Kaori Lioni e o Despertar do Primordial
4 1- sem querer transformei meu professor de artes em gelo
Se eu era estranha? Éh.. pode se dizer que sim. Pode olhar o relatório da minha vida e ver quantas esquisitices eu já fiz. Mas o nível de estranheza atingiu o limite a partir do mês de setembro, quando teve excursão para ir ao museu de elementos de Thálora. Era de manhã, tava marcando 7 horas —7 da manhã eu tava dormindo ainda, e eu estava plantada na frente dos portões do internato de Saint-Pierre com um ônibus que não cabia nem ¼ da nossa turma.
Enquanto eu tentava manter meus olhos abertos e lançava uma maldição para quem criou a incrível tradição de acordar cedo, a Yara tava pulando e girando em volta de mim com aqueles cabelos ruivos lisos presos que me deu vontade de puxar e falar “fica quieta marmanja, você tem 13 anos e não 7”, mas fiquei quieta porque ela é a minha única amiga. A minha única motivação para ir era porque Yara ia e também o professor Jato. Ele era o único adulto que não me olhava torto como se eu fosse um problema de matemática sem solução. Eu falaria mais sobre ele agora, mas o sono era tanto que eu só consegui focar na figura dele quando chegamos ao museu e ele se posicionou na frente de todos para começar a aula.
Esperei aquele bando de alunos passar para que eu e a Yara pudéssemos entrar. Por sorte, ficamos na frente, pois sairíamos primeiro e não no meio dos alunos. Pelo menos eu consegui tirar um cochilo de 20 minutos antes de encarar aquele incrível e maravilhoso museu. Fechei os olhos e quando abri a gente já estávamos chegando.
O museu era gigante com portas grandes também feitas de madeira maciça, tinha um corredor entre as escadas e a porta — um corredor reto mas de lado e não em frente, feita de quartzo e umas 5 pilastras segurando o teto, sinceramente, era bonito vai. Entramos e pegamos os nossos cadernos para ter a nossa “mini aula” dentro do museu. Estávamos na frente da estátua dos quatro maiores deuses da mitologia elementar: Jiluxy da água, Ignis do fogo, Quantus da terra e Kiriusu do ar. O professor Jato parou bem no centro das quatro estátuas, fazendo um sinal para a gente se aproximar. Ele era aqueles professores normais de cabelo moreno com alguns fios grisalhos, mas ele explicava tudo de um jeito mais simples e fácil de entender. Enquanto os outros alunos ainda estavam reclamando do peso da mochila, ele já abria os braços como se aquelas estátuas fossem velhas amigas dele. Enquanto o professor de artes organizava os alunos em volta do professor.
Eu tinha esperanças de que nada desse errado na excursão.
Sério, se existisse um prêmio para ‘trouxa do ano’, eu teria levado o de ouro.
Tava na aulinha e a Yara me cutucou e falou que a Mavis tava me olhando. Eu só olhei de volta e ela sussurrou assim:
—Você viu o que mandaram no grupo da escola? Se eu fosse você, nem olhava. E é para seu próprio bem, tá?
Surtei lá mesmo. A Mavis tava com aquele sorrisinho preocupado dela que me deu vontade de arrancar do rosto dela.
—FECHA A BOCA, SUA RIDÍCULA! TODO MUNDO SABE QUE FOI VOCÊ QUE COMEÇOU ISSO!
Todo mundo, inclusive o professor, estava me olhando e olhando a Mavis, que já estava na melhor pose dela: pose de coitada. Tava com os ombros pra cima e os olhos lacrimejando.
—Poxa Kaori, ia só te pedir uma caneta…
Ok, mais um detalhe para colocar no meu relatório de esquisitices.
O professor Jato olhou para mim por uns 5 segundos e depois anunciou para a turma:
—Intervalo de 10 minutinhos! Vão tomar uma água, ir ao banheiro e dar umas bicada no lanche que jajá vamos subir no 2⁰ andar.
Eu tava encrencada, com toda a minha certeza.
Saí e fui para o pátio externo do museu, onde tinha uma fonte linda. Sentei lá com a Yara e conversamos sobre a aula — resumo: sem graça. Quando o intervalo faltava 2 minutos para acabar, a Mavis e suas “subordinadas” vieram me incomodar. Elas falaram um monte de baboseira. Eu não me lembro do que realmente aconteceu, mas eu lembro de ver a Mavis caída na fonte toda encharcada. A vontade de dar risada era tanta que não dá nem para escrever aqui, mas não era só eu não, a escola toda —inclusive as amigas dela, estavam rindo dela. Menos o professor Rafa —carinhosamente apelidado por mim de “cinderelo”, de artes. Eu o chamava de Cinderelo pois ele usava sempre uma calça toda colada no corpo e uma blusa social branca também toda apertada — ele nem era tão musculoso para se mostrar assim. Ele também andava de um jeito meio... afetado, sabe? Tinha um cabelo loirinho e olhos escuros. O tipo da Mavis, acredita? Ele parou na minha frente, ignorando a Mavis encharcada por um segundo, e me encarou com um olhar de reprovação que faria qualquer um querer sumir.
— Lioni, para dentro. Agora — ele disse, com aquela voz de quem ia me dar a maior suspensão da história.
Eu o segui para o corredor de quartzo, com as mãos suando e o meu núcleo — o tal motor de Ferrari — roncando tão forte no meu peito que eu achei que as pilastras iam tremer. A gente parou numa sala longe de todo o museu, uma área remota. Ele me falou assim:
—Kaori, minha querida, você está criando muitos problemas.
—Sim senhor..
—Você realmente achou que ia escapar dessa?
O professor estava estranho. Tipo, o olhar dele era mais que apenas bravo, era… era… perverso. “Ele é um professor, ele não pode me machucar.. eu acho..” pensei comigo. Eu disse:
—eu.. eu vou me esforçar mais.. senhor..
—não será necessário querida. Só não se mexa.
O professor estava ficando maior. Mais musculoso também.. e… com ASAS?! O MEU PROFESSOR ERA UM MONSTRO VOADOR?! Ele passava de rasante em cima de mim, tentando me matar. Uma forte energia passou por mim e saiu um raio de gelo das minhas mãos e acertou o professor, que deu um gemido alto e caiu no chão. Depois disso ele sussurrou assim:
—Eu.. eu vou me.. vingar…
E ele virou.. pó?!
Eu fiquei ali parada, olhando para o monte de cinzas no chão, com o coração parecendo que ia saltar pela boca. Minhas mãos ainda estavam soltando uma fumacinha fria. Eu não tinha matado um professor... tinha? O que eu ia dizer para a Yara? E pior, o que eu ia dizer para o Jato quando ele perguntasse onde o 'Cinderelo' se meteu? Eu estava muito, muito ferrada.
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