Kardiá
6 Vista sua roupa de funeral.
Dos caros vitrais da igreja podia se ver os raios do sol. Era uma bela manhã. Belíssima para um enterro.
Ren e Aron sentavam-se num dos bancos da igreja. Os da frente. Mais próximos o possível do caixão. Ren queria assistir a tudo de camarote. Desde a primeira oração do pastor até o último discurso de algum membro da família. Se o show já estava pronto, por que não se divertir?
Não demorou muito e HaNa logo se juntou aos dois. Preferiu se sentar ao lado de Ren. Os dois haviam combinado até mesmo o que vestir: longos trajes pretos, óculos de sol e chapéus pretos. Algumas pessoas se assustaram ao vê-los. Algumas senhoras chegaram a se questionar se eram de alguma seita ou coisa parecida. Eles não ligavam, só queriam deixar alguma marca naquele evento.
—O serviço do Buffet é ótimo. – HaNa disse, dando uma leve ajeitada no luxuoso chapéu.
—Mamãe sempre soube servir seus convidados muito bem. – Ren respondeu tentando não mover muito o maxilar. Queria dar a entender que não falava. Queria parecer um boneco perfeito, como foi treinado para ser a vida toda.
Aron mantinha-se em silêncio. Funerais não eram seu tipo de programa de final de semana. Por mais que o caixão estivesse fechado, e obviamente estaria, nem sabiam se havia um corpo ali dentro, Aron se sentia desconfortável. A atmosfera estava morta dentro aquele lugar.
—Acho que já vai começar. – Ren disse vendo o conhecido pastor de aproximar do altar da igreja.
Olhou para o lado e talvez por um reflexo bobo viu duas pessoas que conhecia muito bem. As pessoas com as quais nutria os melhores sentimentos. Duas pessoas que marcaram sua vida completamente. BaekHo e MinHyun.
Não comentou nem com Aron, nem com HaNa. Manteve-se calado. Queria passar por despercebido por entre aqueles dois, um dos dois acabaria o reconhecendo. Foi obrigado criar forças para segurar a vontade de ir até BaekHo e abraça-lo, ou a vontade que tinha de contar cada detalhe de sua nova vida a MinHyun. Tinha que segurar isso.
Os dois faziam parte de sua vida antiga. Vida que seria enterrada junto com aquele caixão. E de qualquer maneira, logo, quem estaria debaixo dos 7 palmos de terra seria o próprio Ren. Não seria justo perturbá-los.
O pastor iniciou com um discurso sobre vida e morte que, com toda certeza, era ensaiado. A mesma história sobre Jesus, ressureição, céu e inferno. Um tanto enjoativo.
Um pouco mais de baboseira e finalmente se iniciaram os discursos. E o primeiro, como uma facada no peito de Ren, era o de sua mãe.
A delicada senhora Choi, conhecida por ser a figura mais carismática da família, parecia ter sua luz apagada naquela manhã. Nenhum tipo de maquiagem no rosto, olheiras evidentes e uma expressão que denunciava tristeza. Obviamente, sabia que o filho não estava morto, porém a situação era triste de qualquer maneira. Subiu ao altar, foi até o microfone, tomou um último suspiro e iniciou seu discurso:
— Meu filho é um bom garoto. Ele sempre tirou boas notas. Ele é carinhoso. Meu filho não deve estar longe de mim. Ele é a coisa mais preciosa que eu tenho. – a senhora falava cada frase de cada vez. O choro preso na garganta dificultava a fala. — Eu sinto meu filho vivo o tempo todo. Eu ainda não sou capaz de suportar o fato de que ele não vai mais me abraçar todos os dias. – deu uma leve pausa para tentar parar as lágrimas que teimavam em cair.— A única coisa que eu queria neste momento, era poder vê-lo sorrir uma última vez, já que, na última vez que o vi, ele estava sofrendo. – Ren viu uma lágrima escorrer pelo rosto de sua mãe e agradeceu a si mesmo por estar de óculos escuros. Ninguém veria seus olhos vermelhos segurando as lágrimas. —Eu só gostaria que ele soubesse que eu o amo, onde quer que ele esteja.
Ren queria se levantar e mostrar a sua mãe que estava vivo. Mas de que adiantaria? Vivo era uma condição passageira naquele momento. A qualquer instante seu coração pararia e de que adiantaria dar esperanças a sua mãe? Logo a sua mãe? Por mais que ela nunca mais o visse, pelo menos ela sempre teria uma falsa esperança.
Outros membros da família Choi fizeram seus discursos. Aron, HaNa e Ren podiam sentir a falsidade de cada um deles. Desde quando um irmão afastado de seu avô se lembrava do seu primeiro aniversário?
E como se o clima se falsidade já não fosse sufocante o suficiente, era a vez do pai de Ren fazer seu discurso.
O homem era claramente mais velho e de uma feição que espalhava um sentimento ruim. E ninguém sentia mais esse sentimento ruim do que Ren. O grande Sr. Choi, diferente de sua esposa, era conhecido por ser um homem rígido e frio. Era, até mesmo, surpreendente que ele estivesse disposto a fazer um discurso.
Ajeitou-se de frente para o microfone, tirou um pequeno pedaço de papel do bolso e começou a falar.
—Meu filho morreu. Meu filho homem. Um belo dia ele apareceu doente e esse dia se tornou negro. Todos os dias foram negros depois disso. Minha família adoeceu também. – o homem que lia naturalmente, deu uma pequena pausa. Ren observava sentido a falsidade que aquelas palavras emanavam. Se já sentia raiva de seu pai, ali começou a sentir nojo. —Eu amei meu filho enquanto ele esteve vivo. Amei muito. Mas agora ele se foi. E eu, como pai, me tornei inútil.
—Sabe, uma vez eu ouvi uma música que diz que o verdadeiro nome do amor, é ódio. – HaNa sussurrou para Ren, quando observavam seu pai se sentar.
***
Os três ficaram até o enterro do suposto corpo de Ren. Ele queria presenciar tudo. Queria poder ver cada detalhe até que o corpo estivesse sob os 7 palmos de terra. Era simbólico. Ver seu enterro antes de morrer, se tornou uma ideia interessante. Era como se tudo já estivesse preparado para sua morte. A diferença é que quem preparou não sabia disso.
—Nos vemos logo. – Sussurrou para si mesmo no momento exato em que o primeiro punhado de terra atingiu o caixão.
As outras pessoas, familiares, conhecidos e amigos de Ren, estranhavam os três ali. E sempre havia alguém se questionando sobre quem eram aquelas três pessoas vestidas completamente de preto e que quase nunca se separavam. HaNa e Ren chamavam ainda mais atenção com os óculos escuros e os chapéus.
Mas alguém reparou ainda mais naqueles três amigos.
***
BaekHo e MinHyun caminhavam um ao lado de outro pelo cemitério. Não eram amigos. Tinham apenas algo em comum: Ren. Num momento como aquele, a conveniência os fez companhias. Nenhum dos dois queria estar ali sozinho.
—Não achei que você viria. –MinHyun disse despretensioso. —Fiquei surpreso quando me ligou.
—Seria muito suspeito se eu viesse sozinho. – respondeu, olhando para os lados. Fazia isso o tempo todo. Não queria que alguém desconfiasse de algo pelo fato de estar ali.
—É um enterro. Não seja idiota! Ninguém está em estado de desconfiar de algo. – MinHyun repreendeu. O medo que BaekHo tinha de que as pessoas desconfiassem de algo era irritante. Sempre tentando disfarçar, sempre fugindo, sempre inseguro. —Nem você devia estar pensando nisso. BaekHo, estamos no enterro de Ren!
—Não precisa repetir isso. Eu já sofri demais com a notícia.
—Sofreu mesmo? – MinHyun foi irônico.
—Não seja idiota, MinHyun!
—O único idiota aqui é você. – MinHyun disse nervoso. A relação de BaekHo e Ren era ridícula aos seus olhos. Para ele, BaekHo não passava de um falso aproveitador.
Os dois estavam prontos para iniciar uma discussão. Porém BaekHo, que não queria brigar naquele dia, olhou para os lados num modo de tentar ignorar MinHyun. Viu aquelas três pessoas de preto caminhando pelo cemitério. Desde que chegou ali perguntava-se quem eram.
MinHyun acompanhou seu olhar.
—Você conhece aqueles três? – perguntou.
—Não. Pensei que você conhecia. – BaekHo respondeu. —Eu nunca os vi.
Os dois continuaram observando o trio. Três pessoas completamente vestidas de preto, duas delas com óculos de sol, andando em fila e em um único ritmo. MinHyun jurava ter ouvido uma das tia de Ren perguntando a outra senhora se era alguma seita. BaekHo era mais esperto que isso.
—MinHyun, eu não sei você, mas eu conheço aquele nariz plastificado.
***
O doloroso final de semana passou mais rápido do que todos podiam imaginar. De um lado da cidade, Ren, Aron e HaNa comemoravam a nova e breve vida de Ren, do outro, MinHyun e BaekHo tinham inúmeras perguntas não respondidas e cada vez mais confusas.
MinHyun trabalhava como garçom num tradicional café coreano. Sua família não era rica como a de Ren e precisava de dinheiro para os gastos com a faculdade. Dividia um apartamento com outros dois colegas de turma em GangNam e foi por ali que conheceu o, atualmente falecido, amigo.
Era noite, quase fim de expediente e não havia ninguém no café. MinHyun aproveitou a calmaria e sentou-se, pegou sua própria xícara de café e tomou um gole. Era muitas perguntas e ao mesmo tempo não queria saber as respostas. A morte de Ren era misteriosa, mas em tudo, era morte, ou seja, era definitivo. A morte é definitiva e sem muitas explicações.
BaekHo chegou ao café com seu jeito bruto e sempre desconfiado. Mantinha o costume de olhar sempre para os lados para ver quem estava por perto. Sempre procurando não ser visto.
—Aron Kwak! – exclamou, sentando-se à frente de MinHyun.
—Como? – MinHyun perguntou confuso. Uma pessoa chega e simplesmente fala um nome. Como não ficar confuso?
—Lembra-se daquelas pessoas no sábado?
—No enterro? – percebeu uma mudança do rosto de BaekHo a pronunciar a palavra “enterro”. —Sim, me lembro.
—Umas daquelas três pessoas é Aron Kwak. Trabalha numa agência de publicidade que faz as propagandas de onde eu trabalho. Já nos encontramos várias vezes. – BaekHo trabalhava na parte administrativa de uma famosa empresa de cosméticos sul-coreana. Era um tanto mais velho. Sua ligação com Ren era um segredo. Tudo ligado a BaekHo era um segredo para MinHyun. O que se sabia é que BaekHo e Ren se viam com uma certa frequência e que BaekHo vivia de aparências.
—BaekHo, por que você está fazendo isso?
—Por quê? – soltou um riso irônico. — MinHyun, o Ren simplesmente some, depois ele posta na internet que está doente e então recebemos o comunicado de que ele morreu. No mínimo ele teria avisado a você! Não ligo se ele não me avisasse, mas você...
—No lugar dele eu também não avisaria a você – retrucou. — Agora me diga, por que quer procurar esse tal de Aron? Acabou, BaekHo. O Ren morreu. Já pode voltar a sua vida fútil. – MinHyun sempre fazia questão de mostrar o quanto não suportava BaekHo. —Procure outro alguém para fazer de idiota. – disse como quem jogava as palavras na mesa e se levantou sério.
BaekHo pensou em deixa-lo ir. Mudou de ideia e apenas segurou seu braço. MinHyun não relutou, BaekHo era aparentemente mais forte.
—Você pode achar loucura, mas eu tenho certeza de que o Ren estava entre aquelas pessoas estranhas no sábado.
—Você enlouqueceu.
—É... Talvez...
***
Era uma manhã de bom humor. Ren e Aron estavam animados com o trabalho. O sol estava no céu e os sorrisos estavam nos rosto de todos! Ren estava completamente entusiasmado. Havia muito trabalho a fazer naquele dia e o telefone não parava de tocar. Todo o peso e a culpa que levavam consigo, havia sido enterrados junto com aquele caixão. Sentiam-se livres. Algo inédito!
Já se passava da hora do almoço, Ren estava apenas repassando alguns e-mails, então o telefone tocou.
—Assistente do Sr. Kwak, em que posso ajudá-lo? – respondeu da mesma maneira que atendia todas as ligações.
—Ren? – era BaekHo. Ren reconheceu imediatamente sua voz. Não sabia o que responder. Ficou estático ao telefone. —Ren, é você? Por favor, me diga que é você!
Sentiu seu coração acelerar novamente. Tremia, suava frio. Tinha que tomar alguma atitude é rápido. Pensou na coisa mais óbvia que poderia responder ali.
—Sr. Kwak está muito ocupado e não pode atende-lo agora. Ligue mais tarde. – desligou sem dar a mínima chance de resposta.
***
Ren preferiu não contar o ocorrido a Aron. Esse era um detalhe da sua antiga vida que não havia contado. E não era o momento para começar a contar tudo. Principalmente comentar sobre seu relacionamento com um homem mais velho prestes a se casar.
Procurou um meio de se acalmar sem ser notado e conseguiu. Um pouco de água e silêncio sempre acalmavam um coração doente.
Voltou ao trabalho como se nada tivesse acontecido e com um sorriso ainda mais brilhante em seu rosto, por mais que fosse falso. Sentou-se à sua mesa novamente e o telefone tocou.
—MinKi? – era a recepcionista do prédio. —Há um homem aqui. Ele diz ter uma reunião com o Aron-oppa em nome de uma empresa de cosméticos.
—Deixe-me conferir. – Ren procurou por toda agenda de Aron para aquele dia e havia sim uma reunião com o representante de uma empresa de cosméticos. Por coincidência a mesma empresa onde BaekHo trabalhava. Porém mesmo que estivesse se sentido inseguro quanto a isso, não podia atrapalhar o trabalho de Aron. — Diga-o para subir. – disso ao voltar ao telefone.
Era um costume da empresa que os secretários recebessem os convidados no elevador e os levassem até seu chefe. E com Ren isso não seria diferente. Assim que desligou o telefone, foi direto ao elevador receber o convidado de Aron.
A porta do elevador se abriu. Ren viu toda sua nova vida desmoronar. E BaekHo nunca se sentiu tão aliviado em toda sua vida.
Era BaekHo naquele elevador. O engenhoso BaekHo. Não foi muito difícil para ele usar os contatos do trabalho para marcar uma reunião com Aron. Principalmente porque os dois já se conheciam.
Ren tremia, suava frio, sentia seu coração acelerado novamente. Não era capaz de dizer uma palavra. BaekHo ia se aproximando lentamente e seu única pensamento era que devia correr dali.
Uma funcionária da empresa notou que Ren não parecia bem. Correu até ele preocupada.
—Minki-oppa, você está bem?
—Leve o convidado de Aron até ele. – disse, ofegante. — Eu preciso sair daqui. – saiu correndo como pode, direto para o refeitório da empresa.
***
No silêncio, o tic-tac de um relógio pode ser ouvido claramente. É irritante e perturbador. Principalmente para BaekHo e sua ansiedade.
Estava na sala de Aron, sozinho e esperando-o. Ao que parecia, ele havia tido uma emergência em um outro setor da agência e não pôde recebe-lo de imediato. Pelo menos foi isso que lhe disseram.
Estranhamente ele sabia que essa emergência se chamava Ren.
—Perdoe-me, BaekHo. – Aron dizia, assim que entrou na sala. Afobado e claramente preocupado. —A que devo a visita? Nova campanha? – ia logo se sentando.
Aron e BaekHo se conheciam há alguns anos. Mantinham uma relação puramente comercial. Sabiam muito pouco um do outro. BaekHo só sabia que Aron era Americano e Aron só sabia que BaekHo tinha uma noiva. Quando ouviu de BaeKHo que o motivo da reunião era pessoal, Aron estranhou, porém nunca seria capaz de negar-se a ouvir alguém.
—Diga.
BaekHo hesitou. Por mais que quisesse saber sobre Ren, parecia contraditório. Contraditório porque nunca permitiu que Ren fizesse qualquer pergunta sobre sua vida. E nunca falou sobre ela. E naquele momento estava como um agente procurando qualquer mínima pista dele.
Mas que mal faria?
—Onde você conheceu Ren? – perguntou num único suspiro.
Por um instante, Aron entrou em choque. Primeiramente porque odiava coincidências, e também porque não era bom que algum conhecido de Ren aparecesse. Não naquele momento.
— Como assim?
—Eu vi você no suposto enterro e... Eu conheço muito bem aquele nariz plastificado. – BaekHo sempre teve uma certa implicância com o nariz de Ren. —Só não sei quem era a garota.
Aron não foi capaz de responder.
—Só espero que você não tenha nenhuma ligação com aquele show...
—Não. – Aron respondeu, cuidadoso. — Nós fomos pegos de surpresa também, acredite. – Aron tomava cuidado. Não sabia se BaekHo era da família de Ren. —E você... É algum primo?
—Primo? Não. – soltou um leve riso.
—Amigo?
—Mais que isso. – BaekHo respondeu num tom que deixava tudo muito óbvio.
—Ah meu Deus! – Aron ficou completamente surpreso. Surpreso com Ren, surpreso com BaekHo, surpreso, ainda mais, com os coreanos. —Você não ia se casar? – perguntou chocado.
—Em dezembro. Aliás isso me fez lembrar que eu tenho que te enviar o convite. – BaekHo parecia seguro. Natural sobre suas afirmações. —E você não me respondeu. Como conheceu Ren?
—É uma história muito longa e louca... Eu acho que o próprio Ren deveria te contar.
—Ele não ficou muito bem quando me viu.
—Ah sim! – Aron lembrou-se de Ren passando mal no refeitório da empresa. —Ele teve um probleminha, mais isso é efeito de outro problema maior.
—De qualquer maneira, você é um bom homem. E por ser americano não deve ter os mesmos problemas que eu. Você com certeza vai fazê-lo feliz... – BaekHo usava um tom pensativo.
Quando Aron entendeu claramente o que BaekHo disse, fez uma expressão de espanto mais uma vez. Em momento nenhum cogitou ter algum tipo de relacionamento com Ren que não fosse amizade.
—Não! Não! Não! Não! – Aron repetia em um tom elevado. —Não! Não é... Eu não... Eu sou...Nós não somos tipo você e ele eram... Ou são....
—Não?
—Não... – Aron respondeu aliviado.
BaekHo soltou um suspiro que parecia dizer: “Ainda bem”.
—Fique tranquilo. –Aron continuou. —Como eu disse, é uma longa história. Eu acho que vocês deviam conversar.
—Não acho que ele queira falar comigo.
—Eu obrigo ele.
***
Ren andava como um louco por todo o apartamento. Com toda certeza não havia concordado com a maldita ideia da visita de BaekHo. Não por ser arriscado, BaekHo nunca contaria que o viu. O problema é que não se sentia confortável em vê-lo novamente.
—Aron, qual é o seu problema? – perguntou ainda andando, nervoso.
Aron e HaNa estavam na cozinha. Preparavam juntos o jantar.
—Ren, você parece aquelas menininhas virgens que correm atrás de ídolos ao invés de entrar numa faculdade. – HaNa disse mexendo o molho em uma das panelas.
—HaNa, você não corria por aí atrás do G.O.D.? – Aron provocou. Também havia situações engraçadas no passado de HaNa.
—Eles não são simplesmente ídolos, Aron. São como deuses. – HaNa respondeu e Aron apenas riu. Ela era tudo aquilo que repudiava e nunca assumiria.
Ren finalmente parou de andar como um louco. Começou a prestar atenção em HaNa e Aron na cozinha.
—Em primeiro lugar, HaNa, todas as fãs retardadas falam a mesma coisa. Em segundo lugar, Aron, eu quero te matar! E por último, os dois até que fariam um belo casal. – disse e saiu andando, deixando os dois constrangidos na cozinha.
—Saia de perto de mim, Aron. – HaNa disse, concentrada em preparar a comida.
—Mas...
—Eu vou jogar esse molho fervendo na sua cara se não sair de perto de mim. Não quero que o convidado pense coisas.
—Que coisas?
HaNa pegou um dos panos de prato e simplesmente acertou-o em cheio no rosto de Aron.
—Saia daqui!
—Tudo bem.
***
A campainha tocou e apenas HaNa estava por perto. Ela saiu da cozinha e muito educada abriu a porta.
—Olá!
—Boa noite. – Era BaekHo. HaNa não o conhecia, mas pelas definições detalhadas de Aron e desesperadas de Ren já sabia que era ele. —Eu sou o...
—BaekHo! – interrompeu-o. —Você foi o assunto do dia por aqui. Entre.
BaekHo, um tanto tímido, entrou no apartamento tentando ser o mais educado o possível. Olhava para todos os lados, procurando Ren, mas só havia HaNa ali.
—Pode se sentar! Ren deve estar tendo uma de suas crises e Aron...Bom, eu não sei onde Aron está. – HaNa dizia, fechando a porta. Ela soava cômica para BaekHo.— Fique sentadinho ai e eu vou procurar alguém.
—Tudo bem.
HaNa deixou BaekHo sozinho na sala do apartamento. Ele ficou sentando, comportado. Observou o local a procura de algo que fosse de Ren e a única coisa que encontrou foi uma foto.
Era uma foto simples, a mulher que havia acabado de recebe-lo, Aron e Ren. Ren já estava com os cabelos curtos e escuros na imagem. A foto parecia ter sido tirada em um restaurante tradicional de GangNam. Os três pareciam felizes. Principalmente Ren.
—BaekHo! – Aron apareceu tirando toda a atenção de BaekHo da foto. —Desculpe-me a demora, eu estava tentando não enforcar Ren. – brincou. —Como vai?
—Bem. – levantou-se enquanto respondia. —Eu acho.
—Aron, não adianta! Ele não quer sair daqui! – podia se ouvir o grito de HaNa pelo apartamento. Aron havia a deixado convencendo Ren a ter coragem de se encontrar com BaekHo novamente.
E ela, obviamente, não havia conseguido.
—Já estamos a caminho! – Aron respondeu com outro grito. —BaekHo, se não se importa, vamos ter que ir até Ren, já que ele não vem até nós.
Quando abriram a porta do quarto de Ren, se depararam com a imagem de Ren, já com a cabeça pro lado de fora da janela e HaNa, inutilmente, tentando segurá-lo.
—Finalmente. – HaNa disse, soltando-o.
Ren, lentamente tirou a cabeça da janela e estava completamente no quarto novamente. Ficou paralisado, da mesma maneira que ficou quando viu BaekHo mais cedo. Agradeceu por ter tomado seus remédios, talvez seu coração não daria sinais de falha ali. BaekHo não precisava saber que estava com os dias contados, pelo menos não naquele momento.
—Olá, Ren. – BaekHo disse, mesmo não recebendo uma resposta.
—HaNa, vamos ali. – Aron foi até HaNa e puxou-a pelo braço.
—Ali, onde?
—Ali. – os dois saíram, deixando BaekHo e Ren sozinhos. —Divirtam-se rapazes!
Por alguns segundos, talvez um minuto, os dois se encararam em silêncio. Ren não tinha coragem de dizer qualquer besteira ali. BaekHo tinha a coragem, porém, não sabia o que dizer.
—Gostei do cabelo. – um comentário sutil. Talvez Ren ficasse mais confortável.
—Obrigado. – Ren, finalmente, foi capaz de dizer algo.
BaekHo voltou a pensar no que poderia dizer. E pensou no mais óbvio.
—O que aconteceu, Ren? – foi direto ao ponto. Ele foi ali para isso. E também todos os possíveis tópicos para qualquer conversa acabariam nesse. —Você desapareceu...
—É uma história tão... – suspirou. — Longa. – pegou a cadeira de sua mesa, levou-a até perto de sua cama. —Sente-se, eu vou te contar.
Em silêncio, BaekHo se sentou.
Ren sentou-se na cama. Bem de frente para BaekHo. Queria poder olhá-lo pelo pouco tempo que fosse. Abriu a boca e começou a contar tudo. Começou exatamente na últimas vez que se viram e foi até o momento em que começou a trabalhar com Aron. Não contou que estava morrendo.
—Eu me sinto um inútil. – BaekHo disse, decepcionado. Não pode ajudar Ren não lhe dava o mínimo orgulho.
—Não é sua culpa. E eu me sentiria mal se acontecesse algo com você por minha causa. – Ren respondeu, consolador e verdadeiro. Não desejava para ninguém aquilo que havia passado. —Não existem dois Aron’s no mundo.
—Eu já vi que não. – deu um leve sorriso. —Pelo menos não na Coréia.
***
O que muitos não sabiam, nem mesmo Ren, é que Aron sempre teve uma mesa de jantar no apartamento. Ficava escondida em algum lugar entre a cozinha e a sala de estar. Basicamente a mesa era coberta por coisas que Aron não sabia onde guardar, coisas que HaNa deixava por ali e outras tralhas, por isso Ren nunca havia reparado no móvel.
—Temos uma mesa de jantar?
—Quando Aron e eu queremos, sim. – HaNa respondeu segurando uma das panelas, se aproximando da mesa. —Não fiquem no meu caminho!
—Nós precisamos de um lugar para guardar nossas coisas, a mesa é um ótimo lugar. – Aron apareceu levando pratos de talheres. —E como nós nunca temos visita nunca fez muito sentido tirar nossas coisas daqui.
—Porque nunca fizeram isso para mim?
—Você não é visita, Ren! – HaNa respondia nas idas e voltas em que levava a comida para a mesa. —E o jantar hoje é comida americana, é pro Aron e não para o convidado.
Ren cogitou fazer algum tipo de comentário sobre HaNa e Aron novamente. Mas HaNa já era ameaçadora normalmente, com panelas quentes em mãos ela seria destrutiva.
***
Ren vinha de uma das famílias mais ricas da Coréia do Sul, já havia jantado em todos os restaurantes de luxo em GangNam e conhecia o cardápio do Mc Donald’s coreano de cor... Mas nada era como a comida de HaNa. Nada era como a comida Americana de HaNa.
—Eu não sei como se pronuncia o nome de metade desses pratos, mas está tão gostoso que eu nem ligo! – BaekHo disse, encantando.
—Obrigada. Mas ainda não vou com sua cara. – HaNa era sempre sincera.
—HaNa! – Aron repreendeu, enquanto BaekHo o encarava assustado. —Não ligue para isso, BaekHo, a HaNa é um pouco sincera.
—Ela faz isso mas vai acabar gostando de você. – Ren completou. —É o jeito dela.
—Eu não vou gostar desse cara! Eu nem lembro o nome dele.
BaekHo não respondeu, Ren e Aron também não. Não era muito agradável discutir com HaNa. Ela sempre encontrava um jeito de estar certa no final. Nem mesmo Aron era capaz de provar o contrário.
Os quatro comeram em silêncio por alguns minutos, o espírito de franqueza de HaNa havia os deixado constrangidos. BaekHo, corajoso, decidiu quebrar o gelo:
—Então, Aron, há quanto tempo você e a...HaNa estão juntos?
HaNa, imediatamente largou os talheres que segurava e olhou para Aron, que estava ao seu lado, com um olhar mortal. Aron e Ren pararam imediatamente o que estavam fazendo e apenas BaekHo prosseguiu normalmente.
Ele não tinha noção do caos que havia causado.
—Juntos? – HaNa perguntou, irritada. —Juntos, Aron?
—Eu tenho certeza de que ele não quis dizer isso. –Aron tentava manter o controle da situação. Por mais que fosse impossível. HaNa uma vez nervosa, ninguém era capaz de controla-la.
—Você não são... – BaekHo ia fazendo mais uma pergunta inconveniente.
—Nem pense em terminar essa sentença. – HaNa direcionou seu olhar assassino de Aron para BaekHo. —E se até o final do jantar alguém insinuar mais alguma coisa, eu esfaqueio todos.
***
Da sala de estar, Ren e BaekHo podiam ouvir os gritos de HaNa vindos do quarto de Aron.
Depois do jantar, ela lavou toda a louça perfeitamente, e logo arrastou Aron para o quarto. Não queria ter que brigar na frente do convidado.
—Se ele insinuou alguma coisa, é porque você falou! – HaNa gritava, claramente nervosa. –O que mais você falou por ai?
—Eu não falei nada! – Aron tentava acalmá-la, mas no fim acabava gritando também. —Ele deduziu isso porque...
—Por que, o que? – ela continuava gritando. —Você falou alguma coisa pra ele. Imagina o que não fala pros seus coleguinhas de trabalho! Eu devo ser sua esposa! Talvez até sua escrava sexual!
—Enlouqueceu?
—Você por acaso fala meu nome verdadeiro? Você pode ter inventado outro pra mim! Son DamBi, talvez!
—HaNa, pra que todo esse drama? Ele deve estar ouvindo nossos gritos lá da sala! – Aron ia abaixando o tom e já ficava difícil para BaekHo e Ren ouvirem a discussão.
—Se quiser eu vou lá na sala e falo na frente dele!
De repente, silêncio.
Não se ouvia mais uma palavra dos dois. Ren e BaekHo não sabiam se era bom ou ruim. Ao menos era agradável.
Os dois estavam sentados no sofá, mais próximos o possível que dois corpos poderiam ficar, mãos dadas e uma vontade absurda de nunca mais se separar.
Mas de volta à realidade, BaekHo não podia demorar por ali ou sua noiva poderia desconfiar.
—Acho que causei confusão. – BaekHo disse, mesmo depois do aparente fim da discussão.
—Não. Já era a hora de alguém abrir os olhos do dois. – Ren respondeu, parecendo tranquilo, chegou a dar um risinho no final da frase. —Eles se amam, só não sabem disso.
Ren e BaekHo se conheceram em uma das principais boates de GangNam. BaekHo era só mais um riquinho de carreira estável numa empresa de cosméticos que importava produtos para toda a Ásia, apenas se divertindo numa noitada com colegas de trabalho mais babacas que ele.
Os dois se encontraram por meio de uma amiga em comum. Depois de uns copos de vodka e drinks de nomes estranhos, os dois acabaram num desses encontros casuais que termina em sexo.
Na manhã seguinte, BaekHo negou tudo de todas as formas. Afirmou que nunca mais queria ver Ren, que ele tinha toda uma vida a manter e algumas baboseiras religiosas e conservadoras.
Uma semana depois, BaekHo conseguiu o número do celular de Ren e os dois passaram a se encontrar sempre.
O problema é que além do fato da Coréia do Sul ser um país preconceituoso, BaekHo tinha uma noiva.
—Eu não posso ficar muito tempo aqui... Você sabe.
Ren não respondeu de imediato. Sabia que BaekHo já morava com sua noiva naquela época. Ela iria desconfiar se ele chegasse muito tarde.
—E quando é o casamento?
—Em dezembro.
—Não se esqueça de mandar o convite. – Ren parecia irônico, mas não era. Gostaria de estar vivo para ver o casamento de BaekHo. Ele ficaria bonito num terno de noivo.
—Não acho que você deveria passar por isso. – BaekHo se referia à humilhante ideia de Ren assistir ao seu casamento sabendo de tudo, sem poder dizer nada.
—Eu não me importo, eu quero ir.
***
BaekHo ficou no apartamento com Ren por não mais que duas horas. E ainda sim já era tarde. Os dois não fizeram nada além de conversar, conversar e conversar. Pela primeira vez, BaekHo contava sobre sua vida para Ren, que aliás, nunca esteve tão feliz em ouvir.
Saiu dali lutando contra todas as suas vontades de ficar. E sempre com a mesma promessa da qual Ren já sentia falta: “Nos vemos logo.”
Ren ficou no sofá, pensativo. Não havia contado sobre sua doença. Mesmo querendo ir ao casamento de BaekHo, não tinha certeza se estaria ali até a data. Não tinha certeza nem se veria BaekHo novamente.
E caso não o visse, até que aquela teria sido uma despedida justa.
Ainda perdido em seus pensamentos, Ren notou alguém passando pela sala. Era HaNa, descabelada, com o vestido, que sempre estava perfeito, completamente desajeitado, segurando os sapatos nas mãos e com o rosto corado.
Ren olhou por um simples reflexo.
—Não olhe para mim, Ren. – disse, sem desfocar do objetivo maior, que era a porta.
Ele a obedeceu.
Assim que HaNa saiu pela porta, Aron vinha pelo corredor, também descabelado, sem camisa e com a calça desabotoada e desajeitada.
—HaNa, espere! Nós precisamos... – foi interrompido pelo bater da porta.
Ren o encarou curioso. E ele respondeu com um olhar envergonhado.
—Você ouviu alguma coisa, Ren?
—Depois da parte em que ele queria vir gritar aqui, não.
—Ren, anote na agenda para amanhã: Ligue para a empresa que fez o isolamento acústico e diga que eles fizeram um ótimo trabalho aqui.
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