Karma
12 Ouro branco
Notas iniciais
“Eu nunca joguei um jogo justo, eu sempre estava em vantagem, mas de que me serve inteligência e coragem se eu não consigo respeitar nenhum homem.”
– Sia
–
– Eu não tenho sossego nem no domingo mais? – Stiles disse sorrindo ao abrir a porta para Lydia, ela explicou um pouco no telefonema o que estava se passando e Stiles, é claro, se prontificou a ajudá-la.
Ele ficou bem confuso e principalmente preocupado com a amiga sobre o que Deaton a contou, Stiles assim como os outros sabia que Lydia era diferente, era mesmo questão de tempo para que tudo se clareasse.
– E então onde esta?
– Lá em cima, vamos – Eles subiram para o quarto do garoto. Nas traduções já feitas por eles mesmos não acharam o que queriam, então recorreram mesmo ao velho livro. Depois de algumas folheadas, Lydia identificou aquela palavra proferida por Deaton como sendo sua natureza, Banshee.
Após encontrarem veio o trabalho de traduzir aquelas palavras contidas ali, nada que eles já não tivessem feito tempos atrás. Passado algum tempo, em meio a livros, folhas esparramadas pelo chão, uma ajudinha da internet e uma leve dor de cabeça, tudo estava legível agora.
–
Banshees
(Arautos da morte)
Esses espíritos femininos são conhecidos por produzirem gritos penetrantes que só podem ser ouvidos por outras criaturas sobrenaturais.
Quando alguém avistava uma Banshee sabia logo que seu fim estava próximo, os dias restantes de sua vida podiam ser contados pelos gritos da Banshee: cada grito era um dia de vida e, se apenas um grito fosse ouvido, naquela mesma noite estaria morto.
Banshees aparentemente têm uma conexão sobrenatural com outras Banshees. Ela usará seu lamento para abafar todos os outros sons, permitindo que se foquem nos sussurros transmitidos por outras Banshees.
E dito que se você encontrar um pente de prata (o qual as Banshees usam para pentear seus longos cabelos) jogado no chão, não o pegue! Para assim não encontrar uma Banshee tentando recuperar sua valiosa posse cara a cara – Ela pode predizer a sua morte.
–
Após a leitura eles se encaravam, como se esperassem que o outro falasse algo primeiro.
– Me diz que você não tem nenhum pente de prata – Stiles perguntou fingindo-se de assustado.
– Stiles! – Lydia o repreendeu, ele agora ria do comentário – Isso é sério.
– Eu sei, me desculpe.
– Isso pareceu muito ruim para você? – Lydia perguntou receosa.
– Bom, não tem muita informação aqui, mas pelo o que eu entendi você grita quando alguém esta para morrer, não parece tão ruim quanto você havia me dito.
– Acho que você se esqueceu da parte em que sou inconscientemente levada para os lugares, que ouço vozes do além e faço tour no cemitério, mas fora isso tudo bem, não é como se eu estivesse a ponto de pirar com isso, não é? – Ela falava irônica, Stiles sentia a preocupação e medo dela com esses sentimentos sombrios que surgiram há pouco tempo. Ele a confortou em um abraço.
– Desculpe ser insensível, é que estou com muita coisa na cabeça hoje.
– Ta tudo bem, isso pode até ter vindo em uma boa hora – Lydia se separou do humano e limpou os olhos.
– O que você quer dizer com boa hora?
– Eu acho que a mãe biológica do Jackson tem tentado entrar em contato comigo, é como se ela soubesse que estamos atrás disso e quer se comunicar.
– Ou talvez seja apenas sussurros de outras Banshees como o bestiário disse.
– Eu nunca vou saber se não tentar.
– E você vai fazer o que? Jogo do copo? Ouija? Ritual mágico de invocação de espíritos? – Lydia adorava a forma como Stiles lidava com isso, a cara de animação do garoto e as mãos descontroladas, ela deu um leve tapa no ombro dele enquanto ria.
– Não seja bobo, deve haver alguma forma de fazer isso na vida real.
– E você esta bem com isso, não te assusta nem um pouco? – Stiles levantou a sobrancelha desafiando a ruiva.
– Bom, eu tenho que arriscar – Lydia respirou fundo, essa história dava um frio na barriga – Se você pudesse fazer algo assim não faria? Por alguém que você ama, como seu pai ou Derek?
Stiles gelou com aquele nome e desviou o olhar.
– O que? Aconteceu alguma coisa com vocês? – Lydia perguntou assim que percebeu o desconforto dele.
– A gente teve um desentendimento, mas eu não quero falar sobre isso – Stiles sentou na cama e abraçou os joelhos.
– Por isso você não foi ao treino do bando hoje?
– Sim – Stiles respondeu, Lydia deitou na cama encarando o teto – O que Jackson achou disso?
– Ele disse que só iria para ver como as coisas funcionam, não sei se ele aceita entrar para o bando do Derek, ainda mais depois daquela história com meu primo.
– Entendo – Stiles respondeu se deitando ao lado.
– Ninguém o culpa pelo o que aconteceu, o Bruce vem aceitando isso depois que você nos contou o que sabia, ele, eu e Jackson somos muito próximos, ainda leva um tempo pra superar tudo isso.
– É tão bonita essa união e amor que você tem com seu namorado, você vem mudando o Jackson pra melhor, você sabe disso – Lydia deu um leve sorriso.
– Você e Derek também, se completam de uma forma estranha, eu nunca cheguei a imaginar você dois juntos e agora me parece tão natural.
– Eu sei, embora ele ande meio distante, como se tivesse algo o prendendo e impedindo de se entregar de vez, sabe? – A voz de Stiles tinha um tom desanimado, Lydia estava achando o garoto pra baixo e isso não era bom.
– Talvez porque seja algo recente ainda e ele esta inseguro, afinal vocês só estão ficando por enquanto, não da pra cobrar muito – Lydia olhou debochada para Stiles enquanto enrolava o cabelo nos dedos.
– Eu sei que não é nada sério ainda, mas quando a gente ta junto meu corpo se aquece da mesma forma quando o encontrei pela primeira vez, eu perco o ar sempre que ele me encara com aqueles olhos profundos e quando a gente se beija....
– Ok! Já entendi, você esta caidinho por ele Stilinski – Lydia o interrompeu fazendo cara de nojo – Você virou um bobo romântico.
– Calada Lydia Martin!
Eles se puseram a rir e conversar sobre os namorados lobisomens pelo resto da tarde.
▽▽▽
As palavras de Peter na reserva me ajudaram a refletir e decidir as coisas que rondavam em minha mente durante esses dias, para falar a verdade durante todos esses meses de convivência com o garoto. Quando o encontrei pela primeira vez, junto de Scott perdidos e assustados com minha presença, eu percebi que aquele garoto era especial de alguma forma. Eu não soube explicar, mas meu corpo se aqueceu com a timidez e o riso fácil dele. Algumas pessoas afirmam fielmente que o amor surge à primeira vista, para mim não é bem assim. É claro que eu tive uma impressão forte naquele encontro, mas o amor surge gradualmente, surge de momentos compartilhados e felizmente eu tive mais oportunidades de convivência com o garoto. Eu não sou uma pessoa de mente fechada, longe disso, mas devo admitir que fiquei em negação por um tempo. Embora eu tenha tido algumas experiências com garotos na adolescência, nunca passei disso, os poucos relacionamentos que tive foram com garotas e depois de Kate nunca consegui me relacionar com ninguém, eu me fechei para o mundo e quando esse sentimento por Stiles apareceu, um homem, eu travei.
Eu não sei ao certo em que momento eu percebi que ele era mais do que o melhor amigo do beta que eu ajudava, embora o mais provável seja o dia em que o Kanima nos encurralou na escola. Estávamos sozinhos no meio daquela enorme piscina, eu paralisado do pescoço para baixo enquanto ele se esforçava para impedir que ambos nos afogássemos ali. Nunca estivemos tão perto e dependentes um do outro, os sentimentos dentro dele estavam descontrolados, eufóricos com aquilo, eu pude sentir o amor por parte dele, em outras ocasiões era tão sutil que eu não podia afirmar, mas dessa vez era muito claro. Quando ele me soltou para pegar o celular e eu lentamente fui sumindo em meio à água, eu temi muito, sim temi pela vida dele e por não poder fazer nada caso Jackson o atacasse e Scott não estivesse ali a tempo. Felizmente tudo terminou bem e logo meu bando estava a salvo também e como sempre não estávamos mais sozinhos, o que tornava as coisas ainda mais difíceis para mim.
O tempo foi passando, assim como eu, Stiles também hesitava em dar um primeiro passo, mas tudo era subentendido por nós, desde olhares até toques ao acaso. Pela primeira vez desde o incêndio meu lobo se sentia calmo e sereno, isso era bom e ruim na mesma proporção já que Stiles era responsável por isso e cada vez mais meu lobo queria estar com o garoto, isso era algo que eu não conseguia proporcionar para meu animal interior e logo ele se entristecia novamente. Eu posso enganar Peter e a mim mesmo pensando que a aproximação com Stiles seria apenas para Scott entrar no meu bando, mas bem antes disso, eu fiz de tudo para estar perto de Scott, ajudá-lo a descobrir quem era o alfa e me tornar alguém em quem ele poderia confiar, e até ouso dizer, um amigo para ele. Porque eu sabia que quanto mais perto de Scott eu ficasse, mais perto Stiles estaria de mim também, e embora essa maldita insegurança me impedisse de tentar algo a mais, os poucos momentos que tivemos juntos proporcionados por essas batalhas contra o sobrenatural, significavam muito para mim. Estar perto dele, sentindo os batimentos se alinharem aos meus, me desestabilizava. Eu sabia que o sarcasmo dele e a minha indiferença eram disfarces de ambas as partes para não encarar o óbvio, mas para que tanta resistência? Não era mais fácil deixarmos que o sentimento tomasse conta pelo menos uma vez e agirmos sem pensar nas consequências ao invés de reprimirmos isso e sofrer por nunca saber se éramos ou não correspondidos? Eu não sei os motivos de Stiles para isso e eles nem me importam agora, eu só sei que essa ideia de um plano para me aproximar dele meu deu coragem, se ele me rejeitasse eu poderia fingir que tudo o que eu sentia por ele era algo da minha cabeça, que tudo era racional e nenhum sentimento estava envolvido e quem sabe, talvez, eu pudesse acreditar nisso.
Mas não foi o que aconteceu, Stiles se entregou a mim, minhas ações eram como um teste para saber se aquilo entre nós era verdadeiro. Eu nunca me senti tão em paz, a leveza que Stiles se encontrava me deixava feliz também, o beijo era diferente e no começo tímido ou constrangedor, mas a gente logo encontrou o ritmo. Meu receio de ser rejeitado pelo meu bando logo foi descartado com todo o apoio que recebi de Erica, Boyd e Isaac. Em seguida os outros também ficaram sabendo e a surpresa estampava a cara deles, mesmo embora a gente dissesse que não era nada sério, ainda. Porém tudo foi rápido demais, mais rápido do que minha percepção pode alcançar e em uma semana meu lobo o acolheu como âncora, uma prova de amor irrefutável, e em uma semana também ele disse que me amava e queria se entregar a mim daquela forma. Toda essa intensidade, causada por longos meses longe um do outro, me intimidou um pouco e eu não soube reagir àquela declaração.
Embora eu não me sinta merecedor do amor de uma pessoa pura como Stiles, olhando para trás e vendo o que a gente passou, eu tenho certeza de que isso é o certo, eu tenho certeza de que o amo! Se quando eu aceitei esse plano de me aproximar dele eu ainda tivesse alguma dúvida dos meus sentimentos, agora elas não existem mais, eu sei que deveria ter começado de outra forma ou então abrir o jogo para ele agora, mas eu não posso arriscar perdê-lo, não depois do tempo que demorou para que ficássemos juntos. Tudo o que eu quero é ter ele em meus braços para sempre, protegendo essa preciosidade do mundo, meu lobo não vive mais sem Stiles ao seu lado.
Ainda no domingo eu liguei para Stiles e o convidei para jantar a noite, minha voz era receosa e não conseguia falar muito, ele também parecia acanhado. Eu me desculpei por ter fugido daquela forma e ele logo me interrompeu, deixaríamos a conversa para mais tarde já que ele aceitou de prontidão o meu pedido. Eu fui buscá-lo em sua casa por volta das sete da noite, parei com o carro em frente a casa e buzinei, segundos depois ele apareceu na porta e sorriu tímido para mim, logo após trancou a porta e veio em minha direção. Ele estava lindo e eu não conseguia tirar os olhos dele quando entrou no carro, seu rosto corou ainda mais quando o elogiei, ele fez o mesmo e em seguida chegou perto do meu pescoço em razão do meu perfume, ele adorava aquela fragrância. Foi então com essa proximidade que eu o beijei.
Trocamos algumas palavras e partimos para um restaurante, incrivelmente era nosso primeiro encontro propriamente dito e eu queria fazer as coisas certas. Escolhi um restaurante de luxo, eu não ia a um lugar assim desde criança com meus pais, mas ele merecia isso e muito mais. Stiles nem queria sair do carro e ficamos uns minutos no estacionamento até o convencer de entrar lá, segurei sua mãe e fui guiando para a entrada, ele se acalmou as poucos e fomos levados até a nossa mesa já reservada. Ele me perguntou pela décima vez se sua roupa estava boa o bastante, respondi que preferia ele sem roupa alguma e o garoto teve um ataque de riso chamando atenção dos outros clientes que comiam em silêncio. Stiles não sabia onde enfiava a cara de tanta vergonha, eu novamente segurei suas mãos e sorri para ele até se acalmar, cada vez mais eu tinha certeza de que ele era a pessoa mais encantadora que conheci.
O jantar seguiu sem mais problemas, a comida nos agradou e a bebida também, a mim pelo menos já que Stiles não bebia, então se jogou mesmo na sobremesa se lambuzando todo no Petit Gateau e eu é claro o ajudei a se limpar dando lhe um beijo. Após a sobremesa, nós conversamos mais sobre nós dois antes do garçom trazer a conta e uma surpresa na mesa. Uma caixinha preta de veludo, Stiles encarou aquilo com os olhos brilhando e eu apenas levantei a sobrancelha indicando que ele deveria abrir. E ele o fez, tudo de ruim que passei desde que voltei para a cidade foi compensado por aquele enorme sorriso estampado no rosto dele ao ver as alianças de ouro branco. Meu coração estava pronto para sair do meu peito e Stiles não tinha palavras no momento, respirei fundo e olhei no fundo dos olhos dele enquanto disse:
– Stiles, aceita ser o meu namorado?
“Não me deixe, fique e me aterrorize. Não me deixe, venha agora e me ilumine, me dê tudo o que tem.”
– Sia
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