Kairi no País das Maravilhas

3 O Coração das Cartas


A ruiva andou por várias horas, nem sentidas por ela. Parou ao encontrar uma árvore de gigantesco tamanho. Sentou-se em uma raiz, balançando as pernas. "Devo continuar andando? Esse lugar parece sem fim...", e desejou encontrar Riku novamente. Ou Sora, esse ela tinha certeza de que sabia como sair.

— Como foi com os sábios? — ecoou uma voz suave. Kairi sorriu, feliz por ter reconhecido o dono da voz. Riku apareceu ao seu lado — Disseram onde ficava a saída?

— Não encontrei sábio nenhum — e a garota suspirou — Só um garoto chamado Roxas e uma garota-lebre chamada Naminé.

— Mas esses são os sábios!

— Aqueles dois? Não me pareciam nada sábios! Estavam mais para... — parou por alguns segundos para pensar — Loucos. Não do tipo com problemas no cérebro e que não fala palavras compreensíveis. Acho que estão mais para aqueles que as pessoas não gostam de se aproximar porque... — e se lembrou da expressão de felicidade no rosto dos dois ao perceberem que alguém viera para sua festa — São diferentes...

Kairi virou-se para Riku. Pena e culpa passavam por seus olhos.

— Eles...

— Sim. — disse Riku, impedindo-a de completar a frase.

Kairi abaixou a cabeça, deixando as lágrimas caírem. Mal os conhecera, mas sentia que deixar-se chorar pelos dois era o melhor que poderia fazer, depois do ocorrido.

— Riku... E-eu quero ir pra casa... Não vou conseguir voltar e pedir desculpas para eles... Você pode fazer isso por mim?

— Não posso. Mas tenho certeza de que entenderão.

— Você sabe de mais alguém que conheça a saída?

— Sim, eu sei. Mas ele está preso, não há chances de lhe mostrar como sair.

— Preso? Então, vou soltá-lo! — Kairi levantou a cabeça, enxugando as lágrimas — Como agradecimento, vou pedir para me mostrar a saída!

— Não será tão fácil... — e olhou para o céu entre as folhas da árvore — Mas ele está mais flexível... Quem sabe?

Kairi não entendera o que Riku disse, mas sentiu-se mais confiante. Pulou da raiz da enorme árvore. Olhando para Riku, que continuava sentado, perguntou:

— Então, onde está esse que irá me levar embora? Não temos tempo a perder, não acha?

O garoto-gato apenas sorriu e pulou também da raiz. Puxando Kairi pela mão, levou-a até uma extensa parede de grama. Murmurou alguma coisa para uma flor que ajudava a formar a parede, e esta abriu espaço para os dois passarem.

E entraram no tribunal.

Os dois não realmente entraram, a verdade era que Riku parou a garota um pouco antes dela passar pelo portal aberto pela flor. Kairi sentiu que não deveria fazer barulho, então sufocou sua curiosidade; Nada perguntaria ao garoto-gato.

Esticou um pouco a cabeça para frente, e deu uma boa olhada aonde iria pisar.

Era um espaço bem aberto, circundado por paredes de grama. Havia várias Cartas-soldado, e duas delas seguravam uma raposa um pouco menor do que Kairi. A Raposa estava ajoelhada e parecia desesperada. Em sua frente, erguia-se uma torre baixa. No topo da torre, em uma magnífica cadeira, estava uma rata, com roupas de rainha. Kairi virou a cabeça para Riku e num sussuro quase mudo, perguntou:

— Quem é aquela? — e indicou a rata com a cabeça.

— A Rainha Minnie de Copas. E aquele encolhido ao seu lado é o Rei Mickey de Copas.

Kairi retornou o olhar para a Rainha, e só então viu o Rei. "Eles não devem ser um casal muito feliz", pensou. A Rainha levantou-se e falou para todos ouvirem.

— Raposa, você está sendo acusada de ter roubado uvas do Jardim Real!

— Ma-mas Vossa Majestade, eu não roubei uva nenhuma! Co-confesso que pensei em pegá-las, mas elas estavam verdes!

— Ousas mal falar das uvas reais!? Guardas! Levem-no para a guilhotina! — e no mesmo segundo, as duas Cartas-soldado que seguravam a Raposa, começaram a marchar para um outro portal, onde provavelmente estaria a guilhotina.

— Por favor, a guilhotina não! — exclamava a Raposa — Minha esposa acabou de ter filhotes, como irão sobreviver sem mim!? Piedade, piedade! A guilhotina não! — e continou assim, até o ponto em que Kairi supôs que a pena da Raposa foi concluída.

— Próximo! — gritou a Rainha. Outras duas Cartas-soldado entraram em outro portal, mas voltaram sem ninguém em mãos. — Onde está o próximo!?

— A-acho que não há mais ninguém, Minnie querida... — falou timidamente o Rei, se encolhendo ainda mais quando ela virou-se para ele.

— Eu já percebi, idiota! Me faça um favor e fique com essa boca fechada, a não ser que queira perder a cabeça também!

O Rei abriu a boca, mas a fechou novamente. Kairi imaginou que talvez ele realmente quisesse perder a cabeça, e sentiu pena do Rei.

— Vossa Majestade... — começou uma voz por demais hesitante — Visto que essa sessão acabou... — Kairi tentou ver quem falava, mas o ser estava em uma torre menor do que o da Rainha, e um pouco atrás desta. A garota sentia que aquela voz lhe era familiar — Sua magnificência me permitiria sair para caminhar um pouco e tomar ar? É o único pedido deste humilde servo.

— Novamente!? — ela deu um forte suspiro — Se não me fosse tão útil, mandaria os guardas o levarem para a guilhotina! Vá, por meia hora. Volte antes disso e nosso acordo será quebrado, Sora.

Kairi sentiu o coração falhar por um segundo. Era para isso que Sora estava atrasado? Para fazer o que quer que seja seu trabalho junto dessa Rainha tão cruel e sem compaixão? "Mas Sora é tão bonzinho... Como pôde aceitar? Que acordo é esse?", ela pensava. Deu o primeiro passo para entrar naquele injusto tribunal, mas Riku a segurou.

— Se te verem, vai ter o mesmo destino da Raposa. — o garoto-gato sussurrou — Você quer ou não voltar pra casa?

— E se encontrar alguém agindo contra a lei, — disse a Rainha a Sora, que já estava na frente de sua torre — volte imediatamente com o criminoso. Já sabe quais serão as consequências e sabe que eu descobrirei se não seguir essa ordem.

— Sim, minha Rainha. — e Sora fez uma longa reverência — Meu Rei — virado para o Rei, o garoto-coelho apenas curvou um pouco a cabeça, rapidamente. Virou-se e caminhou para o portal onde estavam Kairi e Riku. Para azar dos dois, não conseguiram se esconder rápido o bastante, e surpreso com o encontro, Sora parou sua saída.

— Algum problema, Sora? — Kairi ouviu a Rainha perguntar. Desesperadamente, balançou a cabeça para um lado e para o outro, em um pedido mudo para que o garoto-coelho poupasse suas vidas. Quando parou, Sora, com uma expressão triste, sussurrou-lhe um pedido de desculpas, e virou-se para a Rainha.

— Encontrei uma forasteira, Vossa Majestade. E Riku de Cheshire.