Kaleidoscope - Um Mundo só Seu

13 Cap. XIII – Desordem no Paraíso


Notas iniciais
Este capítulo é mais (bem) curto que os outros, mas acredito que seja mais intenso também. Meio parado,comparado com o ritmo frenético que a fic tinha no começo, mas acredito que seja um dos últimos assim. Porque eu meio que tenho a sensação de que ela não está avançando, e isso tem que mudar. Digamos que finalmente chegamos no meio da história. Desordem no Paraíso é a tradução de Disorder Heaven by vocês sabem quem.

A Nah que betou pra mim. Minha irmã deu os palpites. Quanto a trilha sonora, fiquem a vontade pra ouvir o que quiserem num clima sombrio e depressivo.

Uruha lembrava-se de ir a jantares elegantes quando era mais jovem, com sua família. Em geral, eram jantares tradicionais, em restaurantes caros, com mulheres de quimono ou tailleur, que o aborreciam mais do que qualquer coisa. É claro, na época ele não imaginava que iria se encontrar sentado a uma longuíssima mesa de jantar escura, estilo francês, participando do jantar de aniversário mais desconfortável do mundo.

Nada para acabar com a graça das coisas como a classe.

Saga-san sentava-se a ponta. Lugar do anfitrião. Comia com talheres de prata, no lugar de hashi e parecia completamente à vontade no ambiente silencioso pontuado de tilintares e tossidinhas. Observava os outros dois, com um leve sorriso. Ruki sorvia sua sopa verde em silêncio, como sempre, olhos fixos no prato. Uruha estava tendo um certo problema para acompanhar a elegância de Saga com os talheres. Internamente achava que o executivo estava rindo dele por isso. Mas este, na verdade, tinha outros tipos de pensamento para se divertir com sua inabilidade.

Saga sabia o que todos diziam pelas suas costas. Que era cruel, implacável, que não tinha alma e tinha uma pedra de gelo no lugar do coração. Ele sabia e de certa forma isto o agradava. Era melhor que tivessem medo dele, que pudesse mantê-los em rédeas curtas, sabendo de tudo, ouvindo tudo. Nunca chegaria onde estava se não fosse esperto o bastante para jogar com o pavor alheio. Um princípio básico, descrito em sua obra prima de cabeceira “O Príncipe”[1].

Mas esta ralé ignorante não sabia de nada. A plebe nunca teria capacidade mental o bastante para conseguir sequer imaginar como ele realmente era. Como havia sido sua vida. O quê, entre tantos acidentes de percurso, o haviam transformado no Boogieman[2], Coração de Gelo e tantos outros epítetos desagradáveis. E embora Saga não fosse um homem de perder tempo com o passado, ao observar Ruki e seus olhos inexpressivos, seu jeito inocente e todo o potencial que se escondia dentro dele, deixou-se lembrar de alguns fatos de sua infância.

Não nascera pobre. Muito pelo contrário, nascera numa excelente família de classe alta, decadente e cheia de podres como quase todas as outras da mesma estirpe. O primeiro filho que conseguiu sobreviver até um ano de idade, já que todos os que havia nascido antes tinham um corpo fraco ou alguma deformidade que os tragara para uma morte prematura. Grande parte da culpa disto era o vício incontrolável de sua mãe por heroína. Saga lembrava-se de sua mãe muito nitidamente. Seus olhos cinzentos como os de Uruha, suas pupilas sempre minúsculas devido ao uso da droga. Ria histericamente às vezes, sem nenhum motivo aparente, até cair em um choro convulsivo e sufocante. E estas eram as únicas vezes em que demonstrava algo parecido com emoção.

A senhora Takashi, quando não se prostrava num sono inquieto por dias a fio, passava suas horas perambulando pela casa de madeira, indiferente a qualquer pessoa. Parecia sempre muito confiante em si mesma, embora magra e trêmula. Quem a observasse de longe, veria uma perfeita dama, imóvel diante dos acontecimentos em seu mundo. Isto até que a perturbassem.

Os olhos de Saga se estreitaram levemente, embora nem Ruki nem Uruha pudessem perceber uma mudança em sua fisionomia. Enquanto o herdeiro Matsumoto crescera totalmente protegido do mundo real pela sua própria mente, Saga fora obrigado a aprender a usar a sua muito cedo. Qualquer deslize, qualquer erro, mesmo que imperceptível e não intencional, faziam a alta dama Takashi transformar-se numa besta destruidora sem expressão. Ela quebrara o braço de uma criada com um atiçador de fogo, quando Saga tinha cinco anos, porque a criada atrasara seu jantar três minutos. Ela enfiara uma faca de cozinha no abdômen do senhor Takashi porque ele não notara seu vestido de festa, e por pouco não o matou. Pequenos ou nem tão pequenos incidentes que eram abafados pelo dinheiro da família. É claro, Saga não escapava.

Quando era pequeno achava normal que sua pele leitosa vivesse coberta de hematomas roxos doloridos. Devia ser parte de viver, pensava. Como poderia saber que não era? Seu pai nada fazia para impedir sua mãe de lhe espancar apenas pelo prazer de macular seu pequeno corpo pálido e novo, enquanto ela envelhecia precocemente sob os efeitos da droga. Ninguém fazia nada. Ela detinha o dinheiro. Ela detinha o poder.

Um dia, quando Saga tinha sete anos, seu pai desapareceu. Ele nunca soube realmente se ele havia simplesmente se cansado daquela vida infernal e fugido, ou se sua mãe havia finalmente conseguido fazer uma vítima fatal e usara da influência de seu nome para ocultar os rastros. O pequeno Sakamoto sofreu pela ausência do pai, trancado no quarto por meses. Era um mundo solitário e muito pouco interessante para uma mente que, apesar de todos os infortúnios, era inegavelmente brilhante. Mas logo o dinheiro trouxe outro pai. E outro. E muitos. Alguns gentis com ele. Outros não.

Saga estava ingressando no High School quando sua mãe começou a namorar um homem chamado Yang Xinhai. Um chinês enorme, troncudo, coberto de anéis e correntes de ouro. Um imenso mau gosto para combinar com sua imensa fortuna, feita de maneira obscura em seu próprio país. Muito mais rico que a família Takashi, dilapidada pelos constantes abusos da senhora Takashi. E, portanto, muito mais poderoso. Saga, com então quinze anos, estava bastante acostumado as surras da mãe e já nem sentia a força de seus braços magros na pele. Ele entendia, de alguma maneira, que não era ela. Era a heroína, diziam os médicos. Sempre a heroína.

Não havia desculpas para a violência gratuita do senhor Xinhai. Ele simplesmente gostava de ver outras pessoas sentirem dor. Gostava de inflingir-lhes isto. Mais tarde Saga aprendeu que a palavra que se usava para pessoas como ele era ‘sádico’. Ele não tentava, chegava até a incentivar, o uso da droga por sua mãe. Quando ela estava no estado mais deplorável de insanidade, ele então abusava dela. Violentamente como era de seu gosto. Saga ouvia os gritos. Uma vez viu tudo, através de uma fresta da porta. Agora ele sabia que não era normal ter uma vida daquelas. Mas o que poderia fazer? Quem iria salvar todos eles? Ninguém. O poder e o dinheiro corriam pelo lado mais sujo da humanidade e fora neste esgoto moral que o rapaz crescera. Ele aprendera muito cedo a dizer as coisas certas para não se ferir. E aprendera também que, se fosse esperto o bastante, poderia lucrar ocasionalmente. A vida ensina suas mais valiosas lições das maneiras mais estranhas, pensava.

O tempo passou e o senhor Xinhai não se foi como os outros. Não, sempre ali, presente e onipresente. Sua mãe não o expulsaria como fez aos outros. Ele era mais rico, mais forte e mais esperto que ela. Ela não representava um desafio muito grande para ele. “Talvez por isso”, Saga pensou a mesa de jantar, “ele tenha se voltado para mim”. O jovem Sakamoto, embora adolescente, representava um grande desafio. E também uma grande recompensa. Um corpo de uma criança num rapaz de dezesseis anos, com uma mente afiada e interessante. “Talvez ele tenha se perguntado quanto tempo levaria para conseguir me subjugar” considerou, levando o garfo aos lábios como se estivesse pensando no tempo lá fora.

A noite em que foi violentado pela primeira vez era um borrão para ele. Lembrava-se do homem truculento entrando em seu quarto. Lembrava dos pijamas rasgados de seu corpo com violência. De lutar para se livrar daquele bafo fedorento de sake barato sobre seu rosto. Lembrava-se do padrasto apertando sua garganta com força, batendo sua cabeça contra a cabeceira da cama. Então era dor. E depois uma dor ainda mais fina, mais humilhante. Yang Xinhai detinha o domínio sobre ele, sobre seu corpo. Algo dentro de Saga mudou naquela noite. Ele entendeu o quão longe o poder poderia ir. Aquele homem podia ter tudo, até sua alma para estraçalhar.

Ele se tornou então, obcecado em possuí-lo também.

Saga espantou as reminiscências, voltando-se com um sorriso gentil ao seu pequeno Ruki. Não valia a pena lembrar daqueles abusos depois disso. Não lhe eram úteis nem agradáveis. Já havia aprendido sua nova lição. Agüentou mais um ano e então mudou-se, começou a estudar tudo o que fosse necessário para alcançar o mesmo poder e a mesma fortuna que aquele homem. Às vezes recebia sua visita, deixava-se dominar, subjugar, às vezes até gostava. Era melhor aprender a gostar da dor que sofrer com ela todas às vezes. A dor podia sim andar de mãos dadas com o prazer. Mas longe das garras de Xanhai e de seus familiares, Sakamoto cresceu sozinho e se colocou sozinho numa posição de status nas empresas Matsumoto.

Lidou muito bem com a morte prematura da mãe e até com o suicídio do padrasto devido a dor da perda. Muito bem.

Foi mais ou menos quando conheceu Ruki. Havia se tornado um dos sócios majoritários das empresas a poucas semanas, o senhor Matsumoto o convidara para ir a sua casa comemorar. Ruki tinha exatos dezesseis anos. Não sorria muito e não o olhava nos olhos. Como Saga, também tinha uma mente afiada e brilhante. E era onde as semelhanças terminavam. Ruki era protegido, amado por seus pais. Ele era paparicado. Saga se perguntava se esse excesso de zelo não era o que havia feito sua mente definhar, tornando-o um autista. Gostara dele, de seu jeito confiante, sério e meigo ao mesmo tempo. Da compleição infantil. Do jeito como sempre pensava antes de falar e sempre falava com elegância. Um pequeno principezinho. Nunca teria notado a deficiência se já não soubesse dela de antemão.

Ah, aquela abençoada inocência que apenas Ruki possuía. Tornava-o lindo.

Seguiu o exemplo dos outros e o mimou também. Deu-lhe presentes, conversou com ele, ganhou sua confiança e ao mesmo tempo a confiança dos Matsumoto. Apaixonou-se por ele. De um jeito que não acreditava ser possível. Como se fosse seu próprio filho.

Quando os Matsumoto morreram naquele lamentável acidente de carro, Saga aparentou muita surpresa em descobrir que era agora sócio majoritário e tutor legal de Ruki. Não quis que o pequeno mudasse de casa, não seria bom para ele, então se mudou ele para a mansão Matsumoto. Estendeu suas garras de poder e dinheiro, alcançando tudo o que sempre quis. Transformou a mansão a seu gosto, as empresas a seu gosto. Finalmente tinha todo o poder que poderia possuir, poderia ter e fazer tudo o que quisesse. Perguntou-se se poderia também “consertar” aquele pequeno. Será?

Então decidiu também transformar Ruki. Tinha uma certeza íntima que poderia ‘ajustá-lo’, de um modo que os frangotes dos psiquiatras nunca poderiam. Ele tinha o poder todo, não tinha?! E se não pudesse preparar Ruki para viver no mundo real, ao menos poderia protegê-lo do mundo decrépito de corrupção e política em que se encontrava. Sim, tinha que defender Ruki da humanidade, da sordidez da vida, enquanto o ensinava a ser forte e lidar com a própria riqueza. Transformava-o no herdeiro perfeito.

Pousou a mão sobre o ombro do menor, que sentara-se ao seu lado. Tinha que ser o Coração de Gelo, o Boogieman, era um preço pequeno a pagar pela segurança absoluta de seu Ruki. Seu precioso e frágil Ruki, que um dia despertaria de uma mente quebrada para a vida real e então o agradeceria pelas lições severas, como Saga agradecera ao senhor Xanhai por lhe mostrar o caminho.

Era uma questão de tempo. De manter-se alerta. E de afastar os potencias perigos que arruinariam todo o projeto.

Viu Uruha acompanhar seu gesto com o canto dos olhos.

- Bem, Ruki, como se sente hoje? Vinte e quatro anos, uma data importante – disse docemente ao enteado. Ruki murmurou um “bem” sem tirar os olhos da comida. Estava com medo. Medo demais. E a culpa era do homem junto a eles, que incutia nele um espírito fraco e ideais utópicos de amizade. Se não mantivesse o medo sob controle, tudo o que fizera pelo pequeno seria inútil. Virou-se para Uruha.

- Gostaria de me desculpar pelo tratamento que lhe dispensei na nossa última conversa – disse, e seu tom não era nem um pouco arrependido. – Ruki gosta de você e, portanto, eu também gosto. Somos uma família aqui, Takashima-san, e eu ficaria feliz em ver você se juntar a ela, um dia.

Uruha o encarou por um segundo. Tudo aquilo era uma merda de mentira, ele tinha certeza. Saga-san era perigoso, devia manter os olhos abertos. Mas como nada mais lhe ocorria naquele momento, se inclinou agradecendo e respondeu educadamente.

- Eu fico feliz em poder estar sempre ao lado do Ruki. Ele pode contar comigo sempre que quiser.

Saga sorriu seu sorriso mais cativante, entendendo muito bem a ameaça.

-

Nao sentia seus braços congelarem, mas não se moveu. Precisava conversar com Kai e para isso precisava esperar que o outro saísse do trabalho. Não seria certo incomodá-lo no serviço, ainda mais para falar de um assunto tão delicado. Embora Nao não estivesse levando aquilo tudo realmente a sério.

Sim, ele não podia negar que gostava de Kai. Era um cara bonito, simpático, com alguma coisa especial no sorriso. Simples e bom, como quase nada em sua vida era. Não iria negar também que adorara aquela noite do píer, os beijos tão macios, tão carinhosos do outro, a entrega suave deles aquela noite, como se nada mais pudesse acontecer para perturbá-los. O constrangimento do maior naquela hora lhe pareceu até mesmo fofo, como se fosse a primeira vez dele. E de certa forma era, pensou. Pelo menos, pelo pouco que haviam conversado, Nao tinha certeza que Kai era um desses caras que passa a vida toda trocando de mulher, procurando pela mocinha perfeita para iniciar uma vida perfeita juntos, para uma hora descobrir que nunca haveria uma mocinha perfeita porque lhes faltava algo no meio das pernas.

Mas Nao não o amava e nem achava que uns amassos durante uma noitada eram um assunto muito sério. Só precisava conversar com ele, tranqüilizá-lo, dizer que estava ali caso quisesse desabafar. Ou tentar algo mais. Estar ao lado dele, ser um bom amigo. Era esse seu objetivo desde o princípio, certo?

E enquanto tentava se aquecer apenas com estes pensamentos, Kai deixou a lanchonete, enrolando um cachecol no pescoço. E parou. E olhou para ele nos olhos durante alguns segundos. E virou as costas.

Nao, que havia prendido a respiração, recuperou-se e correu atrás dele, tentando não bater os dentes. Aquela droga de frio estava durando tempo de mais! Segurou-o pelo ombro e Kai se virou bruscamente.

- Kai... a-acho que nós precisamos conversar, né?

- Não, acho que não – Kai resmungou, sem o olhar novamente, tentando seguir caminho.

- Vamos, não faz mal algum conversar...

- Não – Kai se virou, cruzando os braços na frente do tórax. Estava imensamente irritado com o outro. Tinha ódio dele. Por ser tão protetor e calmo, e tão gentil, e tão lindo com as bochechas coradas de frio e aquela roupa escura meio larga para ele. Por confundi-lo e fazê-lo acreditar que era uma coisa que não era, que toda a sua adolescência perseguindo garotas e se apaixonando por elas era uma mentira. Fazê-lo acreditar que Nao o conhecia melhor que ele mesmo.

Por ser tão ridiculamente perfeito.

-...Kai...

- É sempre isso! Sempre a mesma coisa! Primeiro era o Uruha, depois tinha o Aoi, o Tora e todos a minha volta com essa mania de achar que mulheres não são boas o bastante e tentando me convencer disso! Mas elas são boas o bastante pra mim, okay?! Você é igual a eles, eu só estava me enganando achando que você era normal.

Aquilo doeu. Nao sentiu uma pontada de mágoa e se afastou um pouco. Não esperava aquilo de Kai, ser chamado de anormal. Não estava tentando fazer ele acreditar em nada, oras! Só estava... com ele. Que mal havia em gostar dele? Mas tentou ver pelo lado do maior. Lembrava-se de quando ainda pensava daquele jeito, querendo ficar apenas com mulheres. Era só um estudante caipira e inexperiente quando conheceu o primeiro e único amor de sua vida. Grande decepção, no entanto o fez perceber o porquê de sempre sentir que faltava algo em suas relações anteriores. Mas no começo também ficara confuso e zangado. E era por isso mesmo que Kai precisava conversar sobre aquilo.

- ...Eu... não pretendia enganar você Kai. Por favor, me deixe pagar um jantar de desculpas. Só um jantar, eu juro!

Kai passou os dedos pelos cabelos escuros. Droga. Droga! Estava sendo um animal, grosso e ilógico. Mas nem ao menos estava com fome. Não era um grande fã de álcool, mas preferia estar em um bar agora que em um restaurante. Quem sabe alguns copos do que quer que fosse o fizessem relaxar um pouco e pudesse manter uma conversa civilizada com Nao, explicar a ele de uma vez por todas que não era gay.

- ...Tem um bar aqui perto – acabou respondendo, olhando para os próprios pés.

- Ótimo...

Kai recomeçou a andar, desta vez um pouco mais devagar para que o outro o acompanhasse. Caminharam em silêncio e nenhum dos dois tinha certeza se seria bom dizer alguma coisa antes de chegarem. Puxar um assunto trivial pareceria falso demais. Começar a conversa que tinham em mente no meio da rua tampouco era uma boa escolha. Nao controlou a vontade de ir mais para perto do outro, tentar se aquecer nos braços dele. Ainda não era hora.

Foi só quando já haviam chegado ao tal bar, um lugar meio escuro e escondido em uma rua lateral, que Kai voltou a falar, ainda fitando os próprios tênis.

- Escolha uma mesa, eu vou pegar as bebidas.

O enfermeiro não estava particularmente a fim de beber. Não era forte para bebidas, sempre acabava ficando tonto muito rápido. Sempre que bebia fazia uma besteira e aquela conversa era uma prova viva disso. Entretanto sentou-se na última mesa vaga, perto do balcão, olhando em volta um tanto distraído. Ali já não estava tão frio, então abriu a frente do casaco preto deixando a mostra a camisa listrada que usava por baixo. Kai voltou com duas canecas de cerveja. Apenas relanceou os olhos nele para logo em seguida desviá-los.

- Eles não tinham aquela coisa – Nao não precisou perguntar pra saber que Kai se referia as Piñas Coladas que tinham causado tudo aquilo.

- Não tem problema, eu provavelmente nem deveria beber – respondeu baixo, tomando apenas um golinho da bebida amarga e a deixando de lado. – Eu trabalho amanhã.

- Hum... – Kai tomou dois goles largos e pousou a caneca de vidro sobre a mesa, olhando para seu interior num silêncio contemplativo.

- Hum, é, quanto ao que aconteceu. Desculpe Kai, eu achei que você tivesse percebido que eu...

- Não gosta de mulher?

- Bom, é, mais ou menos isso.

- Não da pra notar – havia um certo rancor em sua voz, acusando-o de não ser óbvio como Shou-san ou mesmo Uruha.

- Ah bem, talvez eu devesse ter falado. Eu não gosto de mulher – respondeu o enfermeiro, usando a mesma frase que Kai.

- Eu gosto.

- Mesmo?

- Sim! – Kai tomou vários goles da cerveja, mas ainda se sentia indignado. Mas que droga, por que Nao tinha que usar aquele tom irônico tão irritante?!

- Okay.

Nao estava vendo que seria provavelmente muito mais difícil do que imaginara. Teria que ir com muita calma e muito tato, ou Kai poderia ficar realmente zangado com ele.

- Bom, é só isso certo? Eu sou hétero, totalmente hétero, não há mais nada o que conversar.

- Você é hétero, eu entendi. Mas você deve estar se perguntando então por que aquilo aconteceu. Certo?

- N-não... – estava. Há dez dias era só isso que lhe passava pela cabeça. Por que? Por que aquilo tinha acontecido?! Droga, não era um maldito pervertido como seus amigos. Era um cara comum... criado pela avó e que gostava de cozinhar. Mas que droga!

- Tudo bem Kai, você não precisa se envergonhar. Nós tínhamos bebido e estava muito frio, uma coisa... bem... uma coisa leva a outra sabe... não é assim tão importante.

Mas Kai sabia que era importante e no fundo Nao também sabia. Era a primeira vez que Kai realmente sentia desejo por alguém do mesmo sexo e para ele não estava nada okay, nem mesmo por uma noite. Ele era responsável, centrado e era isso que sua mãe esperava dele. E sua mãe já havia sofrido decepções demais com os homens de sua vida. E a Baacham, que será que acharia disso tudo?! Se ela estivesse viva, Kai teria conversado com ela, aceitado seus conselhos. Ela saberia exatamente o que fazer.

Mas sozinho ele estava perdido.

- Eu... eu não estava tão bêbado...

Nao observou Kai fechar os olhos e esconder o rosto com as mãos. Sentiu vontade de abraçá-lo, dizer que estava tudo bem, que não precisava se preocupar tanto. Que não tinha mal nenhum em sentir as coisas que sentia agora. Mas não podia e isso lhe deixou mais triste e angustiado do que supunha que ficaria. Será afinal que Kai era mais do que uma diversão entre amigos? Nao bem se lembrava que seus poucos relacionamentos depois daquele primeiro haviam sido muito superficiais e rápidos, por nenhuma daquelas pessoas sentira tanto carinho e consideração. Mas seria precipitado e absurdo achar que estava apaixonado por ele.

Certo?

- É só uma coisa que você quis fazer. Mas... a culpa foi mais minha que sua, né, Kai. Eu avancei em você. Perdão, eu não sabia que te deixaria assim, não queria te fazer nenhum mal. É que... ah, você estava lá, tão lin...uhum, quero dizer, falando que eu era de outro mundo, e... – Nao se confundiu com as palavras. Ele também não sabia por que havia feito aquilo. Não era nada prudente em sua situação e ele sempre fora muito prudente. Só não era prudente quando estava... bem, não estava, não desta vez. Não podia. – Ah, é que... você é... tão gentil, tão bom e eu, ah, desculpe, Kai, eu não estou fazendo sentido – desistiu com um suspiro baixo. Viu Kai acabar com sua cerveja e puxar a outra caneca quase cheia para si, em silêncio.

- Eu não gosto de você desse jeito – acabou por dizer, sentindo um pouco o efeito da bebida na cabeça. Não estava mais relaxado, apenas mais bravo. Porque mesmo atrapalhado e envergonhado Nao continuava perfeito. Mesmo errando ele continuava perfeito. E desejável. E adorável. E ele não tinha o direito de ser nada disso na frente de Kai. Já havia feito demais. – Eu acho que não consigo mais nem mesmo conversar com você normalmente sem me lembrar daquilo. Me dá nojo.

“Nojo”. A palavra entrou pelos ouvidos de Nao e reverberou como um presságio ruim. Kai tinha nojo dele. Nojo. Já ouvira esta palavra dos lábios de tanta gente, até de seus pais, até de seu antigo namorado, mas nunca lhe pesou tanto como naquela hora. Antes que pudesse sequer se recuperar o bastante para pedir licença e sair, uma voz feminina se sobrepôs ao murmúrio natural do bar.

- Kai-kun?!

Ambos ergueram o rosto e Nao se viu olhando para uma moça linda, de cabelos cor de chocolate enrolados em cachos grandes e delicados olhos castanho escuros. Ela era toda delicada, feminina, com um grande casaco cor de rosa sobre um vestido preto e meias grossas igualmente negras. Aquecia as mãos uma na outra e sorria para Kai meigamente.

- Ah... Yuna-chan, oi.[3]

- Uau, Kai-kun, faz tanto tempo que não vejo você! Ainda trabalhando lá na lanchonete?

- Uhum, ainda – Kai, que há segundos atrás estava sério, com uma expressão de puro desagrado, sorriu largamente, de seu jeito característico. Nao olhava de um para outro. – Você ainda é aeromoça?

- Ah, não, eu resolvi aterrissar de uma vez. Estou trabalhando no escritório do aeroporto agora – a garota riu e então olhou de uma forma interrogativa para Nao. Kai, um tanto relutante, os apresentou.

- Esse é Nao, um colega meu. Nao, esta é Yuna, minha ex-namorada.

Ela fez uma reverência, sem notar o modo como Kai havia enfatizado a palavra namorada. Nao também sorriu, inclinando-se. Não precisava mais fazer muito esforço para ser falso, depois de tantos anos morando na mesma casa de Saga-san. Não significava que ele estivesse feliz com a aparição da garota. Porque ela era mesmo linda.

- Por favor, Yuna-chan, sente-se com a gente – Kai convidou, puxando uma cadeira para ela. Nao teve vontade de chutar Kai por debaixo da mesa. Droga, a conversa ainda não tinha terminado!

- Ah, eu não quero atrapalhar, né! Algumas amigas minhas estão vindo, acho melhor esperar por elas.

- Não tem mais mesas, espere com a gente.

Yuna sorriu e se sentou com eles. Nao ainda estava mudo. Então era isso. Era assim que Kai resolvera lidar com a situação, ignorando-o. Okay, sua paciência tinha limite.

- Bom, Kai, e quanto aquilo? – perguntou tentando ser discreto.

- Ah, já esta tudo resolvido, certo, Nao-kun – Havia um certo desafio na voz de Kai. Como que dizendo que estava farto de tudo aquilo e que seria ainda mais brutal caso ele insistisse no assunto. Nao voltou a encostar as costas no apoio da cadeira, apenas observando os outros dois conversarem num tom animado. Não podia acreditar que Kai estava sendo tão... tão... imbecil! É, imbecil!

- Ah, Kai-kun, acho que eu levei um bolo das minhas amigas – Yuna, por mais que doesse a Nao admitir, era uma pessoa simpática e agradável, combinava perfeitamente com Kai. – Melhor eu ir, estou atrapalhando vocês dois.

- Ah não, fica! – Kai segurou a mão dela e a moça sorriu constrangida. – Você não atrapalha, você sabe.

- Hum... ne, Kai-kun... – ela se inclinou em direção a ele – acho que o Nao-san não está muito feliz com a minha presença... – disse num sussurro, enquanto este olhava para baixo aparentemente muito distraído.

- O Nao está num dia ruim – Kai olhou para a moça. Terminara com ela fazia quase um ano porque ela viajava demais e nunca podiam ficar juntos. Ela já não viajava muito, ainda estava solteira e Kai precisava desesperadamente de mais companhias femininas. Precisava sentir que ainda era capaz de gostar de uma mulher, mesmo que ela não fosse tão perfeita quanto Nao. E ela era tão linda, tão gentil e inteligente. E principalmente tão feminina!

Nao ergueu os olhos no momento em que Kai começou a afagar a mão da moça levemente. Um bolo de lágrimas entalou em sua garganta e ele o engoliu a força. “Não seja ridículo, Nao...” pediu para si mesmo, tentando sorrir ainda. Deveria ter bebido sua cerveja, talvez fosse mais fácil olhar aquilo.

Mas provavelmente não.

Kai não era o cara bom e gentil que ele achara que fosse. Ninguém seria tão... tão insensível a ponto de começar a flertar com outra pessoa bem a sua frente, numa situação daquelas. Bem, Nao já havia presenciado coisas piores de pessoas piores, mas nunca poderia esperar algo tão baixo vindo de Kai. Não dele.

- Ah, com licença, eu acabei de me lembrar de algumas coisas do Ruki-san que tenho que buscar no Circe. Foi um prazer, Yuna-san...

Nao atropelou-se um pouco nas palavras, sabia. E também sabia que saiu do bar com muita pressa para alguém que tinha apenas que pegar algumas coisas. Mas ele não conseguia mais ver. Nem fingir. Por que todas as pessoas que amava o decepcionavam?!

Foi quando finalmente entrou em seu carro batendo a porta que percebeu o que havia acabado de pensar. Olhou-se no retrovisor e viu duas pequenas lagrimazinhas ameaçando cair. Limpou-as com força com a palma da mão.

- Idiota – resmungou pra si mesmo. – Por que tem que confiar nas pessoas?! — e por dentro, apenas para si mesmo, perguntou.

“Porque tem que se apaixonar?”

Mas ele já não acreditava que houvesse uma resposta.

[1] “O Príncipe” por Nicolau Maquiavel, escrito em 1513. É um mega clássico, faz parte de todo e qualquer preceito que envolva política. Pra mim, é um manual muito detalhado de “Como ser um bastardo e sempre lucrar com isso”. Né Bella? XD

[2] Boogieman é o equivalente inglês ao bicho papão.

[3] Ehhh... eu vou revelar meu lado pop agora. Essa pessoa vem a ser Yuna Ito (visual mais ou menos Stuck on You), uma das poucas cantoras de j-pop que eu ouço e gosto mesmo. Não que ela e o Kai jamais tenham se conhecido (que eu saiba), mas tava com preguiça de inventar uma personagem feminina original. Kill me...

oOo

Notas finais
Será que consigo ver um vislumbre de compaixão pelo Saga? Alguém? Será que alguém pelo menos consegue entender os motivos dele agora? E quanto ao Kai, deixou de ser um queridinho, ou vocês são boazinhas e preferem dar um tempo para ele se acostumar a idéia?

Ah sim, eu tenho que pedir perdão pela demora, mais uma vez. Eu juro que tento agilizar, mas minha musa inspiradora é arisca pra caramba e nunca esta por perto quando eu preciso dela. Fora a falta de tempo, que graças a Kami-sama não vai ser mais tão grave pelos próximos dois meses. Espero.

Eu sempre escrevo um monte de besteiras nas notas finais, mas sempre me esqueço de agradecer quem ajudou na concretização de mais um capitulo. Então aqui vão meus obrigados a Bella, a Nah, a Anna-chan, a Maçã, a Ryoko-chan, a Gabbriyelle, a Mika, a minha irmãzinha (que vai me matar por chamar ela de inha) e a tantas outras pessoas que me incentivaram a continuar essa fic, apesar dos bloqueios e dos contratempos. Obrigado .br, Wikipédia, Emily do bikiniartist channel, The GazettE Brasil, Marble Hell Vision, JaME, e inúmeros fanblogs e fansites por estarem sempre disponíveis para consulta e para minha doentia busca por detalhes. Obrigado a tantos autores brilhantes e quase anônimos (ou não) que estão no meio do weblixo, e que me deram um pouco de inspiração (já que a minha anda uma merda) enquanto escrevia isso. Obrigado gazeboys e arisuboys por emprestarem, mesmo sem saber, suas – belíssimas – imagens para essa historinha absurda.

E obrigado Albert Fish.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.