Karakuri Burst
60 A falta de um adeus.
Notas iniciais

RIN POV’S ON
Flashback on
–Tchau... – Esfreguei o giz azul na poça do desenho. — ...Mamãe.
Usei minhas mãos contra a mesa como apoio para empurrar a cadeira para trás. Soltei o giz perto da caixa amarela em que ele ficava, batendo as mãos para tentar apartar a sujeira azulada das minhas palmas.
Desci da cadeira e bati minhas mãos no meu pijama, apenas para ter certeza.
Saí do meu quarto sem apagar a luz. Tudo bem, ela não estava mais aqui agora.
Desci as escadas arrastando minha palma contra a parede, ziguezagueando entre as molduras das fotografias que mamãe havia escolhido com muito afinco. Não queria contar para ela, mas eu as achava muito feias. Mas é um segredo. Outro.
Eu gostava dessas fotos. Da moldura não, das fotos sim.
Eram todas minhas.
Gostava... disso.
Mamãe também.
Embora eu me perguntasse por que só eu, eu realmente gostava daquelas fotos.
Sim, sim, queria que mamãe estivesse nelas também, mas ela respondeu que só havia fotos minhas pela casa porque eu era uma estrelinha, e estrelinhas deveriam brilhar sozinhas.
Nunca vi uma estrela brilhar sozinha. Estrelinhas ficam sempre juntas, brilham sempre juntas.
Estrelinhas são uma família.
Ah, sim.
Eu me lembro disso.
Aprendi isso na escola.
Estrelas morrem.
Eu acho que a estrelinha da mamãe morreu.
Por isso só tem uma estrelinha nas fotos.
Só eu. Só.
Dei um pulo do segundo degrau para o piso da sala. Cambaleei um pouco por estar de meias, e pelo piso amadeirado estar polido e encerado. Isso ás vezes era um problema. Na verdade, eu não entendia exatamente porque a sala era amadeirada, e as escadas cobertas por um carpete grafite.
Estiquei meus braços no ar, para manter o equilíbrio.
Talvez eu pudesse me divertir com minhas meias e o chão.
Não precisava fechar os olhos para imaginar. Eu poderia pensar que estava usando patins numa pista de gelo em dois segundos.
Um, dois.
Nos primeiros momentos em que eu brinquei pela sala, eu me diverti. Foi legal.
Era normal eu brincar sozinha, embora gostasse quando mamãe brincasse comigo. Mas ela não tinha muito tempo pra isso. Também se irritava quando eu pedia muitas vezes, por isso parei de pedir.
Era melhor assim.
Mamãe é uma pessoa muito ocupada. E eu sabia disso. Acho que, no fundo, só atrapalhava. Se ela não tinha tempo, eu não deveria insistir. Não era justo.
Lembrei que estava enegrecendo a sola das minhas meias enquanto brincava. Sujo. Eu não queria ter que esfregar nenhuma roupa mais uma vez. Minhas mãos coçaram com o sabão em baixo das unhas, e eu pedi para parar, mas ela não deixou.
Deu vontade de arrancar as unhas aquele dia.
Ou só roer.
Roer era melhor.
Mas então minhas unhas nunca seriam bonitas.
Não sabia o que fazer.
Só coloquei luvas e arranhei as paredes do meu quarto.
Isso iria acontecer de novo. Culpa minha. Não devia ter patinado no gelo. Não devia ter esfregado meus pés na sala. Culpa minha.
Parei de brincar, porque não tinha mais graça.
Apaguei as luzes da sala, mamãe provavelmente havia esquecido.
Pressionei o indicador contra o interruptor branco, escutando um pequeno ‘’poc’’ para as luzes se apagarem.
Eu poderia ter medo do escuro. Mas não tinha.
Era bobo.
Andei até a cozinha. Eu até pensei em balancear os pesos do castigo enquanto ia para a cozinha. Se tirasse as meias, para evitar mais sujeira, colocaria meus pés no chão. Se colocasse meus pés no chão, além de sujá-los, ficaria em contato com o chão gelado.
Era só pensar o que seria pior.
Por isso eu continuei com minhas meias.
Iria, sim, acontecer de novo.
Odiava quando minhas mãos coçavam.
Odiava arranhar a parede.
Mas a culpa era minha.
Abri a porta da geladeira e peguei a jarra de vidro na terceira prateleira. A jarra estava gelada e um pouco escorregadia, por isso a segurei com ambas as mãos para não cair. A coloquei encima da mesa e fui buscar um copo no escorredor.
Ás vezes eu ficava com fome quando ela ia. Era meio ruim. ‘’Meio ruim’’.
Depois que coloquei o suco no copo, eu devolvi a jarra á geladeira.
Voltei ao meu quarto segurando o copo colorido em uma das mãos. Alternando entre beber e entre prestar a atenção nos degraus que eu pulava para subir. Também não precisava fechar os olhos para imaginar que podia pular feito um coelhinho, apenas realmente imaginava que aquele suco iria escapar do copo, e o copo da minha mão, se eu continuar com isso.
Coloquei o copo com metade do conteúdo original encima da mesa. Eu gostava muito de suco de laranja. Depois de melancia. Depois de maracujá.
Esfreguei minha mão no pijama antes de puxar a cadeira para perto da mesa. Subi na cadeira e me ajeitei antes de voltar a desenhar. Puxei a caixinha de giz para pegar o amarelo, quase derrubando o azul que havia deixado esparramado no canto.
Ah é, aquele garoto tinha cabelo amarelo.
‘’Cabelo amarelo’’.
Loiro.
Peguei o preto depois de usar o amarelo. Era meio estranho ele estar sem rosto. Eu me lembro direitinho o que havia ocorrido, e como havia ocorrido. Também lembro como ele estava.
Triste.
Entediado;
Irritado.
Por isso eu fiz ele feliz.
Talvez não seja verdade, não, com certeza não era verdade,
Mas eu podia fazer ele feliz.
Quando eu terminei o desenho, eu puxei uma das minhas gavetas de papéis e enfiei o desenho lá dentro, não me importando de amassa-lo ou não.
Era só um desenho. Podia fazer muitos outros idênticos.
Acabei por bocejar.
Olhei para o relógio mais uma vez.
Onze e meia – Segunda à noite. – Minha casa.
Pulei da cadeira e puxei as cortinas da minha janela, espiando pelo cantinho a casa do garoto. Me escondi atrás das cortinas, apenas espiando quietinha.
Claro, a casa estava toda apagada.
Olhei cada uma das janelas, escolhendo por último a janela na qual eu o vi a última vez.
Assim como as outras, estava com luzes apagadas e com as cortinas impedindo olhares curiosos.
Pobres olhares.
Pobre Rin.
Olhei cada cantinho da casa do meu vizinho estranho e emburrado. Olhei o gramado, as janelas, as portas, a chaminé e o céu.
Onze e meia.
As estrelas estavam brilhando juntas. Como sempre faziam. Brilhando. Juntas.
Não entendia porque mamãe me deixava sozinha de noite. Tá tão frio lá fora. Ela não precisava sair. Não precisava ir embora.
Não precisava.
Pelo menos, não precisava, me deixar aqui.
Sozinha.
Estrelinhas não brilham sozinhas.
Ela não precisava inventar mentiras.
Eu não gostava de ficar sozinha.
E ela sabia disso.
Mas ao menos se despedia quando ia embora.
Então era como dizer ‘’tchau’’ para as paredes.
Dessa vez eu escutei a porta da frente bater. Eu estava desenhando. E ela não tinha avisado.
Tão frio...
Tão tarde...
Ela não precisava me deixar sozinha.
Pulei encima da cama, sentindo os cobertores me afogarem. Puxei todos eles, para que eu pudesse me cobrir. Eu não havia apagado a luz, não havia escovado os dentes, não havia desejado uma ‘’boa noite’’ para a mamãe.
Mas, mesmo assim, eu me escondi nas cobertas.
Eu não iria dormir.
Só iria dormir quando soubesse que mamãe chegou em casa.
Não importa quanto tempo isso durasse,
Iria ficar acordada.
Iria imaginar que quando te chamasse, você voltaria.
E não precisaria se despedir.
Não sentiria falta disso.
Nem de você.
Mamãe chegou perto das duas da manhã. Foi quando eu escutei os saltos da mamãe batendo contra cada degrau da escada.
Fiquei, feliz.
Fiquei feliz.
Muito feliz.
Só feliz.
Ela tinha voltado.
Voltava quando tudo isso acabava.
Não precisava dizer tchau.
Ela sempre iria voltar.
Então, não reclamo mais.
////
Eu acordei com vontade de dormir. Muita mesmo.
Talvez isso aconteça sempre, mas hoje estava pior. Bem pior.
Mamãe não deveria chegar tão tarde assim, não, não.
Se bem que, quem prejudicava alguém por aqui, com certeza era eu.
Eu fiz isso sozinha, a mim mesma.
Eu escolhi esperar pela mamãe.
Não sei se poderia culpa-la.
Afinal, eu ‘’entendia’’ a mamãe. Entendia sim.
Me levantei da cama, quase tropeçando na ponta do cobertor. Troquei o pijama pelo uniforme e verifiquei a mochila, vendo se tudo estava nos conformes. Penteei os cabelos, escovei os dentes, tocando na minha gengiva lá trás, onde dentinhos estavam nascendo. Lavei a mão que ficou meio babada, e a esfreguei na toalha.
Coloquei o lenço branco ao redor da minha cabeça, e fiz um laço no topo.
Não, não era nada especial.
Minha mãe não havia me dado, nem papai, nem minha vó ou avô.
Era só um laço. Um simples pano que poderia ser descartado a qualquer momento.
Então em alguns dias eu usava, outros não. Não iria bancar personagem de anime que só usa uma roupa para sempre. Já não basta o uniforme.
Bobo, bobo, bobo.
Pus minha mochila nas costas e fui até o quarto da mamãe.
Fui na ponta dos pés, temendo que os zíperes da mochila batessem um no outro e acordassem a mamãe. Parei perto dela, e me abaixei para beijar sua bochecha.
Com isso, ela bocejou.
Mamãe estava com um cheiro estranho.
Eu me afastei, torcendo o nariz e fechando a porta do quarto atrás de mim com o máximo de suavidade, para que nenhum movimento perturbasse a mamãe.
Bati no bolso de trás da minha mochila, sentindo meu celular ali. Okay, tudo bem.
Desci as escadas pulando cada degrau, prestando atenção nos meus tênis pretos e cadarços coloridos.
Um deles havia se desamarrado.
Mas eu não tinha tempo para parar e amarrar, porque se eu demorasse, perderia o horário.
O tempo de amarrar é tão pouco.
E eu devia fazer.
Abri a porta da frente, logo saindo e virando de costas para rua, para trancar a casa. A chave prata e gordinha. Era essa. Rodei a chave três vezes e forcei a maçaneta.
Trancada, sem dúvidas.
Suspirei fundo antes de tirar a chave da tranca e a guardar no bolso do casaco.
No fundo, senti minhas costas queimarem.
No fundo, acho que tinha percebido que ele estava me olhando.
Virei-me, já encarando o outro lado da rua, onde o garoto estranho estava me observando. Encarar sem encarar. Observar sem observar. Talvez na cabeça dele ele ache que me viu primeiro, mas no momento que eu abri a porta, eu o vi de costas trancando a dele.
Menino bobo.
Agora ele está tentando disfarçar que não me viu.
Bobo, bobo, bobo.
...E estranho.
Arrumei minha mochila nas costas e acompanhei ele andando com o olhar. Corri pelo jardim até a calçada para acompanhar seu ritmo.
Até poderia considerar o fato que havia uma rua dividindo a gente, mas na minha imaginação, ou na minha realidade distorcida, é a primeira vez que eu não vou andando pra escola sozinha.
Estou animada?
Animada.
A-ni-ma-da.
Não, não estou o quanto eu imagino. Mas estou feliz.
Feliz.
Não gostava de ficar sozinha.
Enquanto andava pela calçada, eu observava em silêncio o garoto estranho, enquanto ele olhava para os pés e escutava música. Isso o deixava com cara de triste. Por isso fiz ele feliz no meu desenho. Porque ele não parecia feliz.
Feliz.
Comecei a pensar porque nunca me encontrei com ele enquanto ia pra escola. Se fosse em situações diferentes e em momentos diferentes, talvez nós fossemos amigos.
É, quem sabe.
Porque ele só me olha daquele jeito desagradável.
Ah, é.
Tratei ele daquele jeito. Não, ele tem razão de repelir e evitar.
Correto, correto.
Olhei para ele novamente, que quase bateu de frente num poste, porque olhava para os pés enquanto escutava música.
Eu ri.
Ele era engraçado.
Ele, ele, ele, ele. Quantas vezes isso já foi dito mesmo? Que bobo.
O garoto se virou para mim arqueando as sobrancelhas. Levei um susto. Não estava passando nenhum carro na rua, nem ninguém. Mas isso dava medo. Não tinha ideia como alguém de fones conseguia escutar tão bem.
Ou...
Ou apenas se virou para ver minha reação mesmo.
Ah, que bobo, Rin.
Ele me encarou com uma mistura de indiferença e raiva.
Tudo bem.
Voltando a andar, ele arrumou a mochila e prosseguiu seu caminho. Não perdi tempo, seguindo meu mais novo colega de... Caminho? Tosco. Nome tosco. Mas era isso mesmo.
O observava do outro lado da rua, por isso não percebi.
Apenas senti o meu pé esquerdo ser apertado com força pelo cadarço preso embaixo da minha sola.
E ‘’Bam’’
A primeira coisa que senti foi susto. Depois dor. Depois desespero.
Me encolhi no chão, com vergonha dele me olhar daquele jeito, naquele estado.
E ele estava olhando.
Meu rosto estava quente. Minha perna estava quente. Aproximei minha perna o máximo que pude, olhando aquele joelho vermelho, ralado, sangrando, e um pouquinho inchado.
E sujo.
Olhei para ele mais uma vez, que já estava de costas, e andando para longe.
Abracei minha mochila, preocupada se tinha quebrado alguma coisa. Preocupada com as consequências.
Não sabia o que fazer exatamente.
Não sabia se iria chorar quietinha ou não.
Não sabia ficava no chão ou não.
Só sabia que estava triste.
Triste.
‘’Meu colega de caminho’’, não é meu colega de caminho, afinal.
Só um colega. Nada meu.
E ele era ruim também.
Ele só assistiu.
E não fez nada para ajudar.
Ruim.
Ele era ruim.
Optei por levantar, no chão eu não ganharia nada. Chorar nunca fez nada, nunca mudou nada para ninguém. Não seria diferente comigo. É, chorar nunca fez nada, mas eu chorava mesmo assim.
Mas foi pouco.
Bem pouco.
Só um susto.
Também tratei de amarrar aqueles cadarços coloridos várias vezes. Várias e várias vezes. Bem apertado. Para machucar mesmo.
Fui andando para a escola, sentindo uma ardência cada vez que usava a perna esquerda. Chegando lá, minhas amigas perguntaram o que havia acontecido. Elas realmente eram muito legais. Se preocupavam comigo quase tanto a mamãe se preocupava. Gostava delas.
Eu fui para a enfermaria, onde ganhei um band-aid feio.
Colocaram água oxigenada, mas não doeu.
O band-aid me incomodava, porque parecia prender meus movimentos. Era muito chato.
Eu estava sentada em uma das cadeiras de plástico esbranquiçadas da enfermeira substituta. Ela me ofereceu uma bala de morango, para melhorar, mas eu não queria. Balas assim eram duras.
Deve ser por isso que ela se engasgou quando comeu a bala que supostamente deveria ser minha. Minha bala.
Ela tossia de jeito estranho. Batia no tórax diversas vezes para tentar soltar aquela balinha da traquéia.
Boba, boba, boba.
Eu fiquei sentada na cadeira, tentando colar a bordinha do curativo feio que ela havia me dado. Eu estava começando a ficar preocupada, a moça parecia estar sufocando. Do meu lado.
Então a enfermeira... Principal? Abriu as portas, e alternou o olhar entre mim e a moça engasgando. Olhei para a enfermeira que acabara de chegar, depois voltei a olhar a bordinha do curativo que não queria colar.
A enfermeira foi ajudar a outra.
Então ela finalmente cuspiu a bala de morango, que bateu no meu pé.
Que moça nojenta.
Ela foi até a pia de porcelana branca no canto da sala e cuspiu vermelho.
Acho que era sangue. Não, era sangue mesmo.
Não esperei nenhuma das duas me dispensar para voltar para aula. Abri a porta e fui embora.
Eu fui bem.
Copiei ele direitinho.
Só assisti.
E não fiz nada para ajudar.
Mas eu não me sentia muito bem por isso.
Me perguntava se ele se sentiu bem quando fez o mesmo.
////
Duas horas antes da saída, começou a chover. De novo. Estava forte. Minhas amigas não moravam perto de mim para me dar carona ou algo do tipo. Morar perto da escola não é muito bom. Não mesmo.
Então eu fui andando em baixo da chuva mesmo. Pensava que não era de açúcar, então tudo bem.
Tudo bem só pra mim.
Parei em baixo do mesmo ponto em que conheci o garoto estranho.
Pensei seriamente em ligar pra mamãe dessa vez.
Daí eu lembrei.
Agora, ela estava no trabalho. E mesmo que eu a chamasse, ela não voltaria. Ela não iria voltar, ou vir me buscar, quando eu a chamasse. Não, não. Sim quando isso acabar. Mamãe era boa. Não me dava tchau.
Agora eu entendia.
Talvez só eu.
Tchau era uma despedida.
Despedidas sempre são tristes.
Então mamãe só não queria me fazer triste.
Triste.
Faz sentido agora.
Feliz.
Estou feliz.
Muito feliz.
Suspirei, soltando uma fumaça pela boca. Olhei para o outro lado da rua, acabando por me encolher pelo frio.
O garoto estranho estava lá.
Me encarando. E com uma cara de tédio.
Ele balançou o guarda-chuva azulado algumas vezes. Olhou de um lado a outro, arqueando a sobrancelha para mim, como se fosse idiota.
Foi isso que escrevemos no vidro.
Assoprou o nada, apenas para fazer fumaça.
–Vem logo pra cá.
Eu estava errada.
Ele não era ruim.
O garoto estranho era bom.
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