Kairós

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Para Mari.

“Eu te amo, Hoseok.”

A noite é fresca. Eu ajeito o boné branco em minha cabeça e fujo do seu olhar denso, dos seus pequenos olhos que parecem buscar algo no fundo da minha alma, para encarar as estrelas. Nossos dedos se entrelaçam e tomo um gole da garrafa de cerveja à minha esquerda. Você sopra a fumaça do cigarro para cima antes de suspirar.

“É tão difícil assim falar que me ama também?”

“Eu tenho medo de que isso acabe. Tenho medo de perder você assim que abrir a boca.”

A grama balança com o vento e finalmente decido encará-lo. Seu cabelo azul, meus olhos castanhos, a pele pálida e o egoísmo exacerbado; você sorri e deixa um selo sobre meus lábios, as pálpebras trêmulas quando avança em minha direção. Eu fortaleço o aperto de nossas mãos e entorno a bebida de uma só vez, despreocupado; sinto sua cabeça descansar sobre meu ombro.

Nós nos conhecemos ainda crianças e nos tornamos melhores amigos rapidamente. Eu ia à sua casa para jogar cartas ou bola e foi assim que aprendi a mentir a minha mãe para poder passar mais tempo com você. Crescer nos anos oitenta não foi fácil para nossos pais, mas éramos novos; somos novos; e por isso não entendíamos a importância do cuidado.

Temo que ainda não entendamos essa questão completamente, mesmo depois de dez anos.

“Que horas são agora?”

“Meia-noite. Deveríamos ir pra minha casa.”

“Daqui a pouco. Tá gostoso ficar aqui com você.”

“E você sabe que pode ficar ainda melhor, né?”

Seus lábios alcançam meu pescoço, molhados, e reprimo um suspiro. Não há ninguém por perto, mas temo por nossa vida cada vez que a televisão noticia a onda de assassinatos que vem atingindo os pecadores homossexuais, desamparados pelo Estado e pela população. Movo vagarosamente a cabeça para analisar os arredores e sua língua quente acaricia minha pele fria, fazendo com que um arrepio corra por todo o meu corpo. Sua risada vibra em minha tez. Sua mão desliza para dentro de minha calça.

“Vamos pra casa…”

Sua casa. Onde dei o meu primeiro beijo; onde platinei meus cabelos aos quinze anos; onde matei incontáveis aulas para ir à boate; onde fiquei bêbado pela primeira vez; onde desisti de fazer faculdade e decidi arrumar um emprego qualquer; onde entendi que a vida nunca seria como eu queria.

Sua casa. Onde fazemos amor sempre que podemos.

“Yoongi…”

“Hm?”

Eu quero ficar com você pelo resto da minha vida, mas não tenho nada a oferecer além de perigo. Solto nossas mãos rapidamente apenas para acender um cigarro e levá-lo a boca, voltando a uni-las em pouco tempo. Você ainda me acaricia; a nicotina enche meus pulmões e me acalma; seu toque me excita; gostaria que esse momento durasse para sempre, assim como o brilho das estrelas, que parece nunca se apagar.

“Você não acha que é um erro continuar comigo? Talvez esteja perdendo tempo.”

Silêncio. Estagnação. O azul dos seus fios esconde seu rosto e você abre uma cerveja nova, sorvendo do líquido amargo e puxando o ar com força. Trago novamente o cigarro e aspiro o seu perfume no meio tempo em que nada falamos.

“Você deveria ir atrás de outra coisa, se é assim. Eu não sou nenhum exemplo.”

Os anos de escola. O preconceito. Os seus pais perguntando sobre namoradas e o medo da decepção. Você sempre se preocupou muito com a opinião deles, então por que jogar tudo isso para o alto e apostar em um relacionamento que pode nem dar certo e que ainda pode matá-lo? Você cruza a linha do senso da normalidade, da sanidade; chega na doença; e não se incomoda.

“Isso não importa.”

“Eu sei.”

“Yoongi…”

“Eu te amo.”

Apago o cigarro na grama e me levanto. Você vira a garrafa e a deixa largada no chão junto com as outras, limpando a calça quando me alcança e estendendo o braço em minha direção. Observo uma última vez o lugar antes de delicadamente pegar em sua cintura.

“Você tá gastando sua vida comigo.”

“Talvez eu esteja. Mas você também tá gastando a sua comigo.”

“Vamos pra casa?”

Você assente.

A friagem que nos acompanha, seus lábios macios, minhas mãos que passeiam por sua cintura; o amor que corre em você compreende o tamanho da minha dúvida e sou incapaz de dizer o que o futuro nos garante. Só sei do agora. É duro dizer isso essa noite. Eu tenho medo de perder você assim que abrir a boca.

“Eu te amo, Yoongi.”

Não sei o que você quer, mas, por favor, não me deixe sozinho.

Notas finais
Agradeço a todos que leram até aqui. ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!