Kaheinf

2 Os Kaheinf


Os Kaheinf

Passos: fracos, rastejantes, agonizantes. Foi tudo o que Tuomas ouviu antes de uma dor incontrolável e inexplicável.

Abriu os olhos. Não pôde ver nada, pensou estar sonhando ou até mesmo delirando. Tentou se levantar e começou a ouvir passos novamente. Seus batimentos aumentaram, ele estava suando frio, sabia o que viria. O som estava cada vez mais próximo. Passos. Aqueles passos. De repente aquela dor de novo.

Tuomas abriu os olhos novamente e nada pôde ver além da escuridão. Dessa vez se levantou e foi caminhando para o nada. Caiu. Passos. “Não, de novo não”, pensou. Abriu os olhos e só teve tempo de desviar. Olhou para cima novamente e viu algo vermelho: olhos vermelhos. Rolou para o lado e sentiu o baque de algo batendo no chão bem ao seu lado. Levantou-se o mais rápido que pôde e correu na escuridão. Suas pernas tremiam, suas veias pulsavam aceleradamente, ele sentia a morte. Corria desesperadamente até que bateu em algo maciço. Era quente, começou a tatear. Encontrou uma maçaneta. Era uma porta. “Santo Deus, é minha chance.”, pensou angustiado. Entrou. Só pôde ver diversos pares de olhos vermelhos e logo aquela dor ressurgiu, dilacerando sua consciência e corroendo seu corpo. “O fim” confirmou nos pensamentos. Não eram dores em seu físico. Não havia sangue. Eram golpes que atingiam sua alma. Tiravam sua quietude e calma, bagunçavam seus sentimentos. Com uma força inexplicável, Tuomas se levantou e abriu os braços.

- Tão fácil assim, Tuomas? – perguntou uma voz feminina.

O ambiente foi clareando, as criaturas de olhos vermelhos foram desaparecendo.

- Ah, pára com isso, Mérope. Você sabe que nunca consegui derrotar as suas criaturas – disse Tuomas sentindo-se derrotado.

Mérope lhe entregou uma esfera irregular que lembrava uma pedra, só que vermelha e brilhante.

- Jogue-a num recipiente com água e espere ela dissolver. Fará bem para você.

Tuomas já conhecia as iluminadoras: esferas com energia espiritual. Fortaleciam a mente e rejuvenesciam a alma.

- Obrigado. – disse já se retirando da sala de treinamentos.

A vida na casa dos Kaheinf era sempre assim. Treinos e treinos. Mérope era a filha mais velha, três anos a mais que seu irmão e era uma manipuladora das sombras. Tuomas tinha apenas dezessete anos e era um lifeless: um ser sem vida, cujo os poderes ainda não eram conhecidos. Dentre os quatro Kaheinf, Tuomas era o único lifeless. Sua mãe, Dora, era uma manipuladora da natureza e seu pai, Cristopher, tinha poderes psíquicos e manipulava o fogo. Era uma família e tanto.

Moravam em uma mansão isolada da cidade, próxima a um celeiro abandonado. Mérope e Tuomas não iam para a escola, estudavam em casa. Na realidade, seu pai os enviava ondas psíquicas com os conteúdos que eram passados diariamente na escola da cidade. Era uma vida fácil, se comparada a dos jovens humanos, porém, tinha seus perigos e desvantagens. Os Kaheinf eram, secretamente, a “arma” de seu país. Nascidos com poderes que nenhum homem poderia criar, eles, desde criança, eram treinados para assegurar que seu país ficasse bem.