Karakuri Burst
66 Julgue.
Notas iniciais

RIN POV’S ON
Flashback on
Kaito parecia morto.
Suas mãos eram geladas, e ele, frio.
Á medida em que caminhávamos eu pensava e pensava no que estava fazendo. Meus olhos passeavam em cada pedrinha que o chão pudesse ter. Ás vezes perdia o rumo e andava mais devagar que ele, e ele não tardava a me puxar para andar mais depressa.
Seus dedos se enroscavam no meu pulso de um jeito apertado. Pensei várias vezes em soltar a minha mão da dele, mas ele me prendia com aqueles dedos gelados.
Meu braço bateu num portão, enferrujado, de metal. Passei a olhar para cima. Aquelas pedrinhas que havia no caminho não me divertiam mais. Enquanto era puxada por Kaito, espiei por cima dos ombros o portão que eu tinha acabado de acertar. Era um simples portão sem cor, que parecia perfeito para eu colori-lo, nem que seja só um pouquinho. Não era muito grande, talvez um pouco maior que uma porta.
Só via grades se estenderem a partir daquele portãozinho como se fossem as cercas do esconderijo secreto. Elas eram altas e iam até onde meus olhos não podiam ver.
Espiei Kaito entre um passo e outro.
Ele era sério.
Franzi as sobrancelhas e joguei minha cabeça para trás. ‘’Woah’’ esse lugar era grande e feio. Senti alguns fios se desgrudarem da minha testa com as poucas caretas que fiz. As luzes de fora acabaram chamando minha atenção.
Era tão... Branco.
As paredes eram sujas, mas tão esbranquiçadas. Tinham várias rachaduras escondidas entre alguns cantinhos. Meus olhos não conseguiam enxergar um fim para aquelas longas paredes. E se aquele fosse outro grande castelo como a minha casa?
Só que... Maior.
Segurei os dedos de Kaito e os puxei duas vezes.
Apontei para o lugar a minha frente.
–É... Um hospital?
Ele olhou para mim, depois para frente.
–Não. – Me sentia cada vez mais próxima de um castelo estranho a cada passo que dávamos. – Sabe para que servem hospitais?
–... Sei... Eu acho... É, acho que sim. – Olhei para ele, que só me encarou de volta. – Acho que... Servem para curar as pessoas doentes, não servem?
– Isso. – Ele voltou a olhar para frente, tomando atenção ao pouco caminho que restava até uma porta acinzentada com uma luz encima. – Isso Rin, Isso. E aqui... – Ele puxou minha mão com mais força, percebendo que eu estava começando a andar mais devagar por estar olhando para ele, e não para o caminho. – Não vão tirar doença nenhuma de você. Eles vão colocar. Assistir você sofrer. Assistir você morrer. – Puxou minha mão mais uma vez. – E que eu saiba, hospital nenhum faz isso.
...Doença?
Sofrer e Morrer.
Por quê?
–Por quê?
–Porque é o que eles querem.
–Porque comigo?
–Porque é você quem eles querem.
Observei Kaito espalmar a mão na porta acinzentada que separava o ‘’de dentro’’ do ‘’de fora’’. Antes dele poder ter a chance de empurrar a porta, eu puxei seus dedos uma última vez.
–Porque você?
E empurrando a porta, ele respondeu.
–Porque eu não tenho escolha.
////
As pessoas me olhavam estranho.
As mulheres tinham coques bem presos nos topos de suas cabeças, e os homens eram assustadores. Todos usavam máscaras que cobriam suas bocas e luvas que escondiam suas mãos.
Algumas torciam seus narizes como porquinhos torciam seus focinhos. Alguns também viravam a cara.
Me sentia pequena e baixinha perto de cada um deles. Pequenos saltos estalavam de um lado para o outro conforme algumas mulheres passavam por mim. Só me sentia menor ainda.
Dessa vez, era eu quem apertava fortemente os dedos de Kaito. De tempos em tempos, ele balançava seus dedos, como se tentasse criar uma folga entre meus apertos. Não conseguia soltá-lo. Ele não dizia nada, mas eu tinha uma vontade enorme de fazer mil e uma perguntas a ele.
Então cruzava com uma daquelas pessoas escondidas em jalecos brancos, máscaras de papel em frente suas bocas e luvas apertadas ao redor de seus pulsos. Então perdia as palavras. Então tinha medo de me mexer.
Então Kaito me puxava.
Acompanhava os reflexos das luzes, presas no teto, nos pisos de largos azulejos brancos que se espalhavam pelo chão simetricamente. O ar dali era muito frio. Nem mesmo o casaco da Miku conseguia me proteger do que eu sentia.
Olhei para frente e para trás, só vendo as estranhas paredes brancas. Por fora, era um castelo estranho, por dentro, um castelo esquisito. Pelo menos, aqui dentro, as coisas tinham um aspecto novo. Constantemente ouvia o bater de teclas ou de portas. As pessoas andavam sem pressa, numa calmaria quase infinita.
Não ouvia murmúrios, nem conversas.
Com a mão livre que me sobrava, eu apertava as bordas do casaco dela.
–Onde... – Olhei para os lados apenas para ver rostos bravos comigo. Me virei rapidamente para Kaito, que já me encarava, com as sobrancelhas arqueadas, me censurando somente com os olhos. – Onde... Está a Miku?
Ele balançou a cabeça umas poucas vezes, murmurando a palavra ‘’afeto’’.
–Nós já vamos nos encontrar ela. – Ele esticou a mão e apertou um botão prateado que era estranhamente alto para mim. – Anda logo. – Seus olhos foram e voltaram até o elevador que acabara de se abrir. – Não temos muito tempo.
Entrei no elevador sendo puxada por Kaito. Diferente de todos os elevadores que entrei, esse era bem grande. E não tinha nenhuma música no ar.
Demorei a perceber que havia espelhos em cada lado do elevador.
Demorei a perceber que aquela no espelho era eu.
Me despertei pelos passos de Kaito em direção aos botões do elevador. Tinham muitos. Espiei quietinha qual deles que ele iria apertar. As portas não se fechavam porque ele não apertava um botão sequer. Observava Kaito encarar cada botão prateado, com os números pretos gravados na superfície, e franzir as sobrancelhas.
Olhei para o lado em que as portas do elevador ainda não escondiam. Um pequeno barulho de rodinhas fazia som no corredor. Quis botar minha cabeça para fora para ver o que era, mas minha mão ainda prendia a mão de Kaito.
Os barulhos ficavam mais altos, cada vez mais próximos.
Puxei os dedos de Kaito mais de vinte vezes quando o som das rodinhas passou em frente à porta do elevador. Ele segurou firme minha mão, quase me mandando calar a boca, sendo que não havia dito nada.
Ele olhou pra mim e eu olhei para ele.
Depois para porta.
Lentamente ele direcionou o seu olhar para porta, até que nós dois ficamos encarando aquilo junto. As rodinhas eram os pés de uma cama de metal. Encima tinha uma coisa embaixo de um longo pano branco. Por trinta centímetros o pano não arrastava no chão.
E atrás, como se empurrasse uma pessoa de cadeira de rodas, estava uma outra pessoa. Eu não sabia se eram um moço ou uma moça. A pessoa usava uma roupa que cobria ela todinha. Era estranho.
Comecei a pensar se tinha alguém dormindo ali embaixo dos panos.
O barulho de rodinhas foi ficando longe. E quando vi oportunidade de cutucar Kaito mais uma vez, eu cutuquei.
–O que... – Olhei para ele, que já me encarava esperando que eu fosse perguntar algo. – O que era aquilo?
Ele olhou para os botões do elevador e apertou um no alto.
–Aquilo? – Ele observou as portas se fecharem. – Aquilo era um rejeitado.
O bater das portas tinha me acordado de uma recém-imaginação. Mantive meus olhos em Kaito por mais alguns segundos antes de decidir que deveria me olhar no espelho. Dei pequenos passos até o meu nariz encostar naquele vidro gelado.
Senti o elevador subir por debaixo dos meus pés.
Cocei as bochechas. O sangue já me servia como uma segunda pele. Morta. Tive a curiosidade de tocar naquele grande corte que tinha no meu rosto, mas as meias olhadas de Kaito de certa forma me impediam de fazer algo.
O elevador estalou. Um barulho baixinho saiu dos pequenos sons nos cantinhos do elevador. Enfim, as portas se abriram.
Senti os dedos de Kaito apertarem meu pulso com mais força. Seus passos, mais uma vez, superavam os meus. Ele não andava nem devagar nem normal. Parecia pressa mesmo. Eu só o seguia, ou melhor, era obrigada a o seguir entre passos tortos e meio vacilantes.
Esse andar era escuro. Não conseguia ver corredores ou pessoas. Apertava constantemente os olhos, tentando enxergar alguma coisa. Mesmo que não fosse minha escolha, ele me guiava pelos caminhos e cantos, enxergando o lugar á sua maneira.
–Por...
–Cala a boca. – Ele disse entre um puxão. Sentia que as pontas dos meus dedos logo ficariam vermelhas por tantos puxões. – Aqui, você só escuta.
Mordi os lábios com uma pontada de insatisfação e curiosidade. De qualquer forma, eu não tinha o direito de me esquecer quem ele é.
‘’-Quer saber meu nome, pirralha? Meu nome é Kaito. Shion Kaito. ’’
Ele era Kaito.
Ele era a pessoa que me machucou.
A mesma pessoa que machucou Len.
A pessoa que me separou dele.
E foi aí que a culpa caiu sobre mim.
Não, não.
A culpa não era minha.
Era dele.
–Cadê Len? – Puxei as mangas do casaco dele. – Vocês não podem ter deixado ele sozinho. Não de novo. Cadê? – Puxei mais e mais vezes. – Cadê ele? Ele disse que... Que iria me encontrar.
Soltei as mangas de Kaito. Eu parecia ser feita de papel. Percebi que não conseguia me manter de pé sozinha. As bordas do vestido arrastaram no chão á medida que me encontrava com o piso. Vi minha mão escorregar entre os dedos de Kaito e cair na saia do vestido.
A voz abafada de Kaito encheu meus ouvidos quando me chamou pela primeira vez
–Rin.
Pus as mãos em frente aos olhos e gritei.
–Rin. – Ele me chamou mais uma vez. — Cala a boca.
Balancei a cabeça, negando ele várias vezes. Não precisava ver para saber que ele estava parado ao meu lado. De repente eu comecei a ver tudo de outra maneira. De repente, eu conseguia ver os culpados na minha cabeça.
De repente, comecei a entender o que haviam tirado de mim.
E eu chorei.
Não pela dor, não pelo medo.
Pelo o que arrancaram de mim.
Pelo o que eu perdi.
‘’-Prazer... Prazer em conhecê-la... Meu nome é Miku. Hatsune Miku. ’’
E a culpa era dela.
‘’-Quer saber meu nome, pirralha? Meu nome é Kaito. Shion Kaito. ’’
E a culpa era dele.
‘’-Porque é o que eles querem. Porque é você quem eles querem.’’
E a culpa era deles.
Abaixei minha cabeça e mordi meus lábios tremidos.
Não.
Não estava tudo bem.
–O que vocês fizeram...?
Seus pés se bateram próximos a mim.
–Rin. Cala a...
–Não! – Gritei. – Cala a boca você! Olha o que você fez! Olha o que ela fez! O que vocês fizeram?! Porque fizeram isso comigo, com Len, e com...
Mamãe.
–Me leva pra casa! – Eu não pedia, eu mandava. Antes eu queria sobreviver, agora eu só queria gritar. – Me leva! Agora!
Kaito puxou meu braço sem esperar. Sentia-me agarrada como uma coisa qualquer. Sentia a impaciência em seu toque. Ele podia me mandar calar a boca quantas vezes quisesse, poderia mandar a mesma quantidade vezes referente a todos os grãos de areia do planeta.
Eu não ligava.
Meus soluços iam e voltavam, como um bom ioiô.
Pouco a pouco, um afrouxo era criado entre a mão de Kaito e meu braço. Não sabia se queria abrir os olhos e enxergar o que fosse que havia para ver. Eu mesma me sufocava com a situação, com tudo. Via o ar como uma coisa rara entre uma respiração e outra.
Era como se todas as dores voltassem mais uma vez.
–Rin...
Ergui minha cabeça com dificuldade.
Aquela voz?
Aquela voz era a voz da dona do casaco que eu usava.
Miku estava de costas a uma porta escura. Mais pálida que o normal, quase refletia as veias azuladas e esverdeadas que haviam por baixo de sua pele. A blusa de mangas longas e corações vermelhos parecia ser inútil para protegê-la contra o frio agora. Ela tinha olhos assustados e uma cara preocupada.
–Rin... – Ela fechou os olhos e deu um sorriso simpático. Ela parecia porcelana nesse exato momento. Sorria porque fora feita assim, não porque queria estar assim. – Poderia fazer silêncio, por favor?
Respirei pelo nariz.
Ela também era culpada.
–Kaito, por favor.
Minha cabeça tombou em direção a ele. Ele, que até então olhava para Miku sem expressar absolutamente nada, se virou para mim e deu um suspiro cansado. Ela havia pedido alguma coisa para ele, alguma coisa que tinha a ver comigo.
Observei a mão dele estendida a mim, e a Miku esperando em frente à porta.
Não a peguei em nenhum momento. Apenas aconteceu dele mesmo cansar de esperar por uma ação que nunca viria, e me puxou pelo braço até eu ser erguida do chão. Quando chegamos perto de Miku, minha cara de choro e os fortes olhos inchados eram a denúncia perfeita do que sentia.
Miku pôs as gélidas mãos em meus ombros e me guiou como uma boneca de corda.
Kaito havia empurrado a porta, em que, até dez segundos atrás, Miku esperava com uma certa impaciência escondida atrás de um sorriso quase perfeito.
Ao entrar naquela sala, eu realmente não enxerguei nada.
Absolutamente nada.
Só parecia uma escuridão imensurável, onde tudo e qualquer coisa poderia se esconder. Pelo menos, foi assim que vi as coisas, sem enxergar. Uma pequena luz laranja, que queimava em meio ao pequeno fogo de uma vela me deu uma limitada noção de espaço.
Esse seria o esconde-esconde mais difícil.
Miku andava, me fazendo andar também. Ela não me mexia para me machucar, aquela estranha, porém confortável, delicadeza, em cada um de seus atos, permanecia. Sentia ser a bonequinha humana de Miku naqueles segundos onde eu dependi dela para andar.
O barulho da porta se fechando foi distante. Percebi que estava longe da porta.
Também percebi que não tinha controle nenhum sobre nada que estava acontecendo.
–Pai? – As mãos de Miku finalmente saíram dos meus ombros, porém uma pousou no topo da minha cabeça. Parecia ter medo de me perder de vista nem que se fosse por meio segundo. – Eu a trouxe pra te ver. – Ela baixou os olhos até encontrar os meus, que se mantinham cravados nela. – Rin. – Ela deu dois tapinhas no meu ombro, me fazendo dar passos involuntários. – Por favor, por favor, seja boazinha.
Olhei para Miku, que estava poucos centímetros atrás de mim. Ela forçou uma cara triste, e com dois dedos, empurrou os cantos da boca até se tornar um sorriso.
Fingi que não entendi e continuei com o bico que Len tanto gostava.
–Rin... – Olhei para trás de novo. Miku estava sorrindo, com as mãos unidas em frente ao corpo. Isso não aconchegante, era assustador. – Vamos, não me decepcione. Ele qu...
–Kaito. – Franzi as sobrancelhas. Lembrei-me de todas as vezes que assistia meus filmes favoritos com a mamãe. E essa voz? Essa voz era de vilão. – Miku.
Contornei a escuridão com o olhar. Girei um pouco do meu corpo. Sabia que Kaito havia me trazido até aqui, e até mesmo aberto à porta para nós – Miku –, mas eu mal havia notado a presença dele. Apenas o encontrei do meu lado, batendo os pés de modo meio infantil, ou apenas para irritar o pai dela.
E de um jeito quase programado, Kaito respondeu, e em questões de segundos, veio a segunda resposta, de Miku.
–Chamou?
–Pai.
Tombei minha cabeça para esquerda – Kaito –, depois para a direita – Miku –. Conseguia me sentir ainda menor entre o dois. Sabia que ambos haviam percebido que eu os encarava, mas nenhum deles pediu para parar. Acho que finalmente entendi o que Kaito que iria dizer.
‘’ -Cala a boca. Aqui, você só escuta.’’
Eu não iria falar. Só escutar.
–Quero que olhem pra essa criança. –A ordem do pai da Miku ecoou por todos os lados. Ele me deixava confusa, pois a voz dele vinha de todos os lugares. Já não sabia se ele estava na minha frente, ou encostado na porta. Pelo tom da sua voz, eu não queria mais o chamar assim. Eu inventava nomes para tudo e todos. E o dele seria ‘’Vilão’’. – Me digam onde está o erro.
Kaito e Miku imediatamente olharam para mim, e tudo que fiz foi me encolher no lugar. Dava uma sensação de vergonha estranha. Sentia que todos estavam me analisando e julgando ao mesmo tempo.
Passou alguns segundos depois da pergunta. Kaito mordia seus lábios com uma falsa impaciência que mal cobria uma cara de preocupação. Já Miku, tinha o desespero como máscara preferida.
Estiquei minha mão com cuidado, e dei um puxão na manga da camisa dela.
Ela baixou o olhar para mim, onde eu finalmente pude enxergar tudo que ela sentia na hora. Eu pus meus dedos nas pontas da boca e os empurrei para cima, fazendo um sorriso.
Ela até chegou a dar um meio sorriso, e abrir a boca para tentar dizer algo. Mas então, o Vilão a chamou de novo.
–Miku. Venha cá. Preciso falar com você.
Miku não olhou para trás. Deu alguns passos em direção ao escuro e parou quando achou que estava bom. Vi ela endireitar a postura e colocar as mãos para trás, como um sinal que estava tentando esconder o nervosismo.
Encarei suas costas antes de me virar para Kaito, que me olhou pelo canto dos olhos e voltou a encarar Miku.
–Chegue mais perto.
A pedido do Vilão, ela deu mais alguns passos para frente, sem perder a compostura que lutava para sustentar.
Então começou.
Pelo pouco que pude ver, mas pelo máximo que podia ouvir, Miku havia acabado de levar um tapa na cara.
Seguido de outro, outro, outro e outro.
Voltei a olhar Kaito. Vi que ele não iria mover um músculo sequer para ajudar ela. Sempre disse que ele era gelado, mas não imaginava que fosse tão frio. Não sabia o que eles eram e o que deixavam de ser, mas eu pensava que eles ao menos fossem amigos.
Pensava que ele iria proteger ela.
Vi Miku cair no chão e não levantar. Também vi a mão do Vilão enroscar no cabelo dela e a levantar como se aquilo fosse uma corda.
–Nela. – Percebi que ele apontava para mim. – Qual o erro nela, Miku?
Os olhos de Miku rolaram até mim. Suas bochechas estavam tão vermelhas que me assustavam. Ela parecia uma boneca má. Não estava completamente levantada, com uma parte de seu corpo ainda no chão, e outra erguida e arqueada no ar pelo cabelo sendo puxado. Via as mechas se enrolarem perfeitamente entre os dedos do Vilão, e se prenderem lá como fortes nós.
Tentei dar um passo pra frente, mas a mão de Kaito se parafusou no meu braço e me prendeu junto a ele. Eu tinha que ficar parada. Não iria a lugar nenhum. Eu a conhecia há muito pouco tempo, e já não conseguia sentir remorso por ela. Pensava em Len, e então pensava que ela merecia.
Queria ver o rosto dele. Do Vilão. Eu queria saber.
Ela voltou a olhar para o pai e balançou a cabeça em negativo.
Ele soltou o cabelo dela, que correu entre seus dedos até a cabeça dela acertar o chão.
–Eu poderia ter pedido pra qualquer puta fazer isso, mas eu pedi pra você. – O pai de Miku pisoteou a mão esquerda da filha como se estivesse pisoteando um inseto. – Você quer mesmo terminar igual a vadia da sua mãe, não quer? – Riu sem encontrar a graça. – Qual o erro dela?
Senti Kaito apertar mais ainda o meu braço quando o assunto voltou a ser eu.
–Eu... – A voz de Miku saiu fraquinha, quase inaudível. – Não sei.
Então ele repetiu mais alto e com menos paciência.
–Qual o erro dela?
–Eu não sei.
–Não sabe? – A voz se fez como sarcástica. – Então repete alto, sem essa voz de vadia. Fale alto como mulher de verdade. Qual o erro dela?
Pude ver Miku espernear no chão.
–Eu não sei!
Sussurrando um ‘’ótimo’’, coberto pelo o que eu imaginei ser um sorriso maldoso, ele tirou o pé que massacrava a mão de Miku. Ele a deixou no chão, e com passos cada vez mais distantes, como se tivesse nojo de continuar ali, parou de falar depois de duas últimas frases.
–Qual o erro dela? Simples.
Vocês pegaram a criança errada.
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