
I
Um vilarejo, reino de Lor.
Antes mesmo de abrir os olhos, o cheiro de fumaça e o crepitar das chamas envolveu os sentidos de Melyria. Deitada em cima de um colchão improvisado de palha, a mulher despertou e rapidamente levou a mão ao rosto, tirando os cabelos que cobriam sua visão. Ela sentia que algo ruim estava prestes a acontecer, um aperto incomum afligia seu coração.
Melyria abriu os olhos, nada de incomum na casa, mas ela não conseguia encontrar nenhum de seus familiares em meio à poeira e sujeira de uma casa pobre. Ela se levantou e caminhou em passos silenciosos, a visão se adaptando à pouca luminosidade da madrugada. Seus olhos se encontraram com um forte brilho alaranjado que vinha da janela da cozinha.
Só foram necessários mais dois passos para começar a ouvir o coro de vozes fora da casa. Respirando fundo, ela foi de encontro à porta de entrada, que, meio entreaberta, revelava a origem do brilho alaranjado. Fogo.
Rapidamente, caminhou até a porta, atravessou a soleira e deu de cara com os pais. A mãe, encolhida e assustada, o pai, protegendo sua esposa, e o irmão mais velho segurando uma enxada em postura de ataque. Ah, e claro, um imenso grupo de homens carregando tochas e ferramentas agrícolas.
“O que… O que está acontecendo aqui?”, perguntou Melyria.
“Melyria, entre em casa agora!”, exclamou o pai, sem olhar para trás. Sua voz delatava que o homem estava assustado. Poucas coisas faziam aquele fazendeiro se assustar.
“Ah, até que enfim”, uma voz masculina falou calmamente do meio da multidão. Quase que instantaneamente, todos os gritos e palavras torpes dos homens se silenciaram e um corredor permitiu que o dono da voz ficasse à frente do grupo.
Trajando uma belíssima túnica branca com diversos adornos dourados e escritas em Alto Lórico, um sacerdote que Melyria não conhecia a encarava diretamente, esboçando tanto nojo quanto malícia e, mais do que isso, aqueles eram os olhos de um homem que podia fazer tudo. O sacerdote segurava uma estatueta de um punho cerrado feito de prata e em seu pescoço carregava um pequeno colar de ouro com o mesmo símbolo. Era, sem dúvida, um Adorador de Iseus.
“Criança, era justamente de você que estamos falando”, ele soltou um sorrisinho. “Pensei que nunca viria responder aos gritos destes homens de Iseus.”
“Por que vocês estão aqui? Por que carregam tochas e armas?”, Melyria perguntou.
“Ah, minha querida, não se incomode com estes bondosos servos do Criador. Eles somente vieram para garantir que nenhum mal me aconteça”, respondeu e engoliu em seco. “Eu sou o Alto Sacerdote Elir dos Adoradores de Iseus e, ao que me parece, essa casinha acabada de vocês não está servindo de morada para o Punho Prateado.”
“Não, não, você está errado sacerdote! Nós somos…”
“Cale-se, tola, não estava falando com você”, bradou Elir, interrompendo a súplica da mãe. Ele voltou os olhos negros como trevas para Melyria. “E você, sua vadiazinha, é um dos seres mais desprezíveis que já encarei em toda minha vida.”
“Ora, seu filho de uma…”
Antes que Makael, o irmão de Melyria, pudesse terminar o xingamento, Elir fez um gesto com o braço e um dos homens ao seu lado avançou contra o rapaz. O homem, que era muito mais alto e forte que Makael, tirou a enxada das mãos dele, acertou o cabo no meio de suas pernas e empurrou-o contra a parede de madeira da cozinha. Em seguida, o fanático tirou uma tocha das mãos de outro homem e a pressionou contra o abdômen do irmão de Melyria.
Makael gritou desesperadamente enquanto a tocha queimava seu corpo, juntando pele, carne, víscera, fezes e sangue numa pasta enegrecida. A mãe, em lágrimas, tentou avançar e proteger o filho, mas foi impedida pelo marido que a envolveu com os braços e a segurou aos berros.
Makael caiu no chão, um líquido pastoso e escuro escorria da barriga carbonizada, que agora nada mais era do que um buraco fumegante. Melyria observou inexpressiva os suspiros rápidos do irmão mais velho, que lutava para se apegar ao último fiapo de vida que lhe restava. Vendo o sofrimento do rapaz, o agressor colocou o pé em cima do peitoral de Makael, pele carbonizada já começava a se descolar do torso e um cheiro de vísceras misturado com brasas impregnou o ar. Melyria e os pais viraram o rosto para o outro lado ao ouvirem o som dos ossos de Makael cedendo ao peso do pé de seu assassino, a vida se esvaindo completamente do amado irmão e filho.
Makael estava morto e seu corpo calcinado.
“Por quê?!”, gritou Melyria, se pondo à frente do pai e da mãe, com uma voz que era uma mistura de dúvida com raiva. “Você… Você é um demônio!”.
Ela apontou o dedo não para o homem que matara seu irmão, mas sim para o Alto Sacerdote.
“Eu? Você se engana”, ele disse com um tom severo. “Os únicos demônios neste lugar são os seus pais e seu falecido irmão, que a essa altura já deve estar ardendo no fogo do Inferno. Quem mais abrigaria uma bruxa como você e chamaria de filha e irmã?”
“Eu não sou bruxa!”, Melyria tentou gritar, mas as lágrimas e a dor da morte do irmão só permitiram que uma voz embargada saísse de sua garganta. “Vocês mataram Makael sem nenhuma razão, vocês todos arderão no inferno!”
Elir deu uma bofetada no rosto dela. Melyria caiu no chão, aturdida, sangue escorrendo do nariz. Dois homens a levantaram e a seguraram em pé, de frente ao Alto Sacerdote. Elir a encarou atentamente, os olhos negros refletindo o rosto machucado. Sem hesitar, Melyria cuspiu na cara dele.
“Patética”, Elir falou calmamente, limpando o cuspe do rosto.
O Alto Sacerdote desviou o olhar de Melyria para seus pais. “Pelos poderes a mim concedidos pelo Divina Igreja do todo poderoso Iseus, senhor desta terra e de todas as outras para além do oceano, eu condeno este grupo de diabos ao fogo do inferno. Que este casal de seres infernais arda eternamente junto de sua prole desprezível.”
“E, para essa bruxa, nenhuma sentença é mais adequada do que a morte em praça pública. Você será levada à Prisão Inferior e irá confessar todos os seus atos de bruxaria, um por um, até o dia de sua execução chegar. Então, você será queimada e suas cinzas serão esquecidas, devoradas pelos ratos no esgoto. É o tempo deste reino precisa aprender que o Punho Prateado é supremo e que não há espaço para demônios.”
“Mas antes, a bruxa deve observar enquanto seus lacaios infernais partem deste mundo para os confins ardentes.”
Elir se afastou, caminhando para longe. Melyria observou inerte enquanto homens com tochas ateavam fogo em sua pequena casa. O mesmo homem que matou Makael agarrou o pai e deu-lhe um soco no estômago que o fez cair no chão. O fazendeiro, cambaleando, tentou revidar, desferindo um golpe ineficaz no ar. O homem pegou a cabeça dele e violentamente levou-a de encontro à madeira quente da casa em chamas.
Os mais puros gritos de dor saíram da boca do pai conforme o homem esfregava seu rosto nas tábuas incandescentes. Quando terminou, metade de sua face rústica estava em carne viva e líquidos escorriam da cavidade onde ficava seu olho direito, agora reduzido a uma pasta cinzenta. O homem levantou-o pelos cabelos, arrastando o fazendeiro quase sem vida para perto de Melyria, que não teve tempo de dizer nada antes que a garganta de seu pai fosse esfaqueada.
Sangue quente tingiu as roupas de Melyria do mais escuro dos vermelhos quando o corpo de seu pai foi jogado em cima dela. Em choque, Melyria só teve tempo de olhar de relance para os homens que espancavam sua mãe antes de desmaiar.
—
Naquela noite, os moradores de um vilarejo próximo a Lor-Al assistiram assustados ao assassinato da família Lestaire e a condenação da filha mais nova do casal, Melyria, acusada de bruxaria. Um Alto Sacerdote, um dos homens mais importantes da Igreja de Iseus, parou no meio da rua principal e bradou a todos que pudessem ouvir.
“Que esta noite sirva de exemplo para todo aquele que se desvia do caminho de Iseus e compactua com os seres mais cruéis deste mundo: os demônios. Convido a todos para que, em catorze dias, venham à Lor-Al e assistam a execução da mais suja das mulheres, essa concubina do demônio, essa bruxa que morava perto de suas casas.”
“Para aqueles que consideram minhas atitudes extremas, pensem no que essa serva do inferno teria feito com seus filhos e seus entes queridos. Não se enganem por seu belo rosto, essa mulher teria esfolado a pele de suas crianças e se banhado em seu sangue depois de dançar nua para que todos os demônios a assistissem.”
“Agora, meus amados devotos de Iseus, não tenham mais medo, pois o Punho Prateado novamente protege este vilarejo.”
“Lembrem-se sempre: os atos da Inquisição Loriana nada são além das palavras do grande Iseus transformadas em ações.”
E, com este sermão, uma procissão de homens com tochas apagadas e ferramentas ensanguentadas acompanhou um Alto Sacerdote de volta para Lor-Al. No fim da procissão, uma jovem e bela mulher de cabelos loiros era arrastada com uma corda. Melyria.
—
Foi naquela terrível noite, cercada de terríveis homens e de um terrível sacerdote, que a pureza de Melyria foi arrancada de si.
Foi também naquela noite, sobre o eterno e pálido olhar da Lua cheia, que uma bela mulher de cabelos loiros e roupas empapadas de sangue fez uma promessa. Uma promessa de vingança.
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Em algum lugar de Saylem.
“Você sentiu isso?”
“Senti, irmã. Forte e volátil como há muito não sentia.”
“Mas dessa vez, não é só o Toque da Deusa… Não… Há algo mais... “
“Sim, há uma força muito mais primitiva que fortalece a bênção. Algo tão antigo e poderoso quanto nossa própria Mãe.”
“E o que seria, irmã Cyrena? ”
“É inconfundível, Antilaj. Sede de vingança.”
“A cada minuto que passa sinto a energia se distanciando, diminuindo, e a presença do pequeno deus dos homens se tornando maior.”
“Por hora, a pequena manifestação do Toque foi o suficiente. Sabemos que temos mais uma irmã perdida no mundo dos homens, e é nosso dever encontrá-la. Agora, não percamos mais tempo. Contate o Manto Negro.”
“Como desejar, irmã Cyrena. Que a luz da Lua ilumine seu caminho.”
“E que o véu de Lilith seja nossa proteção.”
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