sua boca, seu rosto com um formato perfeito. Seu cabelo estava totalmente desorganizado, mas sei que ele iria acordar e deixaria daquele jeito. Dou um sorrizinho de canto, porém me lembro do que aconteceu na noite passada. Respiro fundo e conto até dez. Vou tomar um banho, me arrumo rápido e saio.
Cheguei onde queria, mesmo demorando uma hora e meia. Vou até a frente do estabelecimento e olho aquilo. Eu estava pronta pra mudar tudo, estava preparada pra encarar as consequências. Entro com o coração na mão e os joelhos tremendo. "Quero uma passagem... Ahn pra... Pra... Podes me ajudar?..." dou um sorriso simpático e homem que me atendia pergunta o que estava passando, ele não entendia o porque de eu não saber para onde iria. Me sento na cadeira e como se ele fosse meu psicólogo conto tudo. Dos meus pais, minha irmã, Lucas, mudanças, faculdade, dinheiro, vontades... E ele me olha atento, balança a cabeça a cada "entende?" que eu solto na conversa. Depois de minutos falando eu paro e espero ele me responder. "Entendo... Quando eu tinha uns vinte e cinco anos estava pronto para viajar, mas para fora do país, estava preparado para seguir o caminho que eu tanto sonhava e sabe o que eu fiz? eu peguei todas as opiniões, da minha mãe, meu pai, primos, amigos e joguei fora, deletei da mente, eu segui meu caminho. Tem uma hora que você precisa crescer e saber o que você quer e você tem sim responsabilidade o suficiente para seguir seus sonhos, então eu digo a você, pegue uma passagem qualquer no sorteio mesmo e se surpreenda, ou apenas vá para casa e volte com uma ideia definida" ele parecia que ia falar mais coisas, mas apenas fechou a boca num movimento devagar, mas não importava, o que ele tinha falado havia feito uma coragem brotar em mim. Eu peço a primeira opção. O atendente me da um folheto e sem nem mesmo olhar para ele eu o abro em qualquer página e coloco meu dedo em cima. Estava feito. Abri meus olhos e lá estava escrito meu futuro. Começo a chorar, eu estava tão emotiva, estava com vergonha por estar chorando. Ele apenas diz que deseja toda a sorte do mundo para mim. Pago a passagem do ônibus e saio com as mãos limpando meu rosto.
"Oi... Onde estava? te liguei que nem louco". Mal abri a porta e ele já estava me sufocando. "Precisamos conversar", tento parecer o mais séria possível. Sentei na cadeira da cozinha e eu o espero, ele estava indo tomar um banho. Olho para cima, fecho meus olhos, e me lembro. Me lembro de quando tinha sete anos e meus pais me ajudaram a levantar quando cai da bicicleta. Me lembro da minha irmã rindo de mim. Lembro de quando nosso gatinho arranhava sempre o rosto do meu pai e de como aquele gatinho amava minha mãe. Lembro de quando minha irmã e minha mãe tiveram aquela conversa de quando somos garotas adolescentes. Lembro de quando passei por uma praça no centro da cidade e um homem, que parecia mendigo, estava fazendo um discurso. "O que vocês querem para sua vida? vocês querem um carro? amor? viagem? família? um emprego digno? olha seja o que for, digo a vocês, corram atrás do que vocês querem. Sonhem, busquem, estudem, se arrisquem, faça o que mundo propôr, porque vou ser sincero e isso pode doer um pouco, a vida na primeira oportunidade que ela tiver, ela vai te dar uma rasteira e te fazer cair. Então, façam por merecer. Sejam persistentes no que querem... " aquelas palavras nunca haviam saído da minha mente, aquilo que ele estava falando estava acontecendo, e admito que por um segundo estou tranquila. Mas ainda chorando de nervoso por ter que aceitar. Depois de tanto lembrar de coisas que me faziam rir ou chorar mais, ele chega, infelizmente ele estava com choro "você estava chorando?" "e você não?" faz uma pergunta retórica rudemente. "Ok..." solto um suspiro, limpo meu rosto. "Eu comprei minhas passagem... Amanhã as duas da tarde, passei na joalheria e me demiti... Eu realmente, de coração..." choro e choro e choro. "... Sei que isso dói, eu... Eu nunca pensei em te abandonar, meu coração é seu. Eu achei que você... Você era... Eu não sei de mais nada... Eu só preciso achar meu caminho. Querido me desculpa". Eu choro como se tivessem cortado minhas veias. Nunca mais o veria, provavelmente. Teria que dar adeus e não sabia se haveria um olá. Eu estava de coração partido e ele apenas estava com a cabeça baixa, não falou nada, não chorou, não demostrou nada. Se levantou e finalmente comentou algo. "Eu... Você já sabe... Eu te amo, e eu preciso entender isso não é mesmo? sentirei sua falta" ele sai da cozinha e eu não sabia o que fazer. Não sabia se ia atrás, se fingia que aquilo não aconteceu, mas eu tentei ir por impulso. Entro no quarto e imaginei achar ele chorando, mas estava só deitado olhando para o nada. "Oi" dou um sorrizinho. Ele me olha com amor nos olhos, da um sorriso de orelha a orelha e pede para eu ir até ele. Não estava entendo. "Vamos meio que deixar isso acontecer. Pensei muito no que falasse ontem. Não estou feliz, não estou triste, mas se você sorrir estarei do seu lado para sorrir junto. Se fomos... Ahn... Perfeitos para o outro?!" ele faz uma cara de confuso "o destino nos trará de novo, um para o outro" e ele me olha de novo com aquele olhar amoroso, eu senti seu amor e dei um selinho nele. "Vamos sair? hoje a noite, vamos vamos, quero aproveitar você". ele acaba concordando e ficamos vendo séries na TV, mas não saia da minha cabeça as palavras que ele havia dito pra mim, é como se aquilo preenchesse com flores toda a dor e o medo que eu estava sentindo de seguir aquilo. Me sentia num mar tranquilo depois de uma tempestade. Mas era estranho por um lado. Ele havia feito uma cena toda para aquilo e agora simplesmente aceita... Quem sabe mesmo pelo o que eu falei ou simplesmente porque tem que aceitar, acredito que seja pelos dois.
Era quase oito horas e eu ainda não estava pronta, ele já estava de terno, calçado e com os seus cachos penteados só para ficar bem arrumado. Iríamos na praça que significa muito para ele, iríamos lá e faríamos um piquenique. Estava ansiosa e por dentro muito triste. "Vamos?" diz ele sem muita animação. "Vamos" engulo seco e ele pega na minha mão. Fomos de ônibus como sempre. Estava frio, eu estava com um vestido e o casaco dele. Meu cabelo estava arrumado num rabo de cavalo. Estava de tênis e nem ligando se o vestido não combinava. O lugar estava vazio, era oito e pouco e então não teria crianças por ali. Sentamos na grama e começamos a conversar sobre coisas sem sentido. A cada palavra dita por ele era um nó que se formava na minha garganta e um aperto no peito. Nossos assuntos eram puxados por mim, por medo de faltar, falamos sobre como ele estava se sentindo, como eu estava me sentindo. Falamos sobre o céu, sobre as estrelas, constelações, Deus, o mar, as estrelas do mar, até de baratas, e quando nós vimos era mais de nove e meia. O momento estava tão bom, estava tão tranquilo. Era como se eu pudesse ficar ali por horas e horas que eu não me cansaria, mesmo se não falassemos nada, o importante era aquilo, era os olhares, a felicidade que explodia a cada sorriso ou gargalhada. Era como estar com o coração incendiado. "Deveríamos ir" "só mais um pouco" peço a ele e ele se deita no chão. Me deito em seu peito, não estava com vontade de chorar, apenas queria ficar ali. "Olha que lindinha aquela estrela" dou uma risada e ele me olha sério. "Eu amo você". Nunca senti tanta certeza do que ele estava falando. "Eu também". Nos beijamos. As estrelas pareciam banhar aquele momento, o céu parecia nosso teto, o silêncio que o momento deixava era música para nós dois. Era um erro querer ficar ali, mas estava tudo do jeitinho que imaginei. Ele sobe em cima de mim e começamos a nos beijar de um jeito desesperado. ele me agarra com força e entre os suspiros e os seus gemidos ele sussurra que sentiria minha falta. Desamarro meu cabelo e bagunço o dele. "Também... Também sentirei sua".
Era de manhã. Abrir os olhos era o mais difícil. Estava tudo tão claro, diferente de ontem a noite que estava fechado e frio. Foi demorado para recordar que passamos a noite toda na praça, deitados na grama. "Bom dia, são quase uma e meia, deverias... Ahn ir se arrumar" "ok". Me levanto e percebo que ele está meio estranho e desconfortável. Passo pela cozinha e ele está fazendo nosso café da uma da tarde. Tomo meu banho, penso se estou fazendo a coisa certa. Nossa, como estou com medo, mas estava curiosa pelo que estava vindo. Escovo meus dentes, cabelos, coloco minha roupa e olho o quarto. Ainda tinha o cheirinho do perfume da minha irmã, ainda tinha a cara dela, o jeitinho dela. "Já a avisasse?" ele chega devagar e adivinha no que eu estava pensando. "Ainda não, mas vou" olho como se quisesse que ele saísse do quarto. "Oi" "oi quanto tempo. Fala aí" nesse "fala ai" falei até demais, passei vinte minutos conversando com ela e para minha surpresa ela me apoiou, disse que estava orgulhosa e que isso era um progresso para a independência. Chorei um pouco por sentir sua falta e por ter que falar dessa situação toda. "e ela?... Oh meu Deus você ainda está chorando?" ele me pergunta incrédulo por entrar no quarto e me ver naquele estado. Me pega no colo e me leva até a mesa. "Olha, eu fiz esse café para você. Fiz panquecas com chocolate, café que sei que ama e comprei pão". Me coloca na cadeira da cozinha e me avisa para comer porque faltavam quinze minutos para o meu ônibus. Comemos juntos e as lágrimas com o tempo foram desaparecendo. A conversa não estava indo muito bem, eu estava aflita e ele também parecia estar, não tínhamos mais o que falar e passamos alguns minutinhos daquela maneira, até eu ter que ir pegar o ônibus para pegar meu outro próximo ônibus. Chegamos em segundos e eu corro para ver se ele já está saindo, pergunto a alguns guardas qual que eu deveria pegar e eles todos me avisam que era o que iria dar a volta. Fomos até a última fila da estação. Olho para ele. Ele estava tremendo mesmo tendo sol. Ele estava pra chorar. Seus olhos estavam tristes e ele estava para baixo. "Então... Então é isso" digo e o abraço. "É..." balanço a cabeça e nos beijamos. De um selinho foi para um beijo devagar e envolvente. O motorista grita que ele só iria pegar seus óculos e que em um minuto saia. Eu tinha que entrar. A parte mais difícil, dar adeus a quem amamos. Ouvir sua voz pela última vez, sentir seu abraço pela última vez, sentir seu beijo e seu cheiro. "Tchau Lulu" digo acenando nas escadinhas da entrada do ônibus tentando esconder as lágrimas. Entro sem esperar respostas. Sento lá na frente e coloco meus fones de ouvido e percebo que não sou mais a menininha que achava que a música ou morte iria resolver tudo. Não sou mais a garotinha que achava que a vida era horrível, ou não sou mais a pessoa ansiosa que tinha medo de tudo. Todos os meus erros e acertos, momentos bons e ruins, decepções e medos foram todas as coisas me fizeram ser quem eu sou. Eu não sei, quem sabe eu passe fome, morra de frio ou até passe a morar na rua, mas isso me vai me ajudar a crescer e ser o que devo ser no futuro. Estava preparada para o que estava pra vir, estava pronta pra virar a página e seguir em frente. Eu o amo, ele é uma página que arrancaria do caderno e guardaria sempre em mim. O motorista entra no ônibus e o liga. Ouço alguém gritando e entrando no corredor grande do ônibus. "Obrigada..." diz ele ofegante "obrigada por me ajudar... Por me fazer melhor... Por me fazer, por fazer quem eu sou hoje. Obrigada por andar a 100 por hora num túnel e quase me fazer morrer. Obrigada por todas as memórias. Boa viagem, a gente se vê por aí". as pessoas que estavam sentadas e algumas em pé soltam um gemido como "own" por achar lindinha a cena. Eu fico sem reação e nem posso fazer nada, já que ele sai as pressas. Dou um sorriso e solto um suspiro de alívio. O ônibus anda e olho para a estrada. A ansiedade me invadia e me fazia chorar. Mas pela primeira vez eu sabia que estava tudo bem.
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