Kalahari
20 Capítulo 19
Notas iniciais
Kalahari
capitulo 19
Eu ouvia ao longe o barulho dos tambores. Firmei minhas vistas e vi o brilho da chama amarela que indicava ser a fogueira que fora acessa na meio da aldeia onde Edward ainda se encontrava. Minha cabeça doía assim como meu corpo. Eu podia sentir cada célula que protestava, cada arranhão e hematoma me lembrando que as minhas estripulias tinham um preço justo a pagar. Um grito agudo fez com que meus pelos se erguessem e um tremor percorresse toda a minha espinha.
Fiquei com a boca aberta por tanto tempo que senti a segura na ponta da língua. Um medo feroz me dominou naquele momento e, eu não sabia para quem levar meus temores. Olhei a minha volta somente para perceber o quão sozinha estava. Atrás de mim, somente o breu dominava e a minha frente o barulho dos tambores e os gritos dos indígenas me diziam que eu estava entre a cruz e a espada. Por um segundo eu temi por tudo o que vivera até aquele momento, poderia parecer loucura e era, a minha vinda para aquele inferno na terra, conhecer Edward e Alice reencontrar mamãe após tantos anos era muita loucura para a minha cabeça que fervia de tanta dor. Temi por tudo aquilo e ainda mais por pensar que não mais veria Edward. Como pensar nunca foi meu forte , eu me impulsionei para frente, iria para aquele ponto brilhante e amarelo, iria cair de braços abertos naquela aldeia e berraria por Edward até meus pulmões estourarem. Suspeitei que Rennee tivera a alguma idéia melhor do que a minha, mas, eu não ficaria parada no meio do nada esperando para ver dar certo e, se levasse anos até que eu pudesse revê-los novamente?
Eu seria uma velha até lá!
E com pêlos brancos cobrindo minha periquita que seria aquele negocio que Rose me falou. Mas eu nem tive tempo de lembrar o nome certo, pois dedos fortes seguraram os meus ombros de repente! Meu berro foi tão profundo e tão alto que poderia ser ouvido do outro lado. Alguém colocou uma mão suja por cima da minha boca e grudou nas minhas costas, eu passei a sentir o suor escorrendo por todo o meu corpo que tremia muito e me acalmei quando ouvi aquela voz grave.
—Calma Mokika, sou eu! — senti um frenesi tomando conta do meu corpo, a mão cedeu lentamente e eu me virei para olhar para Moabe que tinha a face iluminada pela luz da fogueira atrás de mim.
—Você está vivo!
—Mokika também!
—Ah, Moabe, você não sabe pelo o que passei e agora estou aqui aflita, pois não sei o que será de mim e de Edward !
—Bwanna ficará bem! Vem comigo, estamos em um refugio não muito longe, temos comida e água.
—Quem está com você?
—Sr. Dwyer!
—Quem?!
—Sr. Dwyer e dois nativos amigos.
—É o marido de mamãe?!
—Sim! Sra. Dwyer, você a viu?
—Ela me salvou!
—Bom! Onde ela está agora?
—Voltou para a aldeia, foi resgatar Edward!
—Mokika vem comigo, ficará segura longe daqui!
—Não arredo meus pés daqui sem Edward!
—Mas, aqui não é bom ficar! É rota de traficantes, de hienas e leões.
Eu não sabia dizer qual das três possibilidades era pior, cair nas mãos de traficantes ou ser comida por algum animal selvagem.
—Mas e Reennee e Edward?
—Eles sabem como viver no Kalahari!
Era verdade! Eu não sabia de nada, somente a grande arte de me meter em confusão e, uma pior do que a outra. Deixei-me ser conduzida por Moabe, meus pés doíam mais do que a minha cabeça. A minha roupa estava suja, molhada e rasgada e, eu me sentia miserável sem Edward perto de mim. Era como se tivessem arrancado um naco do meu corpo. De repente me dei conta de que estava chorando, as lagrimas escorriam dos meus olhos e pingavam pela ponta do meu nariz. Que já se encontrava entupido. Eu tropicava em meio ao breu que Moabe me conduzia e a todo instante ia parar no chão, houve mesmo um momento que me recusei a sair do lugar.
Para quê? !
Que fim seria o meu?
Eu era uma eira sem beira! Não tinha onde cair morta e, ficar largada no meio do deserto a espera do primeiro predador passou a ser uma boa idéia.
—Mokika, levanta!
—Para que Moabe?!
—Não podemos ficar aqui, é rota de felino e...
—Eu prefiro morrer , Moabe, a viver sem ele!
—Bwanna vai arrancar minha pele se algo acontecer com Mokika!
—Mas, e se Edward não estiver mais vivo?! Eu estava lá Moabe, vi tudo! Eles o arrastaram para longe de mim, foi horrível!
— Tenha fé, Mokika, Sra. Dwyer traz Bwanna de volta! Agora levanta, pois eu não quero ser comida de felino.
Eu me ergui lentamente e andei ao lado do único homem que me incentivava a continuar naquele momento. Meu coração batia descompassado e minhas pernas tremiam. Andamos por algum tempo, o suficiente para eu começar a protestar.
—Chegamos, logo ali!
Era uma espécie de acampamento e o mais precário que se poderia dizer de uma civilização. Havia uma barraca, fogo e um cheiro maravilhoso de comida que fez meus passos acelerarem. Alguém veio ao nosso encontro e falou em uma língua estranha. Depois uma voz de homem soou acima de nós.
—Rennee, é você?
Eu fiquei petrificada com a visão do homem alto e barbudo que apareceu a minha frente. Não saberia precisar a idade certa, mas, com certeza ele era alguns anos mais novo do que mamãe.
—Quem é você? Moabe onde esta a minha mulher?!
Ele passou por mim e foi direto para cima do coitado do Moabe.
—Sra. Dwyer foi buscar Bwanna!
—Ela achou Edward e a garota?!
—Sim, esta é Mokika!
Eu fui inspecionada milimetricamente e agradeci pela luz da fogueira não ser tão generosa ao ponto de revelar meu estado deplorável.
—Então, você é filha de Rennee? — fui pega de surpresa pela suavidade com que ele falou comigo e sem graça que fiquei, limpei minha mão na roupa suja antes de estendê-la.
—Me chamo Isabella Swan e...
—Santo Deus! — não tive tempo de concluir minha apresentação e fui rodeada por braços fortes. O cheiro do suor impregnou pelas minhas narinas e o calor do corpo dele aqueceu o meu. O que me fez chorar compulsivamente. Era muita coisa para uma garota sozinha no mundo, e embaixo de um céu negro sem estrelas, eu me derramava nos braços de um quase completo estranho.
Não me importei com cena lamentável e chorei feito uma criança pequena ensopando a camisa de brim do homem. Quando ele me ofereceu um lenço eu peguei sem pesar duas vezes e, o assoei escandalosamente, até o meu nariz arder.
Pai do céu!
O que eu iria dizer para aquela criatura?!
Como justificar tudo aquilo?!
Não havia palavras, apenas muita dor! Ele passou a mão grande suavemente pela minha cabeça num afago paternal e aquilo me fez derramar novamente. Não tinha fim, eu chorava tanto quanto tremia!
—Vamos, meu bem, tenho certeza que o pior já passou. Vamos acalme-se, do contrário você vai desidratar de tanto chorar!
A piada foi ruim o que me fez esboçar um sorriso pavoroso.
—Isto, assim, viu? Tudo passa! Agora venha cá, deixe-me ser hospitaleiro e lhe oferecer algo. Veja, temos comida fresca, Moabe fez hoje! Ou talvez prefira beber algo antes, a água do cantil tem três dias, mas, é boa ainda sim!
—Tem conhaque?!
—Perdão?
—Pode ser o de alambique, eu não me importo!
O homem gargalhou ruidosamente!
—Verdadeiramente é filha da Rennee! Srta. Swan, eu lamento, mas, ficarei devendo o conhaque! Que tal um pouco de água?
Eu dei de ombros, não havia alternativas mesmo! O cantil me foi oferecido aberto e quando tomei o primeiro gole notei a grande diferença entre água fresca e água de três dias, um horror!
Minha expressão não negou meu desagrado quando ele disse:
—Sim, não é a melhor coisa do mundo esta água, mas, pode salvar uma vida ainda assim! — Olhei mais atentamente para ele que tinha risonhos olhos marrons e um sorriso simpático, mesmo encoberto por tanta barba.
—Ah sim, já vejo um pouco de vida em suas faces, Srta. Swan. Gostaria que soubesse de minha felicidade por conhecê-la finalmente, eu sou Phil Dwyer.
—O marido de Rennee!
—Sabe, vou confessar que imaginei por anos como seria este dia! O grande dia que eu conheceria a filha de Rennee... – Ele ergueu seus braços para o alto, como a expressa a grandiosidade daquele evento — ...fantasiei muito sobre isto também, pode até achar engraçado, mas, eu decorei frases inteiras para dizer a você.
—Verdade?! — quem faria isto?
—Ah, sim! Mas, acho que passei tanto tempo no Kalahari que julguei que você ainda fosse uma jovenzinha de doze anos! Meu Deus! Quanto tempo eu e Rennee ficamos aqui ?! Moça, eu preciso adverti-la que você corre um sério risco de nunca mais deixar o Kalahari, este lugar penetrará em seus poros de um jeito que te fará esquecer do resto do mundo. Venha sente-se aqui, tire estas botas menina e coma um pouco da boa e forte comida de nosso amigo Moabe!
Phil Dwyer falava de um modo simples com gestos curtos. Lembrou-me a um menino dentro do corpo de um homem. Depois ele me conduziu pela mão e quando me dei conta estava sentada em um confortável banco feito de lona e cordas com um prato fumegante e muito cheiroso no meu colo. Eu enchi com gosto o garfo e o meti na minha boca que se encheu com o gosto de feijão, toucinho, farinha e algo muito peculiar. Era uma carninha mole, mas fibrosa e muito saborosa. Phil Dwyer falou por nós dois, ele sanou minhas primeiras perguntas a cerca de como se encontraram com Moabe que deu toda a informação sobre mim e Edward. A principio eles julgaram que não sobreviveríamos ao rio dos hipopótamos brancos. Mas, encontraram andarilhos que vinham da aldeia do chefe tarado e souberam sobre o curioso presente de casamento, uma mulher branca. Isto atiçou a curiosidade de Rennee que se dirigiu para aquela aldeia, onde eles haviam passado por lá alguns dias antes. Pelo o que entendi, Rennee salvara um dos filhos do chefe de uma doença muito comum para nós, mas tido como algo ruim enviado dos infernos para aquele povo.
—Mamãe fala muito bem a língua deles!
—Sim, ela ensinou nosso idioma para várias tribos da região e aprendeu com eles a se comunicar nos dialetos locais. Um serviço de troca e beneficio mutuo. Olha, esta habilidade de sua mãe em se comunicar já nos salvou de muita encrenca!
—Não tenho a menor duvida disto! — eu estava empolgada com aquela conversa — ...acredite Sr. Dwyer , mamãe apareceu nesta noite em um momento muito crucial na minha vida, eu estava entre a vida e a morte e, espero que ela tenha tido sucesso em libertar Edward!
Phil Dwyer sorriu largo por baixo da sua barba antes de dizer que minha mãe iria me surpreender e muito. As horas passaram voando. Eu acompanhei fielmente cada palavra a cerca das histórias de Rennee, mas, meus olhos pesaram mais fortes do que a minha força de vontade e adormeci. Um sono movimentado, cheio de sonhos, corre e corre e gritos e, algo sempre me acompanhava neste sonho, os olhos verdes de Edward. Em alguns momentos eu me sentia no paraíso e outros no inferno, com um calor escaldante que queimava a minha face e secava a minha goela. Eu passei a correr em busca de uma fonte de água cristalina e fresquinha que tinha pernas fortes e fugia de mim. Acordei bêbada daquele pesadelo e me dei conta que o dia já ia alto e o sol estralava no céu azul claro sem nuvens. Eu me sentia completamente atordoada e por um instante, perdida também! Pois não me lembrava de onde estava. Algo chamou a minha atenção e me ergui do cocho onde dormira toda torta. Eu consegui chegar até o cantil que estava pendurado em um tipo de varal aos tropeções e quando o abri, bebi aquela água choca e desejei que meu sonho se tornasse realidade. Depois, uma voz muito conhecida fez a minha pele se arrepiar.
—Como ela passou a noite?
—Parecia um bezerrinho desmamado! Eu a deixei dormindo perto da tenda.
—Eu preciso vê-la agora!
—Edward talvez fosse melhor se você...
—Só vou ficar melhor depois de tê-la em meus braços, Phil, segura!
Era Edward!
—Edward, Edward? — eu corri pelo pequeno acampamento de Phil e Rennee descalça e completamente descabelada. Podia sentir as pedrinhas cruéis machucando a sola dos meus pés e, ainda sim, continuava naquela corrida precária e esquisita gritando o nome dele à plenos pulmões.
—Bella?
Era ele sim, meu amor, minha vida, Edward!
Assim que contornei um paredão dei de cara no peito duro de Edward e ergui meu queixo até que meus olhos se perdessem nos dele, verdes e intensos.
—Oh, Edward...! -
A boca dele desceu sobre a minha faminta e exigente. Eu que me encontrava um trapo de gente quase desfaleci nos braços dele. Agarrei-me como pude em seus cabelos o trazendo mais para mim. Ele me ergueu com um braço somente e eu rodeei a sua cintura com as pernas o apertando bem firme, para ter a certeza de que aquilo não era outro sonho.
Mas, como seria possível um sonho me fazer tremer daquele jeito, de sentir aquele choque apertando a minha intimidade e eletrificando todas as minhas células? Não podia ser um sonho, mas se fosse, era o melhor sonho do mundo, principalmente quando senti a língua de Edward me invadindo, me fazendo ficar alerta, viva e ressecosa dele, sim, eu tinha sede de Edward.
As mãos grandes apertaram as minhas costas e a minha bunda, me empurraram de encontro a ele que estava bem alerta, firme e roliço. Aquilo me fez pirar e eu desejei que não tivéssemos tantos panos em nossos corpos. Nossas bocas se desgrudaram com um sonoro "smack" o que me deu a chance de respirar, por pouco tempo, pois senti que ele percorria meu pescoço e murmurava palavras desconexas, acho que algo como, tesourou ou tesuda, não sei bem, o que sei era que gemia muito e me agarrei a ele desesperadamente quando ouvi um pigarro chato, de tão insistente.
—Hã, hã! Crianças! Por favor, estamos no meio do deserto, é fato! Mas não estamos sozinhos!
—Vai te catar Rennee, me deixa em paz!
—Edward Cullen, caso não tenha se esquecido, em seus braços, se encontra a minha filha e, por favor, pare de tentar tirar as roupas dela, sim!
Filha?!
Hein?!
Tentei me focalizar naquela voz irritante, mas a língua dele me fez ficar perdidinha quando passou a contornar meus lábios e, eu muito "bocuda", abocanhei ela com desespero.
—Isabella Swan, comporte-se!
—Rennee, talvez seja melhor deixarmos eles a sós, por algum tempo!
—De forma alguma! Quero saber agora, antes que venham os netos, como estes dois se conheceram e, como minha filha que supostamente é uma freira esta aos agarros com Edward Cullen, o homem mais devasso que eu já conheci na vida!
Aquela pergunta, praticamente gritada em nossos ouvidos, fez Edward me soltar, mesmo contra a minha vontade, pois eu continuava com a boca aberta esperando por ele e não queria soltar de sua nuca.
—Bella, por favor!
—Fala que me ama!
—Amo! Mas, Rennee está com a razão!
—Quem?
—Rennee, sua mãe!
Sim, verdade!
Eu tinha uma mãe que ressurgiu em meio ao inferno me livrando da perdição e agora batia o pé ao meu lado com um semblante nada, nada amigável.
—Mamãe?
—Sim, mocinha! Não faz muito tempo desde que nos vimos da ultima vez, acho que apenas umas quatro horas, mas que foram suficientes para me entreterem surpreendentemente.
—É mesmo?!
—Hum, posso até ser mais explicita e dizer que fiquei muito, mas muito surpresa ao saber através de Edward que você é freira!
Socorro! Edward e mamãe conversaram sobre mim!
—Rennee querida, vou passar um café!
—Ah, Phil, você é a luz da minha vida!
—Uma declaração desta por um café?! Fico imaginando quando lhe der um banho e lhe fazer uma massagem...
—Oh, meu querido, neste momento um café irá me ajudar a manter a sanidade para compreender como minha filha veio parar no deserto do Kalahari como uma religiosa, melhor dizendo, uma madre superiora e, agora, estava a ponto de fazer sexo explicito com meu sócio!
Continua...
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