Kalahari

23 Capítulo 22


Kalahari

Capitulo22

Ele se abaixou lentamente de frente para mim e ficou em silencio, somente me olhando daquele jeito penetrante, como se pudesse enxergar o tutano dos meus ossos. Ciente, eu alisei lentamente meus cabelos e senti os nós dos fios que detinham meus dedos. De repente eu senti vergonha da minha condição, meu cheiro não era dos melhores também, principalmente depois que eu tirei as botas e o chulé ficou mais forte do que meu suor. Eu não queria enumerar, mas a desgraça era grande, pois estava esfarrapada, suja até a alma e toda descabelada. Edward deve ter percebido meu mal estar e, ainda sim, continuava a me olhar daquele modo intenso.

—Moça, você não poderia estar mais bonita do que agora!

A voz dele era calma e quente ao mesmo tempo e me deu a sensação de choquinhos pelo corpo. Tolamente eu alisei a minha blusa que estava suja e cheia de rasgos.

—Não é um bom momento para brincadeiras, Edward.

—Brincar não é meu forte!

Verdade! Edward não tinha bom senso de humor e não se simpatizava com uma boa piada. Mas me fazer aquela declaração, naquelas condições era no mínimo precário.

—Do jeito que me olha e falando estas coisas, eu não poderia pensar diferente. – olhei para minhas mãos e tive vontade de escondê-las em um buraco. unhas quebradas, um verdadeiro horror, sujas e cheias de pontas. E havia a algo que me incomodava e muito por debaixo da blusa que eu usava, ficava me pinicando. Sentia-me suja, fedida e abatida e apesar de Edward não estar em melhores condições, eu passei a desejar ardentemente que ele fosse embora, por mais que doesse o meu coração.

—Falo o que sinto!

—Você não pode pensar assim não me vendo suja e fedida.

Ele esticou a mão e com a ponta de dois dedos tocou a curva do meu queixo. Eu fechei meus olhos e me deixei conduzir por aquela sensação maravilhosa, imaginando os dedos, as mãos em meu corpo, me fazendo gemer.

—Olhe para mim, Isabella. – eu os abri lentamente e me deparei com o brilho intenso dos olhos dele, pareciam a dois poemas. – Eu vejo uma mulher coberta de poeira e suor. Cheia de hematomas e com roupas sujas e rasgadas, mas em seus olhos, nos seus gestos, eu vejo muito mais do que isto.

—Vê?

—Vejo sim!

—O quê?

—Vejo a graça, a beleza e o carinho. Você me seduz sendo você, somente você! Mesmo embaixo desta poeira toda, você consegue fazer isto e com muita eficiência.

—Edward, por favor! As coisas não vão melhorar entre nós se continuar a me falar estas tolices...

—Isabella, olhe a sua volta...-Eu obedeci sem compreender bem qual era a mensagem que ele queria me passar.-...tudo aqui é árido, tem um poder soberano sobre a nossa vontade e somente as pessoas fortes são capazes de sobreviver a todo este esplendor. Eu já andei muito por este mundo minha santa, já vi homens fortes chorarem feito meninos nesta terra quente. Ainda sim, posso dizer que já vi muita beleza por estas paragens. Coisas que não se lê em poemas ou se admira nos quadros pendurados das casas grandes e ricas. É uma beleza selvagem que não tem comparação em nenhum outro lugar do mundo.

Edward abriu os braços, como se desejasse abraçar a imensidão.

—Aqui é a minha casa! – eu olhei em volta, vi o deserto que chamava sedutoramente aos desavisados, como eu, dizendo que era maior e mais forte.

—Aqui?!?

—Oh, minha santa! Aqui, em Kalahari! – ele ergueu-se e me levou junto pelas mãos que foram tiradas debaixo dos meus sovacos- Você não sente que faz parte disto aqui? Você sobreviveu ao deserto com bravura e vê-la neste momento cheia de poeira somente aumenta meu amor por você.

Um bolo se formou na minha garganta. Eu não esperava ouvir tudo aquilo, eu não esperava ser comparada ao deserto do Kalahari.

—Você está me comparando a este deserto, Edward?

—Estou apenas dizendo que você é tão linda e forte como ele! – Edward se aproximou de mim e beijou com gentileza minha testa – Mas vou entender seus motivos se não aceitar estas minhas palavras. Dizem por ai que homem apaixonado tem boca mole. Agora vem, não é lá muita coisa, mas, arrumamos um lugar onde você e Rennee poderem se limpar um pouco e depois é melhor a moça ir dormir, pois amanhã vamos levantar antes do sol nascer.

Ele começou a me guiar pela mão e foi assim que notei a noite que caia sobre nós lentamente e com um mormaço pegajoso. A idéia de poder me limpar agradou-me e muito, mas, por um instante fiquei imaginando onde eles haviam conseguido a água. Pois em nosso trajeto até aqui não havíamos passado por nenhum reservatório. Fui conduzida para trás de uma improvisada barraca e lá me surpreendi com um balde que continha uma areia branca e fina.

—Quando encontrar com Jasper, eu tenho que agradecer por ele ter me disponibilizado Kalebe e Nagome! – Olhei para ele feito uma pateta, para depois procurar pela água com certo desespero.

—Cadê a água?!

—Está com sede minha santa?

—Não, para o banho!

—Oh, minha linda! É com isto aqui que você vai se limpar... – Edward apontou um dedão para o balde com a areia branca que passou a brilhar diante dos meus olhos-...pode ficar despreocupada viu, nós a peneiramos, a areia esta limpinha e pode ser usada a vontade.

Como a querer provar que estava certo, ele meteu uma mão no balde e pegou um punhado da areia e deixou que um pouco escorresse por entre os dedos antes de voltar a falar – Tu vai ficar limpinha, estes arranhões vão sumir tudo e depois tem um ungüento para passar nos machucados mais profundos, ele não é muito cheiroso, pois foi feito com urina de búfala prenha, mas é um santo remédio!

Eu sentia que meus olhos estavam ardendo, talvez pelo fato de estarem muito esbugalhados. Edward continuava a falar sem freio e eu passei a me perguntar onde estava o homem que me declamara a um verdadeiro poema de amor cinco minutos atrás. Eu tinha a minha frente um babuíno ruivo que dizia coisas estranhas e malucas.

—Edward?

—Oi minha santa!

—Para de me chamar assim, não sou santa!

—Arre, que andar pelo Kalahari naquela batina e depois passar por tudo o que você passou, nas minhas idéias é coisa de gente santa mesmo! – depois ele olhou em volta antes de voltar a falar – Olha, eu até que não ia me importar de esfregar esta areia em você, sabe né?

—Não, eu não sei! – eu estava aos nervos e só de imaginar aquela mão imensa passando aquela areia pelo meu corpo me dava agonia.

—Oh, Isabella, não vê que Rennee esta com os olhos da cara e da bunda em cima de nós?

—O quê?!

—Acho até melhor que ela venha esfregar esta areia em você, assim ela não fica com idéias erradas na cabeça. Eu vou lá chamar! – antes dele se virar falou bem baixinho – pode tirar estas tuas roupas que eu vou dar um jeito nelas também. Moabe trouxe linha e agulha.

Era só o que me faltava!

—Edward você sabe costurar?! – meio sem jeito ele balançou os ombros largos e falou como quem se sente exposto.

—Nesta vida é bom a gente aprender a fazer varias coisas. Nunca se sabe, não é mesmo?- dizendo isto, Edward se afastou a passos largos e me deixou aturdida e com uma sensação estranha. Eu olhei para baixo, lá estava o balde cheio com a areia branca e me perguntei que tipo de banho poderia ser aquele? Chegando a conclusão que só poderia ser coisa de gente do deserto!

—O que vem depois? Vou usar roupas de beduínos, andarei em camelos? – passei a tirar as roupas e as jogá-las para frente da barraca e, não me importei se aquela lona fosse transparente ou não. Depois de tudo, aquilo não tinha a menor importância. Ouvi passos no exato momento em que me encontrava somente de combinação e calcinha, era minha mãe.

—Ola querida, pronta para o banho?

—Mamãe, isto aqui é areia! – falei com força, evidenciando o obvio. Mas não causei a qualquer impacto em Rennee que apenas sacudiu os ombros antes de meter uma mão no balde.

—É assim que se limpa no deserto, meu bem! E devemos ser grata por Kalebe ter encontrado ao reservatório com esta areia que é propicia a limpeza. Ele é um excelente rastreador e com certeza não iremos nos perder no caminho de volta para casa.

Rennee passou a tagarelar enquanto esfregava a maldita areia pelo meu corpo. Eu mordi minha boca para não gritar pois, por mais fina que fosse aquela areia, ainda sim arranhava a minha pele como se a estivesse esfoliando. Mas o pior era quando Rennee a esfregava perto dos machucados.

—Aiê!

—Calma, tenho que limpar estes ferimentos antes que Edward passe o ungüento! – eu me virei neste momento.

—Nem que eu esteja morta! Ninguém vai passar estrume de búfalo em mim. – falei em alto e bom tom, sem esquecer de erguer um dedo, para dar maior veracidade a minha indignação que foi recebida com muito pouco caso por Rennee.

—Você é quem sabe, meu bem! Mas amanhã, estes machucados, principalmente este aqui... – ela meteu o dedo sem qualquer piedade em um enorme machucado que eu tinha na perna, perto da minha coxa, o que rendeu a um protesto lamentoso meu-...vai estar inflamado e com o sol quente deste deserto, quando chegarmos a fazenda Cullen você não vai conseguir andar tamanha será a sua dor.

—Ele não está assim, tão ruim!

—Por agora não, mas se não usar o ungüento, que alias é feito com a urina da búfala prenha, toda a sorte de bactérias irá se alastrar por este ferimento. Acredite em nós, estes nativos sabem o que fazem. Eles vivem a milhares de gerações curando seus ferimentos de forma eficiente. Agora se você quer ser uma jovem manca, por mim tudo bem!

Eu avaliei melhor as minhas alternativas. Talvez um pouquinho da urina da tal búfala prenha não fosse assim, tão ruim! Ao final, eu já estava sendo lixada e um banho de urina não iria de fato me matar. Deixei que Rennee acabasse de arrancar a minha pele, o que ela fazia com vigor, passando a tal areia por todo o meu corpo e, ao final eu me senti limpa, até mesmo o odor desagradável havia desaparecido restando somente a um montinho de areia que ficou abaixo dos meus pés que foram esfregados até sumirem os lombos escuros que se formaram, do suor e da poeira. Sinceramente eu não recomendaria aquele banho para o meu pior inimigo e desejei que chegássemos logo à fazenda Cullen para que eu pudesse tomar um banho a moda ocidental. Depois Rennee me arranjou um pano encardido que cobriu a parte de cima do meu corpo e me levou até um amontoado de cordas e sacos. Lá fui posta como uma criança que acaba de sair do banho e que não deveria se mexer até que alguém lhe ordenasse.

—Fique aqui, vou avisar a Edward que você esta pronta para passar o ungüento.

—Mãe... – Rennee voltou-se para mim toda sorrisos-...não quero que Edward passe xixi de vaca em mim.

—Urina de búfala prenha!

—Tanto faz! Não quero que Edward veja meus machucados!

—Meu bem, eu também preciso que alguém esfregue a areia em mim! Estou podre, acho mesmo que morri e esqueceram de me avisar! Então seja boazinha, deixe Edward cuidar de seus machucados, tudo vai ficar bem.

Eu a vi se afastando de mim alegremente. Como Rennee tinha vigor! Era impressionante que após tanta coisa ela ainda apresentasse todo aquele bom humor e disposição. Acho que algumas pessoas foram feitas para aquela vida e incluiria Rennee e Edward neste grupo. Ele se aproximou de mim devagar, trazia em uma das mãos um frasco estranho, enrolado com uma cordinha fina e a tampa era redonda, mas, parecia que era feita com a semente de alguma arvore.

—Rennee me falou que você esta pronta...- sem maiores avisos, Edward se abaixou até o meu lado tirando o pano de cima da minha perna — ...eu preciso que você fique em pé para que eu possa passar este ungüento. Sua mãe falou que só tinha a este machucado, o que agradeço aos céus por isto!

—Isto vai doer!

—Não!

—Vai arder?

Edward me olhou de forma divertida.

—Também não vai arder, você vai até sentir um frescor e amanhã ele vai estar cicatrizado e nem vai deixar marca. Agora eu posso passar o ungüento?

Eu assenti com a cabeça, mas na hora em que ele abriu o frasco e tirou com um pauzinho uma gosma verde eu fechei meus olhos e me preparei para a dor. Para a minha surpresa de fato não doeu ou ardeu, mas o cheiro era podre e tão forte que ardeu minhas narinas.

—Isto fede!

—É, a santinha vai ter que perdoar, mas não tinha água de lavanda para misturar no ungüento viu!

—Já pedi para não me chamar assim! – sem alarmar-se, ele ergueu-se fechando o frasco e falou em um tom bem próximo.

—Eu dei um trato nas tuas roupas, consegui remendar os buracos. Apenas lamento que não tenhamos a algum pente ou escova. Sabe né, estas coisas são desnecessárias para os nativos. – eu passei meus dedos pelos cabelos e senti os nós. Fiquei imaginando como não deveria estar medonha.

—Estou um horror!

Edward se aproximou de mim e tomou com as duas mãos meu rosto e murmurou que eu estava perfeita para ele. Passei a sentir o calor do corpo dele e a algo a mais. Sem hesitar eu me aproximei e ofereci minha boca, naquele momento eu não mais lembrava que Edward tinha uma esposa em algum lugar daquele deserto maldito. Eu somente desejava sentir a boca dele novamente.

—Se eu te beijar agora, não vou mais parar. E, eu fiz uma promessa que iria resolver as coisas do jeito certo. Agora venha, já arrumei tua cama.

Eu dormir sob a noite estrelada, acomodada entre panos sujos, sacos e roupas e podia dizer com toda a certeza que não havia lugar mais aconchegante que aquele. Não sei dizer o que eu sonhei, apenas que acordei com o burburinho de panelas e risadas. Senti o mormaço na pele a me ergui lentamente da cama que me fora improvisada com tanto carinho.

—Salve! Que a bela dorminhoca finalmente acordou! – a voz eu tinha reconhecido, mas levei ainda alguns segundos até localizá-la, perto do fogo com uma xícara fumegante de café.

—Como consegue beber isto neste calor!

—Nunca dispense a uma boa xícara de café! Mas, se tem fome, Moabe já fez a refeição e seria muito bom que comesse antes de sairmos.

Aos poucos meus sentidos foram acordando e eu pude sentir o cheiro da comida de Moabe. Sentei-me e vi que ao meu lado estavam as minhas roupas dobradas. Passei a vesti-las enquanto olhava ao redor.

—Onde está Edward?

—Mais a frente com Phil e Kalebe. Venha vou lhe fazer um prato. – Rennee levantou-se e passou a manusear o caldeirão que fumegava no fogo e de lá tirou com uma colher a bons bocados de um grude escuro o colocando em um prato de alumínio, para em seguida me entregá-lo.

—Coma! — A comida de Moabe sempre cheirava bem e sem cerimônias eu me apoderei do garfo me servindo com gula.

—Achei que sairíamos antes do sol nascer. – a aparência não era bonita, mas o sabor era divino, encontrei novamente aqueles pedacinhos de “carninha” e com satisfação eu os abocanhei, todos eles em uma única garfada.

—Edward teve pena de você, pois que dormia tanto que somente teus roncos não diziam que era uma pedra acomodada no meio das estopas e cordas. – Rennee também serviu-se da comida e sentou-se ao meu Lado-...parece que iremos seguir sem paradas até a fazenda Cullen, por isto é bom se alimentar bem.

Passei a me concentrar na minha comida e ignorei o fato dela ter dito que eu roncava, não queria me chatear aquela hora do dia. Quase meia hora depois, estávamos todos prontos para partir. Eu me encontrava devidamente acomodada atrás de Rennee que ria feito criança pequena.

—É sempre empolgante para mim quando faço uma viagem como esta. Parece sempre que é a primeira vez!

Não havíamos nos movido ainda e já suava bicas. Misericórdia, como alguém pode ficar feliz em torrar no deserto, longe de tudo e todos? De repente uma idéia assustadora tomou conta de mim.

—E se alguém morrer aqui, no meio do nada?

—Mas que idéia ridícula, minha filha!

—Mas é possível! Morrer neste calor infernal, virar comida de urubu... – fiquei imaginando que de fato tivera muita sorte quando Jacob me encontrou.

—É mais provável que a pessoa vire comida de algum grande predador. E se for uma pessoa precavida, como nós, terá sempre um cantil de água por perto. Vamos meu bem, os homens já se encontram bem adiantados, não quero ter que ouvir que atrasamos a todos.

Quando me dei conta via apenas a cabeça deles, muito a nossa frente, sumindo lentamente.

—Corre mamãe, não quero me perder deles!

—Não é sensato fazer nossa égua correr.

—Mas quase não consigo enxergá-los!

—Não nos perderemos! — dito isto ela passou a cantar e tudo mais me parecia a um conto de horror, pois por mais que a égua andasse, eu não conseguia ver Edward, Phil ou Moabe novamente. Já sentia o suor aderindo a minha pele e quando perguntei a quanto tempo estávamos andando, mamãe me torturou dizendo que não fazia nem quarenta minutos.

—Isabella, olhe ao seu redor, admire a paisagem que o tempo se encarrega do resto.

Aquele calor, o trotar da égua e a paisagem não me deixaram com uma sensação muito boa, meus olhos ficaram ardendo e eu os fechei por um instante e somente voltei a abri-los quando senti um cutucão na minha perna.

—Filha! – não sei dizer, mas, tive a sensação de que algo acontecia e quando levantei a minha cabeça quase que cai da égua – Isabella, santo Deus! Se aprume mulher, assim quebra o pescoço!

O meu medo de cair foi tão grande que nem tive tempo de gritar. Senti uma mão na minha lateral me apoiando e me colocando de volta a garupa do animal. Não precisava ouvir o som da sua voz para saber que era ele.

—Oi, não é aconselhável dormir no lombo de um cavalo, minha santa! — Foi muito estranho ter Edward ao meu lado, assim tão de repente. Havia algo de encantador nele e ao mesmo tempo bronco. – Já entramos nas terras da fazenda Cullen!

—Já! – olhei aturdida ao redor e ainda via somente terra seca.

—Kalebe é bom feito o cão! Eu já tinha preparado a espingarda para dar um tiro naquela cara comprida dele, mas a trilha que ele pegou lá trás nos trouxe mais cedo para casa.

Olhei a minha volta e me senti perdida.

— Eu não estou reconhecendo este lugar!

Edward me tranqüilizou dizendo que estávamos na parte sul das terras e que ele mandara Moabe e Kalebe na frente para avisar que estávamos em casa. O que no meu pensar era bem prematuro, pois estávamos ainda ardendo embaixo do sol.

—Estamos nas terras da fazenda Cullen, podemos nos considerar a salvos agora!

—E corríamos algum outro risco além de torrar embaixo deste sol?

—Tem um grupinho solto no deserto que anda dando uma trabalheira danada para Cheney, fiquei em duvida quando aceitei a sugestão de seguirmos por uma trilha diferente, afim de não encontramos com estes ladrões.

Vi uma ruga surgindo na testa queimada pelo sol de Edward e pela primeira vez me dei conta de que corríamos um perigo real. Lembrei da conversa que ele teve com o xerife através do rádio e com um piscar de olhos relembrei também que eu já me deparara com estes mal feitores.

Da última vez que eu os vira eram em oito e nada bonzinhos. Eles me tiraram a força do caminhão, mataram o motorista e depois falavam abertamente o que desejavam fazer comigo que ia de me deixar morta no meio do nada com um tiro na testa ou se me deixavam vagando. Esta ultima alternativa foi a escolhida, pelo o que eu entendi o líder deles tinha um pouco de espiritualidade e se apiedou de mim. Como a ler meus pensamentos Edward perguntou de forma muito direta se eu tinha mesmo me encontrado com aquele bando.

—Não tenho certeza se eram as mesmas pessoas, Edward! Mas, os que me roubaram me deixaram naquela trilha que Jacob me encontrou somente com meio cantil de água e mais nada!

—É que eles não sabiam da tua sorte! Assim que possível vou falar com Cheney, você pode nos ajudar no reconhecimento destes canalhas. – nossa conversar foi subitamente interrompida, pois ouvimos o trotar de cavalos e Edward afastou-se de nós indo ao encontro dos que chegavam. Somente naquele momento eu acreditei de fato que estávamos na fazenda Cullen e uma alegria enorme me contagiou quando vi ao longe homens se aproximando e pude reconhecer um deles, era Jacob.

Depois tudo foi muito rápido e alegre, os homens faziam comentários maldosos sobre o couro duro de Edward que mais uma vez sobrevivera ao deserto.

—Kalahari me ama, feito a uma puta da zona! – ele gargalhava feliz enquanto perguntava como iam as coisas na fazenda. Jacob se aproximou de mim e de Rennee com aquele jeitinho que só ele tinha, meio menino grande, meio homem rústico.

—Madrezita?

—Oh, Jacob! Como estou feliz por rever você! – sem me importar com meu estado físico ou com meu cheiro medonho, me aproximei dele e lhe estendi as mãos que foram pegas de uma única vez por ele.

—O que importar eu, madrezita? Só de vê-la na minha frente novamente, viva e inteira é o que importar!

—Oh, Jacob, você sempre se preocupando comigo! Eu nem sei o que fiz de bom para merecer a tua amizade. – vi feliz da vida o modo como ele coçou a cabeça e abaixou os olhos, todo tímido e contente ao mesmo tempo.

—Eu fico muito feliz que Edward cuidou bem da senhora! Uma desgraça recairia sobre nossas cabeças se algo tivesse te acontecido.

—Jacob, não precisa ser assim supersticioso. No mais todos nós acabamos por correr risco de vida em vários momentos.

—Barbaridade! Que Edward não deveria tê-la levado naquele dia, muito falei a Zahara sobre isto, se ele não mudar o jeito como tratar a senhora, ainda vai sofrer um castigo de Deus!

Olhei com pena para aquele homem enorme que expressava sua indignação. Muito precisava ser esclarecido nos próximos dias e, só de imaginar como Jacob reagiria a verdade que estava por vir me deixava angustiada.

—Jacob? — Rennee apareceu em nosso foco de visão, vestida com aquelas roupas estranhas e com a face coberta de poeira, somente os olhos azuis e brilhantes denunciavam a sua real identidade.

—Será que esta velha amiga não merece um abraço, seu espanhol chorão?

—Díos Mio, que hoje é dia de graças! Rennee, como é bom vê-la viva e desaforada! – sem preocupar-se com os modos, Jacob deu duas passadas e agarrou mamãe em um perfeito abraço de urso. Ela ria alegremente enquanto era erguida pelos braços fortes do cowboy.

—Jacob, assim acaba por me sufocar!

—Arre, Rennee, que abraço de amigo não mata nem cascavel! Estávamos todos muito preocupados com você e Phil! O xerife apareceu na fazenda dias atrás com algumas novidades sobre a quadrilha que anda roubando as fazendas da região. Mas, não tinha nada para dizer sobre você. Não imagina como fiquei triste, rezei até para Deus!

—Sim, meu amigo, fiquei a par das noticias por aqui. Agora diga-me, como esta Zahara?

—Muito preocupada! Mas faltou pular de alegria quando Moabe chegou com o nativo da fazenda Hale. Assim que soube que todos vocês estavam vivos e bem, montei em meu cavalo e vim o mais rápido que pude com alguns outros.

Minha alegria ficou ainda maior quando me arranjaram a outro cavalo para montar e seguimos todos para a fazenda. Eu ouvia com interesse o prosear de mamãe e Jacob, mas não perdia de vistas a Edward que seguia mais a frente com Phil e outros peões da fazenda. Não demorou muito e eu vi ao longe a casa sede e pude sorrir largamente.

A sensação que eu tinha era a de estar em casa!

Assim de chegarmos em frente a varanda da casa grande meu estomago roncou, pois o cheiro da comida de Zahara estava perfumando todo o lugar. Edward não se conteve em si e deu um de seus costumeiros berros.

—Zahara?

—Sr. Cullen, que alegria vê-lo em casa! – ela apareceu na porta de entrada, vestia a um vestido simples de algodão e estava como sempre belíssima.

—Nem parece, pois fica ai, parada feito a uma arvore! Venha logo aqui e me dá um abraço, mulher!

Notei um certo constrangimento nos modos de Zahara que me olhou feliz também.

—Madre? Como é bom vê-la novamente!

Quando eu ia abrir a boca para retribuir ao cumprimento, fui surpreendida por uma voz fina e cheia de floreios.

—Oh! Que finalmente posso conhecer a santa madre! Espero que a boa graça por ter meu esposo vivo em casa novamente seja pelas suas orações, madre Swan!

Olhamos todos para a mulher de porte médio que surgiu logo atrás de Zahara. Ela estava vestida ricamente com seda e plumas e trazia as faces rubras de carmim. Com olhos brilhantes e inteligentes ela ergueu os braços a frente e falou de forma bem quente para Edward.

—Querido, como é bom tê-lo novamente em casa!

Foi tudo muito estranho, pois enquanto meus olhos estavam pregados na mulher que chamava Edward de querido, eu podia sentir que ele me olhava assim como Rennee.

—Edward, querido, não vai me dar a um abraço? – a mulher deu um passo a frente, ainda com os braços erguidos e meu coração quase parou de bater. Aquela deveria ser Tânia, a mulher de Edward Cullen.

Continua...

Notas finais
Mil desculpas não seriam suficientes pela demora. Mas, tive meus motivos. Espero que tenham gostado do capitulo e logo volto a postar. Bjus no core de todas.