Karma
6 Temporal
Notas iniciais
“Nós estamos andando em círculos. Isso tem que ser tão difícil? Nós podemos parar as brigas, se você baixar a guarda.”
– Birdy
A chuva continuava caindo severa do lado de fora, enquanto dentro do Jipe o clima também não era dos melhores. Stiles acabou se perdendo na floresta e os sentidos de Derek não funcionavam muito bem naquele temporal. Depois de rodarem em círculos eles conseguiram retornar a mansão, e decidiram se abrigar ali ao invés de se arriscarem tentando sair da reserva. Stiles parou de qualquer jeito na entrada da casa, eles desceram correndo do carro e entraram lá para se proteger da chuva.
– Grande coisa, aqui esta chovendo tanto quanto lá fora – O jovem reclamou assim que chegou, e com razão, a casa estava encharcada, paredes úmidas, a água descendo livremente pelos buracos no teto e fazendo poças no chão, além do cheiro de madeira molhada.
– Não reclama, vai ser melhor do que ficar preso naquele carro a noite toda – Derek respondeu entrando no local e averiguando a situação ali.
– Como assim a noite toda? Não mesmo.
– Se a chuva não diminuir a gente vai ficar preso aqui mesmo, você é um péssimo motorista pra encarar esse tempo – Stiles abriu a boca em indignação à seriedade de Derek, ele foi para os outros cômodos procurar um lugar melhor para ficarem e deixou o garoto falando sozinho.
Eles acabaram ficando onde anteriormente era uma sala de jantar bem ao lado da entrada, era o lugar menos deteriorado e afetado pela chuva, no entanto no canto do cômodo havia uma abertura no teto fazendo a água escorrer por ali. Os dois sentaram-se um pouco distantes um do outro, Stiles tentou por longos minutos contato com alguém pelo celular, mas não conseguia qualquer sinal devido ao mal tempo e a localização deles.
Para Derek o passeio com Stiles havia sido uma ótima chance, ele só não esperava que terminasse assim, preso dentro da mansão durante uma tempestade e todo sujo de lama. Talvez ele devesse encarar isso como uma oportunidade de se aproximar de Stiles, eles já haviam começado mal, mas as coisas poderiam melhorar, não é?
– Pelo jeito eu vou ter que aguentar você fedendo a porco de chiqueiro a noite inteira, não consigo comunicação com ninguém nesse fim de mundo – Stiles bufou guardando o celular no bolso, encostou a cabeça na parede e fechou os olhos cansados.
– Pelo menos nisso eu posso dar um jeito – Derek caminhou para o outro lado da sala indo em direção ao canto onde a água escorria. Quando Stiles abriu os olhos Derek já estava sem camisa e tirando os sapatos de costas para ele.
– Eu espero que você pare por aí – O garoto interveio com um tom debochado, mas estava mesmo era envergonhado de ver Derek daquela forma e o que aquilo causava nele.
Derek apenas virou a cabeça o suficiente para olhar para o outro e riu irônico. Ficou apenas com a calça jeans no corpo e tentou se limpar como pôde – Isso é culpa sua, eu tinha a situação sobre controle.
– Ah claro, a culpa é sempre do humano aqui – Quando Derek terminou e se virou, foi a vez de Stiles ficar de costas para outro e parar de encará-lo, ele queria manter essa distancia com o mais velho.
– Você sempre tem que se meter nas coisas não é?
– Olha só quem fala, não foi você quem veio se meter na minha vida alguns dias atrás? E eu só to aqui por sua causa, muito obrigado pelo passeio na floresta lobo mau, esse foi um puta de um programa – Stiles levantou-se para se afastar de Derek, andou para perto de uma janela e ficou olhando para o lado de fora por um tempo pensando no que sentia. Ele não queria falar assim com o outro, era apreciava o que Derek vinha fazendo por ele, mas por medo de transparecer seus sentimentos ele os disfarçava com sarcasmo, como sempre fez.
– Como eu poderia saber que a gente ficaria preso aqui? – Derek falou cortando o silêncio e tirando Stiles de seus pensamentos.
– Você não é o alfa fodão? Aliás, foi por isso que você se aproximou de mim agora que eu estou mal não é? Você tem essa necessidade de se sentir superior aos outros – Stiles foi ríspido, ele julgava aquilo necessário, não tinha outra explicação para o que Derek vinha fazendo e ele não queria se iludir.
– Será que da pra você baixar a guarda e parar de me atacar um pouco? Eu me importo com você, caramba! Você faz parte do bando e eu me importo com o seu bem estar, não tem nada haver com poder ou superioridade – Derek ergueu seu tom de voz, não por estar nervoso com Stiles, mas com si mesmo. Embora tenha dito aquilo, as coisas estavam acontecendo sim por causa da sua sede por poder e agora ele se sentia mal por isso. Stiles se manteve como estava, não dando atenção ao lobo até Derek chegar perto dele e por a mão em seu ombro – Stiles me escuta.
Seus músculos tencionaram com o toque inesperado, Derek apertou de leve acarinhando o mais novo. Stiles fechou os olhos e por um momento se permitiu relaxar com aquilo, um turbilhão de sensações distintas acometia seu corpo. Derek não disse nada e Stiles também não ousou, mas pôde sentir a respiração do lobo chegando ao seu pescoço, estava tão perto, ele sabia que se Derek dissesse algo em seu ouvido seria sua perdição.
– Não seja hipócrita, você só se importa consigo mesmo – O garoto retirou a mão do lobo de seu ombro e forçou uma carranca quando se separou daquele contato, mas ainda de frente para ele, os olhos dos dois conectados novamente. Aquilo era tão difícil, Derek estava mesmo dando uma abertura para ele? Stiles não queria se iludir e confundir as coisas, ele sabia que era bom em fazer isso.
– Você esta indo longe demais com essas palavras Stiles.
– E o que você vai fazer? Me jogar contra uma parede de novo pra provar a sua força? – Stiles saiu dali de perto de Derek esbarrando de leve em seu ombro e caminhou para a entrada da mansão.
– Eu havia esquecido o quão insuportável você pode ser – Derek não estava com uma cara muito contente, estava magoado com Stiles e com si mesmo já que o que o garoto disse era em parte verdade. Stiles parou por um momento para ouvir as palavras do mais velho, hesitante, mas alto o suficiente para se provar com raiva.
– Não se preocupe, você não vai ter que me suportar mais – Assim que disse, Stiles abriu a porta e saiu no meio da chuva para surpresa de Derek. Eles já estavam lá dentro há algum tempo e a chuva já havia diminuído um pouco.
– Stiles volta pra dentro, não seja infantil... Espera, Stiles, Stiles! – Derek correu, mas não conseguiu alcançar Stiles que partiu de Jipe deixando o lobo sozinho para trás. Ambos tinham agora muito que refletir.
▽▽▽
Quando Stiles chegou a sua casa já eram por volta das dez da noite, ele entrou devagar e silencioso para não chamar atenção, mas não havia ninguém em casa de qualquer forma. Subiu para o quarto para tirar a roupa que estava molhada e suja e depois foi direto para o banheiro tomar um banho quente, ficou em baixo da água por um bom tempo pensando naquela noite e tudo o que havia dito para Derek. Ele havia sido muito duro e isso estava o matando por dentro, os sentimentos pelo lobo estavam cada vez mais fortes e Stiles temia se apaixonar, então para ele, afastar-se era a solução no momento mesmo que fosse difícil resistir à Derek. Mesmo assim ele não deveria ter sido tão agressivo, Derek não tinha culpa das coisas que ele botava na cabeça. Saiu do banheiro com o corpo limpo e a mente nem tanto, vestiu um pijama vermelho com o símbolo do Flash e foi para a cozinha preparar um chocolate quente. Em seguida ouviu o barulho de um carro estacionando em frente a sua casa, logo depois a porta sendo destrancada e revelando seu pai ali, Stiles parou o que estava fazendo na hora.
– Onde é que o senhor se meteu? – O xerife disse assim que entrou, com a voz forte e autoritária, Stiles fraquejou antes de responder.
– É... Eu vim da casa do Scott direto pra cá pai – Gaguejou um pouco, mas saiu, Stiles estava nervoso.
– Eu to ligando aqui e no seu celular faz horas Stiles.
– Ah é? Eu tirei uma soneca e acordei agora sabe, esse tempinho é perfeito pra isso – Ninguém podia negar que Stiles sabia enrolar as pessoas – Tem algum motivo especial para essa preocupação?
– Nada não. Eu só queria ter certeza que você esta bem, a cidade esta um caos hoje, você nem imagina – John tirou os sapatos e o casaco e os levou para o banheiro quando seu rádio chamou.
– Ah, eu posso imaginar sim – Respondeu coçando a cabeça, pouco tempo depois seu pai desceu rápido as escadas, Stiles percebeu que o pai havia se vestido para sair novamente.
– Aconteceu alguma coisa? – Stiles perguntou curioso com o chamado repentino já que o pai acabara de chegar.
– Sim, isso que eu queria te falar, teve um acidente grave de carro na entrada da cidade e eu não sei que horas vou chegar em casa. Você vai ficar bem sozinho?
– Claro pai, não precisa se preocupar.
– Você sabe que eu me preocupo filho. Agora eu tenho que ir, qualquer coisa não hesite em me ligar ou ligar para o Scott, entendido?
– Okay pai, se cuida – O xerife partiu, Stiles voltou para seu chocolate quente, sua cabeça estava cheia e passaria a noite assistindo filmes na televisão, não conseguiria dormir facilmente.
▽▽▽
Lydia acordou gritando assustada durante a madrugada. O pesadelo que tivera parecia tão real, como se ela realmente estivesse lá quando tudo aconteceu. Em questão de segundos seu pai entrou no quarto após ouvir os gritos da filha. Ele abraçou a garota que agora chorava inconsolável em seus braços. Depois de alguns minutos, quando finalmente se acalmou um pouco, a ruiva explicou o que havia acontecido, era mais do que um sonho, ela ainda tinha uma sensação dentro dela e era algo que não conseguia explicar. Foi um sonho com morte, mas precisamente em um acidente entre dois carros durante a chuva, estava muito escuro e ela não conseguia ver muito bem, mas era como se ela estivesse parada lá, vendo tudo e sem poder fazer nada. Ao fundo o som das sirenes ia aumentando, as pessoas apareciam para socorrer, ela enxergava todos como um borrão e isso era angustiante. No fim uma voz fraca e um tanto triste foi ouvida “Ninguém sobreviveu”, foi quando ela acordou. Alguns minutos depois, e com seu pai ao seu lado, ela ainda podia sentir um frio na espinha ao se lembrar das cenas que viu. Ela não sabia quem era, mas a preocupação era com sua mãe que estava fora da cidade e isso a apavorava. Seu pai fez questão de lembrá-la que conversou por celular com a mulher há algumas horas e ela não se atreveu a sair nesse temporal, e permaneceria na Eichen House até o tempo melhorar. Mesmo sabendo disso Lydia não se sentia melhor, poderia ser apenas um pesadelo, mas ela queria ter certeza que sua mãe estava bem, precisava falar com ela.
– Alô? – Ela atendeu rápidamente e com a voz calma, estava com o celular de prontidão.
– Mãe sou eu, Lydia – A garota aliviou-se ao ouvir a voz da mãe, o nervosismo havia diminuído um pouco agora.
– Sim querida – A mulher pediu.
– Só queria saber se esta tudo bem com você.
– Se estar em um lugar rodeado de loucos sem poder sair por causa da chuva é estar bem, eu diria que sim – Lydia riu – Não se preocupe, eu volto antes do amanhecer.
– Deu tudo certo aí?
– Sim, mas a ligação esta horrível filha, quando eu voltar a gente conversa com calma, okay?
– Claro, te amo mãe.
– Te amo também filha – Quando desligou Lydia voltou mais tranquila ao encontro de seu pai que trazia chá para os dois. Lydia voltou para seu quarto, mais relaxada, para tentar retomar o sono, seu pai fez o mesmo.
“Dirigindo em meio à chuva, eu perdi as palavras para fazermos as pazes, para te dizer como dói. Porque ultimamente estamos quebrando tudo o que construímos até agora.”
– Birdy
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