A manhã de sábado se espalhou por Hogwarts com uma espécie de paz preguiçosa, como se o castelo inteiro respirasse mais devagar sem o peso das aulas pressionando suas paredes. A luz suave atravessava os altos vitrais, derramando cores pálidas sobre as pedras e deixando o salão comunal da Sonserina com um ar quase sonolento. Apenas alguns alunos circulavam; uns ainda bocejavam, outros aproveitavam a rara ausência de urgência, enquanto o cheiro de café e pão quente permanecia no ar como um convite para que todos ficassem só mais um pouco.

Kahrir desceu as escadas com a mente já desperta, embora o corpo ainda se movesse no ritmo lento da manhã. O pingente repousava discretamente contra sua pele, impossível de esquecer agora que ela entendia pelo menos um pouco do que ele podia fazer. Quando encontrou Adrian e Mason, nenhum deles precisou revisar o plano. Um único olhar trocado foi suficiente para os três saberem que pensavam a mesma coisa.

Adrian estava largado em uma poltrona, mas seus olhos estavam atentos demais para alguém fingindo relaxar.

— Espero que ele não seja do tipo que dorme até meio-dia.

Kahrir pegou algo simples para comer, sem pressa, como qualquer estudante faria em um sábado.

— Se for, descobrimos para onde ele desaparece quando não está em aula.

Mason, que parecia estar acordado havia mais tempo que os dois, observou o salão comunal por alguns segundos antes de falar em voz baixa.

— Ele não está aqui.

A observação caiu naturalmente, mas encaixava bem demais para ser ignorada. O café da manhã passou sem nada visivelmente fora do lugar: professores conversando baixo em uma mesa distante, alunos distraídos, o murmúrio fácil de pessoas que não precisavam correr para lugar nenhum. Ainda assim, a ausência de Quirrell chamava mais atenção do que a presença dele teria chamado.

Quando deixaram o Salão Principal, o castelo se abriu diante deles com corredores mais vazios, ecos mais longos e a estranha sensação de que havia espaço demais para se mover sem ser notado. Era exatamente o tipo de dia feito para observar — e para ser observado.

Kahrir não escolheu um caminho direto. Deixou a rota se formar por conta própria, passando por trechos que normalmente estariam cheios, mas agora pareciam quase esquecidos, com portas fechadas ou entreabertas como se o castelo respirasse em pequenos suspiros silenciosos. Foi em uma dessas passagens mais estreitas que algo chamou sua atenção. Não de forma dramática, não o bastante para fazê-la parar de imediato, mas o suficiente para que reduzisse o passo sem chegar a interromper a caminhada. Uma porta estava entreaberta, um detalhe que poderia ter passado despercebido em qualquer outro dia, mas naquele silêncio mais limpo parecia deslocado.

Adrian percebeu a mudança no ritmo dela.

— O que foi?

— Aquela porta… — respondeu Kahrir, ainda andando devagar. — Parece esquecida, mas não do jeito certo.

Mason inclinou a cabeça levemente, olhando sem virar o corpo inteiro.

— Ninguém deixa uma porta assim sem motivo.

Kahrir parou naturalmente, como se apenas estivesse decidindo para onde ir em seguida, e olhou para os dois com um meio sorriso curioso, mais interessada do que tensa.

— Fingimos que estamos só passando… ou decidimos ser um pouco inconvenientes?

O corredor permaneceu quieto, o ar frio roçando as paredes antigas, e a porta continuou ali, aberta apenas o suficiente para permitir uma escolha. Kahrir sustentou o olhar por mais um momento, pesando não exatamente o risco, mas o quanto aquilo poderia revelar. Então deu mais um passo, deixando a linha natural do corredor e se aproximando da porta com a calma de quem não tinha motivo algum para estar ali.

— Se fosse proibido, estaria trancada — murmurou, mais para os garotos do que como justificativa real.

Adrian soltou um sopro baixo pelo nariz, meio curioso, meio resignado.

— Ou alguém quer que a gente pense isso.

— Então pensamos nisso depois — respondeu ela, já estendendo a mão para empurrar a porta com cuidado.

A madeira cedeu quase sem som, revelando uma pequena sala de ar parado e cheiro fraco de poeira antiga misturado a algo levemente metálico. Mesas haviam sido empurradas contra as paredes, prateleiras sustentavam objetos que pareciam ter sido esquecidos, e o lugar tinha uma ordem que não era exatamente bagunçada, mas também não era bem cuidada. Era o tipo de sala que existia, mas não era visitada. A luz vinda pela fresta da porta capturava partículas de poeira flutuando no ar, como se o próprio tempo se movesse mais devagar ali dentro.

Kahrir entrou primeiro, alerta o bastante para absorver tudo sem pressa. Adrian seguiu logo atrás, agora mais cauteloso, enquanto Mason fechou a porta com cuidado, reduzindo o ruído do corredor a quase nada. Por alguns segundos, ninguém falou. A sala parecia pedir silêncio.

Kahrir caminhou alguns passos, o olhar percorrendo as superfícies, os sinais sutis de uso que não eram exatamente recentes, mas também não eram antigos o suficiente. Então algo chamou sua atenção com mais clareza. Uma das mesas ao fundo não estava coberta de poeira como as outras. Não estava completamente limpa, mas havia sido usada. Recentemente.

Adrian percebeu quase ao mesmo tempo.

— Alguém vem aqui.

Mason já estudava a área ao redor daquela mesa, não apenas a superfície, mas o chão, as sombras, como se tentasse entender o que não estava visível.

Kahrir se aproximou sem tocar, apenas observando mais de perto. Havia marcas fracas na madeira, linhas cruzadas de forma quase organizada, como se algo tivesse sido colocado sempre no mesmo ponto vezes suficientes para deixar um vestígio. O cheiro metálico era mais forte ali.

— Isso não é só uma sala esquecida — murmurou.

Mason concordou baixo.

— É uma sala evitada.

A diferença mudava tudo. Adrian lançou um olhar rápido para a porta, medindo o tempo sem precisar dizer isso em voz alta.

Kahrir não se apressou. Passou os dedos pela borda da mesa com pressão mínima, sentindo a textura sob eles.

— Tem um cheiro estranho aqui… não é só poeira.

Adrian se inclinou ao lado dela.

— Metal, talvez? Tipo ferro?

Mason observava o chão ao redor deles, depois as prateleiras mais afastadas. Kahrir se moveu até uma das paredes onde os objetos pareciam menos organizados e afastou algo ligeiramente para o lado, revelando um espaço vazio marcado pela poeira ao redor. O contorno era preciso, como se algo tivesse ficado ali tempo suficiente para deixar uma forma e tivesse sido removido há pouco.

— Havia alguma coisa aqui — disse ela, sem tirar os olhos do lugar. — E não faz muito tempo.

Adrian se aproximou.

— Alguém levou.

— Ou alguém usa e retira quando precisa — acrescentou Mason, ainda olhando para o espaço.

Kahrir se endireitou devagar, examinando a sala com mais atenção agora. O cheiro metálico parecia ligado ao que estava faltando. A sala não estava abandonada. Estava sendo usada, mas de um jeito que dependia de ninguém olhar de perto demais.

Ela não foi além. Em vez disso, cruzou os braços e inclinou a cabeça, sentindo que a sala não pedia ação imediata, apenas observação. Havia algo fora do lugar ali, e isso já dizia o bastante.

Depois de alguns momentos, afastou-se da mesa e olhou para os garotos.

— Não precisamos descobrir o que era agora. Precisamos descobrir quem volta aqui.

Adrian ergueu uma sobrancelha.

— Então ficamos?

Kahrir fez uma leve careta, pensativa.

— Ficar aqui dentro pode ser um pouco óbvio. Mas sair e esquecer não parece muito inteligente também.

Mason olhou para a porta, depois para o corredor além dela.

— Podemos marcar o lugar. Algo que só nós notaríamos se mudasse.

Kahrir considerou por um momento, então balançou a cabeça.

— Ou só lembramos. Quem está organizando isso não está sendo tão cuidadoso assim.

Adrian soltou uma risada baixa.

— Confiar na própria memória. Perigoso.

— Confiar em vocês dois — ela respondeu rapidamente, com um meio sorriso.

A troca foi leve o suficiente para manter o equilíbrio em uma sala que claramente não fora feita para visitas longas. Kahrir deu um último olhar ao espaço, gravando o máximo que podia na memória, então caminhou até a porta e a abriu apenas o suficiente para espiar o corredor antes de sair. O castelo lá fora ainda estava quieto, com aquele silêncio específico de sábado de manhã que fazia cada som parecer um pouco mais alto.

Ela parou ali, olhando para os dois lados como se decidisse o próximo movimento.

— Então… seguimos o plano, ou isso virou prioridade?

Adrian apoiou uma das mãos na parede ao lado.

— Meio-termo?

— Meio-termo nunca funciona — respondeu ela, com um sorriso torto. — Mas podemos fingir que sim.

Mason olhou mais uma vez pelo corredor.

— Se alguém usa essa sala com frequência, provavelmente não será agora. Sábado de manhã é quieto demais.

Kahrir concordou.

— Então não ficamos esperando aqui. Voltamos mais tarde.

Adrian abriu um pequeno sorriso.

— E até lá?

— Até lá, fazemos o que viemos fazer — disse ela. — Ver onde Quirrell aparece… e quem mais aparece com ele.

Mason acrescentou, sempre mais preciso:

— E se ele passar por aqui?

Kahrir soltou um pequeno suspiro, aceitando que não poderiam prever tudo.

— Não vamos adivinhar tudo hoje. Mas já sabemos mais do que ontem.

Começaram a andar outra vez, agora com passos mais definidos, já não explorando aleatoriamente, mas também sem pressa. O castelo permanecia quieto naquele trecho, com ecos suaves de vozes distantes e o som ocasional de uma porta se abrindo em outro lugar, criando a impressão estranha de que tudo estava acontecendo — só não ali.

Kahrir ajustou a rota sem anunciar, escolhendo um caminho que levava a áreas mais centrais, onde o movimento seria mais provável e não pareceria que procuravam alguém específico. Seus olhos passavam pelos detalhes: alunos mais velhos cruzando o caminho, professores à distância, alguns corredores ainda vazios demais para aquele horário.

Então, ao dobrarem em uma esquina mais larga, algo mudou quase imperceptivelmente. Quirrell apareceu no fim do corredor, não vindo de uma sala de aula, não acompanhado por ninguém. Caminhava sozinho, com aquele ritmo irregular, como se tentasse parecer normal enquanto sua mente estivesse em outro lugar. Fora da estrutura da aula, longe da frente da sala, parecia menos controlado. Mais alerta.

Kahrir reduziu um pouco o passo, mantendo o comportamento natural, mas seus olhos já registravam cada detalhe daquele encontro inesperado. Adrian percebeu no mesmo instante. Mason também. Desta vez, não houve preparação. Apenas oportunidade.

Kahrir continuou andando como se apenas atravessasse o corredor sem destino específico, ajustando-se o bastante para que o encontro parecesse casual.

— Normal — murmurou, mal movendo os lábios.

Adrian respondeu com um “hm” discreto que poderia passar por distração, enquanto Mason adotou aquela postura ligeiramente distante que o fazia parecer menos interessado do que realmente estava.

À medida que se aproximavam, ficou claro que Quirrell não vagava sem rumo. Olhou para trás uma vez, rapidamente, depois para frente, como se verificasse alguma coisa, e quando notou o trio, houve um pequeno ajuste em sua expressão — rápido, mas não rápido o bastante.

Kahrir resistiu à vontade de encará-lo diretamente. Aquilo não era sobre provocá-lo. Era sobre ver o que ele fazia quando achava que ninguém estava prestando atenção.

Passaram por ele. Sem parar. Sem falar. Mas não completamente alheios.

Quirrell desacelerou. Só um pouco. O suficiente para quebrar o próprio ritmo. E, por um instante breve demais para qualquer outro perceber, olhou para trás. Não para o corredor. Para eles.

Kahrir continuou andando, mas agora uma certeza desconfortável começava a se formar — não pela intensidade do gesto, mas pela intenção por trás dele.

Depois de alguns passos, Adrian murmurou baixo:

— Ele não está só caminhando.

Mason concordou quase imediatamente.

— Está verificando.

Kahrir não respondeu de imediato. Diminuiu um pouco o ritmo, como se decidisse para onde ir em seguida, e lançou um olhar rápido para um lado do corredor, como se considerasse uma curva. Na verdade, estava medindo. Se continuassem em frente, o perderiam. Se virassem, talvez conseguissem um ângulo melhor.

Inclinou levemente a cabeça, como se pensasse em algo comum, então olhou para os dois.

— Não seguimos direto. Cortamos caminho.

Adrian entendeu na hora.

— Para pegar ele mais à frente.

Mason já mapeava a rota na cabeça.

— Se ele estiver indo para onde acho, esse corredor conecta com o de baixo.

Kahrir não perdeu tempo discutindo. Virou por uma das passagens laterais como se tivesse sido uma decisão aleatória, mas seu passo já estava um pouco mais rápido — não o suficiente para parecer perseguição, mas o bastante para não perder o tempo certo. O corredor lateral era mais estreito e escuro, e os passos ecoavam com mais nitidez. Andaram sem falar, cada um ajustando o ritmo sem precisar combinar em voz alta.

Quando alcançaram a outra saída e dobraram a esquina, Quirrell já estava lá.

Mais à frente.

E desta vez, parado. De costas para eles. Diante de uma parede que parecia comum à primeira vista.

Mas não inteiramente.

Kahrir reduziu o passo quase imperceptivelmente ao vê-lo. Havia algo na forma como ele estava parado ali que não combinava com alguém apenas decidindo por qual caminho seguir. A mão estava ligeiramente erguida, próxima da parede, mas não a tocava casualmente. Era um gesto controlado, como se esperasse o momento certo para tocar — ou como se já tivesse tocado e estivesse esperando algo.

Ela não levou a mão a nada. Continuou andando de maneira casual, como se apenas atravessasse o corredor.

— Ele está fazendo alguma coisa — murmurou Adrian, mal movendo os lábios.

— Ou esperando — respondeu Kahrir no mesmo tom, mantendo o passo natural.

Passaram por ele. Perto o suficiente para que qualquer mudança de comportamento fosse perceptível. Mas Quirrell não se moveu imediatamente. O corpo dele permaneceu voltado para a parede um segundo a mais do que deveria, e quando finalmente se virou, o gesto pareceu ligeiramente atrasado, como se tivesse se desconectado por um instante antes de retornar.

— S-senhorita Valmont… — disse ele, e a surpresa em sua voz não era totalmente convincente. — E… s-senhores.

Kahrir parou desta vez, mas de forma leve, quase como se tivesse sido pega de surpresa no meio do caminho, e virou-se para ele com um ar curioso, não confrontador.

— Professor. Eu não sabia que este lado do castelo era tão… interessante.

A palavra veio fácil, quase casual, mas carregava intenção suficiente para testar a reação dele.

Quirrell piscou, como se organizasse uma resposta.

— H-Hogwarts é… cheio de lugares interessantes.

Kahrir inclinou a cabeça levemente, como quem aceita a explicação sem aceitá-la por completo, e deixou o olhar passar pela parede outra vez, desta vez sem esconder tanto o interesse.

— Engraçado… não parece o tipo de lugar que alguém escolheria para… manutenção.

Quirrell ajustou a postura de novo, agora de forma mais visível, dando meio passo para longe da parede.

— N-nem tudo é… visível à primeira vista.

Kahrir soltou um pequeno “certo” vago, mais para manter a conversa fluindo do que por acreditar nele, e cruzou os braços levemente, olhando pelo corredor como se decidisse para onde ir.

— Hogwarts realmente gosta de guardar coisas.

Adrian ergueu uma sobrancelha de leve.

— Algumas mais que outras.

Mason acrescentou, sem olhar diretamente para Quirrell:

— E algumas coisas parecem… muito bem escondidas.

A conversa não era direta, mas o espaço entre as palavras carregava mais do que qualquer pergunta explícita poderia carregar. Quirrell claramente sentiu isso, porque o desconforto dele já não estava tão bem escondido quanto antes.

Kahrir voltou a olhar para ele, desta vez com um traço de curiosidade mais aberta.

— O senhor vem muito por aqui, professor?

A pergunta soava casual o suficiente para não parecer invasiva, mas não era desinteressada.

Quirrell hesitou, não tempo suficiente para parecer suspeito a qualquer um, mas o bastante para alguém que já estava prestando atenção.

— E-eu… passo às vezes. Nada especial.

Kahrir assentiu como se aquela fosse uma resposta perfeitamente aceitável e deu um pequeno passo para o lado, abrindo caminho como se já estivesse prestes a seguir.

— Imagino. Sempre bom conhecer melhor o castelo.

A frase funcionou como encerramento, mas não fechou totalmente o que pairava no ar. Ela se virou e começou a andar pelo corredor como se o encontro tivesse sido apenas mais um momento comum do dia, mas sua mente já estava vários passos à frente, rearranjando o que havia visto, o que havia ouvido e, principalmente, o que não havia sido dito.

Atrás dela, Quirrell não voltou imediatamente ao que quer que estivesse fazendo.

E isso, por si só, dizia bastante.

Continuaram sem acelerar o passo, mas havia uma leve mudança na forma como ocupavam o corredor agora, como se estivessem mais presentes no espaço do que antes. Kahrir só falou quando estavam longe o bastante para não serem ouvidos.

— Ele não estava verificando nenhuma estrutura.

Adrian soltou uma risada baixa, aliviando um pouco a tensão.

— Se aquilo era manutenção, eu sou professor de Poções.

Mason não entrou na piada, mas também não a cortou.

— Ele não queria que víssemos onde estava. E agora sabe que vimos.

Kahrir levou a mão ao pingente quase sem perceber, um gesto automático que já não questionava tanto quanto antes, e olhou para trás — não para ver Quirrell, mas para marcar o caminho na memória.

— Aquilo não era uma parede normal. Viram como ele estava posicionado?

Adrian assentiu, mais sério agora.

— Como se estivesse esperando alguma coisa. Ou alguém.

Mason inclinou ligeiramente a cabeça.

— Ou tentando acessar alguma coisa.

Kahrir não respondeu de imediato, mas a ideia encaixava bem demais para ser ignorada. Olhou ao redor do corredor, como se tentasse sentir se havia mais lugares como aquele, mais pontos que poderiam passar despercebidos à primeira vista.

— Então temos dois lugares agora. Aquela sala… e esta parede.

— E possivelmente conectados — disse Adrian, cruzando os braços.

— Ou usados pela mesma pessoa — acrescentou Mason.

Kahrir soltou um pequeno suspiro, mas desta vez não carregava confusão. Carregava o começo de clareza.

— Certo… então o plano muda um pouco.

Os dois garotos olharam para ela. Kahrir pausou por um momento, não de forma abrupta, mas como alguém que realmente pensava antes de falar. Então transferiu o peso para uma perna e olhou entre os dois.

— Não vamos apenas seguir Quirrell. Vamos voltar para essa parede.

Adrian franziu a testa.

— Agora?

Kahrir balançou a cabeça.

— Não. Agora ele sabe que vimos. Se voltarmos agora, vai parecer exatamente o que é.

Mason assentiu levemente.

— Então mais tarde.

— Ou hoje à noite — acrescentou Kahrir, uma faísca discreta de curiosidade nos olhos. — Quando ninguém estiver andando por aqui como se fosse um passeio turístico.

Adrian abriu um pequeno sorriso.

— Agora isso parece uma ideia que pode dar errado.

— As melhores sempre dão — respondeu ela sem perder a leveza no tom.

Começaram a andar de novo, mas já não era uma caminhada sem rumo. Havia um próximo passo claro agora, mesmo que não acontecesse imediatamente, e isso mudou a sensação do dia. Já não era sobre procurar qualquer coisa. Era sobre retornar a um ponto específico com mais atenção, mais preparo — e talvez menos sorte.

Kahrir sentiu uma mistura curiosa de expectativa e cautela. Porque desta vez, se aquela parede realmente escondesse algo, eles não estariam apenas passando por acaso.

Uma pequena risada escapou pelo nariz dela quando o pensamento prático veio.

— Mas os monitores vigiam os corredores à noite… quais são as chances disso dar errado?

Adrian não levou nem meio segundo.

— Extremamente altas — respondeu sem hesitar, embora o canto da boca sugerisse que ele não estava exatamente desencorajado.

Mason considerou a pergunta com mais calma, o olhar voltando brevemente para o caminho que tinham acabado de percorrer, como se reconstruísse a cena na cabeça.

— Depende de como fizermos. Não precisa ser no meio da noite.

Kahrir ergueu uma sobrancelha.

— Tipo…?

— Depois do jantar — continuou ele, mais medido. — Ainda há pessoas circulando, mas menos. Não é vazio o bastante para chamar atenção, e não é cheio o bastante para ninguém perceber nada.

Adrian cruzou os braços, pensativo.

— Então nos misturamos ao fluxo.

— Exatamente — confirmou Mason.

Kahrir acompanhou o raciocínio, deixando o olhar se mover pelo corredor enquanto as peças se assentavam, e um pequeno sorriso surgiu, mais interessado agora do que cauteloso.

— E se alguém perguntar, nós estamos… perdidos.

Adrian riu baixo.

— Clássico.

— Funciona mais vezes do que deveria — acrescentou Mason.

Kahrir inclinou a cabeça levemente, pensativa, mas claramente mais convencida do que preocupada.

— Certo. Então não é uma missão suicida. Só uma má ideia bem executada.

Adrian apontou para ela.

— Isso resume muito bem.

O clima entre os três mudou de forma sutil, não porque o risco tivesse desaparecido, mas porque havia sido entendido e encaixado em algo que podiam administrar. Já não era um salto às cegas. Era uma escolha calculada o suficiente para não parecer completamente irresponsável.

Kahrir respirou fundo, soltou o ar devagar e olhou mais uma vez na direção de onde tinham vindo, não para ver Quirrell, mas para marcar a rota.

— Voltamos mais tarde, então. Sem pressa… mas sem esquecer.

O castelo permanecia ao redor deles, calmo demais para alguém que sabia que, em poucas horas, aquele mesmo corredor poderia se tornar um lugar completamente diferente. E, desta vez, eles não estariam passando por acaso.

Continuaram andando, o corredor se abrindo novamente para áreas mais centrais, onde o movimento e as vozes distantes retornavam. Foi então que Kahrir sentiu outra vez — aquela presença sutil e constante, como se alguém igualasse o ritmo deles sem chegar perto demais, mas sem permitir que escapassem.

Ela não virou a cabeça. Em vez disso, desacelerou perto de uma janela alta e fingiu olhar para fora por um segundo, usando o reflexo no vidro para confirmar.

O mesmo aluno mais velho do salão comunal e dos terrenos estava ali. Não muito longe. Seguia pelo mesmo caminho, com aquela postura que tentava demais parecer casual.

Kahrir expirou devagar e murmurou, quase como se comentasse sobre o tempo:

— Acho que ganhamos mais uma parte interessada.

Adrian não olhou diretamente, mas o tom dele mudou na hora, algo entre irritado e divertido.

— Sério? De novo?

— Aham. Ele veio logo depois de nós.

Mason ajustou o olhar com cuidado, usando o reflexo de um retrato na parede.

— Ele não está se escondendo muito bem. Quer seguir, mas não quer que pareça óbvio.

Kahrir permitiu-se um meio sorriso, mais curiosa que preocupada.

— Então vamos ver até onde ele vai.

Viraram em um corredor lateral mais estreito, onde os passos soavam com mais nitidez. Adrian se inclinou ligeiramente na direção dela, falando baixo.

— E se a gente interceptar ele só pela piada? Dar a volta e aparecer atrás dele?

Kahrir virou o rosto, uma faísca discreta nos olhos, quase rindo.

— Só pela piada, obviamente. Completamente saudável e nada suspeito.

Adrian deu de ombros, já sorrindo.

— Eu sempre quero ver até onde as coisas vão.

Mason observou o corredor à frente, medindo tempo e distância.

— Funciona… se parecer natural. Se parecer planejado, ele congela.

Kahrir pensou por um segundo, o sorriso crescendo devagar.

— Então não fazemos parecer nada. Só… mudamos a rota.

Ela seguiu em frente com leveza e começou a andar pelo corredor na direção oposta à que estavam indo, passando pelo garoto sem olhar diretamente para ele, apenas o bastante para registrar sua posição. O coração dela não acelerou, mas a atenção se aguçou.

Viraram à esquerda no primeiro corredor, andaram vários metros, depois desceram uma escada lateral que conectava a um trecho paralelo. O caminho não estava completamente vazio, mas havia pessoas o suficiente para não parecer que estavam fugindo de alguém.

— Se a gente realmente se perder, a culpa é sua — murmurou Adrian, divertido.

— Justo — respondeu Kahrir sem olhar para ele. — Mas só se não encontrarmos ele de novo.

Subiram do outro lado, retornando a um corredor que cruzava o anterior mais à frente. Kahrir reduziu o passo automaticamente, ajustando o tempo para não parecer que haviam se apressado.

Quando dobraram a última esquina, lá estava ele.

O aluno caminhava no mesmo ritmo, olhando mais para frente do que ao redor, como se estivesse confiante demais de que controlava a situação.

Kahrir quase sorriu, mas conteve, mantendo a expressão neutra enquanto seguia na direção dele — agora frente a frente.

Adrian soltou um “ok…” quase inaudível.

Mason não disse nada, mas seus olhos já estavam fixos no detalhe mais importante: como o garoto reagiria ao perceber que já não estava seguindo os três, e sim cruzando com eles.

Kahrir não diminuiu o passo. Continuou andando como se aquilo fosse perfeitamente normal.

Quando a distância entre eles ficou pequena o bastante para que se ignorarem parecesse estranho, ela inclinou ligeiramente a cabeça e ofereceu um cumprimento leve, casual.

— Oi.

O garoto levou um segundo a mais do que deveria para responder, como se precisasse decidir rapidamente qual versão de si mesmo usar.

— Oi… — devolveu, com leve atraso, a voz neutra, mas não inteiramente firme.

Adrian entrou na conversa com aquele tom casual que usava quando estava prestes a cutucar alguma coisa sem parecer que estava cutucando.

— Vimos você mais cedo lá fora, não vimos?

O garoto deu um pequeno aceno, mas não sustentou o olhar de Adrian por muito tempo.

— Sim… eu estava… estudando.

Kahrir ergueu as sobrancelhas de leve, com uma curiosidade branda que não era acusatória.

— Nos terrenos?

A pergunta saiu quase como uma brincadeira, mas do tipo que pedia resposta.

Ele deu um meio sorriso rápido, que não durou.

— Às vezes é mais quieto.

Adrian pareceu aceitar com facilidade demais.

— Justo. Eu não conseguiria, mas respeito quem consegue.

Kahrir soltou um pequeno ar pelo nariz, quase uma risada. Por um momento, a cena quase poderia parecer comum — três estudantes cruzando com outro no corredor. Mas o detalhe estava no que não encaixava: o modo como o garoto já parecia pronto para encerrar a interação antes que ela se estendesse.

Kahrir decidiu empurrar só um pouco, sem exagerar.

— Você também anda muito por aqui?

Ele hesitou de novo, embora desta vez de forma mais sutil.

— Às vezes.

Curto demais.

Kahrir assentiu como se aquilo bastasse e não pressionou imediatamente. Em vez disso, deixou o olhar passar por ele mais uma vez, não invasivo, mas atento, então fez um pequeno gesto com a cabeça na direção de onde ele viera.

— Este lado é bem vazio… achei que só nós gostássemos dele.

A frase era leve, mas abria espaço.

O garoto acompanhou o gesto com os olhos por um segundo.

— Sim… é mais quieto.

Mason falou pela primeira vez desde que se aproximaram, a voz baixa, mas clara.

— Quieto o bastante para poucas pessoas passarem.

Não era uma pergunta. Mas também não era neutro.

O garoto olhou para ele por um momento, avaliando, então deu de ombros de leve.

— Às vezes é melhor assim.

Kahrir percebeu o modo como ele respondia: não negava, não confirmava demais, sempre permanecendo naquele espaço seguro que não entregava nada diretamente. De alguma forma, isso dizia bastante.

Ela deu um pequeno passo para o lado, abrindo o corredor como se já estivesse prestes a continuar.

— Bem… então suponho que vamos acabar nos encontrando por aqui de novo.

Adrian acompanhou com um leve aceno.

— Parece que sim.

O garoto devolveu outro aceno rápido, e a troca terminou ali, sem ruptura, sem tensão explícita, mas também sem a sensação de um encontro comum.

Kahrir voltou a andar, sentindo o olhar dele permanecer nas costas deles por um momento a mais antes que finalmente se afastasse.

Depois de alguns passos, inclinou levemente a cabeça e falou baixo, com um sorriso discreto que não era exatamente divertido.

— Ele não estava só seguindo.

Adrian acompanhou o ritmo dela.

— Estava tentando parecer que não estava.

Mason concluiu sem alterar o tom:

— E falhou.

Kahrir soltou um pequeno “é…” enquanto seus pensamentos se organizavam. Porque agora já não era apenas impressão. Era padrão. E, de algum modo, isso tornava tudo mais claro — e mais complicado ao mesmo tempo.