KURAI YOKUBÔ (desejos obscuros)
15 Capítulo 15 - O começo do fim...Parte I
Notas iniciais

— O que você fez a minha filhinha, seu depravado desgraçado?
A pergunta feita com uma raiva fuzilante fez Aiolia franzir o cenho, não reconhecendo a figura bem vestida a sua frente.
— Senhor?
— Tsuyoshi Kusanagi! Pai da Rin e...
— Um famoso cantor, não é mesmo? – interrompeu Shun chegando junto do leonino.
— Sim, eu sou! Mas não foi isso que me trouxe aqui. – disse Kusanagi já mudando o tom.
— Por favor, entre. – falou Aiolia.
O cantor entrou e mesmo contrariado não deixou de notar a decoração elegante do apartamento. No entanto, não deixaria que nada o demovesse da intenção inicial...
— Qual de vocês é o Shun? – perguntou ele.
— Sou eu. – disse o jovem.
Aiolia prontamente se colocou na frente do amado.
— Olha aqui, senhor Kusanagi, eu não sei o que a sua filha contou ao senhor, mas...
— A Rin quebrou todos os cartões de crédito! Ela disse chorando que quer arranjar um trabalho e só comprar o que puder pagar com o próprio dinheiro! Sabe o que isso significa? A minha filhinha trabalhando como uma atendente qualquer?
Shun saiu detrás de Aiolia com o cenho franzido e uma expressão surpresa.
— A Rin fez isso?
— Sim, fez! E disse que foram os senhores, principalmente você quem a convenceu a mudar de vida! – gritou ele apontando para Shun. – Vocês a fizeram se sentir uma inútil mimada e agora ela quer... Ela quer trabalhar sem nenhuma necessidade real para fazer isso! A minha Rin!
— E o senhor acha isso ruim? – questionou Aiolia.
— Mas é claro que é! Rin é a minha princesinha! Ela não foi feita para o trabalho comum. Ela vai ser uma designer, mas o mais importante é ela seguir o caminho da mãe dela. Aiko era uma mulher belíssima e vivia para mim! A sua presença me fazia exultar e exercer a minha música. Eu a cobria de joias e presentes, ela nunca precisou trabalhar, eu a sustentava com a minha arte. Eu sou um artista bem-sucedido, minhas mulheres podem muito bem ser sustentadas por mim.
“Minhas mulheres?”— O senhor considera Rin a sua mulher?— questionou Shun.
— Ora, não seja ridículo! Isso é uma maneira de falar! Minha mulher e minha filha são as mulheres da minha vida. Aiko já faleceu, então só me resta a Rin e eu não quero que ela passe dificuldade de jeito nenhum!
— Senhor Kusanagi, eu não pretendo interferir nas suas questões, mas sua filha precisa e deve crescer. Se deixá-la em uma redoma cercada de mimos e cartões de crédito, ela nunca será uma mulher adulta.
— E quem disse que eu quero que ela se torne adulta? Adulta para quê? Para ver esse tipo de coisa? – gritou Kusanagi.
— Que tipo de coisa? – devolveu Aiolia.
— Isso aí. – disse ele apontando para os dois. – Vocês sendo um casal! Minha filhinha se apaixonou pelo Shun só para descobrir que... que ele prefere homens! Consegue ver o mal que vocês causaram a ela? Foi a decepção e a tristeza que a fizeram cometer a loucura de negar a minha proteção e o meu amor!
Shun se aproximou do cantor e fitou-o bem dentro dos olhos.
— Rin é uma jovem forte e talentosa. Creio que muito dessa herança vem do senhor. Mas, se não deixá-la descobrir o seu verdadeiro valor e força, ela vai murchar e eu sei que o senhor não deseja isso. Confie nela, ela vai conseguir e ainda deixá-lo orgulhoso.
O cantor encarou os grandes olhos de Shun. Não havia raiva ou qualquer outro sentimento neles que não fosse compreensão. O jovem tinha esse dom, conseguia expressar amor e solidariedade mesmo quando tudo parecia contra si.
— Por quê? Por que você não quis a minha Rin? Ela é linda e é da natureza unir o homem a uma mulher. Vocês fariam um par perfeito! – disse Kusanagi.
— Porque eu amo um homem e, para mim, isso é tão natural quanto respirar. O senhor é um artista, não creio que a união entre iguais seja algo estranho para o senhor.
Kusanagi mordeu o lábio. Shun tocara em um ponto nevrálgico. Sim, ele já vivenciara uma situação semelhante, quando seu melhor amigo Toshiro confessara que o amava de um jeito diferente. Fora um choque tão grande que ele cortara relações com Toshiro e só voltara a vê-lo quando ele estava no leito de morte. Ainda estava vívido em sua mente o último olhar que ele lhe lançou. “Perdão, Kusanagi, mas sempre vou amá-lo como homem, mesmo que isso seja terrível para você”. Ele dissera segurando a sua mão.
— É claro que sei que existem gays por aí, mas não sou obrigado a concordar com isso. – disse ele sentindo a testa úmida.
— Pois então, acho que já esclarecemos tudo, não é mesmo? Foi um prazer conhecê-lo pessoalmente, Sr. Kusanagi. – disse Aiolia.
O homem lançou um último olhar para Aiolia e Shun. Era difícil compreender como dois homens podiam se amar daquela forma, mas algo dentro de si resolveu serenar e não provocar mais conflito.
— Está certo, eu vou embora. Mas que fique registrado que eu ainda acho a união de vocês dois um erro.
Quando ele deixou o apartamento, Aiolia levou a mão aos cabelos acobreados num gesto claro de nervosismo e irritação.
— Não fique assim. – disse Shun se aproximando e beijando-o na curvatura do pescoço.
— Eu tive vontade de bater nele quando disse aquilo. Somos um erro? Quem ele pensa que é?
— É um pobre coitado que pensa ter o controle sobre a vida. Você não deve perder tempo sentindo raiva de pessoas assim. Eles são patéticos e nem se dão conta do quanto.
O leonino sorriu sem jeito. Era mais velho que Shun e, ainda assim, não conseguia manter a serenidade como ele o fazia. O jovem se aproximou e roçou os lábios nos dele uma, duas vezes, numa lenta e sedutora exploração... Os dedos esbeltos agarraram-lhe os cabelos, fazendo com que Aiolia ofegasse e abrisse os lábios e então, o beijo aconteceu. Foi um beijo quente e profundo como todos os outros, mas, como sempre, fazia o leonino experimentar um desejo atordoante. Ele afastou a boca apenas por um instante, como para comprovar que aquilo era real e então comprimiu os lábios nos de Shun com leve crueldade, mordiscando-os, provando-os com voracidade.
— Hummm... o leão despertou, novamente. – provocou Shun sorrindo rente aos lábios do amante.
Aiolia rugiu e o tomou nos braços, fazendo-o espernear e rir.
— Para com isso! Eu não sou uma princesa! – disse Shun.
— Não é? Pois vou mudar isso! Depois dessa visita e de tudo que ouvi, estou pronto a mudar meus conceitos. – falou Aiolia num tom de deboche.
Shun ficou sério e pensou no quanto a criação de um filho exigia estabilidade emocional e maturidade. Ao conhecer Kusanagi compreendera o porquê de Rin ser e agir como uma adolescente mimada. No fim, ela não era tão má, quanto poderia ser com um pai daqueles...
— E se eu não permitir que me domine, senhor Aiolia? – provocou Shun.
— Então... Eu usarei de todos os artifícios disponíveis para convencê-lo. Que tal um cartão de crédito sem limite?
— Com o devido respeito... Vai tomar no cu, Aiolia. – disse Shun bem sério, antes de cair na gargalhada.
Os dois riram e logo as bocas se reencontraram num beijo tão suave e carinhoso quanto os outros haviam sido selvagens e apaixonados. Então Aiolia o soltou, sorrindo e afastou-se.
— Vamos continuar nos aprontando para o jantar?
Shun concordou com um olhar cúmplice, mas em seguida ficou sério.
— O que foi? – perguntou Aiolia notando a súbita mudança.
— Será que a sua família vai gostar de mim?
Aiolia sorriu.
— Eu já disse isso e repito, é impossível não gostar de você, Shun.
O jovem o fitou, os olhos ansiosos, o rosto vulnerável.
— Eu confesso que estou nervoso.
— Eu sei. E acho que ainda temos um tempinho razoável...
— Para quê? – indagou Shun.
— Para acabar com o nervosismo e deixá-lo relaxado para este jantar. – respondeu Aiolia puxando Shun pela mão em direção ao quarto.
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Ângelo estacionou o carro e ajudou Afrodite a descer. Antes que o loiro se afirmasse com as muletas, ele as dispensou. Finalmente estavam em casa e o executivo estava um tanto ansioso.
— Iremos mais depressa se eu carregá-lo.
A surpresa brilhou nos olhos de Afrodite. Surpresa e algo mais...
— Me carregar? Pareço uma princesa indefesa?
— Claro que não, apenas acho que caminhar logo ao sair do hospital pode ser desconfortável e não quero que sinta dor.
Um sorrisinho malévolo escapou dos lábios carnudos do loiro.
— Já que está tão interessado em meu bem-estar, creio não ser de todo mal ser carregado. Mas, já aviso que regulamos de peso, embora não pareça.
O executivo sentiu uma fisgada no baixo-ventre quando Afrodite enlaçou seu pescoço, aproximando a cabeça e o fazendo sentir o perfume de sua pele. O loiro tinha um aroma inigualável e a pele... Ah, a pele era fantástica. Nunca conhecera uma mulher que tivesse aquele tom e aquela textura de pele. Ele o apertou ainda mais, fazendo-o fechar os olhos e expirar com um som baixo de prazer.
Ângelo mantinha uma postura altiva e segura, mas a verdade era que ver o olhar de Kanon para com Afrodite e saber que haviam sido apaixonados disparava um ciúme injustificável, mas ainda assim presente em suas emoções. Apertou ainda mais o corpo de Afrodite junto ao seu e quando chegou à porta do quarto, ele murmurou o nome do amante se sentindo trêmulo por dentro.
— Afrodite...
O loiro fitou-o com aqueles olhos brilhantes.
— O que foi?
— Desculpe.
— Pelo quê?
— Por isso...
No instante em que seus lábios esmagaram os de Afrodite, o desejo foi libertado com força e urgência, enquanto ele mergulhava a língua na boca do amante até perder o fôlego e se afastar para sorver o ar, recomeçando tudo novamente.
— Sei que passou por momentos de tensão, mas... Eu preciso sentir você, preciso sentir esse seu gosto... – falou o italiano com a voz áspera.
Afrodite nada disse. Em seu íntimo intuía aquela necessidade voraz, seu amante sofrera tanta pressão quanto ele próprio. Ângelo era um homem civilizado, mas sob todo aquele verniz, existia um tom primitivo capaz de amedrontar e também encantar...
— Então o que está esperando? Me leva para o nosso quarto. – instigou o loiro.
Máscara da Morte quase sorriu. Carregou-o às pressas e quando colocou Afrodite sobre a cama, beijou-o com tanto sentimento que seu corpo estremeceu. Só então começou a despi-lo, lentamente. Retirou sua jaqueta e depois o resto das roupas, até que Afrodite ficou ali deitado, apenas vestindo a horrível bota de proteção.
— Me sinto ridículo estando nu e com isso. – falou Afrodite apontando para o tornozelo.
Ângelo fitou-o com os olhos cheios de desejo.
— Nem que estivesse vestido de palhaço você pareceria ridículo. Mas, vou remover isso por enquanto. – murmurou ele retirando a bota com todo cuidado. – Estou machucando você? – perguntou fitando-o.
— Não. – respondeu Afrodite.
E de fato, não havia sofrimento no olhar cristalino e sim uma excitação crescente que já ruborizava a face alva.
Máscara deixou a bota perto da cama e começou a despir suas roupas, sentindo sua ereção pulsar dolorida. Ficou lisonjeado, quando Afrodite passou a língua nos lábios e devorou seu corpo com os olhos. Então se estendeu na cama ao lado dele e começou a acariciar os mamilos rosados com os dedos e depois com a boca.
Quando Afrodite começou a arquear as costas com as carícias, Ângelo deslizou os lábios até seu umbigo e passou a mão por sua coxa, até abarcar a nádega roliça e acariciá-la, fazendo-o gemer...
Bebendo daquelas reações impregnadas de sentimento e erotismo, Ângelo afastou as pernas de Afrodite e fez com que dobrasse os joelhos. Com muito cuidado para não machucar o tornozelo operado, posicionou-se no meio das coxas roliças bem devagar e o penetrou.
O ato arrancou um ofego de Afrodite e causou uma emoção esmagadora em Ângelo que sentiu o peito apertar como se estivesse tendo um enfarto.
— Oh, Deus! – gritou.
— O que foi? – perguntou Afrodite assustado. – O que você tem? Algo errado?
Nada estava errado, percebeu o executivo por fim, quando a verdade o atingiu como um raio. Por um longo instante, apenas fitou o rosto delicado e aflito, o corpo belo e a alma mais linda ainda. O que seria de mim se o perdesse? Eu o amo tanto que a minha vida está ligada a dele de um modo inexplicável e que não ouso imaginá-la sem ele!
— Nada está errado. – respondeu com voz rouca. – Você me tira o fôlego, eu te amo tanto que a dor infringida a você dói em mim também.
A confissão emocionada trouxe lágrimas aos olhos de Afrodite. Lembrou-se dos planos que fizera e no quanto tudo aquilo faria seu amado sofrer se tivesse colocado em prática. Ainda bem que Minos me dissuadiu de fazê-lo!
— Eu te amo... – disse o loiro tocando a face angulosa do amante.
— Eu te amo com loucura... – falou Ângelo beijando-o e começando a mover o corpo em um ritmo lento que o fazia retroceder e voltar para dentro do corpo de Afrodite se deleitando com o interior quente, úmido e apertado.
O loiro arfou e sorriu apertando as costas musculosas e suadas, seu corpo estremecendo pelo prazer crescente. Queria retardar o prazer ao máximo, fazer com que durasse para sempre...
Os movimentos se tornaram mais intensos, rápidos, permeados por gemidos altos e roucos. Afrodite gritou quando o orgasmo varreu seu corpo e ergueu as nádegas do colchão, ao mesmo tempo em que Ângelo gozava também. O executivo estremeceu convulso, gritou e grunhiu, enquanto seu sêmen banhava o interior da amante e sentia o dele molhar seu corpo ardente.
— Agora sou em quem diz... Oh, Deus... – falou Afrodite ofegante.
Máscara da Morte sorriu tocando a face afogueada.
— Você é tão lindo... E não é somente o seu corpo que eu admiro. É você inteiro, a sua força e a sua doçura. Amo a sua experiência, mas também a inocência que vejo em seus olhos. O que eu sinto, Afrodite, é inexplicável com palavras... Você tem o meu coração.
O loiro mordeu o lábio no esforço de não se emocionar ainda mais. Seus olhos se fixaram no azul profundo dos olhos do amado. Sim, amado. Tudo que vivenciara antes de conhecê-lo fora a paixão. Uma paixão enlouquecedora e imatura que o levara ao caos e depois a se prostituir para sobreviver. Mas, agora, tudo aquilo era passado e o que sentia era amor, um sentimento maduro, profundo e enriquecedor capaz de transformá-lo no que desejava ser.
— Eu também te amo... Você é meu único e verdadeiro amor.
Beijaram-se longamente, entre ofegos, sorrisos e lágrimas... Pertenciam um ao outro e essa certeza estava gravada na pele, no coração e na alma.
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Hades estava na delegacia conversando com o inspetor Satoru. A escolha daquela delegacia havia sido feita com base nas observações de Naoko e no trabalho conjunto que ambos teciam para neutralizar Yoshiki e Kobayashi.
Mostrara o vídeo no celular de Misty e agora formalizava a queixa. Minos estava junto e seu depoimento estava sendo tomado por um policial em outra sala.
— Então o senhor crê que além de estuprar um aluno, o professor Yoshiki está agindo junto com a yakuza.
— Sim, tenho certeza que ele está alicerçando suas ações com alguém poderoso que possa respaldá-lo.
— Se o que diz é verdade, teremos que agir com cuidado. Vou, pessoalmente, entregar a intimação para o professor, ainda hoje.
O executivo assentiu com a cabeça e olhou na direção da sala onde Minos estava depondo. O vidro deixava antever as expressões fisionômicas e tudo parecia transcorrer normalmente. Minos demonstrava firmeza e Hades sentiu orgulho da postura do amante. Quanto terminou, Minos deixou a sala e foi encontrá-lo.
— Então, tudo bem?- indagou Hades.
— Tudo. Quando vão trazer Yoshiki?
— O inspetor disse que ainda hoje.
— No final de semana é a saída de estudos e...
— O seu aniversário. Vou pressionar para que esse assunto seja resolvido e este homem seja preso antes disso.
Minos deu um meio sorriso.
— É... Seria um presente legal saber que aquele filho da puta não vai mais tocar em ninguém. Mas eu queria ter o prazer de ver a cara dele atrás das grades.
Hades franziu o cenho.
— Primeiro, temos que colocá-lo na prisão. O resto, pertence ao futuro.
O tom de voz era grave e imperativo e Minos notou uma diferença sutil no tom, mas logo foram interrompidos pela policial educada e formal.
— Senhores, por favor, podem preencher este formulário de avaliação?
Tomando a prancheta em suas mãos, ambos responderam e devolveram à policial.
— Arigatô.— disse ela curvando-se.
Minos olhou para Hades.
— Eu vou dar uma passada em casa antes de ir pra sua. Preciso pegar umas coisas.
— Está bem, eu te deixo lá.
Assim que saíram do prédio, o celular de Hades tocou.
— Sim?
— As ações já foram colocadas à venda. – disse Naoko.
— Ótimo. Estou indo para o escritório.
— Eu posso pegar um táxi, se está ocupado. – disse Minos.
Hades tomou a mão de Minos na sua.
— Eu vou te deixar na porta de casa.
— Quanta possessividade...
— Não é possessividade e sim cuidado.
— Eu sei, estou só implicando. – disse Minos rindo.
Exercendo seu autocontrole, Hades apenas apertou a mão na sua e não tomou os lábios sorridentes ali mesmo. Queria beijá-lo, aprofundar a língua dentro daquela boca que o enlouquecia. Mas, estava à porta de uma delegacia, após denunciar um homem por estupro. Tinha que ter controle, deixaria para soltar-se mais tarde, quando teria Minos em sua cama.
— Vamos. – disse ele e ambos se dirigiram para o estacionamento.
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Yoshiki deixou o gabinete do reitor e foi até a sua sala verificar os últimos detalhes para a saída de estudos. E ainda tinha o dossiê... Mas, o leria em casa, já estava há bastante tempo dentro da universidade e sempre era interrompido.
Uma batida na porta o tirou do idílio imaginativo, novamente.
— Sim? Entre.
— Yoshiki... – disse Izumu quase sussurrando.
— O que foi?
— Fale baixo! – disse ela entrando furtivamente e fechando a porta.
O professor franziu o cenho e fechou a pasta que estava organizando.
— Por que está sussurrando?
— A polícia está aí. O que você fez?
— Eu? Nada! – respondeu ele, rapidamente.
Izumu olhou-o de cima a baixo.
— Você fez sim... Esse seu apetite por garotos ainda ia te levar para o buraco.
— Não fale bobagens! Eu não fiz nada.
— A sua sorte é que Kobayashi encontrou o inspetor primeiro e os dois estão conversando no gabinete dele. Ele me pediu para avisá-lo, é para você sair o quanto antes da universidade.
Yoshiki estremeceu. Quem o teria denunciado? Hiroaki? Não, ele era um bandido e... bandidos não procuravam a polícia! A não ser que fosse o... Misty? Ele o teria traído?Por quê?
Pegou o celular e ligou. Nada. Misty não atendeu e o celular parecia estar desligado ou sem bateria, porque encaminhava a ligação direto para a caixa postal.
Merda! Pronunciou baixo, antes de se virar para Izumu que continuava olhando-o como se ele fosse uma obra de arte.
— O que está olhando?
— Você... Sempre dominante e agora, parece um ratinho encurralado.
— Vai à merda, Izumu! Não tenho tempo para os seus joguinhos. Você também tem muito a perder, não se faça de santa! Agora me faz um favor, liga para o telefone fixo do Misty e diz que você precisa falar com ele.
— E o que eu teria para falar com o seu ficante?
— Sei lá, inventa alguma coisa e pede pra encontrar com ele naquele café perto da universidade, daqui à uma hora.
— Não estou gostando disso.
— Não precisa gostar e sim obedecer! – disse Yoshiki deixando a sala depois de verificar se o corredor estava vazio.
Izumu apertou os lábios pintados de vermelho. Não disse mais nada e tomou o rumo contrário ao do colega.
Yoshiki ouviu o som de passos, mas a universidade era imensa e tratou de se esconder debaixo de uma escadaria, enquanto ouvia o reitor conduzir a polícia pelas dependências da universidade. Sentiu o coração pulsar na garganta, mas ficou imóvel. Quando os sons ficaram distantes, tratou de deixar o lugar a passos largos.
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Quando Henry entrou no apartamento de Misty não esperava ver o pai dele com aquela expressão feroz. Os dois estavam próximos à janela, banhados pela luz difusa que entrava pela janela ampla.
— Não quero saber no quê você se meteu! Que história é essa de depor? – esbravejou o homem com a intimação na mão.
— Ah, pai eu...
— Se me permite, senhor, nessa questão Misty é apenas uma testemunha. – falou Henry se aproximando.
— Testemunha?! Do quê? Da depravação universitária da qual ele, certamente faz parte? Não pensem que eu sou um idiota! Você andou aprontando, não foi? Você seduz desde que veio ao mundo!
— E você sabe muito bem sobre sedução, não é pai? Pensa que eu não me lembro das suas visitas ao meu quarto à noite? Das suas mãos passeando pelo meu corpo, enquanto contava histórias para eu dormir? – gritou Misty.
— Mas o que você está dizendo? Isso é loucura, você está mentindo!
— Mentindo? Você se aproveitava que mamãe estava sempre bêbada e vinha para o meu quarto! Nunca teve coragem de ir até o fim, mas abusou do meu corpo com estas mãos imundas! Não ouse negar e não ouse me julgar! – gritou Misty com as lágrimas escorrendo pelo rosto.
Henry quase levou a mão à boca, mas se conteve. Nunca tinha visto Misty tão descontrolado e jamais imaginara que ele tinha sofrido abuso na infância. Pegou-o pela mão e o puxou para si num abraço solidário.
— Shhhh... Eu estou aqui. – disse afagando os cabelos fartos.
O embaixador francês levou a mão aos cabelos grisalhos. Seu rosto parecia com o de Misty, porém era anguloso e seu queixo era quadrado conferindo uma aparência viril que agora empalidecia.
Ele tivera uma esposa alcoólatra que deixara o vício destruí-la e, também, a sua família. Quando Misty nascera, algo dentro de si despertara e rugira como uma fera. Era amor, mas, com o passar do tempo, se transformara em desejo. Conseguira esconder seu segredo sórdido sob a aparência idônea e tranquila que exibia ao mundo. Vários prêmios por sua luta pelos direitos humanos, por uma política libertária, pelas crianças órfãs de guerra...
Colecionava títulos e fama, mantendo seu filho distante de si, após a morte da esposa, de forma a domar seus instintos. Nunca mais o tocara depois que ele crescera. E agora, ali estava, sendo acusado de algo que pensava ter conseguido manter oculto. Ele era tão pequeno... Como podia se lembrar?
— Você está descontrolado e imaginando coisas. Sou seu pai e jamais faria algo para machucá-lo. Você entendeu mal eu só queria manter você longe do descontrole da sua mãe. Vou contratar o melhor advogado para orientá-lo. Agora... tenho que ir. – disse o homem deixando a sala.
Misty não respondeu e Henry continuou abraçando-o.
— Eu sei o que aconteceu. Ele pensa que eu não lembro o que ele fez. Quando minha mãe morreu ele fez questão de me mandar estudar bem longe da França e eu agradeci por isso. Eu sentia o olhar dele sobre mim... Se ele tivesse continuado eu não sei o que faria. – disse Misty baixinho.
— Não pense nisso agora. – falou Henry.
Misty elevou os olhos. Henry era, ligeiramente, mais alto e seus olhos eram de um castanho profundo, assim como os seus cabelos curtos. O jovem tocou seu rosto com uma ternura inédita e sorriu.
— Vem, vamos dar uma volta.
— Não posso, fiquei de encontrar a professora Izumu. Ela quer falar comigo.
Henry franziu o cenho.
— O que ela quer com você?
— Eu não sei.
— Vou junto e nem pense em tentar me impedir.
Misty sorriu.
— Eu sei que somos amigos, mas... o que deu em você?
— Não consegue imaginar? – perguntou Henry.
— Sinceramente? Não. – respondeu Misty.
Henry encarou-o levando as duas mãos ao belo rosto. Os olhos de Misty estavam fixos em si quando, depois de hesitar por um segundo, Henry tomou seus lábios. O beijo quente e envolvente o fez estremecer.
— Henry...
— Entendeu agora?
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Naoko olhou através do vidro. Raiden continuava inconsciente e ligado aos aparelhos e Hiroaki permanecia ao seu lado. Sentiu algo inédito pelo irmão, algo próximo ao sentimento fraterno que deveria ser natural, mas que sempre foi revestido de ressentimento e ciúme. Mas ali estava ele, junto do homem que ela amava e sabia que se fosse necessário, Hiroaki daria a vida por Raiden.
Hiroaki percebeu a presença de Naoko e deu um meio sorriso. Tudo continuava na mesma em relação ao perigo que Raiden corria, mas o cerco à Kobayashi já iniciara. A Bolsa de Valores era uma amante caprichosa e, graças a Hades, as ações do yakuza despencariam vertiginosamente. Isso o obrigaria a tomar providências que o levariam a cometer um erro.
— E aí, como estão as coisas? – perguntou Hiroaki vindo ao encontro da irmã.
— Estamos trabalhando. O que o médico disse?
— Ele está resistindo, mas o quadro ainda é grave.
A oyabun tocou o ombro do irmão. Era a primeira vez que se permitia um ato íntimo tão simples e, ao mesmo tempo, tão difícil.
— Por favor, me avise se...
— Ele não vai morrer, eu sei. Mas, se me permite um conselho...
— Conselho? Você me dando um conselho?
— Sim, eu mesmo. Posso não ser um exemplo, mas eu sei que Raiden precisa de um motivo pra viver. Sinceramente, não sei o que ele viu em você, mas a verdade é que ele te ama acima de qualquer coisa neste mundo. Fale com ele, diga que o ama também. Você é toda fodona pra ser a chefe da família. Não seja covarde para admitir que tem um coração. Isso não vai te fazer menos forte.
Naoko encarou Hiroaki. Ele parecia diferente. Ou será que era ela quem mudara?Já não o achava um idiota inútil, embora ainda percebesse uma rebeldia latente na personalidade impulsiva que a irritava.
Guardou o celular e entrou no quarto. Mal conseguia perceber a respiração de Raiden e o fato a assustou. Tomou a mão fria na sua e beijou-a com ternura. Hiroaki deixou-a sozinha e ela agradeceu por isso.
— Raiden, meu amor. Você é parte de mim. Não me deixe... Por favor! –sussurrou ela.
Os sons dos aparelhos pareciam altos demais e Naoko teve vontade de silenciá-los. Sentiu uma ponta de desespero ao olhar o gráfico dos batimentos cardíacos e tornou a apertar a mão fria na sua.
— Volte pra mim! – implorou ela.
De repente, o choro a tanto tempo contido explodiu e Naoko soluçou, o corpo sendo sacudido, enquanto apertava a mão do amante na sua. Por longos segundos, ela se permitiu, apenas sentir. Então, aqueles olhos negros se abriram, lentamente, fazendo a oyabun deixar escapar um grito de alegria.
— Raiden...!
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— Henry?
Minos franziu o cenho estranhando aquela ligação. Estava deixando um bilhete para Halldora quando seu celular tocou.
— Olha, Minos, eu sei que... Bem, o Misty me contou tudo o que aconteceu e eu acho que a gente deve conversar.
— Você deve me achar um idiota para achar que eu vou cair na sua conversa! Foi você quem me alcançou aquela cerveja. Nem sei do que te chamar! Acho que cãozinho vira-lata do Misty é pouco.
Um suspiro escapou dos lábios de Henry.
— Eu não tiro a sua razão, Minos. Eu e Misty erramos com você e não sinto orgulho pelo que fiz. Eu quero me desculpar, mesmo achando que você tem todo o direito de não aceitar. Mas, agora, a gente tem que se unir pra fazer Yoshiki pagar pelo que fez. Eu dou a minha palavra que vou ajudar.
— As coisas já estão encaminhadas. Não quero nada com vocês dois.
— Minos, por favor! A professora Izumu ligou para o Misty e eu acho que tem o dedo do professor nessa história. Ela combinou de encontrá-lo naquele café perto da universidade. Eu não acho uma boa ideia, mas Misty não quer me ouvir, então eu vou junto com ele. Eu só queria que soubesse, caso algo esteja errado.
— Tá, já avisou. – disse Minos desligando.
O jovem continuou o que estava fazendo antes de ser interrompido. No entanto, ao relembrar o tom de voz de Henry, sentiu que ele estava sendo sincero. Talvez fosse mais uma armadilha para se vingar dele, por ter batido no Misty. Afinal, Henry era um capacho. Então porque não conseguia ignorar aquelas últimas palavras? “Eu só queria que soubesse, caso algo esteja errado.”
— Merda! Eu não consigo ignorar essa história. Vou arriscar uma olhada. Se esses dois estiverem se fazendo, eu não vou deixar barato. – disse Minos deixando o apartamento rumo ao destino que o uniria a Henry e Misty.
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