Karakuri Burst
74 Karakuri Burst.
Notas iniciais

LEN POV'S ON
Não sabia o que havia de errado comigo.
Não era isso o que eu queria?
Merda. Pra quê fiquei tão fissurado nisso? Era a primeira vez que não queria lidar com a verdade. Não tinha porque confiar em tudo que a Hatsune falava, mas eu não estava na opção de duvidar. Só tinha uma única pessoa que podia contar a verdade, de verdade.
Só que isso nunca iria acontecer.
Mordi meus lábios com força. Nunca quis machucar ela. Rin é teimosa de natureza e artificialmente, mas isso não era desculpa pelo o que fiz com ela.
Ah, é.
Rin é quem matou. Quem roubou, mentiu, enganou. E por boa parte da minha vida eu a odiei. A vi como a desgraçada que tinha de prender. Era quem carregava um caos pessoal como bagagem de mão. ‘’Só’’ uma psicótica qualquer, que criava, causava, gritava e ria do sofrimento das pessoas.
E eu era o bom e ela a má.
Mas agora eu sabia que estava tudo errado.
Eu era o mau e ela a boa. Não o contrário.
Rin nunca teve vontades. Ou direito de escolha. Nunca decidiu nada. Nem optou por algo. Mas eu sim. Tive vontade de a confinar, pra que sofresse sozinha até que morresse. Escolhi a perseguir, quando podia recusar ou desistir. Decidi torná-la minha inimiga, e me obcequei nisso. Optei a odiar, simplesmente porque quis.
Tentei te matar, Rin. Mais de uma vez.
Era pra eu estar no lugar dela. Ela era a ‘’criança errada’’. Ela sofreu o que eu tinha de sofrer. Matou quem eu tinha de matar. Chorou pelo o que eu tinha de chorar.
E quando eu a vi pela primeira vez em oito anos, eu quis a matar.
Não perguntei, não me interessei, sequer pensei.
Só queria que morresse.
Que merda eu venho fazendo com ela todo esse tempo? Desde sempre eu tripliquei o inferno que foi a vida dela. E ainda tinha a coragem de dizer que ela era ‘’ruim’’.
Agora tinha mais certeza do que nunca.
Eu e ela éramos completamente opostos.
E eu não tinha razão nenhuma pra ficar feliz com isso.
Olhei para ela, parada, no outro canto da sala. Seus braços estavam cruzados, amassando aquele vestido vermelho. Assim como eu, parecia dar a mínima para as outras pessoas ali. Claro, ouvia os surtos da Hatsune, os barracos da Meiko, as frases sem nexo da Gumi, e os gritos da Luka. Pouco me importava com Piko, e menos ainda com Kaito. Mas ainda assim, estava num mundo só meu e dela.
Sabia que ela tinha esquecido da minha existência, e que, pra ela, não era mais seu namorado. Agora, não era nada mais do que o ‘’policial de espadinha’’. Sabia que agora, a Rin não estava vivendo, apenas existindo.
Mas eu a traria de volta. Traria a vida dela de volta, junto com todas as memórias que tivemos durante esse ano. Nem que tivesse de ser a força. Não agüentaria mais a ver sendo escrava em uma prisão sem grades. A verdadeira Rin está dentro desse fantoche em algum lugar. E se eu não a conseguir achar, eu grito para que ela mesma se ache. E se ela não ouvir, eu grito mais uma vez, quantas vezes forem necessárias.
Só estava fora de cogitação perder a minha ladra de quinta.
Tinha um débito muito grande com essa garota, e eu não podia mais ignorar isso, ou simplesmente não ver.
Ela apertou os olhos quando notou há quanto tempo estava a encarando. Sua indiferença não chegava a ser intimidadora como deveria ser. A esse ponto me sentia na obrigação de enfrentar a marionete.
Talvez a verdade tenha sido cruel demais para que eu a aceite de vez, mas eu não iria continuar a negando pra sempre. Talvez eu esperasse algo diferente desse passado, mas se fosse realmente diferente, não seria verdadeiro.
Tinha que arcar com as conseqüências do que eu fiz e deixei de fazer.
Afinal, preferia morrer com a verdade a continuar vivendo essa mentira.
-E então? – Miku bateu os saltos no chão, do alto de sua cadeira. – Satisfeito?
Olhei Rin por mais alguns segundos antes de prestar atenção na Hatsune. Agora estava mais do que óbvio que ela resolveu falar comigo, embora eu estivesse a ignorando na maior parte do tempo.
—Acabou.
—Quê?
—Eu disse que acabou. Seu tempo de ser filha da puta acabou.
—Oh. — Ela batucou os dedos no tablet em seu colo. – Isso quer dizer que você vai tentar me matar?
—Claro que não. – Respondo calmamente. – Vou conseguir. Não tentar.
—Gosto desse entusiasmo assassino. Sabe quem você me lembra? – Sua cabeça tombou em direção a Rin. – É uma pena que eu te odeie. – Deu de ombros. – Afinal, você afastou a Rin de mim. Que coisa feia. – Fez uma careta de desaprovo. – Mas, se vai mesmo insistir em tentar me matar...
O barulho do revólver se destravando aquietou a sala.
—Vai precisar me matar primeiro. — As mãos firmes no cabo do revólver, pareciam mirar perfeitamente na minha cabeça. Com os olhos fixos em mim, Rin deu um passo para frente. — Mas nós dois sabemos que não vai conseguir. Embora nada te impeça de... ‘’tentar’’.
A encarei de volta.
—Eu não vou te matar.
—Não conse...
—Não é questão de conseguir ou não. – Dou um passo para frente, me aproximando mais um pouco dela, conseqüentemente aumentando sua guarda. Coisa que fez seus dedos pararem no gatilho. – Eu não quero te matar. – Respiro fundo, me aproximando mais um pouco. – Eu não posso te matar. – Mordo meus lábios com força. – Porque, pro seu azar, eu continuo te amando mesmo quando você me odeia.
Eu não acho que você saiba o que está fazendo comigo, Rin.
Ela não mudou a expressão. Não mudou em nada. E por um momento, a sala ficou muda, não houve som de nada e ninguém. Parada, no mesmo lugar, e segurando um revólver na minha direção, ela parecia pensar, bem quietinha.
Olhei de soslaio para Hatsune. Tinha certeza absoluta que isso era uma perda de controle da parte dela.
Afinal, Rin estava pensando. E naquele momento, ela não pensava sozinha.
—Rin! – Miku gritou alto o suficiente pra deixar qualquer um dali sem audição. A insatisfação combinada com a raiva estava a deixando pior do que já era.
Rin ajeitou a postura e mordeu os lábios. Olhou pra mim com descrença e logo percebeu há quanto tempo havia ficado quieta.
—Eu não confio em você.
—Sei que não.
—Uh. – Miku torceu o nariz. – Quanto melodrama. Mas isso vai acabar já. Já cansei de esperar o final trágico de vocês.
—Quer, por favor, parar de estragar o momento de reconciliação? – Gumi resmungou, aparentemente enjoada da situação.
A Hatsune revirou os olhos, e pôs o cotovelo no braço da cadeira. Deitou sua bochecha na palma da mão, e fechou os olhos, como se estivesse entendiada.
—A tragédia se dá não só pelo ‘’casalzinho’’, garota. E sim que vamos ter um mini massacre de pessoinhas intrometidas. Afinal, agora vocês sabem do meu... Segredo. Fiz o estereótipo de ‘’vilão’’ mais chato, aquele que conta o plano todinho e os retardados do bem fazem alguma coisa. Sou obrigada a dizer que tudo isso é um tanto entediante. Não posso deixar nenhum de vocês saírem daqui sabendo do que eu fiz. – Ela fez biquinho, com a atuação de tristeza mais meia boca até agora. — É uma pena, porque sabe, eu não gosto de você. Sem ressentimentos, eu só... Acho você irritante.
Foi absurdamente rápido pra alguém fazer alguma coisa.
Ninguém soube reagir de primeira. Rin e Gumi, eram, são, melhores amigas. Era quase irreal aquela cena. Simplesmente, faltava sentido na hora.
E quando a Hatsune começou a rir, eu me dei conta do que estava acontecendo.
Rin tinha atirado na Gumi.
Olhei para ela, que não esboçava reação nenhuma. Nada mais do que indiferença. A boca do cano do revólver ainda estava quente, com uma pequena fumaça saindo dela. Rin olhava atentamente para Gumi, apenas para confirmar se seu tiro, de fato, havia sido certeiro.
Não podia deixar a Rin arrancar a vida de mais ninguém. Não era isso o que ela queria.
Era o que a Miku queria. Eu entendia qual era a vontade de sua mente doente. Ela já tinha feito isso no passado uma vez. Iria cortar tudo que a fizesse feliz. Desde as amigas, até a mãe. E agora, estava fazendo isso de novo.
Aquilo era medo de perder a Rin? Provavelmente.
E por conta disso, ela iria carregar a culpa pelo resto da vida.
Culpa por algo que não fez.
Culpa por algo que foi forçada a fazer.
E eu tinha medo dela não conseguir agüentar. Pelo menos, sozinha, não.
Não estava perto de Gumi, e nem corri para lá. Eu era um desgraçado egoísta, e tinha noção disso. O fato é que eu não conseguia me comover e correr até lá, quando eu tinha a Rin á minha frente. Mesmo sendo artificial por fora, ainda enxergava a verdadeira por dentro.
E era por isso que eu não podia a deixar sozinha.
De novo, eu sou um desgraçado egoísta, eu sei.
Escutava o desespero dos quatro.
Tanto Luka como Meiko estavam assustadas. Utatane, mesmo naquela situação, tentou parecer o mais calmo possível. Não conhecia Piko o suficiente pra saber se ele daria um jeito no pouco tempo que tínhamos, mas imaginava que ele não deixaria a jujuba dele morrer.
De qualquer forma, ninguém ali era milagreiro.
Então eu dava alguns minutos antes de ser tarde demais.
Luka sacou o celular em um instante.
—O que foi Megurine? Pretende ligar pra ambulância? – Hatsune mordeu o dedo, claramente animada com tudo aquilo. – Poxa, espero que não fique chateada quando notar que aqui não tem sinal algum.
Rin deu um sorriso com aquilo. Ela percebeu que havia feito tudo ‘’certo’’.
Se já não tinha pressa de mostrá-la como era viver de verdade, sem ser manipulada pela vontade dos outros, agora estava pior. Eu não tinha tempo a perder, uma vez que eu tinha tudo a perder. Parecia que estávamos brincando de roleta russa, onde só a Rin era quem atirava. Quanto tempo eu tinha até ela atirar na Meiko? Ou no Piko? Ou Luka?
A questão era quanto tempo a Hatsune pretendia nos manter vivos.
—A Vossa Pirralheza...— Sua voz carregava uma raiva maior do que poderia agüentar. A Meiko realmente estava puta. – Vai matar todo mundo aqui dentro, não vai? Então antes de assinar meu óbito, quero que me explique uma coisa. O que ele tem a ver com tudo isso?
Ah, é. O outro filho da puta da história.
Kaito.
Era ele o responsável do seqüestro da Rin. Ele que tentou cegar duas crianças de oito anos. Ele que a arrastou pra esse inferno. Por culpa dele eu tentei matar a Rin.
Tanto Shion quanto a Hatsune se mereciam.
—Meiko, — Parecia que ia gaguejar a qualquer instante. — mesmo que não acredite em mim, eu sei que posso explicar.
—É, é, pode sim. – Miku cortou sua fala. – Pena que ela pediu pra mim. – Sorriu, como se alguém finalmente houvesse a animado. — Não precisa agradecer querida, hoje, como estou bondosa, vou dar satisfações pra esse povinho que são vocês. – Ergueu os braços e se espreguiçou. Podia reclamar o quanto quisesse de seu estereótipo, mas enquanto o fizesse, mais tempo nos mantinha vivos. — Bom, Kaito na verdade é meu adorável irmãozinho. Não de sangue, é claro, imagine a desgraça. Nós só... Temos o mesmo pai. Papai tinha outra mulher, e um outro filho, antes de conhecer a minha mãe. – Sua mão tombou em direção a ele. – Por isso, ele é meu irmãozinho. Ninguém da família da mãe dele gostava do papai, e então, ele perdeu o controle mais uma vez, e ficou furioso. Sabe como é, Primeiro era um homem que gostava de ser aceito, não renegado. Por isso, pagou para matarem toda a família do Kaito. – Deu uma pausa e pôs a mão no coração. – Muito triste né? Eu também não acho. Quando a mãe do Kaito descobriu o ocorrido, minha nossa, ela ficou tão triste que entrou em depressão. Nem mesmo o filhinho, tão amado, dela, conseguiu a deixar feliz. E foi por essa razão que ela se suicidou. E, claro, acabou deixando o Kaito sozinho com o papai.
—Miku. – A censurou. Aparentemente não estava tão ‘’contente’’ assim de expor seu passado. Mas isso era problema dele, e não nosso.
—Ah não, Kaito era tão pequenininho, tinha só dois anos. O que ele iria fazer? – Ela deu uma risadinha. – Não tinha mais nenhuma família além do papai. Pra onde ele correria e o que ele iria fazer? Pois é. Ele não correu. Só se escondeu na sombra de Primeiro. Dois anos depois desse momento tão fatídico, ele conheceu minha mãe, e não muito tempo depois, nasceram gêmeos muito lindinhos. – Ela colocou o indicador na bochecha. – Eu, e o Mikuo. Nós ainda tínhamos um irmãozinho, Kaito, pra brincar. Pena que a mamãe morreu enforcada porque nosso pai ficou muito, muito chateado com ela. Claro, todos nós ficamos muito tristes, mas a vida tinha que seguir. E assim que crescemos, Mikuo resolveu se trancar no quarto pra estudar tecnologia, eletrônica, computação, e um pouco de biologia. Kaito decidiu que iria embora daqui de qualquer jeito, mesmo que tivesse de fazer qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, para que enfim Primeiro o deixasse ir. – Ela revirou os olhos. – Kaito sempre foi um total fracasso nisso. Não é como se o papai iria o deixar ir. Se as coisas não irem de acordo com o planejado, ele consertaria. E eu? Eu fui além. Escolhi ser algo muito maior do que os dois fracassados decidiram ser. E pra isso, odeio admitir, eu precisei de todos, inclusive da Rin.
—É isso? – Meiko perguntou, ainda furiosa. – É só isso?
—Óbvio que não. Eu não tenho uma trama tão fraca assim. E precisamos admitir que tudo ‘’isso’’ não é ‘’só’’. Kaito estava desesperado pra sair desse lugar. Ele parecia a Rin quando era pequena, só que todos os dias. Ele fazia o que for preciso, apenas para sair do lado do homem que matou sua família, e levou a morte de sua mãe. Até mesmo, vejamos, seqüestrar uma garotinha chata de olhos azuis, junto comigo. Era o instinto de sobrevivência, queridos. Se ele não fizesse o que tinha de fazer, o que acham que aconteceriam com ele? Quando é que ele sairia daqui?
Sinceramente, pouco me fodia pra isso.
Ele era um homem agora, não um pirralho assustado. Sempre teve a oportunidade de dizer alguma coisa, justamente pra mim, que era amigo dele. Talvez não melhor amigo, mas o melhor que ele poderia ter.
—Sabe Len, eu adoro a Rin. – Olhei pra ela com a mesma indiferença que olhava Kaito. — Também achava que vocês formariam um ótimo casal, uma vez que Rin me enchia o saco falando de você praticamente todo o dia. Não me leve a mal, mas eu realmente te odeio. Você vem atrapalhando meus planos com a Rin, e isso é muito irritante da sua parte. Precisei até mesmo apagar você da vida dela, mas você... Continua voltando. O que é muito inconveniente. No passado, eu tive medo que você viesse atrás da minha amiga. Ainda mais depois daquela promessa de criança retardada que os dois fizeram. Então, eu precisava que alguém vigiasse você o tempo todo. Só pra ter certeza que não iria atrás dela, entende?
‘’De qualquer forma, já estou há quatro dias esperando você acordar, pra poder terminar esse pequeno experimento. Então... – Ela olhou para o desconhecido nem tão conhecido assim, e sorriu. – Está na hora de você mudar de criança. ‘’
Mudar de criança.
Foi nesse mesmo ano que eu conheci o Kaito.
—Se você forçar a sua memória só um pouquinho, vai se lembrar que sempre teve alguém em algum canto da sua vida. Lembra-se da sua vida num reformatório bem aconchegante? E então, foi arrastado a força, junto com um amiguinho seu, aquele Oliver, pra um lugar onde pudesse ser... Menos imprestável? Tive que colocar alguém extremamente adorável pra recepcionar os pirralhinhos sujos. E, claro, pra te vigiar.
‘’Descemos da vã e uma grande porta de metal se abriu, mostrando um homem mal encarado de cabelos vermelhos. Oliver me olhou de cima a baixo e torceu o nariz. O avermelhado que nos conduzia, enfim se pronunciou.
—Assim vocês parecem até gêmeos. ‘’
—Nunca foram devidamente apresentados, não é? Ou melhor, estava tão assustado que não sabia fazer nada. Se bem que a esse ponto, apresentações são dispensáveis. Mas, mesmo assim, ainda te faço esse favor. Aquele é o Akaito. Sabia que ele trabalha pra mim? – Ela pôs as mãos nas bochechas. — Qual era o problema dele dar uma olhadinha num pirralho chato? Nenhum. Eu conheço todos vocês. Não só conhecer de vista, mas conheço a vida toda de todos vocês. Talvez vocês achem engraçado, talvez fiquem irritados com isso, mas não tem nada que eu não saiba. Então, eu me sinto obrigada a perguntar: Não tem nada na vida de vocês que vocês desconfiem?
Pelo canto do olho, troquei olhares com aqueles três. Eu já tinha uma leve idéia sobre isso, e parecia que não era único. Luka, Meiko e Piko, que nem estava prestando tanta atenção assim, por motivos óbvios, aparentemente já estavam cientes do caso, assim como eu.
‘’–Eu te conheço loirinho. Deixe-me pensar... Kagamine Len, agente oficial da Karakuri né? Como consegue trabalhar naquele lugar?’’
Fechei os olhos e mordi a boca, só escutando algo que já sabia.
—A vida é engraçada. E esse mundo, é pequeno demais. Afinal, quem diria que Primeiro e Big Al são aliados financeiros,
Assim como a Karakuri e a Burst são sócias?
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