VII

Entre Saylem e as Planícies Aráveis.

Kalel percorreu os arredores com os olhos.

Estavam na exata fronteira entre o reino de Lor e as Terras Desoladas, e o contraste entre os dois era visível. Tão perto assim de Saylem não havia mais fazendas, então o chão tinha se transformado num cobertor de capim alto, que esvoaçava descontroladamente devido a forte ventania.

À frente deles, toda e qualquer relva desaparecia para dar lugar a um solo cinzento e ressecado, nada crescia ali. Nem mesmo a luz da lua cheia era capaz de iluminar Saylem, que permanecia escura tanto de dia quanto a noite. As únicas figuras que podiam distinguir na paisagem vazia e fúnebre eram árvores mortas e ossadas de animais aqui e ali.

“Vocês já estiveram aqui antes?”, questionou Melyria, conforme adentraram as Terras Desoladas.

Kalel fez que não com a cabeça.

“Nunca passamos das bordas de Saylem”, disse. “Não há nada aqui para nós.”

“Até agora”, acrescentou Ikram.

Noken caminhava alguns metros à frente do trio. Sua pelagem era uma camuflagem perfeita naquele local e, não fossem os olhos treinados dos Vastag, seria impossível distingui-lo do terreno.

Era o início da madrugada e eles já tinham avançado consideravelmente. Kalel ficava cada vez mais ansioso à medida que entravam mais fundo em Saylem, o silêncio póstumo da região era ensurdecedor para seus ouvidos. Trazia o arco na mão e as flechas estavam ao alcance na aljava presa ao cinto, não sabia o que poderiam encontrar num lugar como esse.

Ikram, por outro lado, estava calmo e atento. Tinha o costume de procurar por coisas boas em lugares ruins, e aquele era um lugar verdadeiramente ruim. Entretanto, o céu acima de Saylem era esplendoroso. A lua cheia estava bem acima deles e, mesmo que seu luar não parecesse fazer muita diferença nas Terras Desoladas, a visão dela cercada por centenas de estrelas era realmente magnífica. Ao olhar para Kalel, pode ver por detrás dele as seis estrelas que formavam a constelação de Azel ao longe.

E por fim, Melyria, que sentia-se estranha naquele lugar. O medo que tinha dentro de si em relação a Saylem fora construído por várias histórias que ouvira durante toda a sua vida, mas um sentimento de curiosidade que despertava dentro dela parecia se opor a todo o receio que carregava. E, acima de tudo, sentia-se estranhamente em casa. Desde a prisão, ela parecia poder escutar a natureza conversando com ela, como se terra e brisa falassem em seus ouvidos, guiando-a com seus sussurros para o coração de Saylem, para o que ela sabia que era o Lilithar.

Por isso, Melyria sempre caminhava um passo à frente dos Vastag.

Mesmo não me conhecendo, Noken parece seguir o mesmo caminho que percorro, ela refletiu. Será que ele também escuta as vozes que me guiam?

Saylem

Horas se passaram sem que o quarteto não chegasse a lugar algum, mas mantinham o passo constante. Se os mapas que Ikram estudara há muito não lhe mentiam, em algum momento do percurso deveriam dar de cara com um rio caudaloso que teoricamente ficava próximo da ruína de um antigo templo destruído. Só pode ser o Lilithar, pensava.

Após muito tempo de caminhada, Kalel teve certeza de que já deveria estar amanhecendo. Os Vastag sabiam contar as horas de formas que outras pessoas desconheciam e ele provavelmente estava certo, mas a lua não tinha se mexido nem um centímetro no céu estrelado.

Há algo de não natural nessas terras, refletiu.

“Melyria”, ele chamou. “Você… Você sente que estamos próximos?”

Melyria suspirou.

“Não sei ao certo”, respondeu. “É como se eu estivesse amarrada por um fio de corda e alguém me puxasse em direção ao Lilithar, mas não consigo saber com exatidão o quanto ainda falta.”

“Saylem é quase tão grande quanto as Planícies Aráveis”, comentou Ikram. “Poderíamos caminhar por dias sem chegar a lugar algum.”

Não é o mais positivo dos comentários, ponderou Kalel. Apesar dos últimos acontecimentos terem colocado em cheque sua descrença em relação a magia, a ideia de que ele e seus dois companheiros vagavam pelas Terras Desoladas se guiando apenas pelas sensações de uma suposta bruxa o perturbava. Se ela realmente estiver se guiando pelo chamado de alguém, como temos certeza de que esse alguém é o contratante? Como podemos garantir que ela não está nos levando direto para uma armadilha?

Mas havia Manto Negro. E Manto Negro não mentiria para eles. Se ele dissera que Kalel e Ikram deveriam escoltar Melyria até o Lilithar em Saylem, é porque realmente havia um Lilithar em Saylem.

A mesma linha de pensamento se construía na mente de Ikram. O que me preocupa, por outro lado, é que se o Lilithar é real, talvez outros mitos destas terras também sejam, pensou. Ele não conseguiu conter um arrepio ao recordar-se de história da Caçada Selvagem, uma horda de cavaleiros espectrais que cavalgavam em seus cavalos esqueléticos por Saylem. Os contos diziam que eles aprisionavam eternamente as almas de quem matavam. Nunca fui supersticioso, por que lendas me incomodariam agora?

Ikram olhou para o antebraço direito e, mesmo com o traje do Vastag a escondendo, conseguiu visualizar a tatuagem das duas linhas paralelas unidas por vários elos que ia desde o pulso até o ombro do braço direito. Não sabia ao certo o que significa, mas aquele símbolo sempre trazia-lhe conforto em meio a ansiedade.

Kalel contemplou o horizonte à frente deles, procurando pela movimentação soturna de Noken camuflada pela baixa luminosidade de Saylem. Identificou-o a tempo de vê-lo parar e se debruçar no chão, encarando o nada em direção ao sul, as presas à mostra.

“Parem”, sussurrou Kalel, segurando Melyria pelo braço.

Os três agacharam-se, buscando abrigo no tronco podre e negro de uma árvore caída que estava há alguns passos deles.

“Noken… O que ele viu?”, indagou Ikram ao ouvido de Kalel.

“Eu não consigo ver nada”, Melyria disse.

“Nem eu”, respondeu Kalel, forçando a vista na mesma direção para qual o feral olhava. “Mas ele é capaz de notar coisas que nós não perceberíamos. Tenham cuid…”

Os sentidos apurados de Kalel foram a única coisa que o salvou. Ao sentir uma sutil mudança no ar próximo as tranças brancas, ele rapidamente atirou-se para o lado antes que uma flecha se cravasse no tronco em que se escondiam.

Abafando um grito, Melyria estudou a flecha presa há alguns centímetros de sua cabeça. Tinha penas esverdeadas numa ponta e o prata laminado na outra. Ela virou-se para trás, para a direção do disparo, e seus olhos deram de cara com um esquadrão de figuras trajando armaduras esmaltadas e esverdeadas, o Punho Prateado repousando no peitoral e os elmos emplumados com crinas prateadas. O que tinha disparado a flecha estava à frente do grupo, flanqueado por dois homens a cavalo, um de cada lado, e mais quatro desembainhando suas espadas longas.

“Lorianos!”, exclamou.

“Merda!”, praguejou Kalel, saltando por cima do tronco.

Ikram e Melyria fizeram o mesmo, pondo a árvore caída entre eles e os soldados lorianos.

“O brasão no peito deles”, falou Melyria. “A maioria dos soldados de Lor não usam o Punho Prateado no peito. Esses soldados fazem parte da Inquisição.”

“Vamos garantir que esses merdinhas de Iseus não a prendam novamente, Melyria”, respondeu Ikram, encaixando o soco caleriano na mão esquerda.

Atrás deles, Noken soltou um rugido. Kalel virou-se, os olhos arregalados vendo que o feral rosnava para outro esquadrão de soldados lorianos. Esse grupo, de apenas três homens, usava gibões de couro sob um tabardo com uma chama verde, carregavam espadas curtas e machadinhas.

“Entreguem a bruxa! Se o fizerem, garantimos que suas mortes sejam limpas e rápidas!”, gritou o homem do arco e flecha, estava há não mais que cem metros deles.

Os lorianos mantiveram-se em postura de ataque, parados.

“Dez deles”, sussurrou Ikram. “Já estivemos em desvantagens piores.”

“E já estivemos em terrenos melhores, Ikram!”, retrucou Kalel. “Espero mesmo que você tenha trazido loxicaina consigo.”

“Trouxe, mas não deveríamos usá-la agora! Os riscos são muito grandes!”, respondeu.

“Não temos escolha!”

“Inferno!”

Ikram jogou o manto para trás e retirou duas ampolas de um dos bolsos do colete, um líquido vermelho brilhante remexia-se dentro delas. Deu um frasco para Kalel e engoliu toda a sua loxicaina num gole.

“O que é isso?!”, perguntou Melyria, ansiosa.

“Um estimulante sensorial”, respondeu Ikram. “Vai nos dar uma chance de sair dessa, mas vamos precisar de você depois.”

“Fique aqui, Melyria!”, ordenou Kalel. “Por favor, não morra.”

Melyria fez que sim com a cabeça. Sua respiração estava cada vez mais acelerada. Memórias ainda frescas da Prisão Inferior inundaram-na.

“Noken!”, chamou Kalel. O feral rosnou em resposta e correu em direção aos Vastag. “Proteja Ikram.”

Kalel virou o frasco de loxicaina na boca, sentindo a substância descer quente por sua garganta, deixando-lhe em êxtase, despertando completamente seu corpo. Agora ou nunca, pensou.

E naquele momento, Kalel era mais Dançarino do que Kalel. Ele podia perceber os sentidos tornando-se mais aguçados, os olhos humanos funcionando tão bem quanto os de um falcão, os ouvidos sensíveis como os de um gato. A escuridão de Saylem não lhe era mais um problema, conseguia enxergar o mundo tão bem quanto Noken, podia sentir o peso das botas dos lorianos pisando na terra abatida.

Naquele instante, o Dançarino sabia que tinha nascido para aquilo, para aquela arte tão delicada e derradeira que era a violência. E ele era um grande artista.

Arco.

As mãos do Dançarino correram para a aljava na cintura e tiraram de lá duas flechas. Seus olhos de gavião fixaram-se no trio que vinha pelo sul. Ele correu alguns metros na direção deles e, com um giro, posicionou o arco horizontalmente e prendeu ambas as flechas na arma.

Disparar duas flechas ao mesmo tempo era uma prática que poucos no mundo dominavam, mas com a ajuda da loxicaina e os sentidos naturalmente aguçados do Dançarino, aquela era uma tarefa possível. Ele prendeu a respiração, ignorando o mundo a sua volta, só seus inimigos e as flechas presas entre seus dedos importavam agora.

O trio começou a correr em sua direção, as armas em mãos. Seus olhos prenderam-se no homem do meio.

Dispare.

As duas flechas saíram voando em direção ao alvo, cortando o ar carregado como se fossem navalhas. Sem errar, uma delas fincou-se na perna do homem do meio e a outra em seu olho direito.

Os dois outros homens pararam por um instante, observando o companheiro caído. Aquilo só serviu para deixá-los mais irritado. Um deles arremessou uma machadinha na direção do Dançarino.

Desvie.

Ele moveu-se sutilmente para o lado apenas o suficiente para garantir que a machadinha não acertasse sua cabeça, sentindo-a passando rente aos cabelos trançados.

Acabe logo com isso, Ikram precisa de ajuda.

Largou o arco e desembainhou ambas as cimitarras. O Dançarino correu na direção dos dois homens. Com um movimento friamente calculado, jogou-se no chão de joelhos entre seus oponentes e fez as cimitarras dançarem, abrindo cortes profundos nas pernas dos dois.

Sentiu um corte no braço direito, na altura do ombro, mas o ferimento não doeria agora e não importava. Levantou-se e realizou um movimento giratório que fez com que ambas as lâminas rasgassem uma longa linha nas gargantas dos dois homens. Ambos caíram, com as cabeças parcialmente decepadas do resto do corpo.

Arco, rápido.

Rolou para onde tinha deixado o arco e num piscar de olhos já estava com ele tensionado. Seu cérebro processou a imagem que via à frente em instantes. Noken corria de um dos homens montados à cavalo, e Ikram postava-se entre os lorianos e Melyria. O homem do arco e flecha jazia caído no chão, um dardo enfiado no olho detrás do elmo. Tamanha era a precisão provida pela loxicaina.

O outro homem à cavalo partiu para cima de Ikram.

Derrube-o.

A flecha do Dançarino foi novamente certeira. Mesmo há uma distância considerável, o disparo acertou uma das coxas do cavalo, que relinchou e tropeçou em seus cascos, caindo no chão e derrubando seu cavaleiro. Ikram saltou por cima do homem, pisando na mão que tentava desembainhar uma espada. Brutalmente, ele golpeou a face do cavaleiro, amassando seus ossos e seu elmo esverdeado.

Noken.

Seus olhos voltaram-se para o norte, onde o feral corria na direção de seu dono, perseguido pelo outro cavaleiro. O Dançarino pegou uma machadinha caída no chão e a arremessou no homem montado, derrubando-o de sua cela com o impacto. Seu cavalo saiu em disparada, abandonando-no. Noken saltou para cima dele e prendeu as presas em sua garganta.

Seis já foram.

Ele voltou-se para Ikram, que lutava para aparar os golpes de espada dos lorianos com as duas cimitarras desembainhadas. Os quatro homens tinham cercado-no e o Vastag girava entre eles, bloqueando ataque seguido de ataque.

Corra.

O Dançarino adiantou-se na direção de seu companheiro, as duas cimitarras ensanguentadas em mãos.

Tarde demais.

Ikram tentou contra atacar um dos homens com uma cotovelada, que acertou-lhe a face. Mas, ao fazê-lo, abriu sua guarda e permitiu que outro dos homens realizasse um corte horizontal na barriga. Ikram gritou.

No mesmo local em que ele já estava ferido. Droga.

Dois homens o seguraram. O que tinha acabo de cortá-lo desferiu-lhe um murro no mesmo local da ferida e o outro que tinha sido acertado pela cotovelada repousou a espada curta na garganta de Ikram.

“Entreguem-nos a bruxa!”, o homem gritou. A voz delatava o asco que sentia por Melyria, como ele e os lorianos não a viam como mais do que uma coisa podre. “Daremos uma chance para que vocês, corvos, tentem correr.”

Pense.

A loxicaina não era suficiente para abafar a impotência que Kalel sentia agora.

Pense.

Há alguns metros dele, Noken tinha se juntado a Melyria, que olhava horrorizada para a cena.

Pense.

Ao longe, ele conseguiu ler o que os lábios de Ikram pronunciavam em silêncio. Ele parecia lutar para ao menos permanecer consciente. Corram.

Droga, Kalel! Pense!

Não conseguia imaginar nenhum cenário em que conseguiria matar os lorianos e que Ikram saia vivo.

Não, isso não pode estar acontecendo.

Kalel deixou as cimitarras caírem no chão ressecado. O baque surdo que emitiram ao encontrar o solo pareceu reverberar por todo o mundo.

Perdoe-me, Ikram.

E então, do breu atrás dos lorianos, surgiu um vulto. De manto erguido, colete, cinto, botas, luvas. Um estrondo quebrou o silêncio mortal de Saylem quando o crânio do loriano que ameaçava matar Ikram explodiu.

Foi tudo tão rápido que Kalel quase não conseguiu acompanhar, mas seus olhos conseguiram distinguir claramente uma pistola, uma arma de fogo que há pouco tempo tinha sido inventada em Arachtor. Aquela em especial, trazia detalhes dourados por toda a sua estrutura. Uma cápsula de latão caiu no chão quando a arma foi disparada.

O alívio percorreu todo o corpo de Kalel.

Outro Vastag!

Em milésimos de segundo, o vulto encapuzado sacou outra pistola do cinturão e explodiu a cabeça do homem que segurava Ikram. Ele caiu no chão, junto com a cápsula da bala.

O Vastag golpeou a cabeça de outro homem com uma das pistolas, deixou a outra cair no chão, pegou um punhal e enfiou na boca do loriano, sentindo a lâmina encontrando sua goela. O último deles foi derrubado por Noken.

Kalel e Melyria correram na direção de Ikram.

O Vastag abaixou o capuz, revelando um rosto de barba e cabelos ruivos e olhos verdes. Kalel o reconheceu.

“Todrick?”

“Olá, Kalel”, ele respondeu com seu sotaque de Arachtor. “Ajude-me”.

Kalel desamarrou o colete de Ikram, deixando o abdômen dele exposto. Todrick tirou um frasco com álcool de um dos bolsos de seu colete e despejou sob a ferida de Ikram.

“O corte não parecia tão profundo.”

“Ele já estava ferido antes, a espada reabriu o machucado”, Kalel respondeu. Os dois revezavam-se entre gazes e remédios para conter o sangue que fluía quente do abdômen de Ikram. “Você é um de nós. Como nunca o conhecemos antes?”

“Cheguei ao Antro e fui treinado por Darius enquanto vocês estavam fora”, Todrick disse. “Ele pediu para que eu os vigiasse de perto a partir do momento que entrassem em Saylem.”

“E não o notamos no nosso encalço”, comentou Kalel.

“É este lugar”, Melyria disse, intrometendo-se no assunto. “A terra abatida brinca com nossos sentidos, esconde pegadas e abafa barulhos.”

“Isso explicaria por que vocês não notaram os lorianos antes”, falou Todrick. Seus olhos voltaram-se para Noken. “Qual é a do gatinho?”

“Noken, ele anda conos...”.

Antes que pudesse concluir a frase, Kalel desabou no chão.

“Kalel?!”, exclamou Melyria, aproximando-se dele. “Kalel?!”

Sem tirar os olhos de Ikram, Todrick falou:

“Eu o vi acertar uma flecha de uma distância bastante descomunal. Ele estava sob o efeito de alguma substância?”

Melyria assentiu com a cabeça.

“Algo chamado loxicaina… Um estimulante sensorial”, sua voz estava embargada. “Ikram também tomou.”

Todrick respirou fundo, o medalhão com a jóia verde ao redor de seu pescoço balançou. Encostou a mão na testa de Ikram, ele queimava de febre.

“Droga!”

“Eles disseram que precisariam de minha ajuda depois da luta”, falou Melyria. “O que isso significa?”

“Vire o corpo de Kalel de lado e segure a cabeça dele um pouco acima do chão!”, respondeu Todrick. “A loxicaina estimula os sentidos humanos por um breve período de tempo, mas depois cobra preços altos demais dos corpos de quem a usa. Kalel e Ikram vão ficar desacordados por várias horas, possivelmente com cegueira temporária. Quanto falta até o reduto das bruxas?”

“Eu não tenho certeza”, ela respondeu. “Mas o sinto próximo.”

“Não podemos esperar aqui, estamos em campo aberto”, Todrick disse. “Você é uma bruxa, certo? Espera… Que merda é aquela?!”

Melyria e Noken viraram-se para o oeste, para a direção que Todrick encarava. Um largo rio de águas turvas e violentas descia em direção ao sul.

“Aquilo não estava ali há alguns minutos”, comentou o Vastag. “Inferno de terra amaldiçoada.”

Antes que pudesse responder, Melyria ouviu o galope rápido dos cascos de cavalos se aproximando deles. Voltou-se para o leste, olhando por detrás de Todrick. Uma dúzia de cavaleiros montados aproximava-se deles numa marcha veloz. Punho Prateado, mais Inquisidores.

“Qual é o seu nome?”, perguntou Todrick. Suas mãos ágeis corriam para colocar outra bala na pistola.

“Melyria.”

“Melyria, faça-me um favor”, ele disse. “Corra!”

E ela obedeceu. Mesmo cansada como estava, correu em direção ao rio como se não houvesse amanhã, o que era uma possibilidade cada vez mais real.

O mundo pareceu se mover em câmera lenta. Melyria olho para trás uma última vez, vendo os cavaleiros lorianos irrompendo em direção a Todrick que, junto com Noken, representavam o último obstáculo para capturá-la. Para levá-la de volta para a Prisão Inferior. Para queimá-la.

Ela parou às margens daquele rio que surgira do nada. Suas águas escuras como as trevas não permitiam que se enxergasse o fundo, que ela suspeitava ser muito mais abaixo do que deveria ser. Melyria sabia que se entrasse na água, não voltaria a sair dela.

Às suas costas, ela conseguia visualizar o que estava prestes a acontecer: Todrick e Noken seriam mortos, Ikram e Kalel seriam pisoteados.

Então é assim que acaba, ela pensou.

Depois de ver sua família morrer, depois de ser presa e torturada, depois de escapar da prisão, depois de reconhecer que realmente era uma bruxa, enfim tudo acabava. Causara assim não só a sua morte, mas também as de quem amava e de seus salvadores.

Ela estava tão cansada de tudo isso. Num período tão curto de tempo seu mundo tinha caído e se levantado, só para desabar novamente. Morreria sem saber o porquê de ter sido acusada de bruxaria, por que tinha atraído a ira de um sacerdote fanático e a empatia de um templo que nem mesmo conhecia.

E, naquele momento, não havia nenhuma resposta surgindo do nada em sua mente, apenas a imensa impotência que a envolvia com seu manto de desespero, esmagando até as esperanças mais fundas em seu âmago. Para qualquer lado que olhasse, não havia perspectiva. Era como se estivesse numa sala escura e as paredes iam se estreitando mais e mais a cada segundo, esmagando-a.

Aquilo despertou sua fúria.

Não estou pronta para morrer, ela pensou. Ainda não! Não serei queimada viva pelas insanidades de fanáticos.

A impotência transformava-se em raiva, um sentimento tão primitivo de ódio e um desejo de vingança tão grande que pareciam não caber em seu ser.

E então, os sussurros transformaram-se em gritos, e o mundo lhe pareceu mais claro.

Esta terra é sua amiga, Melyria.

Exalando poder, a voz feminina veio de todos os cantos. Da terra morta em que pisava, das águas irrefreáveis que seguiam seu rumo sem descanso, do céu estrelado acima dela, da pálida Lua pregada nas alturas inalcançáveis, de todos os cantos da natureza ecoava aquela frase.

Esta terra é sua amiga, Melyria.

O mundo congelou. A bala que acabara de sair da pistola de Todrick era um ponto no ar. As partículas da fumaça causada pelo disparo pairavam estagnadas. Os cavalos, que seguiam seu trote de matança, pararam, suspensos sobre o chão.

Naquele momento, ela sentia tudo que Saylem sentia: o impacto dos cascos dos cavalos, a água açoitando as margens do rio, o peso dos corpos de Kalel e Ikram caídos.

Melyria trajou-se de sensações que nunca antes conhecera. Sentia poderes imensuráveis fluindo por todo seu corpo.

Aquelas eram as terras dela, e os lorianos não eram bem-vindos.

Seus pés não estavam mais presos ao chão, o ar ao redor dela a abraçava.

Flutuando alguns metros acima do solo, Melyria, a bruxa, virou-se para trás fez um gesto com as mãos. Um gesto de poder.

O mundo descongelou. O disparo de Todrick acertou o cavaleiro que ia à frente.

Então, a água enegrecida e violenta do rio atrás dela explodiu, irrompendo-se em duas grandes colunas escuras.

“Ouçam-me agora!”, bradou. Sua voz era como o coro de milhares de sofredores que ansiavam por retaliação. “Nunca mais serei feita prisioneira!”

Os olhos azuis de Melyria tornaram-se prateados, assumindo o mesmo tom pálido e implacável da lua acima dela, e as duas torrentes de água estouraram na cavalaria loriana, caindo sobre eles como a maior das tempestades.

A água do rio transformou numa enorme bolha, levitando acima do chão com os Inquisidores e seus cavalos dentro. O líquido turvo entrou em suas gargantas, penetrando todas as suas cavidades, enchendo-os até que não houvesse mais espaços em suas vísceras, abarrotando-os de todo o sofrimento que tinham causado à Melyria.

Em instantes, toda a cavalaria loriana estava caída na terra cinzenta de Saylem. Mortos. Suas armaduras esverdeadas enegrecidas com as gotas da água negra. Os corpos ainda se mexiam conforme o resto do líquido saia de dentro deles e voltava ao rio, retornando a seu caminho perpétuo.

Os olhos de Melyria voltaram a ser azuis e ela caiu no chão, desmaiada.