Notas iniciais
Boa leitura!

IX

Lilithar, o Templo Profano.

Antilaj ia na frente, Melyria ia atrás.

Atravessaram os portões secundários do Templo — que poderiam muito bem ser os portões principais de qualquer outra catedral — e caminharam em uma trilha de pedras coberta de grama e ervas que serpenteava pelo vale. A noite já tinha caído, mas não era escura e cheia de horrores como diziam os supersticiosos lorianos.

Ao contrário do que sempre ouvira, Melyria agora observava um céu luminoso e repleto de estrelas. Acima das duas, a lua crescente banhava o vale de Saylem com seu luar. Sempre temera a noite, e principalmente o escuro. Agora, nem um nem outro pareciam tão intimidadores.

Há coisas piores que a luz do sol traz à tona, pensou.

Virou-se para trás e parou por um instante. O Lilithar repousava imponente no topo da colina. A estrutura inteira parecia formar uma espécie de desenho se vista de cima, o templo seguia um padrão de corredores e câmaras hexagonais. Pelos caminhos que já tinha percorrido, Melyria poderia assumir que o próprio templo era um hexágono feito de sete hexágonos menores — a ala de Aleril e outras seis — e seus corredores.

As pedras de magicita contrastavam fortemente com o verde da natureza ao redor, mas pareciam se mesclar ao véu da noite acima dele. Sua coloração era idêntica ao céu noturno, mas as espirais e linhas arroxeadas incrustadas nelas aparentavam estar ainda mais vivas do que de dia. Antilaj falou que tudo aqui estava vivo, recordou. Talvez o templo também esteja.

A ideia a deixou intrigada, mas aquele era um questionamento que deveria ser postergado. A trilha de pedras tinha chegado ao fim.

À frente de Melyria, um largo buraco circular era iluminado por dezenas de luminescentes. Era uma espécie de arena rodeada de degraus onde várias mulheres sentavam-se. No centro do anfiteatro, uma plataforma com uma mesa redonda de mármore branco estava cercada por várias cadeiras.

Antilaj e Melyria desceram degraus de pedra e adentraram o espaço.

“Nesta noite, você sentará na mesa conosco”, falou Antilaj.

A garota concordou com a cabeça e as duas encaminharam-se à plataforma. Antilaj sentou-se entre Melyria e outra mulher que chamou a atenção da recém chegada. Tinha cabelos longos e ruivos, olhos dourados como ouro e rugas de expressão que em nada lhe faziam parecer velha, mas sim sábia e especialmente poderosa.

“Esta é Cyrena”, sussurrou Antilaj ao ouvido de Melyria.

Os olhos dourados de Cyrena e os olhos azuis de Melyria encontraram-se. A bruxa ruiva esboçou um sorriso discreto com o canto da boca. Trajava um vestido prateado muito parecido com o de Antilaj.

Outras mulheres sentavam-se na mesa, todas de diferentes rostos e vestimentas, mas que pareciam compartilhar um semblante mútuo de calma e serenidade.

Destoando do resto, quatro vultos negros também estavam na mesa. Melyria reconheceu Kalel, Ikram e Todrick, mas havia também outro homem entre Cyrena e Kalel.

Cyrena se levantou. Qualquer conversa que fosse cessou. Até mesmo a natureza ao redor do local parecia ter ficado quieta, ansiosa para escutar as palavras da bruxa.

“Bem-vindas, irmãs!”, saudou com sua voz melódica. Soava como as ondas se quebrando na praia, belas e irreverentes. “Que a luz da Lua ilumine o seu caminho.”

“E que o véu de Lilith seja nossa proteção!”, responderam prontamente, em coro, todas as mulheres presentes.

Ótimo, pensou Ikram. Resgatamos Melyria de um grupo de fanáticos para levá-la diretamente a outro.

Manto Negro virou-se para os Vastag.

“Somos convidados neste lugar”, murmurou. “Se não lhes pedirem para falar, não abram a boca.”

Os três assentiram.

Ikram olhou para Kalel. Seus olhos pareciam menos vidrados, mas ainda assim não enxergavam. O vale de Saylem lembrava muito Nakur, o continente do qual os Vastag eram originários. A floresta não era tão densa quanto a que cercava o Antro das Adagas, em Hadbron, mas transmitia uma sensação de tranquilidade e pacificidade que Ikram não sentia em muito lugares.

Mesmo assim, ele permanecia alerta.

“É com grande alegria que nos reunimos nesta noite”, iniciou Cyrena. “Lilith mais uma vez nos abençoa com a chegada de uma de suas escolhidas a este refúgio.”

Melyria levantou-se.

Todas as Lilithares, na mesa e nos degraus, imitaram o movimento. As bruxas estenderam suas mãos na direção de Melyria. Ela, perplexa, não se mexeu conforme os luminescentes aproximavam-se, formando um círculo no ar ao seu redor. Brilhavam com a mesma coloração pálida da lua crescente no céu.

“O que está acontecendo?”, sussurrou Kalel ao ouvido de Ikram.

“Os orbes de luz estão cercando Melyria”, Ikram revelou. “Como se a protegessem.”

Kalel não respondeu, cabisbaixo. Sua tristeza em não poder vislumbrar a cena era notável.

“Uma escolha lhe é dada, Melyria Lestaire!”, proclamou Cyrena.

Melyria engoliu em seco. Os luminescentes se separaram e formaram um hexágono perfeito ao redor da garota.

“Lilith lhe escolheu antes mesmo de sair do ventre de sua mãe”, entoou a bruxa. Um coro baixo ecoava das arquibancadas. As Lilithares cantavam em uma língua que os Vastag não reconheciam. “O Caminho da Lua lhe é oferecido!”

Os orbes de luz desfizeram sua formação e dançaram pelo ar acima do anfiteatro. Ikram encolheu-se em sua cadeira quando um deles passou perto de sua cabeça. Os luminescentes voltaram a se unir, dessa vez formaram uma esfera esbranquiçada, alinhada perfeitamente entre Melyria e a lua crescente.

Uma luz leitosa caiu do céu. Todrick arregalou os olhos, incrédulo, ao ver o feixe iluminar Melyria. Parecia que, naquela noite estrelada, tudo era escuro e a única luz no mundo era aquela vinda de cima, destacando Melyria dentre todas as criaturas. Era esplendorosa.

Kalel, mesmo sem conseguir ver nada do que estava acontecendo, sentiu um frio percorrer sua espinha e os pelos eriçaram-se. Há outras coisas presentes aqui nesta noite, refletiu.

“Todas aqui são filhas da Lua!”, continuou Cyrena, o coro feminino subiu um tom. “Assim como nós, Melyria Lestaire, a Deusa também lhe abençoou e agora deves decidir: seguirá o Caminho da Lua, onde a verdade e o saber reinam soberanos, ou continuará a viver no mundo dos homens, em meio a sua ignorância e falsidade?”

Lembranças abarrotaram a mente de Melyria. Memórias de uma vida sem perspectiva como mais uma fazendeira loriana, de uma futura mulher que só serviria para gerar filhos e arar os campos. E então, essas memórias foram interrompidas, roubadas de sua consciência, substituídas por um exército de fanáticos e sua prisão embaixo da terra. Eram memórias escuras, mas não tanto quanto as fendas de trevas que a encaravam no breu.

Melodia.

Os grilhões do passado prendiam-na nas paredes subterrâneas.

Melodia.

Os gritos do homem cortado ao meio preencheram-na de medo.

Melodia.

O passo arrastado do Carrasco entrando em sua cela.

Minha melodia.

Os cortes em sua pele sangravam, sua inocência esvaia-se junto ao sangue jorrado.

Não sou sua melodia.

Os Vastag salvaram-na da Prisão. Ela salvara eles em Saylem.

Nunca mais serei feita prisioneira!

“Eu escolho o Caminho da Lua!”, gritou.

E o mundo parou para lhe ouvir.

Por um instante eterno, tudo ficou quieto e escuro. Então, os luminescentes expandiram-se, o céu explodiu em seu resplandecer prateado. Ikram olhou ao redor, vários suportes com braseiros que não tinha notado incendiaram-se em chamas pálidas e esbranquiçadas.

Todas as Lilithares se ajoelharam. Manto Negro sinalizou para que os Vastag fizessem o mesmo, e assim o fizeram. Os orbes de luz reduziram seu brilho e alinharam-se aos braseiros, recobrindo o perímetro do anfiteatro com sua luz.

Ikram olhou para o céu e não conseguiu impedir o queixo de cair. Com os olhos arregalados, contemplou a lua que, antes em sua fase crescente, agora era cheia e parecia tão próxima deles quanto as copas das árvores do vale.

Cyrena levantou-se e aproximou-se de Melyria, seus dedos se entrelaçaram com os dela.

“Todos saúdam Melyria, filha de Lilith, lâmina da Deusa!”, bradou.

Por um instante, Ikram viu de relance os olhos da mais nova bruxa do Templo totalmente prateados, o azul tinha desaparecido deles. Encarou-a com mais atenção, seus olhos estavam normais.

Virou a cabeça para o céu. A lua crescente acompanhada de suas estrelas jazia distante acima dele.

Deusa da lua, é?, pensou. Talvez essa seja a primeira religião que conheço com algum fundo de verdade, faríamos bem em manter uma boa relação com essas bruxas.

Melyria afundou-se em sua cadeira. Antilaj encostou a mão em seu ombro e sorriu. Agora, ela era uma Lilithar.

A imagem de uma pequena casa nas Planícies Aráveis de um casal de fazendeiros com seu casal de filhos parecia-lhe agora tão distante, antiga como os primórdios do tempo. Recordava dos momentos finais de Makael, do pai e da mãe e os via como uma espectadora, não como a Melyria cuja inocência tinha sido roubada naquela fatídica noite.

Não, não era mais Melyria Lestaire, uma camponesa. Era Melyria de Saylem, filha de Lilith, e sua família era um clã de bruxas. A noite não lhe era mais assustadora, mas sim reconfortante e amiga. Olhou para a Lua no céu e enxergou a sabedoria, o caminho para compreender todos os mistérios do mundo e, principalmente, o olhar protetor da Deusa-Mãe que recobria o vale.

Estava em casa.

Entretanto, algo de sua vida passada ainda se agarrava em seu âmago, lutando para não ser totalmente esquecido. E ela não queria lutar contra isso.

Não se esqueça do que a trouxe até aqui e de quem a trouxe até aqui, pensou. Das coisas boas e principalmente das ruins.

A partir daquele momento, esse pensamento tornou-se um mantra para Melyria.

“Melyria juntou-se a nós nesta noite”, prosseguiu Cyrena. “Mas isso não teria sido capaz sem a ajuda de nossos convidados.”

Todos os olhos voltaram-se para os Vastag. Todrick esboçou um sorriso tímido e Ikram encarou o chão. Kalel não teve nenhuma reação aparente. Manto Negro falou:

“Nós sempre cumprimos nossos contratos, Alta Feiticeira.”

“E sempre esperam recompensas a altura delas, assim suponho”, Cyrena respondeu.

“É uma parte essencial de nossa barganha, não posso negar”, falou Darius. Havia um ar de intimidade bastante sutil entre os dois. Kalel o percebeu.

“Muito bem”, disse Cyrena, assumindo um tom mais sério. “As Lilithares concordam em atender um pedido de cada um de vocês, mas antes, para que provemos que a gratidão é um de nossos costumes, devolveremos a visão ao corvo cego.”

Kalel levantou o rosto e suspirou. A ideia de que estava em um lugar totalmente contaminado por magia e forças sobrenaturais não lhe incomodava muito, mas saber que seria afetado por uma delas… Isso era totalmente diferente.

Melhor isso do que a cegueira.

“Por favor”, murmurou.

Antilaj levantou-se de sua cadeira e caminhou passos graciosos na direção de Kalel, que se pôs de pé. A bruxa conseguia sentir o nervosismo escancarado na movimentação hesitante do homem à frente dela.

“Fique calmo”, ela sussurrou.

Kalel fechou os olhos, transitou do breu para o breu. Sentiu o toque suave da mão quente de Antilaj encobrindo-lhe as pálpebras, revestindo-o de uma pureza e inspiração que não lhe eram conhecidas Sobretudo, sentia-se fortemente conectado com a bruxa, mas nem ao menos a conhecia.

Ouviu-a murmurar algumas palavras em uma língua estranha, mas que soava como música aos seus ouvidos. Conseguiu discernir o nome dos corvos, Vastag, em meio a recitação. Antilaj retirou a mão do rosto de Kalel, e com elas se foram suas dores e sua cegueira.

Abriu os olhos.

Olhou para Antilaj, vendo como era bela. Como sua pele era escura como a dele, como seus cabelos também eram trançados.

“Obrigado”, falou.

Antilaj fez uma reverência sutil e voltou ao seu lugar.

Tomado por um êxtase que nunca antes possuira, Kalel girou no lugar, vendo o mundo ao redor dele. Como era belo! O anfiteatro cheio de mulheres, todas unidas como se fossem um único ser pensante, os luminescentes pairando no ar ao redor deles, a natureza verde e intocada, desde a relva perto dele até os cumes das montanhas que protegiam o vale e principalmente o céu: imenso, infinito e glorioso como nem o céu em Nakur poderia ser.

Caminhou para perto dos braseiros. As Lilithares o observaram com curiosidade conforme aproximava-se de um dos luminescentes. Para a surpresa de todos, o orbe de luz não se afastou dele. Kalel estendeu a mão e o luminescente dançou ao redor dela, subindo-lhe pelo braço, chacoalhando-lhe as tranças.

Ouviu passos rápidos se aproximando dele. Noken desceu os degraus correndo e adentrou o anfiteatro. O feral parou ofegante na frente de seu companheiro.

“Você é a mais bela das criaturas, Noken”, disse Kalel, encostando sua testa na cabeça do felino.

As Lilithares pareciam espantadas.

“Ao que parece”, falou Cyrena, retomando a atenção para si mesma. “Nem todos os ferais seguem os mesmos costumes de quando foram criados.”

Kalel levantou-se e caminhou alguns passos na direção da bruxa:

“Ferais?”, questionou.

“É o nome que demos a raça de felinos dele”, Antilaj respondeu. “Noken e os outros de sua espécie são originários deste Templo.”

“Há outros como Noken?”

“Haviam mais antes”, interveio Cyrena. “Os ferais estão espalhados por todo o mundo, escondidos nas densas florestas, nos desertos profundos e nas tundras gélidas do norte. Onde você encontrou este?”

Kalel voltou-se a sentar na mesa. Noken acomodou-se no chão encostado na cadeira dele.

“Há anos cruzei o caminho de um grupo de caçadores que tinha capturado Noken nas bordas de Hadbron em Nakur”, respondeu. “Os caçadores pretendiam vendê-lo em alguma das polis do litoral. Reconheci alguns deles como soldados da infantaria caleriana. Nós e Caleria não temos uma relação das mais agradáveis. Matei os caçadores e libertei Noken da jaula na qual o tinham prendido. Desde então, ele passou a me acompanhar para qualquer lugar que fosse.”

“E este nome, Noken… Foi você quem o deu?”, questionou Cyrena.

Kalel assentiu.

Noken vem da Língua Antiga, cujos fluentes agora são poucos”, a Alta Feiticeira disse. “A tradução mais próxima na Língua Comum seria esfolador.”

“Um nome apropriado”, retrucou Kalel. “Alta Feiticeira, diga-me, por que todos os ferais são originários deste vale?”

“A raça dos ferais é fruto de um esforço conjunto deste clã”, ela falou. “Séculos atrás, as Lilithares abençoaram os gatos selvagens deste vale e transformaram-nos em feras para que as protegessem quando estivessem fora do vale de Saylem.”

Séculos atrás?, pensou. Essa informação leva-me a duas possibilidades: ou os ferais são capazes de se reproduzir ou vivem muito mais tempo do que nós.

Kalel olhou ao redor e disse:

“E por que todas vocês me olharam daquela maneira quando Noken veio ao meu encontro?”, vociferou.

“Os ferais só respondiam ao nosso chamado e de outros seres místicos”, interveio Antilaj, apaziguando os ânimos. “Até agora.”

“Não há nada místico sobre mim”, comentou Kalel.

“Então como você está enxergando?”, falou Cyrena. Kalel não respondeu. O tom de voz dela exprimia sua superioridade na conversa e dizia que aquela discussão estava encerrada. “É chegada a hora das recompensas.”

Kalel e Ikram se entreolharam.

“As filhas de Lilith lhes oferecerão o que Melyria quiser oferecer”, proclamou Cyrena.

Melyria levantou o rosto e arqueou as sobrancelhas, olhando perplexa para a Alta Feiticeira. Cyrena respondeu com um olhar sincero, no qual Melyria conseguia captar a confiança que a bruxa sentia nas decisões que ela deveria tomar.

“Muito bem”, ela disse após um longo suspiro. “Que seja oferecido a Ikram todo o conhecimento guardado nos livros e pergaminhos do Templo.”

Algumas das bruxas entreolharam-se, mas nenhuma ousou criticar a oferenda. Ikram esboçou um sorriso discreto e verbalizou um obrigado com os lábios. Estava ansioso para ver o que os escritos das bruxas poderiam lhe oferecer.

“Para Todrick”, Melyria prosseguiu. “Que sejam oferecidos os ensinamentos práticos sobre o corpo humano.”

Todrick fez uma reverência discreta, agradecido.

A forma como fala com segurança, observou Ikram. Oferece coisas que nem ao menos deveria acontecer… Não age mais como a prisioneira que resgatamos.

“A Kalel... Será oferecida uma bênção para que sua memória nunca falhe e seus olhos nunca fiquem cegos novamente”, proferiu Melyria.

Kalel encarou-a sem fazer nenhum gesto específico, mas ela sabia que estava agradecido.

Melyria voltou-se para o último Vastag:

“Não o conheço”, falou. “Mas creio que seja Manto Negro, certo?”

Darius assentiu.

“Minha última oferenda será um presente não para um, mas para todos. Que este vale sirva de abrigo para os Vastag… Sempre que precisarem.”

“Seu clã e minha ordem possuem um longo histórico de amizade… Mas que foi interrompido há décadas”, Manto Negro disse. “Fico honrado em saber que este vínculo possa ser estabelecido uma vez mais.”

Nós e as bruxas… Ele nunca mencionou isso, Ikram ponderou. Quantos segredos Darius deve manter escondidos de nós?

“As oferendas foram realizadas!”, exclamou Cyrena. “Que esta noite marque o início da aliança entre as filhas de Lilith e os corvos do oeste e que a luz da Lua ilumine sempre nossos caminhos!”

E que o véu de Lilith seja nossa proteção… Seja lá o que isso queira dizer, pensou Ikram, irônico.

Horas tinham se passado. Cyrena e Melyria estavam sentadas numa pastagem verde sozinhas. Uma brisa fresca soprava vinda do norte, fazendo a grama, seus vestidos e seus cabelos unirem-se numa dança esvoaçante.

“Eu estava esperando por este encontro… Às sós”, Cyrena falou. “Muito tempo aguardei por este momento.”

“Você sabia que eu viria”, comentou Melyria. “Como?”

Os olhos da bruxa ruiva pareciam brilhar, o dourado deles era radiante como o sol. Seu semblante permaneceu inexpressivo, mas Melyria sabia que este era apenas uma máscara que Cyrena usava, uma camuflagem que enevoava seus reais sentimentos e reações.

Mas como eu sei disso?, questionava-se. Nem um dia se passara e conhecimento que ela nunca tinha aprendido infiltrava-se em sua mente por todos os caminhos possíveis, enchendo-a de informações e histórias que não lhe pertenciam.

“Tenho ciência de muitas coisas que podem acontecer… E de algumas que definitivamente irão”, respondeu Cyrena. “Chamamos essa habilidade de…”

“Clarividência”, completou Melyria. Cyrena concordou com a cabeça. “Todas essas informações… Por que eu as conheço se nunca me foram apresentadas?”

“Você ascendeu e agora é parte de nosso clã”, explicou Cyrena. “Há, entre nós, um nível de conhecimento básico e compartilhado entre todas. Em poucos dias, você saberá por conta própria o nome de terras além do oceano e ciências antigas que a maioria desconhece. É como eu disse, Melyria, o saber é soberano no Caminho da Lua.”

Melyria fitou o horizonte, vendo a natureza banhada pelo luar estendendo-se até a barreira rochosa de montanhas que mantinha o lugar a salvo dos males de fora. Ali, naquele vale, o mundo era puro, intocado pelas guerras dos homens e suas cruzadas religiosas. Como são poucos os privilegiados a viver em Saylem.

“Este Templo parece guardar maravilhas…”, comentou.

Cyrena concordou:
“De fato, há coisas aqui cujas mentes limitadas nem seriam capazes de imaginar.”

“Diga-me: Por que tanto poder permanece escondido neste vale, acuado entre as montanhas? Por que não ajudam outras que sofrem pelo mundo afora?”

Cyrena suspirou:
“Somos poderosas, sim. Entretanto, a cada dia que se passa nossa magia enfraquece e o poder dos reinos dos homens aumenta. Por hora, muitas de nós terão de se proteger sozinhas…”

“Então... Por que fui resgatada e trazida até aqui?”
“Lilith ama todas as mulheres do mundo, mas nem todas são suas filhas. Você foi escolhida por ela, o Toque da Deusa caiu sobre você e, ao que me parece, com muita intensidade. Vejo muitos caminhos que poderá seguir, mas todos ainda são incertos.”

“Você não respondeu minha pergunta.”

“Talvez tenha sido uma mera coincidência, talvez não… Mas seu Toque foi notado por todas as Lilithares.”

Melyria franziu o cenho. Era um misto de curiosidade com receio.

“Acima de tudo, vejo que você poderá se tornar ainda mais poderosa do que qualquer uma de nós é hoje. Há uma tempestade chegando, Melyria, e se não tivermos um abrigo seguro seremos todos levados por ela, sem exceção.”