Karakuri Burst
67 Do que está fugindo?
Notas iniciais

RIN POV’S ON
Flashback on
Criança...
...Errada?
–Como assim? – Os dedos de Kaito enfim deixaram minha pele. Por mais que eu visse como uma pergunta, a frase na boca dele parecia uma afirmação sem sentido.
Kaito me empurrou para chegar até a Miku. Não foi o suficiente para me derrubar, mas eu mesma escolhi cair para me sentar. Se as coisas não tivessem acontecido a menos de dois metros e meio na minha frente, acharia que tudo foi brincadeira.
Ela parecia estar gelada. Estava deitada no chão como se estivesse dormindo. Mas eu não tinha pena. Isso me fazia uma pessoa estranha? Não, não. Eu acho que não.
Vi Kaito parar ao lado dela e a olhar por poucos segundos, antes de soltar um suspiro que mais parecia um lamurio. Eu não tinha toda a certeza do mundo, mas isso parecia quase normal pra ele. Talvez fosse normal ela apanhar, e talvez fosse normal ele assistir.
Ele se agachou ao lado dela, e tirou uma ou duas mechas de cabelo que cobriam suas bochechas vermelhas e lábios inchados. Passou a mão em sua cabeça e deu pequenos murmúrios.
‘’Miku. ’’ Ele disse. ‘’Você é fraca. ’’
Puxei a gola do casaco dela até esconder meu nariz na roupa, enquanto assistia Kaito reconfortar Miku. Ouvia suas palavras como insultos, mas com aquele tom ele parecia sussurrar doces palavras pra ela.
Doce ilusão.
Ele se levantou, olhou para ela, e levantou o olhar até mim. Ele não precisava dizer muito para eu entender que o problema era ninguém menos do que eu mesma. Mas eu não tinha culpa. Nenhuma. Com certeza não tinha uma das caras mais corajosas, nem uma força de vontade tão grande quanto deveria, mas naqueles poucos segundos em que ele resolveu me encarar, quis retribuir da mesma forma.
Ouvimos rastejo. Ele arqueou as sobrancelhas e voltou-se para Miku, que pouco a pouco tentava se levantar. A vi arquear a coluna, apertar as mãos, e colar a testa no chão. Suas formavam pequenos punhos rosados pelo frio.
–Eu sei. – Ela disse com o rosto voltado para o chão. Deu um suspiro tão grande e tão embargado de dor que parecia que ela estava quase se afogando, e que, no último momento, tivesse conseguido um pouco de ar. Espalmou as mãos no chão, deixando de lado aqueles punhos que havia feito, e se levantou até conseguir se sentar. Observei como estávamos praticamente iguais agora. Seus olhos, mesmo estando um pouco inchados, me encaravam como se eu fosse uma conta, um problema, a ser resolvido. Sabia que ela se dirigia a Kaito, mas com os olhos cravados em mim, quase sentia que aquilo era somente para mim. – Não é ela.
–Eu sei. – Ele repetiu o que ela havia dito. – Agora, eu sei. – Ambos me encaravam. Inconscientemente coloquei um dos meus braços a minha frente. Eu mesma me colocava em defesa sem ao menos perceber. – ‘’Uma criança. Sempre isolada. Loira. Olhos azuis. ’’ – Ele repetia a Miku com voz robotizada. – Tivemos de escolher. Precisávamos de uma, não duas.
–Rin. – Miku me chamou. – Como era mesmo o nome do seu...
–Len. – Kaito respondia Miku olhando para mim, me trazendo um ódio muito mais do que momentâneo.
–Len. – Ela repetiu olhando para o chão. – Len.
–Não. – Mordi meus lábios. – Não, não, não, não, não. – Bati minhas mãos em minhas pernas. – O que vocês vão fazer com ele?
Kaito mordeu os lábios quase como eu, só que tínhamos fins e interesses bem diferentes.
–Que desespero genuíno. – Ele deu um meio sorriso. – Miku. – Chamou, quase a acordando de um sono profundo em que os olhos se mantinham abertos e pregados em mim. Os poucos segundos que ela demorou para se virar pra ele, foram os mesmos segundos que sustentamos um contato visual. E aquilo me assustou. – E agora? – Ele olhou para baixo, para ela. – Deixamos morrer ou deixamos viver?
Ela voltou a me encarar daquele jeito.
Ela riu.
–Isso nem é mais uma escolha, seu idiota. – Apertei as mangas do casaco dela com uma força que eu desconhecia. – ‘’E agora?’’ – Ela riu. – ‘’Deixar viver ou morrer?’’ – Riu com mais vontade. Suspirou, como se rir a cansasse. Balançou a cabeça de um lado a outro, expondo todos os machucados, novos ou antigos, sendo proposital ou não, de um jeito que era impossível não ver. E então, seu sorriso mudou. Me encarou como se fosse me matar. Respondia Kaito, olhava para mim. – Acha mesmo que isso é vida? – Balançou a cabeça e apontou para mim. – Olha a cara dela! Olha a merda que você fez, ‘’irmãozinho’’! – Zombou, cuspindo a palavra entre uma olhada e outra para ele. – Agora ela vai conhecer as outras. Olha que legal, Rin! Você vai ter amiguinhas! – Ela riu. – Que vão todas morrer! – Ela riu mais uma vez. – Inclusive você! HÁ-HÁ-HÁ, você vai mo-rrer. – Abriu os olhos de um jeito além do normal. -... Laranjinha.
Pus a mão em frente ao peito e respirei cerca de duas vezes.
E foi o suficiente para me fazer levantar. A encarar ainda no chão, espiar Kaito, dar de costas e começar a correr.
–Está fugindo do quê? – Ela perguntou ainda com o ar do riso em sua voz. – Ou melhor, de quem? – Mais uma risada seca. – Acha mesmo que tem como fugir... Disso?
Não a dei ouvidos, assim como não escutava nada atrás de mim. Sabia o quão escura era aquela sala, e o quão ruim era o meu senso de direção. Mas agora só usava o que havia aprendido com o melhor – Len -, fugir de situações, que, diferente das que eram comuns a ele, como as que causavam raiva, indignação, ou as que simplesmente ele estava a fim de sair, eu usava esse artifício para fugir de situações que me usavam medo.
Não conseguia ver.
Conseguia sentir.
Tinha vindo por uma porta.
Fora dela, estava frio.
Sentir o frio. A corrente de vento.
Então eu acharia a porta.
Várias vezes durante minha corrida, precisei parar para não confundir o vento que eu mesma criava com o vento que eu deveria sentir. Não fui tão rápida quanto fui na minha cabeça, mas também não fui lerda quanto pensei que seria após algumas paradas.
Precisei tatear um pouco a parede até achar o retângulo perfeito da porta. Usei toda, mesmo que pouca, a força que tinha para empurrar aquela pesada porta. Aquele era o melhor de mim. Quando as luzes brancas dos corredores invadiram a sala, eu instintivamente olhei para trás,
O lugar onde uma vez nós três estávamos, agora não tinha nada além de escuridão e uma mínima fresta de luz que mal se estendia até o fundo da sala.
Não esperei para descobrir onde Miku e Kaito estavam. Aquela porta tinha um peso maior que eu podia suportar, e eu não estava no luxo de pensar duas vezes sobre minhas ações. Cruzei a porta , a sentindo se fechar atrás de mim, consequentemente me empurrando, praticamente me expulsando dali.
Me vi naquele corredor desconhecido. Dei uma volta completa ao redor dos meus pés, sem ter direção certa a seguir. Lembrei-me de que não tinha tempo. Optei por correr pela direita, sem rumo algum. Eu poderia encontrar escadas e as pular até chegar ao andar pelo qual entrei. Não era um dos melhores planos, mas era o meu único.
Eu corria entre algumas pessoas, que mal se importavam com a minha presença ali. Talvez estivessem mais preocupados com que eu não os tocasse do que qualquer outra coisa. Não tinha certeza de suas emoções ou expressões, pois nas poucas vezes que lentava o olhar, eu só via as máscaras que cobriam sorrisos ou carrancas.
Senti todo o meu sague gelar quando senti duas luvas de látex tocarem meus ombros.
Eu estava sendo segurada por trás, não me dando a opção de olhar, e fazer um cara-a-cara.
–Finalmente... – Um suspiro cansado. – Finalmente encontrei você. – Balancei meus ombros numa tentativa de retornar a minha corrida. Com isso, meus ombros foram apertados para que não corresse, mas com medo de me assustar, o aperto logo cessou. – Por favor, não corra, eu já quase me matei tentando te achar... – Eu tratei de me virar, e mesmo com medo de ser Miku, aquela voz e aquele jeito sem dúvida não pertenciam a ela. Mas, mesmo assim, eu tinha todo o direito de hesitar. – E... – A mão foi posta do lado da boca, como se fosse me contar um segredo importantíssimo. – Cá entre nós, correr de salto é uma merda.
Dei um suspiro fraco, me distanciando um pouco.
Ela estava vestida como mais uma dessas pessoas que andavam para lá e para cá. Usando um jaleco que me fazia ter dúvida entre médica, farmacêutica ou cientista. Diferente das outras mulheres, ela tinha seu cabelo e não usava máscara alguma, coisa que fazia seu sorriso brincalhão quase ser reconfortante. As luvas ainda me traziam um desconforto, mas agora que ela não me tocava, me sentia um pouquinho melhor.
Ela passou a mão pelo cabelo e olhou para mim, esperando que eu dissesse algo.
–Caralho, eu esqueci que eu não posso falar essas coisas na frente de uma garotinha de oito anos. – Mordeu a boca. – Merda, eu fiz de novo. – Se deu conta que tinha feito mais uma vez e deu um tapa na testa. – Porra...caria, preciso me censurar mais. – Ela balançou a cabeça com um sorriso de verdade. – Ei, Rin, que tal cuidarmos disso daí?
Observei que seu indicador vinha direto para o meu rosto, especialmente para o corte.
Balancei a cabeça sem pensar. Eu estava concordando sem nem questionar. Quase me bati depois disso, mas me dei conta que poderia correr em outra hora. Poderia achar uma brecha depois.
Sim, eu poderia.
Seria mais burrice eu aceitar a ajuda do ‘’inimigo’’ ou fugir sem ter um plano formado, nas condições que estava?
Enfim.
Ela me estendeu a mão, e, mesmo ela parecendo uma pessoa legal e animada, eu não podia ter nenhuma confiança em ninguém. Dos cinco dedos estendidos a mim, segurei em apenas dois, e com o mínimo de força que poderia fazer, facilitando assim a minha fuga caso algo acontecesse.
–Score! – Ela fez sinal de vitória enquanto começava a andar comigo na mesma direção que antes estava tomando por conta própria.
Dei um sorriso sem graça pelo modo que ela se divertia tanto por eu apenas ter segurado dois dedos dela. Que, por cima da luva, davam a sensação de serem terrivelmente escorregadios. Ela olhou pra mim e deu língua, puxando a pupila pra fazer uma careta bem feia.
–A-acho... – Comecei timidamente, sabendo que conhecer pessoas novas definitivamente não era o meu forte. Ainda mais desse jeito. – Acho que você já sabe, mas... Rin. Rin Kagamine.
Ela sorriu.
–Você é exatamente como ela descreveu. – Ela balançou a cabeça com outro sorriso, só que dessa vez mais bobo. – Sou a Lily. E, a partir de hoje, a responsável por você, menininha louca que enfrentou aqueles dois – Torceu o nariz. – Bravo, bravo.
Lily subitamente parou em frente a uma porta sem números ou placas. Parei de andar um pouco depois dela, observando a porta abrir apenas com o sensor. Ela me guiou para dentro, mostrando um lugar que mais parecia uma enfermaria modernizada, e incrivelmente limpa.
Tão... Branca.
Fui pega no colo, quase me matando de susto. Quando dei por mim, estava sentada numa cama colada a parede. Procurei por pôsteres com frases bonitinhas ou com desenhos coloridos que sempre me despertavam a vontade de desenhar, mas não encontrei nada mais que paredes brancas. No teto, apenas as luzes, e escapamentos de ar-condicionado, pois não havia uma mísera janela. Havia alguns largos armários sem portas, apenas com prateleiras com diversos remédios em potinhos marrons e tampas brancas. Havia também algumas pias prateadas e uns armários acima dela.
Meu espírito explorador gritava para olhar cada cantinho do quarto em que estava, para saciar toda a curiosidade que poderia haver em mim.
Percebi, em uma das cadeiras do canto, uma garota tão pequena que passaria despercebida por mim sem nenhum problema. Resolvi engatinhar encima da cama, de sapatos mesmo, para tentar chegar o mais perto possível dela.
Olhei para Lily, que trocava suas luvas e procurava por coisas nas gavetas da pia. Depois, olhei para a garota, que aparentemente não havia notado a minha presença ali. Engatinhei bem devagar na cama, afundando o lençol branco com as solas das minhas sapatilhas sujas. Quando cheguei na extrema ponta da cama, quase caí por descuido. Olhei para baixo, encontrando outra menina, completamente escondida, sentada no chão e costas na parede, com o rosto enterrado entre os joelhos, de onde se ouvia pequenos soluços de segundos em segundos.
Curiosa como era, chequei mais uma vez Lily para ver se ela me pegaria fazendo isso. Quando me vi livre, estiquei meu braço e cutuquei a cabeça da garota que chorava baixinho.
Ela soltou um grito tão alto e tão fino por ter o topo de sua cabeça cutucado que chamou a atenção de todos ali. Meu rosto ficou quente, e provavelmente vermelho.
–Oh Rin. – Lily comentou sem tirar os olhos da seringa que ela balançava no canto do quarto. – Você encontrou a Sophia.
Repeti o nome dela sem fazer som.
Nunca tinha conhecido uma pessoa com esse nome.
–Sim. – Lily respondeu sem eu ter feito pergunta nenhuma. – Como você pode perceber, ela não é daqui. Eu também não. Lily e Sophia são nomes meios estranhos pra vocês duas. – Ela olhou por meio momento para mim e para a garota encolhida na cadeira. – Não concordam?
Me lembrei da minha posição, e voltei a olhar para baixo. Sophia tinha voltado a esconder o rosto entre os joelhos, transmitindo a sensação de que não era para tocar nela nunca mais.
Suspirei meio desapontada e coloquei minha concentração na garota que estava encolhida na cadeira.
–Miki. – Lily chamou. – Você fez alguma coisa com a Sophia enquanto eu saí para buscar a Rin? — Ela não respondeu, só se mexeu um pouco, coisa que fez a cadeira ranger e arranhar o piso. – Como você pode ver. – Ela ergueu a seringa contra a luz e deu dois petelecos na ponta antes de fechar uma pequena maletinha preta que estava encima da pia. – Você é a mais participativa, Rin.
Lily andou até a cama, se aproximou de mim e segurou minhas bochechas com sua mão, puxando meu rosto para frente e sorrindo antes de erguer a seringa.
–O que é ótimo, porque, como te disse, minha responsabilidade é você.
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