Kahrir Valmont e os Sussurros do Castelo: Ano 1
4 Segundas Impressões
A noite passou silenciosa sobre o castelo, envolta naquele tipo de quietude profunda que apenas lugares muito antigos sabem guardar. Sons distantes — um passo ecoando em algum lugar longe, uma porta se fechando suavemente em outro corredor — nunca chegavam a perturbar de verdade o repouso daqueles que dormiam dentro de suas paredes. Quando a manhã veio, chegou de forma gentil, quase hesitante. A luz cinzenta filtrava-se pelas janelas subaquáticas do dormitório da Sonserina, refletindo em verde pálido pelas paredes e no brilho fraco do lago além do vidro. O ar estava frio, mas fresco, carregando o cheiro úmido de pedra e um leve traço herbal vindo de algum ponto distante.
Kahrir acordou com a mente já clara. O corpo ainda guardava um cansaço discreto do dia anterior, mas o sentimento dominante era atenção. Antes de sair, voltou ao baú, ergueu a tampa com um rangido baixo e colocou o pingente lá dentro com cuidado. Não era um gesto de rejeição. Era uma escolha. Sem ele, a varinha no bolso parecia mais quieta, mais dela. O dia começaria limpo, sem interferência.
Quando deixou o dormitório, encontrou Adrian esperando perto da saída do salão comunal. Ele parecia mais desperto do que no dia anterior, embora os cabelos castanho-escuros ainda estivessem levemente amassados pelo sono.
— Bom dia — disse ele, com um pequeno aceno. — Dormiu bem?
Eles seguiram juntos para o Salão Principal. O corredor já estava movimentado, passos ecoando sobre a pedra enquanto o cheiro de pão quente e café começava a se espalhar pelo castelo. No salão, a luz da manhã entrava pelas janelas altas, iluminando as longas mesas e o teto encantado, que refletia um céu nublado. O cheiro de comida quente — pão fresco, ovos, frutas e algo doce — preenchia o ar, misturando-se ao burburinho baixo das conversas.
Enquanto se serviam na mesa da Sonserina, uma garota do terceiro ano chamada Selene apoiou o queixo na mão e olhou para Kahrir com curiosidade aberta.
— Você é a garota que fez uma pergunta ao Quirrell ontem, não é? Ouvi gente comentando. Nem todo mundo teria coragem.
Outro aluno próximo se inclinou para frente, em tom provocador.
— Foi em Defesa, certo? Dizem que ele é meio… estranho.
Selene lançou a ele um olhar seco antes de voltar a atenção para Kahrir.
— Cuidado. Perceber demais por aqui pode ser útil… ou pode te colocar em situações que você ainda não quer.
Kahrir respondeu naturalmente, servindo-se de pão quente.
— Bem… foi apenas uma curiosidade passageira. Só não posso levar isso longe demais.
A resposta pareceu satisfazer Selene, que abriu um pequeno sorriso de reconhecimento. Um garoto do primeiro ano chamado Marcus observava tudo em silêncio, claramente absorvendo o ritmo da casa. Adrian entrou na conversa com leveza, sem forçar, e a mesa logo voltou ao ritmo comum de um café da manhã em Hogwarts — comentários sobre horários, impressões das aulas e o dia começando ao redor deles.
Depois da refeição, foram juntos para a primeira aula. O castelo estava mais vivo agora, com escadarias se movendo preguiçosamente e alunos cruzando caminhos pelos corredores. A luz da manhã entrava mais forte pelas janelas, lançando faixas douradas sobre a pedra.
A sala para onde seguiam era diferente das outras: mais aberta, com um amplo espaço no centro e apenas algumas carteiras ao redor das bordas, como se o foco fosse trabalho prático. O ar ali era mais seco, carregando um cheiro leve de madeira e pedra antiga. Alunos já estavam reunidos, alguns confiantes, outros visivelmente inquietos.
Quando a porta se fechou com um som firme, o silêncio se instalou na sala. Severus Snape entrou, suas vestes negras se movendo com aquele esvoaçar característico. O rosto pálido e o olhar penetrante passaram pela turma sem pressa.
— Interessante… — começou ele, a voz baixa, mas perfeitamente audível. — Alunos do primeiro ano reunidos para algo um pouco além do básico.
Ele caminhou devagar pelo espaço central.
— Hoje não haverá teoria. Hoje veremos controle.
Com um movimento mínimo da varinha, uma pena simples se ergueu no ar, estável e precisa.
— Isto não se trata de levantar objetos. Trata-se de decidir exatamente como e por quê.
Snape ordenou que formassem duplas. Kahrir e Adrian se posicionaram juntos com naturalidade. A pena diante deles aguardava.
Kahrir ergueu a varinha com confiança tranquila.
— Leviosa.
A pena subiu suavemente, firmou-se e, quando Snape pediu direção, contornou a carteira sem balançar desnecessariamente. Não era perfeito, mas era controlado — limpo o bastante para chamar atenção discreta.
Snape parou ao lado deles por um momento.
— Controle consciente — comentou, sem emoção. — Preferível à precisão artificial.
Então foi a vez de Adrian. Ele teve mais dificuldade no início, a pena oscilando em pequenos movimentos traidores, mas conseguiu completar o percurso com esforço consciente. Kahrir sugeriu que praticassem juntos, criando uma pequena rota improvisada com livros como obstáculos. Repetiram o caminho várias vezes, ajustando ritmo e precisão. Aos poucos, o controle de Adrian melhorou, tornando-se mais estável e fluido.
Snape observava de longe, sem interromper.
Quando a atividade avançou para algo mais complexo — esferas de madeira movendo-se pela sala em trajetórias variáveis —, o desafio mudou. Já não era controle individual, mas adaptação dentro de um ambiente em movimento. Kahrir entrou no fluxo com confiança, guiando sua esfera sem forçá-la, ajustando apenas o necessário para evitar colisões. Adrian acompanhou o ritmo dela, e os dois trabalharam em sintonia, mantendo a estabilidade mesmo com o movimento coletivo ao redor.
Snape encerrou a aula com poucas palavras.
— Controle individual é previsível. Controle em um ambiente mutável revela quem entende… e quem apenas repete.
Olhou a turma uma última vez.
— Isso será desenvolvido.
A aula terminou. Ao saírem, Adrian soltou o ar, aliviado.
— Acho que terminamos bem.
O corredor os recebeu com o movimento habitual do castelo. O segundo dia continuava, mas agora havia uma diferença clara: Kahrir já não estava apenas aprendendo. Estava sendo observada.
Kahrir acompanhou o fluxo de alunos deixando a sala, o som dos passos ecoando pelo corredor de pedra enquanto a luz da manhã entrava mais forte pelas janelas altas. O ar ainda carregava um leve cheiro de madeira e concentração deixado pela aula. Ela virou o rosto para Adrian enquanto caminhavam lado a lado.
— Adrian, deixa eu te perguntar uma coisa… não existe um sistema de pontos das casas? Tipo, os professores dão pontos por bom comportamento… ou eu estou imaginando isso? Ou isso ainda não vale para a gente porque somos novos?
Adrian soltou uma risada baixa, ajustando o passo ao dela.
— Não, você não está imaginando. Existe. Cada professor pode dar ou tirar pontos por desempenho, comportamento, esse tipo de coisa. No fim, tudo soma para a casa inteira e vira uma competição.
Ele olhou para ela, o tom ficando um pouco mais pensativo.
— É só que ninguém anunciou oficialmente nada para a gente ainda. Talvez ainda não tenha começado formalmente… ou talvez já tenha, e a gente simplesmente não percebeu.
A lembrança da aula de Snape voltou — o modo como o olhar dele passara por ela sem nenhum elogio óbvio, mas registrando tudo. Adrian abriu um meio sorriso.
— Se já estiver contando… eu diria que você provavelmente ganhou alguns pontos para a Sonserina.
Mais à frente, Selene estava encostada na parede. Ao vê-los, acompanhou os dois por alguns metros.
— Boa aula — comentou, com a objetividade típica da casa. — E sim, pontos existem. Eles só nem sempre te avisam quando você ganha.
Ela olhou brevemente para Kahrir antes de pegar outro corredor.
— Se já foi notada no segundo dia… continue sendo notada, mas com juízo.
Kahrir soltou uma reação leve enquanto continuavam andando.
— Eu achei que eles sempre anunciavam… isso é loucura.
Adrian riu baixinho.
— Bem-vinda a Hogwarts. Muita coisa acontece aqui sem aviso.
Eles seguiram para a próxima aula sem parar. O castelo parecia empurrar o ritmo adiante — corredores cheios, vozes se cruzando e o cheiro de terra úmida indicando que estavam se aproximando das estufas.
Quando chegaram do lado de fora, o ar mudou completamente: mais fresco, cheio de umidade, carregado do cheiro forte de solo, folhas vivas e algo quase picante vindo das plantas. A luz do dia refletia no vidro das estufas, criando brilhos suaves. Algumas folhas se moviam sozinhas, como se o lugar inteiro estivesse vivo e atento.
Kahrir olhou para uma planta próxima e comentou com humor contido:
— Eu não duvidaria que existissem plantas explosivas.
Adrian riu com ela.
— Considerando o que já vimos… nem eu.
Dentro da estufa, o ar ficou mais quente e denso, o cheiro de terra e vegetação se intensificando. A Professora Pomona Sprout organizou o grupo com firmeza acolhedora.
— Hoje trabalharemos com espécies sensíveis ao toque e à intenção — explicou. — O objetivo não é manusear a planta. É interagir sem provocar uma reação defensiva.
Kahrir se aproximou da Mimblevine com movimentos deliberadamente lentos, sem pressa. Sua ferramenta tocou o solo com delicadeza, ajustando o substrato ao redor das raízes sem invadir o centro. A planta reagiu apenas com um leve movimento, mas não se fechou. Ela manteve o contato, ajustando o ritmo até que a planta permanecesse estável.
Quando terminou, retirou-se com o mesmo cuidado.
— Esse é todo o exercício ou tem mais? — perguntou, prática.
Sprout observou o resultado com aprovação sutil.
— Para alguns, isso já é bastante. Para outros… não.
Indicou uma bancada lateral com plantas mais sensíveis.
— Quem conseguiu manter a anterior aberta pode avançar. Aqui, não se trata apenas de evitar uma reação. Trata-se de sustentar a interação.
Kahrir começou o novo exercício com a mesma abordagem: presença controlada, movimentos contínuos, sem quebras bruscas. A planta reagiu mais rápido, mas ela ajustou o ritmo, sustentando o fluxo sem forçar. Quando terminou, a planta permaneceu aberta e estável.
Então observou Adrian fazer o dele. Ele começou rápido demais, causando uma contração inicial, mas ajustou a tempo, aprendendo com o sinal da planta. No fim, conseguiu manter o controle sem quebrar o equilíbrio.
— Mas você está indo muito bem… isso é o que importa — disse Kahrir, naturalmente.
Adrian soltou o ar, aliviado, passando a mão pelo cabelo.
— Comecei meio desastroso, mas acho que entendi. Não é sobre acertar de primeira… é sobre perceber rápido quando está errado.
Sprout passou por eles e comentou brevemente:
— Melhor manuseio. Você ajustou no momento certo.
A aula terminou com a professora reforçando o princípio.
— Herbologia não é sobre força ou pressa. É sobre entender quando agir… e quando não agir.
Quando deixaram a estufa, o ar externo pareceu mais leve, o cheiro de terra ficando para trás. Adrian caminhava ao lado de Kahrir, mais relaxado.
— Essa foi mais difícil que a aula do Snape… só que de um jeito completamente diferente.
Kahrir sentiu o dia se organizando ao redor deles. Sem o pingente, tudo parecia mais direto — mais dela. O segundo dia avançava, e Hogwarts já começava a responder ao modo como ela escolhia existir dentro dele.
Depois da estufa, o ar externo parecia mais leve e fresco. A brisa carregava o cheiro de grama aquecida pelo sol e terra úmida, contrastando com a umidade densa que ainda grudava levemente na pele. Kahrir caminhava ao lado de Adrian sem pressa, sentindo a veste se ajustar a cada passo enquanto o castelo os recebia de volta.
— Temos outra aula? — perguntou, prática, mas sem urgência.
Adrian olhou ao redor, acompanhando o fluxo de alunos que seguia para dentro.
— Acho que sim. Ninguém parece estar indo descansar. Provavelmente Transfiguração agora.
Entraram novamente nos corredores de pedra. A luz da manhã atravessava as janelas altas com mais firmeza, desenhando faixas pálidas pelo chão e criando sombras longas nas paredes. O som dos passos ecoava mais forte, misturado a vozes baixas e ao farfalhar ocasional das vestes.
Quando chegaram à sala de Transfiguração, a atmosfera mudou de imediato. O ar era mais seco, com cheiro de madeira polida, pergaminho antigo e uma leve nota metálica. As carteiras estavam organizadas em linhas precisas, cada uma segurando um pequeno objeto simples — um botão, uma colher de madeira, um pedaço de corda — colocado exatamente no centro. A luz entrava diretamente pelas janelas altas, iluminando cada mesa como um palco separado, sem deixar espaço para imprecisão.
Kahrir se sentou ao lado de Adrian com naturalidade, posicionando-se de forma arrumada, sem pressa, mas já atenta ao padrão da sala. Ali não havia o movimento imprevisível da estufa, nem o controle frio da sala de Poções. Tudo parecia contido, exigente — o tipo de lugar onde erros não faziam muito barulho, mas eram notados imediatamente.
A Professora Minerva McGonagall já estava à frente, postura reta, mãos pousadas com precisão sobre a mesa. Seu olhar percorreu a turma devagar, avaliando não apenas rostos, mas o estado de cada aluno.
— Segundo dia — começou, a voz clara e firme, preenchendo o espaço sem esforço. — E já consigo ver quem observou… e quem apenas passou pelas aulas anteriores.
Ela ergueu levemente a varinha. Um botão simples sobre sua mesa transformou-se em uma agulha fina e perfeita, sem distorção, sem atraso — como se sempre tivesse sido aquilo.
— Transfiguração não é improviso. É intenção seguida de execução exata. Aqui, quase certo… está errado.
O silêncio que se seguiu era preciso, quase tangível. Kahrir sentiu a exigência no ar. Não era sobre força ou espetáculo. Era sobre precisão sustentada.
Ela olhou para o botão diante de si. Na aula anterior, havia chegado perto. Agora, sabia onde falhara: no final. A transição fora boa, mas a ponta não recebera a mesma atenção.
Kahrir ergueu a varinha calmamente, a confiança ancorada em experiência recente, não em arrogância.
— Transfiguro.
O botão respondeu. Sua estrutura cedeu devagar, alongando-se de forma controlada. A borda afinou, o centro se esticou. Dessa vez, ela sustentou a intenção até o último instante, refinando a ponta com um ajuste mínimo e preciso. Não houve deformação. A agulha apareceu fina, alinhada, quase perfeita.
Os olhos de McGonagall passaram pela mesa deles. Houve uma pausa curta, quase imperceptível.
— Aproximando-se — disse ela, sem chegar mais perto, mas em volume claro o bastante.
Não era elogio. Era validação — e, ao mesmo tempo, uma exigência por mais.
Adrian olhou para o resultado dela com um meio sorriso.
— Isso foi muito bom.
Então tentou o próprio. O processo começou corretamente, mas a transição perdeu um pouco de precisão perto do fim. A agulha ficou ligeiramente irregular na ponta. Adrian percebeu de imediato e, na segunda tentativa, ajustou com mais cuidado, sustentando a intenção até o final. O resultado melhorou visivelmente.
Kahrir observou em silêncio, sem interferir, apenas presente. Quando ele terminou, disse com naturalidade:
— Se você consegue ajustar… ajuste.
Adrian assentiu, aceitando o conselho.
A aula continuou naquele ritmo exigente. McGonagall se movia entre as carteiras, corrigindo com palavras precisas e econômicas, permitindo que os alunos identificassem os próprios erros. A sala permaneceu silenciosa e controlada, cada detalhe importando.
Quando a professora finalmente encerrou a aula, o alívio foi sutil, mas presente.
— Transfiguração exige disciplina mental constante — disse ela. — Não é uma habilidade sustentada por tentativas, mas por consistência.
Os alunos começaram a se levantar e organizar seus materiais. Adrian se ergueu ao lado de Kahrir, ajustando a veste.
— Essa foi mais quieta… e mais difícil — comentou, com um leve sorriso. — Mas saímos bem.
Ao deixarem a sala, o corredor os recebeu outra vez com movimento e vozes. O segundo dia continuava, mas agora com mais uma camada de aprendizado assentada sob a superfície.
Kahrir sentia que, pouco a pouco, o castelo começava a responder à forma como ela escolhia estar ali.
Eles seguiram pelo corredor que se abria em direção à escadaria principal. A luz ali era mais ampla, preenchendo o espaço de modo uniforme e deixando o ar parecer mais aberto, menos concentrado do que nas salas de aula. Os passos ecoavam com mais espaço para se espalhar, misturados ao burburinho distante de outros alunos seguindo seus próprios caminhos.
— Podemos ir direto para o salão — disse Adrian, caminhando ao lado dela. — Ou usar esse tempo de outro jeito.
Ele olhou para Kahrir com aquele equilíbrio que já começava a marcar o dia: leveza sem superficialidade.
— Revisar, explorar… ou simplesmente não fazer absolutamente nada por alguns minutos.
Havia um pequeno luxo nessa última opção, raro até então.
O castelo permanecia vivo ao redor deles, mas sem a pressão imediata da execução. Pela primeira vez naquele dia, o tempo não estava sendo imposto. Estava sendo oferecido.
Adrian reduziu um pouco o passo.
— Então… o que prefere fazer?
Kahrir não hesitou.
— Vamos para o salão.
A escolha era simples, mas encaixava perfeitamente. Eles desceram a escadaria junto ao fluxo de alunos, o som ritmado dos passos ecoando pelas paredes de pedra. A luz entrava pelas janelas altas, criando sombras que se alongavam e encurtavam conforme desciam, dando ao trajeto uma sensação quase fluida.
À medida que se aproximavam do Salão Principal, o cheiro se intensificava — pão recém-assado, ensopado temperado, algo levemente doce ao fundo. A atmosfera começou a se abrir antes mesmo de entrarem, o som das vozes crescendo aos poucos.
Quando passaram pelas portas, o salão já estava vivo. As longas mesas estavam parcialmente ocupadas, alunos reunidos em grupos, conversas acontecendo em volumes diferentes, risadas breves aqui e ali. Velas flutuantes acrescentavam uma luz quente que se equilibrava com a claridade natural das janelas.
Kahrir se acomodou à mesa da Sonserina com Adrian, encontrando um lugar entre vários alunos que já estavam ali. A atmosfera não exigia formalidade; era um intervalo, uma respiração dentro do dia.
Adrian se sentou, apoiando os braços sobre a mesa.
— Certo… agora dá para dizer que o dia está andando.
Olhou para Kahrir com um leve sorriso.
— E sem explosões… até agora.
Pratos apareceram magicamente diante deles, enchendo a mesa de variedade. O calor subia suavemente da comida, contrastando com o ar mais fresco do salão, e o cheiro se tornava mais rico, convidativo sem esforço.
Kahrir começou a se servir com calma. Depois de um dia que exigira atenção constante, o simples ato de comer parecia quase direto demais. Ela pousou os talheres por um momento e admitiu naturalmente:
— Confesso… estou realmente cansada.
Adrian levantou o olhar de imediato, a expressão mudando para algo mais atento.
— Faz sentido — respondeu sem hesitar. — Tivemos três aulas seguidas que exigiram concentração o tempo inteiro. Não é cansaço físico… é aquele que vem de pensar sem parar.
Ao redor, o salão continuava animado, mas o som parecia um pouco mais distante agora. Marcus, sentado por perto, ainda tentava acompanhar as conversas, enquanto Selene falava mais adiante com outros alunos do terceiro ano. O espaço não exigia nada específico deles naquele momento.
Adrian continuou, mais baixo:
— Acho normal… principalmente no segundo dia. Se você não estivesse cansada, aí sim seria estranho.
Ele bateu os dedos de leve na mesa, pensativo.
— Podemos comer devagar… depois ir para algum lugar mais quieto antes da próxima aula. Não precisamos manter o mesmo ritmo o tempo todo.
Kahrir aceitou a ideia com calma.
— Funciona… vamos fazer isso.
Comeram sem pressa, deixando o ritmo do salão fluir ao redor deles. O calor da comida, o cheiro reconfortante e o murmúrio distante criavam um raro momento de pausa dentro do dia exigente.
Quando terminaram, Kahrir se levantou com Adrian.
— Eu escolhi ontem… você escolhe hoje.
Adrian considerou por um momento, então indicou levemente uma rota lateral mais tranquila.
— Então vamos sair da corrente. Tem um pátio menor mais à frente… não tão cheio quanto o principal.
Eles seguiram por corredores mais calmos. O som dos outros alunos foi diminuindo aos poucos, substituído por um silêncio mais espaçado, em que cada passo ecoava com mais clareza. O ar ficou mais fresco, e a luz entrava com suavidade pelas janelas altas.
O pátio se abriu quase de repente — cercado por paredes de pedra parcialmente cobertas por trepadeiras, com áreas sombreadas e um pequeno espaço aberto onde a luz do sol entrava mais diretamente. Havia poucos alunos ali: dois conversando perto do fundo, outro sentado sozinho.
O vento passava de forma perceptível pelo espaço, movendo as folhas e trazendo ar fresco que contrastava com o interior do castelo.
Adrian parou por um momento, olhando ao redor.
— Aqui.
Encostou-se parcialmente em uma das paredes.
— Não é completamente silencioso… mas é suficiente.
Kahrir sentiu o alívio sutil do espaço mais calmo.
— Muito melhor… na verdade, ainda não escrevi a carta para minha tia.
Ela tirou a pequena câmera mágica do bolso da veste.
— Vamos tirar uma foto juntos para eu mandar para ela e ela saber que eu não estou excluída. Talvez isso a anime.
Adrian olhou para o objeto com interesse genuíno.
— Isso é brilhante.
Posicionou-se ao lado dela naturalmente, sem formalidade demais.
Kahrir ergueu a varinha.
— Vamos usar Leviosa para tirar a foto, hehe.
A câmera subiu suavemente no ar, estabilizando-se diante deles. A luz do pátio os tocou de modo uniforme, o vento movendo levemente os cabelos. Kahrir sorriu naturalmente, sem forçar. Adrian acompanhou com um sorriso leve e presente.
Houve um pequeno clique suave.
A câmera desceu alguns centímetros e produziu a fotografia, ainda “viva”. A imagem apareceu aos poucos, ganhando movimento — o início de um sorriso, o ajuste sutil de postura, o vento atravessando o instante capturado.
Kahrir a observou por um momento, então ergueu a varinha de novo.
— Duplico.
Duas cópias idênticas apareceram. Ela entregou uma a Adrian.
— Meu tio me ensinou — explicou, com um traço de humor na lembrança. — Ele gostava de duplicar bolos.
Adrian segurou a foto, observando o movimento dentro dela.
— Certo… isso é muito melhor do que qualquer foto normal. Parece viva.
Guardou a cópia com cuidado.
— Vou ficar com isso. Prova de que sobrevivi ao segundo dia.
Kahrir guardou as outras duas.
Depois de um momento confortável, perguntou:
— E agora, o que fazemos?
Adrian pensou por um instante.
— Ainda temos tempo antes da próxima aula… e você disse que está cansada. Então temos duas boas opções: ou ficamos aqui mais um pouco sem fazer nada, descansando de verdade… ou caminhamos devagar pelo castelo sem destino específico.
Kahrir respondeu sem hesitar.
— Vamos ficar aqui. Vou escrever a carta para minha tia… depois vamos ao corujal e voltamos para a aula.
Adrian assentiu.
— Perfeito. E ainda dá tempo de fazer tudo com calma.
Permaneceram no pátio. Kahrir tirou pergaminho, pena e tinta, colocando tudo com cuidado. A pena se moveu sobre a página com um som suave e contínuo. Adrian ficou ao lado dela em silêncio respeitoso, apenas compartilhando o momento sem tentar preencher o espaço.
Quando terminou, Kahrir enrolou a carta com cuidado.
— Sim… vamos ao corujal.
Eles deixaram o pátio e seguiram para as partes mais altas do castelo. O caminho mudava gradualmente — menos alunos, mais silêncio, o som dos passos ecoando com maior clareza. À medida que subiam, o ar ficava mais frio e aberto, e um som distante começava a surgir: bater de asas, chamados curtos, penas se movimentando.
Quando chegaram ao corujal, o espaço se abriu por completo. A torre alta tinha grandes aberturas por onde o vento entrava livremente. A luz natural derramava-se sem obstrução, iluminando poleiros em diferentes alturas e dezenas de corujas espalhadas pelo lugar.
O cheiro era intenso — penas, madeira e tudo o que naturalmente vinha de um espaço tão cheio de criaturas vivas. O som de asas era constante, algumas corujas voando de um ponto a outro, outras observando com olhos atentos e afiados.
Kahrir reduziu o passo, o olhar percorrendo o espaço.
— Onde está Nyra…
Então a viu.
Em um dos poleiros mais altos, parcialmente iluminada pela luz lateral, Nyra já olhava diretamente para ela. Suas penas marcadas, os olhos âmbar profundos — reconhecendo.
Com um movimento controlado, Nyra abriu as asas e desceu em um voo limpo, sem pressa, pousando em um poleiro mais próximo.
Kahrir se aproximou com calma.
— Nyra, minha rainha… leve esta carta para minha tia…
Deu o destino com clareza, incluindo todos os detalhes necessários.
— Vá… e volte em segurança.
Nyra inclinou a cabeça, registrando não apenas a instrução, mas a intenção por trás dela. Kahrir amarrou a carta com cuidado à perna da coruja, prendendo o nó com firmeza, sem apertar demais.
Por um breve momento, tudo pareceu suspenso.
Então Nyra abriu as asas largas e elegantes, cortando o ar com força controlada. Saltou do poleiro e subiu, atravessando a abertura da torre antes de desaparecer na luz lá fora.
O som das asas sumiu depressa.
O corujal voltou ao seu silêncio vivo.
Adrian observou o caminho de Nyra até o último segundo possível, claramente impressionado.
— Ela é… eficiente.
O comentário era simples, mas carregava admiração genuína. O vento ainda atravessava a torre, trazendo consigo o som distante de asas e o leve farfalhar das penas nos poleiros mais altos. O corujal permanecia vivo ao redor deles, mas aquele momento específico havia terminado.
Kahrir ficou por mais um instante olhando para a abertura por onde Nyra desaparecera, como se ainda pudesse acompanhar o voo além do alcance dos olhos. O ar ali em cima era mais fresco, mais aberto, carregando o cheiro distinto de madeira antiga, penas e vento passando livremente pelas grandes frestas da torre.
Adrian olhou para ela com um sorriso discreto.
— Missão cumprida.
O tom era leve, mas verdadeiro. Agora restava apenas esperar.
Kahrir guardou a pena e a tinta com cuidado, ainda sentindo o peso sutil da carta que acabara de enviar. Depois de um momento, virou-se para Adrian com curiosidade prática.
— Engraçado… Adrian, você não tem uma coruja?
Adrian soltou uma pequena risada pelo nariz, olhando para uma das fileiras de poleiros como se a resposta não fosse exatamente novidade para ele.
— Não… ainda não.
Cruzou os braços de leve, apoiando o ombro na madeira próxima enquanto observava uma coruja pousar alguns níveis acima.
— Pensei em trazer uma… mas acabei deixando para depois. Minha família sempre teve mais… outros tipos de contato. Mensageiros diferentes, menos… tradicionais.
Deu de ombros, com um pequeno sorriso torto.
— Mas depois de ver a sua… — olhou brevemente para a abertura por onde Nyra voara — acho que sinto falta de ter uma.
O comentário não era apenas sobre utilidade. Era sobre vínculo.
Uma coruja próxima alçou voo naquele momento, passando por eles com batidas firmes de asas que movimentaram o ar ao redor. Adrian a acompanhou com os olhos, claramente mais interessado agora do que antes.
— Talvez eu escolha uma em breve — disse, quase como se uma decisão se formasse ali. — Mas acho que não é o tipo de coisa que se faz sem pensar.
O tom combinava com alguém que já entendia que, naquele mundo, certas escolhas não eram apenas práticas. Elas duravam.
O corujal continuava ao redor deles, vivo e atento, como se cada ave ali fosse mais que um meio de enviar cartas.
Kahrir sentiu que, assim como Nyra a havia escolhido, esse tipo de decisão nunca era aleatório.
Adrian afastou-se um pouco da parede.
— Devemos voltar? — perguntou, sem urgência, mas já retornando ao ritmo do dia. — Antes que a próxima aula decida começar sem a gente.
Eles desceram as escadas juntos, o som dos passos ecoando claramente contra as paredes de pedra. O vento da torre ficou gradualmente para trás, substituído pelo ar mais fechado dos corredores internos. A luz mudou à medida que desciam, tornando-se mais filtrada, menos direta.
Kahrir ajustou o passo ao lado dele.
— Vamos voltar… mas qual é a próxima aula?
Adrian pensou por alguns segundos, organizando mentalmente a sequência.
— Se eu não estiver completamente perdido… acho que é Defesa Contra as Artes das Trevas agora.
O nome da matéria mudou sutilmente o clima. Não houve reação exagerada, mas a atenção se aguçou. Continuaram caminhando por um corredor mais largo, onde a luz entrava de modo mais direto pelas janelas altas, iluminando o caminho à frente. Alguns alunos já seguiam na mesma direção, o que apenas confirmava o palpite de Adrian.
— E considerando o professor que já vimos… — continuou ele, olhando de lado para Kahrir — eu diria que vai ser… interessante.
O comentário carregava uma nuance clara. A lembrança da primeira aula. O comportamento estranho. A reação da varinha. A atmosfera. Nada disso havia sido esquecido.
À medida que se aproximavam da sala, o fluxo de alunos aumentava um pouco. Não era caótico, mas havia mais gente agora, alguns falando mais baixo do que de costume, como se aquele professor criasse um tipo diferente de expectativa.
O ar no corredor parecia um pouco mais frio. Ou talvez apenas mais denso.
Adrian reduziu levemente o passo.
— Certo… agora estou curioso.
Olhou para a porta da sala, já próxima.
— E um pouco desconfiado.
A porta ainda estava fechada, mas havia algo diferente no espaço, como se carregasse mais que apenas outra aula.
Kahrir estava ali de novo, diante da mesma matéria, com mais consciência do que antes e, talvez, mais perguntas.
Entraram na sala com os outros alunos. O ambiente era o mesmo da aula anterior: amplo, desordenado, com aquele cheiro sutil de madeira antiga e algo indefinido no ar. A luz era filtrada, criando manchas de meia-sombra que pareciam quase intencionais.
Kahrir se acomodou em seu lugar ao lado de Adrian, natural na postura, mas já atenta. A varinha permanecia ao alcance, embora não exposta.
Quirinus Quirrell já estava na sala.
Como antes, havia algo nele que não se movia exatamente com o resto do ambiente. O corpo parecia levemente tenso, os movimentos irregularmente contidos, como se cada gesto fosse um pouco mais calculado do que deveria.
— B-bom… dia — disse ele, a voz carregando aquele leve tremor que já não soava como simples timidez.
Seu olhar percorreu rapidamente os alunos, mas não se fixou em ninguém por muito tempo.
Kahrir percebeu.
Evitando.
Ou incapaz de sustentar.
Ao lado dela, Adrian mantinha a atenção fixa, mais quieto do que estivera nas outras aulas. Não comentou, não reagiu. Apenas observou.
Quirrell continuou.
— H-hoje… discutiremos… respostas a estímulos mágicos…
A escolha das palavras fazia sentido, mas também não passou despercebida.
Ele se aproximou de uma mesa central, onde um pequeno objeto estava coberto por um pano escuro. O movimento era cauteloso demais para algo simples. Ele não o revelou imediatamente.
— A-algumas criaturas… e artefatos… reagem de formas que nem sempre são… previsíveis…
A voz falhou levemente na última palavra, ou talvez apenas oscilasse.
Kahrir escreveu discretamente.
Evita contato direto.
Reação inexplicada.
Fala indireta.
O artefato emitiu um pulso fraco. Não visível, mas sentido. A varinha de Kahrir respondeu outra vez, mais clara desta vez. Não era imaginação. Não era coincidência.
Adrian captou o pequeno movimento.
— De novo… — murmurou, quase inaudível.
Quirrell evitou olhar diretamente para o objeto naquele momento. Também evitou olhar para qualquer um que pudesse ter notado.
A aula continuou, mas a essa altura já estava claro o bastante: aquilo não era apenas teoria. Havia algo ali que não estava sendo dito. Algo estava reagindo.
Kahrir continuou observando. Não o confrontou. Não interrompeu. Mas sua atenção agora estava mais afiada.
O artefato permaneceu exposto.
A sala permaneceu controlada e silenciosa.
E o professor estava claramente desconfortável.
A aula de Defesa Contra as Artes das Trevas terminou, mas a sensação desconfortável não se dissolveu com o arrastar das cadeiras. O ar da sala ainda parecia denso, pesado com aquela mistura estranha de palavras vagas e silêncios mal explicados.
Kahrir reuniu o pergaminho com um gesto mais seco que o habitual, a frustração acumulada aparecendo no modo como fechou o frasco de tinta.
— Mas, honestamente… acho que essa aula não está me ensinando nada. É muito frustrante.
A frase saiu baixa, mas cheia. Não era apenas cansaço; era a sensação de ter perdido tempo com algo que parecia deliberadamente incompleto.
Adrian terminou de guardar as próprias coisas com calma, dando espaço ao comentário antes de responder.
— Eu entendo — disse, ficando de pé ao lado dela. — Parece que ele está… segurando metade das informações.
Eles começaram a caminhar em direção à saída, seguindo o fluxo de alunos que deixava a sala. O corredor recebeu o grupo com uma atmosfera mais solta, a luz do fim da tarde entrando pelas janelas altas em um tom mais dourado, esticando sombras sobre o chão de pedra.
Adrian continuou, ajustando a veste.
— Mas… não acho que seja nada. Não aprendemos o que ele queria ensinar, mas aprendemos bastante mesmo assim. Percebemos padrões, reações, inconsistências… e como ele evita certas coisas. Não é conteúdo da aula, mas é informação.
Ele olhou de lado para ela.
— E, se sua varinha não tivesse reagido, talvez achássemos que não aprendemos nada.
Kahrir sentiu que sua frustração não era exagerada. Era coerente.
Continuaram pelo corredor enquanto o fluxo de alunos se dispersava aos poucos. A luz suavizava, marcando o lento fim da tarde.
— Não acho que ele esteja segurando informação… — disse enfim, a voz mais firme. — Acho que ele é um péssimo professor… e ainda está escondendo alguma coisa.
Adrian ouviu sem interromper, os olhos voltados para frente enquanto processava.
— É possível — respondeu, mais sério. — E, sendo honesto… uma coisa não anula a outra. Ele pode ser um péssimo professor e ainda estar escondendo algo.
Ele não invalidou a conclusão dela. Apenas refinou.
— O problema de assumir que ele é só incompetente é que a gente para de prestar atenção. E o problema de assumir que é só mistério é que começamos a ver coisas onde não tem. Então talvez o melhor seja tratar como as duas coisas ao mesmo tempo. Um professor ruim… que, por algum motivo, não está sendo transparente.
O tom dele voltou ao equilíbrio.
— O que, honestamente… não melhora muito a situação.
Mas também não a tornava caótica.
Kahrir percebeu que a frustração não precisava ser resolvida agora. Apenas reconhecida.
Adrian inclinou levemente a cabeça.
— Temos outra aula? Qual é a próxima?
A pergunta era prática, do tipo feita por alguém que precisava se reposicionar depois de uma aula que deixara mais perguntas do que respostas.
— Se eu não estiver completamente perdido… acho que é Feitiços agora. Com o Professor Filius Flitwick. Ouvi dizer que é bem diferente das outras aulas.
Eles seguiram pela rota indicada. O ar no corredor parecia mais leve, a luz entrando com mais generosidade pelas janelas altas. O som ao redor mudou — mais conversa, menos quietude, mais energia compartilhada.
A sala de Feitiços tinha uma atmosfera completamente diferente. A luz entrava de forma ampla, espalhando-se sobre as carteiras sem criar sombras pesadas, e o ar carregava um leve cheiro de pergaminho misturado a algo quase doce, como se magia fosse constantemente praticada ali, mas sem tensão.
O Professor Filius Flitwick conduziu a aula com entusiasmo contido, refinando o controle da levitação e introduzindo pequenas variações de movimento e precisão. Não havia mistério oculto, nenhuma sensação de algo deixado por dizer. Apenas prática clara, correções pontuais e um ambiente que permitia progresso sem pressão excessiva.
Kahrir realizou os exercícios com naturalidade, sustentando o controle desenvolvido nas aulas anteriores. A pena flutuava estável, respondendo aos comandos com fluidez. Adrian, ao lado dela, também melhorou visivelmente, ajustando o próprio ritmo com mais confiança.
Quando a aula terminou, o alívio foi sutil, mas presente. O dia finalmente parecia ter encontrado algum equilíbrio depois de tantas camadas diferentes.
Eles deixaram a sala com o fluxo de alunos. O corredor recebeu o grupo com uma atmosfera mais solta, a luz do fim da tarde entrando pelas janelas altas em tom dourado, alongando as sombras pelo chão de pedra.
Kahrir caminhou ao lado de Adrian, sentindo o cansaço acumulado do dia se instalar com mais clareza no corpo agora que não havia exigência imediata.
Adrian olhou para ela com um sorriso discreto.
— Depois de Defesa e Feitiços… acho que podemos dizer que o dia está quase acabando.
O corredor permanecia vivo, mas seu ritmo havia mudado — mais disperso, mais calmo, como se o próprio castelo desacelerasse com o entardecer.
O segundo dia terminava com mais perguntas do que respostas, mas também com a sensação clara de que Kahrir já não era a mesma aluna que pisara no Beco Diagonal pela primeira vez.
Eles seguiram pelo corredor em direção ao Salão Principal enquanto a luz do entardecer entrava pelas janelas altas em um dourado suave, esticando sombras pelo chão de pedra. O castelo desacelerava naturalmente, o fluxo de alunos mais disperso, as vozes menos urgentes.
O cheiro de comida começou a se espalhar antes mesmo de chegarem às portas do salão — pão quente, ensopado temperado, ervas e uma sugestão doce que indicava sobremesa. Quando atravessaram as grandes portas, o ambiente os recebeu com energia reconfortante. As longas mesas estavam parcialmente ocupadas, velas flutuantes lançavam luz morna sobre os rostos, e o teto encantado mostrava um céu que escurecia lentamente em azul profundo com nuvens claras.
Kahrir e Adrian se acomodaram à mesa da Sonserina. Pratos surgiram magicamente diante deles, quentes e convidativos. O aroma subia em ondas suaves, misturando-se ao murmúrio baixo das conversas ao redor.
Kahrir se serviu com calma, sentindo o calor da comida contrastar com o cansaço acumulado no corpo. Adrian fez o mesmo, apoiando os braços na mesa com um suspiro quase imperceptível.
— Então… — começou ele, depois da primeira garfada. — Que dia, hein?
O tom era leve, mas carregava tudo o que haviam vivido.
Kahrir assentiu, mastigando devagar antes de responder.
— Foi intenso. Defesa foi… frustrante. Não sei se ele ensinou alguma coisa ou só criou mais perguntas. E aquilo com o artefato… a varinha reagindo de novo. Não consigo parar de pensar nisso.
Adrian concordou, olhando para o prato por um momento.
— Nem eu. Ele evita contato visual, evita explicar direito, e o objeto reage quando ele chega perto. Não é normal. Mas, ao mesmo tempo… não podemos confrontá-lo sem mais informações. Então continuamos observando.
Deu de ombros, com um meio sorriso cansado.
— Pelo menos Feitiços foi mais calmo. E Herbologia… eu melhorei um pouco com as plantas depois da sua dica. Obrigado por isso, aliás.
Kahrir sorriu levemente, o primeiro sorriso mais genuíno do fim do dia.
— Você foi bem. Só precisava desacelerar. Plantas não gostam de pressa.
Continuaram comendo em um ritmo tranquilo. Ao redor, outros alunos comentavam as aulas do dia — alguns reclamando de Transfiguração, outros falando sobre as plantas sensíveis da estufa. A mesa da Sonserina tinha uma atmosfera mais reservada, mas não fria. Marcus, o aluno do primeiro ano, estava sentado por perto e ouvia em silêncio, ainda absorvendo o dia.
Adrian tomou um gole de suco de abóbora e olhou para Kahrir.
— Sabe o que é engraçado? Passamos o dia inteiro lidando com coisas reagindo de forma estranha… e, no fim, o que mais ficou comigo foi o momento no pátio, tirando aquela foto. Foi simples. Sem mistério. Sem pressão.
Pausou brevemente.
— Acho que a gente precisava disso.
Kahrir assentiu, sentindo o peso do dia começar a se soltar lentamente com a comida quente e a conversa calma.
— Sim. Foi bom. E Nyra provavelmente já está a caminho com a carta. Minha tia vai gostar de ver que eu não estou sozinha aqui.
O salão permanecia vivo, mas seu ritmo estava mais suave agora. Velas flutuantes iluminavam rostos, o teto encantado escurecia pouco a pouco, e o cheiro reconfortante da refeição preenchia o espaço como um convite ao descanso.
Quando terminaram de comer, levantaram-se quase ao mesmo tempo. O cansaço já era visível nos movimentos mais lentos.
— Vamos? — perguntou Adrian, indicando levemente a saída.
Eles deixaram o salão e seguiram pelos corredores que levavam ao salão comunal da Sonserina. O ar foi ficando mais frio e úmido à medida que desciam, a iluminação mais baixa e esverdeada onde refletia pelas paredes de pedra. Os passos ecoavam de forma mais espaçada agora, o castelo já se recolhendo para a noite.
Quando chegaram à entrada do salão comunal, o espaço os recebeu com sua atmosfera protegida e familiar — o fogo crepitando baixo na lareira, os sofás verdes e prateados e o brilho fraco do lago visível pelas janelas subaquáticas.
Adrian parou por um momento antes de seguir para o dormitório masculino.
— Sobrevivemos ao segundo dia — disse, com um meio sorriso cansado, mas sincero. — Amanhã veremos o que mais este lugar tem esperando por nós.
Kahrir assentiu, sentindo o corpo pedir descanso de verdade.
— Boa noite, Adrian.
— Boa noite.
Ela entrou no dormitório feminino. O quarto estava silencioso, a luz baixa, o som distante da água do lago roçando as janelas. Kahrir trocou de roupa com movimentos automáticos, o cansaço agora comandando cada gesto. Quando se deitou, o peso do dia finalmente encontrou onde repousar.
Não houve longa revisão do que havia acontecido.
Nenhum plano para o dia seguinte.
Apenas o corpo cedendo ao colchão, o som suave da água ao fundo e o silêncio confortável do dormitório.
O segundo dia terminou ali.
Completo.
Intenso.
E, de algum modo, já deixando marcas que não desapareceriam tão cedo.
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