Kayralor - Uma história Star Wars
52 Cicatrizes
Kay havia saído do seu quarto mais tarde da noite naquele planeta, nunca era somente noite em Mustafar sempre havia bem mais luz por incrível que pareça por tantas atividades vulcânicas naquele local. A moça nem estava com suas roupas próprias, o solo daquele planeta era ligeiramente mais quente e isso deixava a sola dos seus pés frios mais satisfeitos pelo calor por um momento.
A jovem andou por aqueles lugares e observou tudo o que havia para observar, era um lugar simples e sem muitos cômodos, era amplo e ao mesmo tempo sem nada a ser mostrado. Havia muita escuridão naquele local tanto fisicamente como espiritualmente, era um castelo inteiramente esculpido dentro de um vulcão e as pedras estavam de acordo com a paisagem. Ao passar seus olhos pelas paredes, Kay poderia ver refletirem foscamente a iluminação amarela das mágmas ás janelas.
A roupa que estava vestindo era muito leve para o lugar, uma vez que Mustafar era mais quente que de costume, a jovem estava o tempo todo a reajustando ao corpo, porém não via ninguém ali. Estava realmente muito vazio, pensou que fosse um lugar não tão visitado, aparentemente nem a Primeira Ordem havia chegado e tomado conta daquele local ainda. Sentia realmente poucas pessoas, Gregor que estava dormindo em seus aposentos e alguns outros dez trabalhadores no máximo, todos ocupando suas mentes.
Kay chegou ao que parecia ser uma enorme varanda, um espaço que havia, sem nada em especial, apenas um espaço aberto e ventilado com uma vista bem incrível. Era incrivelmente mais quente lá fora, as paredes do lugar pareciam ser feitas para guardar aquele poder apenas do outro lado, o vento soprava com alguma intensidade, porém não era perigoso. Ela inalava aquele ar que ia direto aos seus pulmões os deixando quentes e a sua pele ficava mais aquecida com o fogo ao longe.
Era um amplo lugar com uma vista alta, dali de cima a moça podia ver o imenso campo de pedras lisas e negras a se perder de vista, aparentemente nada crescia em Mustafar mesmo com seu solo extremamente fértil. Havia uma intensa atividade magmática, as lavas caiam como cachoeiras num rio de fogo mais logo abaixo, um penhasco enorme se fazia antes de chegar até aquela morada. Imaginou quantas vezes Darth Vader havia se dado ao luxo de observar aquele local, talvez não muitas por causa de sua vida ocupada e seu corpo destruído, aquilo a entristeceu um pouco.
Era imponente e poderoso, o calor do fogo chegava até ali e seus pés se incomodavam um pouco agora, ela posou seus braços no que seria uma grade para proteção e ficou. A grade estava bem fria por sinal, algum tipo de proteção era feito para manter aquele lugar intacto. A jovem pensou no que havia ocorrido a algumas horas atrás, tantas coisas que poderiam te-la quebrado. Kay havia visto claramente o lado sombrio, ficou presa a um sentimento de dor profunda e duvidou de seu semelhante, ela o chamou de traídor e por pouco não o tirou a vida.
Como quase matou Kylo Ren, a cena se repetia na sua mente como uma lembrança a ser esquecida, ele estava ao chão e se contorcia para lutar a respirar. Kay só havia visto o homem sofrer assim uma vez e foi pelas mãos de Snoke, a comparação a entristecia e aquela paisagem poderosa também trazia sua tristeza, não deixaria isso acontecer novamente. Kay sabia que era forte na Força e isso era o suficiente para proteger a todos que precisavam, mas se fosse ela quem iria ferir, precisava entender a responsabilidade que teria, precisava ponderar o preço de cada vida e a de Ben era semelhante a dela.
— Eu posso?
Assustou-se e virou rapidamente para de onde a voz dele a chamava, estava se referindo a ficar ao seu lado enquanto pensava. Kylo Ren estava sem suas vestes pesadas, a parte superior do tronco que deixava seus braços expostos e as mãos, uma calça alta que ia até seu meio abdomem por causa das ataduras em seu tronco, ele havia se ferido em Dostif, havia suas antigas e comumente usadas botas de couro negro também. Ren não costumava sair daquela maneira, ele sentia-se muito incomodado com seu corpo a vista dos outros, porém naquele lugar eram impraticável usar tantas camadas de roupa.
Kay pode observar a pele extremamente branca como a dela, mas muitas cicatrizes, pequenas grandes e médias em todo o seguimento à mostra, eram da cor de sua pele a algumas mais rosadas com a profundidade. Kylo Ren usava túnicas pesadas e fechadas para esconder todas as marcas de batalha que tinha, eram realmente muitas. Haviam algumas que chamavam sua atenção como um enorme rasgo em seu braço direto que ia do pulso até seu ombro, e outra que havia aprofundado a pele em seu ombro esquerdo, uma descia e afundava por sua clavícula indo ao peito, outra subia por seu tórax como se fossem três grandes garras e por assim ela via varias e varias outras.
Podia dizer que era chocante ver tamanha brutalidade que ocorreu com ele todos esses anos, ela não pode deixar de se sentir triste e impotente perto dele. Ela poderia contar inúmeras cicatrizes no corpo de Ren, mas tornou seu rosto quando perceu estar sendo inconveniente. Ele ainda aguardava longe com uma expressão bem tensa e preocupado, ela se ajeitou com sua roupa rapidamente e os cabelos desgrenhados.
— Sim
Ele se pôs ao lado dela a posição como sempre muito trancada e firme, estava com as mãos fechadas a frente do corpo e as pernas levemente abertas. A troca de energia acontencia mesmo se nenhum dos dois a quisessem, era inerente a eles, era interessante um fluxo que parecia forte mesmo sem uma verdadeira ligação. A jovem cruzou levemente os braços a sua frente, estava um pouco incomodada com seus pés e sua roupa que ela entendia como curta demais. Pensou nas perguntas que queria fazer a ele.
— Vá em frente – Ele falou sem muita cerimônia
— Você está me seguindo? – Brincou
— Não – Falou rápido e sério – Me alertaram que não estava em seu quarto, então vim para procurar
— Kylo...
Olhou hesitante para o chão e o rosto do homem virou-se levemente para ela, a sobrancelha dele franzida em um tom de espera que parecia importante.
— Pode me chamar de Ben – Pausou, voltou a mirar a paisagem seriamente enquanto sua madibula fazia alguns movimentos sistemáticos – Se lhe for de agrado, eu sei que prefere...
Kay podia ver uma leve tensão nos músculos dele parados um pouco distante dela, seus dedos das mãos bem vermelhos com a pressão aplicada nas pontas. Kay achou isso de certa maneira boa e inesperada, ele odiava esse nome e agora voltava a usar com algum esforço, era claro que ainda não gostava, mas soava menos ruim na boca da garota.
— Certo, Ben... – Demorou algum tempo, olhou para o rosto dele que permanecia intacto – Qual sua relação com esse lugar? Por que estamos na casa de Anakin Skywalker?
O uso do nome Anakin Skywalker no lugar de Darth Vader o intrigou bastante, porém ele não pode deixar de ficar bem incomodado com a pergunta. Olhou para baixo por um momento depois sacudiu a perna com impaciência, o que Kay pensaria se soubesse da verdade? Como se sentiria se o coração dela fosse partido mais uma vez com essa revelação?
Ele tinha tanto medo, e podia sentir isso crescendo dentro de si, medo de machuca-la, medo de abandona-la, medo de perde-la. Ela havia acabado de sair do bacta e qualquer estresse novamente seria outro problema, ainda assim havia preocupação nele. Por que sentia isso? Não sabia, seu peito segurava o ar com muita firmeza e pode sentir o mar indesejado em seus olhos. Ren engoliu o seco por algumas vezes e até o momento não conseguia dizer nada.
— Eu também tenho medo
Kay apoiou-se na grade e pensou que seus pés estavam ardendo um pouco mais agora, mas ela pensou no que mais tinha medo agora e era justamente sobre ele também. Kay entendia o que Anakin havia dito sobre Ben, mas ela não entendia o porque do fantasma se preocupar com o homem, afinal eles nem eram nada um do outro. Ficou observando a paisagem com uma profundidade notável em seus olhos e a boca levemente inclinada para baixo, respirou fundo.
— Mas o medo não pode ser controlador, temos o nosso destino – Pausou mais uma vez para piscar olhando o fogo lá fora – Eu tinha medo de você
A o rosto do homem se inclinou totalmente para a chateação e sua cabeça olhou para o chão com muita insatisfação, depois de alguns segundos voltou a mira-la.
— Então agora, eu tenho medo por você – Kay parecia conversar com o fogo, mas todas aquelas expressões iam direto para a mente dele – Eu sei que você não precisa ser salvo, toda aquela balela de sempre, você é bem chato. Mas... – Pensou – Eu sinto que o meu destino é ao seu lado
Luz. A esperança era gritante em seu coração, mas ele não queria senti-la estava de todas as formas negando aquela existência, a existência de uma afeição por ela que ele não estava permitido a sentir. Ben Solo era fraco e estava caindo agora por ela, mas se isso era ser fraco, por que era tão forte? Ele estava tão confuso no momento, mas tinha certeza de uma coisa de uma forma ou de outra.
— Eu sinto o mesmo
Kay sorriu levemente, um sorriso despreocupado, tão profundo e antigo, era como se estivessem lá a muitos milhões de anos e aquele sentimento voltaria e ficaria para sempre. Ao final de tudo ela não teve tanta certeza disso e seu olhar caiu num mar de tristeza e decepção, ela virou-se saindo e ele pegou em sua mão.
— Você pode... – Hesitou em pedir – Ficar mais um pouco...?
A mão quente do homem pegava a sua com firmeza, mas não machucava.
— Meus pés estão queimando – E realmente estavam – Eu não posso ficar mais
Ele a soltou e pegou em sua cintura, a colocou sentada em cima da grande grade que havia ali e Kay achou satisfatório, ficou lá até que sentisse o sono voltando a si, o que durou algumas horas. Ren estava sempre quieto e pensando nos próximos passos, sentindo a energia que compartilhavam agora era muito mais fácil para ele passar a penser plenamente, ele gostava daquela madilta ligação. Kay notou leves cicatrizes em suas mãos e as observou de longe, percebeu o quanto as mãos dele eram grandes e bonitas, o seu cabelo legal como sempre, mexia-se no calor do vento.
Ren confrontava-se dentro de si mesmo, seu coração era obscuro e tinha paixão por uma sede de poder sempre tão forte, mas como ele poderia estar ali e seguir seu seu caminho com ela ao seu lado? Aceitaria tais acontecimentos que estariam por vir? Ela aceitaria a descendência Skywalker? Ele teria de mata-la? Como ela o julgaria? Ela tinha essa prioridade? Desde quando? As perguntas faziam voltas em sua mente como um grande circulo de fumaça. Ele entendia agora que verdadeiramente estava caindo por Kay e aquilo era perigoso.
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