KURAI YOKUBÔ (desejos obscuros)
7 Capítulo 7 - A Caixa de Pandora
Notas iniciais
“Eis que a curiosidade ingênua e descuidada faz surgir todas as desgraças...”
(mito de Pandora)
A jornada de volta ao lar de sua infância não trazia nenhuma lembrança agradável, porém quando Hades e Pandora chegaram a um portão de ferro forjado, com altas paredes ressaltadas por árvores a sensação de desconforto se acentuou. Pandora assumiu a frente e digitou um código em um teclado de segurança. Os portões se abriram dando acesso ao interior do terreno.
– O caseiro deve estar nos aguardando. – disse ela.
Hades olhou em volta e logo identificou um homem baixo e calvo. Já estavam sendo esperados e a recepção foi educada e fria. Sempre fora assim, os empregados da casa de seus pais eram escolhidos a dedo e jamais se envolviam nas questões familiares.
– Bom dia, Sr. Hades, senhorita Pandora.
– Bom dia, Henri. – responderam os dois.
– O tabelião já está a caminho e o advogado da família pediu para ser contatado assim que os senhores chegassem. Achei que, como possuem pouco tempo, gostariam de falar com o tabelião imediatamente. Ele trouxe alguns papéis e tem algumas informações importantes.
Hades assentiu com a cabeça, ainda impactado por estar ali, após dezessete anos. Aquela casa possuía muitas histórias e todas elas evocavam um passado que tentara esquecer. O estilo barroco parecia acentuar o clima pesado que ela sempre lhe despertara, mesmo que as cores claras das paredes e as janelas altas e largas cintilassem como se fossem a personificação de uma fantasia pós-renascentista.
A gigantesca porta se abriu e, no interior da casa, Hades e Pandora sentiram a mesma coisa, os sons e cenas do passado revisitando-os como se fossem fantasmas íntimos.
Pandora foi até a pequena varanda de pedra onde antigos degraus levavam até um privado pátio interno revelando a pequena piscina incrustada com azulejos azuis e mosaicos brilhantes. Ela desceu devagar os degraus e sua memória divagou...
“Venha minha pequena... Venha com o papai.”
A piscina, cercada por arbustos floridos e espinheiros, exalavam um aroma suave e ela se amaldiçoou por sentir a mesma excitação infantil ao lembrar-se do olhar desejoso de seu pai. Ali ele a tinha tocado e seduzido muitas e muitas vezes. “Você é a minha menina, a minha putinha! Isso... abra as pernas para mim... Deixa eu te tocar assim, sinta... Vê como me deixa excitado? Como meu pau está louco para ser sugado pela sua boquinha? Um dia, você vai sentir todo ele dentro dessa bocetinha quente e molhada”.
Como a vida era mesmo, uma enorme caixa de surpresas... Agora, próximo de tornar-se mãe, a vergonha e um mal-estar de tudo o que havia vivido ali logo se sobrepunha ao prazer sentido no passado. Antes, achava-se amada e tudo fazia sentido. No entanto, a conscientização do abuso e de todas as suas ações caíam sobre si como uma avalanche constituída de culpa e vergonha.
– Pandora?
A voz de Hades libertou-a e seu coração se torceu dentro do peito.
– Já vou. – disse ela, enquanto disfarçava e limpava uma lágrima teimosa que escorria pelo rosto.
O executivo notou. Seus punhos estavam apertados dentro dos bolsos da calça. Pandora parecia tão vulnerável, tão mortificada parada ali, certamente revivendo cada momento passado naquele lugar. Uma emoção pungente se quebrou dentro dele e, instintivamente moveu-se na direção dela. Mas então, se deteve. Ele se sentia ferido, assim como ela. Queria abraçá-la, mas parecia que, naquele ambiente, qualquer gesto de carinho pudesse se transformar em perversidade. Sabia que era uma emoção insana, mas não conseguia combatê-la, nem transformá-la. Não ali.
– Vamos acabar logo com isso e voltar. Podemos ficar num hotel.
– Não.
Hades franziu o cenho.
– Quer ficar aqui sendo assombrada pelas lembranças?
– Preciso enfrentá-las, senão sempre me sentirei assim, fraca e culpada.
Por um momento, Pandora voltou a ser aquela menina vivaz e destemida, embora a dor estivesse estampada nos olhos violáceos.
– Você é quem sabe.
– Você pode ir para um hotel. Não vou obrigá-lo a nada. – disse ela.
Hades não respondeu. Não desejava permanecer nem um minuto a mais do que o necessário naquela casa. No entanto, a coragem de Pandora o fez sentir vergonha de si mesmo. Era um verdadeiro predador no mundo dos negócios, mas ali, sentia-se um menino, o mesmo menino aterrorizado ao ser violentado pelo pai. Era difícil olhar as portas da casa sem recordar o que acontecera em cada cômodo.
– Está bem, ficamos aqui. Creio que a burocracia pode ser resolvida com um incentivo a mais para os envolvidos no inventário e testamento. Não será preciso permanecer por muito mais que dois ou três dias. – disse Hades após um suspiro.
– Obrigada. – disse ela e o abraçou.
Ele sentiu o corpo tenso, mas em seguida relaxou.
– Henri disse que tudo já está preparado. Vai ficar em seu antigo quarto?
– Sim.
Assim que terminaram de conversar, Henri adentrou a sala.
– Já providenciei tudo. Os advogados estarão aqui na primeira hora da tarde. A senhora Dione já havia dado instruções precisas sobre o que fazer, caso algo lhe acontecesse e o senhor seu pai já havia redigido um testamento. Também já instrui os empregados para lhes fornecer tudo o que necessitarem. Ao final do dia todos irão embora, inclusive eu, mas se necessitarem de algo, meu telefone está sobre a escrivaninha na biblioteca.
– Obrigado. – disse Hades.
Assim que Henri os deixou, Pandora foi até seu antigo quarto. A cama de dossel tinha cortinas de musselina branca a rodeá-la com laços ornamentados. O quarto ainda guardava o aspecto principesco com que fora decorado. Da janela podia ver a piscina e os jardins. Quantas vezes olhara seu pai daquele mesmo lugar? E quantas vezes ansiara pelo chamado dele e das “coisas” que ele faria?
Levou a mão ao rosto. Dor e vergonha batalhavam dentro de si o tempo todo. Às vezes, pensava que ia enlouquecer e então, sentia um leve farfalhar em seu ventre e lembrava que esperava um filho. Ele seria sua âncora, sua força para sepultar de vez, toda aquela experiência sórdida que vivera.
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O quadro branco exibia as últimas anotações, enquanto a projeção demarcava o último conteúdo a ser desenvolvido. Não havia um ruído na sala, além das folhas sendo viradas e das canetas riscando de um modo quase frenético.
– Já terminaram o exercício?- A voz grave do professor Yoshiki quebrou o silêncio fazendo levantar algumas cabeças.
– Sim! – respondeu um pequeno coro de vozes, no qual se sobressaía a voz de Misty.
– Senhor Minos?
– Hã... vou precisar de mais um tempinho, professor. – respondeu o jovem com uma expressão concentrada.
– Muito bem, aqueles que estão adiantados, podem sair. Os que não terminaram vão permanecer.
Misty sorriu para os colegas, mas logo se deu conta que apenas Minos e outro aluno ficariam com Yoshiki. Por um lado se sentia superior, mas por outro, notava que mesmo tendo um ritmo lento, Minos recebia mais atenção do seu professor e isso o incomodava.
– Posso ficar para ajudar se desejar, professor. – disse ele se oferecendo.
– Obrigado pela oferta, senhor Misty, mas prefiro eu mesmo orientar estes dois.
O jovem deu de ombros e saiu com o restante, enquanto Yoshiki estreitava os olhos e sentava ao lado e Minos.
– Vamos ver que rumo estes cálculos estão tomando. – disse ele.
– Eu sei que fiz alguma coisa errada, mas não estou conseguindo perceber o que é. – disse Minos com um suspiro.
– Vejamos... Ah, veja isso: colocou esta vírgula aqui em lugar errado.
– Puta merda! É mesmo! – exclamou Minos.
Yoshiki franziu o cenho e Minos percebeu.
– Hã... Desculpa, professor. Eu não devia ter falado palavrão, mas é que... bem, escapou.
Surpreendentemente, Yoshiki sorriu de leve e tocou a mão de Minos.
– Eu sei. Continue e termine o exercício, enquanto eu ajudo seu colega.
Minos relaxou e sorriu de volta. Admirava muito aquele professor, ele era correto e ajudava a todos de forma impecável. O grupo de estudos já estava formado e, naquele fim de semana, todos iriam para Nagasaki a fim de concentrarem-se, avidamente, nos estudos. Ele fora o primeiro a dar o nome, queria muito se adequar ao ritmo da maioria e ter ótimos resultados para mostrar a Hades e também para valorizar a atenção que Yoshiki lhe dispensava.
Minutos depois, Minos já havia terminado tudo.
– Muito bem, senhor Minos. Está melhorando a olhos vistos. Não se esqueça de preparar-se para o final de semana.
– Claro que não, professor! Estou ansioso. – respondeu ele sorrindo.
Yoshiki sorriu também. Uma excitação genuína levou o sangue até aquela parte do seu corpo e ele disfarçou, virando-se para o quadro branco para apagar algumas anotações.
– Muito bem, então. Os dois estão dispensados. – disse ele.
Minos pegou seu material e, antes de sair, olhou para Yoshiki com um brilho de contentamento nos olhos.
– Eu não sei como agradecer, professor. O senhor tem me dado muita força. – disse o jovem curvando-se à moda oriental.
– Aprecio o seu esforço. – respondeu Yoshiki e, pela primeira vez, estava sendo sincero. A fibra de Minos o excitava, fazendo-o fantasiar como ele seria na cama, porém percebia nele a vontade de aprender e a inteligência. Aquele garoto era um diamante bruto pronto para ser lapidado por um mestre.
O celular de Minos tocou e ele sorriu ao ver o número.
– Bem, professor, eu vou indo. – disse ele saindo para atender.
O sorriso morreu nos lábios de Yoshiki. Pelo entusiasmo de Minos, certamente era um telefonema pessoal. Precisava saber mais sobre ele, se tinha namorada ou namorado, o que fazia nas horas livres... Pegou seu celular e teclou o número.
– Hinamori? – disse ele num tom baixo.
– Sim. – respondeu uma voz sonolenta.
– Tenho um serviço para você.
– Eu não sou mais animadora de festas privê. Estou envolvida em um compromisso sério.
– Não estou falando disso. –falou o professor, irritado. – Quero que investigue uma pessoa para mim.
– Outro? Já descartou o bonitinho? Está ficando guloso demais, meu caro... – disse ela rindo.
– Não seja indiscreta. Faça o que estou pedindo e será muito bem recompensada. Muita coisa mudou desde a última vez que nos vimos.
– Está bem. Diga o nome.
– Minos Solberg de Griffon.
– Humm... que nome sexy. Novo aluno? Mas é claro que é, nem sei por que estou perguntando. O predador ataca, novamente...
– Passe as informações em sigilo para o meu celular.
– Será feito. E... quanto eu ganho com isso?
– Você sempre desejou ser uma atriz de televisão. Agora terá a sua chance.
– Como?
– Faça o que eu pedi e terá a sua chance. – respondeu Yoshiki desligando o celular.
Assim que ele guardou o aparelho no bolso, Misty apareceu. Os olhos do jovem estavam brilhando e ele sorriu.
– Andou se drogando de novo? – perguntou Yoshiki.
– Só um pouquinho...
– Sabe que não gosto quando faz isso aqui, na universidade.
Uma gargalhada rouca e baixa escapou da boca do jovem.
– Mas não se importa se for... em uma de suas festinhas, não é?
– Está ficando inconveniente.
O jovem não se importou com a expressão fechada e aproximou-se do professor de forma insinuante. Yoshiki não desviou o olhar, mas deu uma rápida olhada ao redor e percebeu que a porta da sala tinha sido fechada.
– Sabe o que acontece quando eu *cavalgo a crista do dragão? Ah, você sabe muito bem... me deixa com uma vontade louca de trepar. – disse Misty bem próximo de Yoshiki.
– Aqui não... – falou o professor já excitado com a mão de Misty em seu membro.
– Aqui sim... – respondeu o jovem já abrindo o zíper da calça de Yoshiki.
– Não! – disse o professor. Os dedos fortes mergulhando nos cabelos do aluno e puxando sua cabeça violentamente para trás.
– Ai! – gritou o jovem.
– O Dom aqui sou eu! Se eu disse aqui não, é porque não vou arriscar minha reputação no meu local de trabalho.
– V-você fode em seu gabinete. – rebateu Misty.
– Aqui não é o meu gabinete. É uma sala de aula.
– Droga! Não precisava ser tão bruto. – falou Misty, enquanto sentia um filete de sangue escorrer pelo nariz.
– Tome. – disse Yoshiki estendendo um lenço na direção do jovem.
Misty aceitou e, em seguida, dirigiu-se à porta.
– Misty...
– O que foi? – perguntou ele com raiva e mágoa.
– Hoje à noite na minha casa.
O jovem riu nervosamente, a raiva se evanescendo...
– Estarei lá.
Yoshiki acompanhou a trajetória do jovem. Já estava se cansando dele, mas Misty ainda o satisfazia. Ele era inteligente, rico e arrogante, mas ainda assim se portava como um legítimo submisso... Era melhor mantê-lo por perto como uma válvula de escape, enquanto não conseguia seu maior troféu.
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Pandora voltara àquele quarto. O quarto aonde todas as noites seu pai vinha lhe dar boa noite. Podia escutar passos se aproximando sem nenhum cuidado ou disfarce. Sua mãe sabia que ele passaria algumas horas ali. Dione permanecia no quarto do casal, dormindo profundamente como se nada tivesse acontecendo. Dois conjuntos de portas interligadas... O Dom e suas submissas convivendo intimamente.
Ela não tinha medo e esperava ansiosa, excitada por algo que desconhecia... E, naquela noite, em especial, ele se aproximara da cama com um sorriso e brilho no olhar. Trazia nas mãos uma garrafa de champanhe e duas taças. Ela soltara um gritinho de satisfação. Tinha treze anos e era a primeira vez que iria experimentar uma bebida alcoólica. Vamos comemorar algo muito especial, minha putinha. Hoje você vai se transformar em mulher. Uma mulher de verdade...
Tudo fora tão rápido... O tecido da calça social roçando contra suas coxas abertas. Botões, tecido e então... pelos, pele, homem. A rigidez quente e a força da carne penetrando-a com precisão.
Ela ouviu o próprio grito agudo um instante depois de sentir a dor percorre-lhe o corpo, a masculinidade do pai profundamente mergulhada nas dobras macias de seu corpo. Ele se movia com fúria e a beijava com selvageria, as peles nuas em uma fricção estonteante.
E então, a dor íntima misturando-se ao grunhido do pai anunciando que ele havia gozado, o sêmen quente misturado ao sangue entre suas pernas...
Lágrimas escorreram do seu rosto juvenil quando ele saiu de dentro dela e a acariciou como sempre fazia. Não chore minha pequena... A primeira vez é dolorosa, mas as próximas vão ser bem melhores. Eu não sou seu pai de sangue, sou seu homem, seu dono e vou cuidar de você. Sempre.
A revelação a deixara triste, mas sedutor como era, seu pai convenceu-a que assim, poderiam ficar juntos para sempre no futuro... Mas, e a mamãe?
Sua mãe ama o seu irmão. Ela não se importa com você ou comigo. Ela me traiu e acha que eu não sei. Deixe estar... Deixe que ela pense que me fez de idiota. Será você e eu, minha doce menina. Eu cuidarei de você.
E ele tinha razão. Dione não se importava de vê-los juntos. Na segunda vez que ele a possuíra, ele fora gentil e a acariciara até que ela implorasse pela penetração. Ao senti-lo mergulhar tão fundo quanto o seu corpo permitia, ela soube a quem pertencia e esqueceu tudo o que não fosse aquela sensação... Desta vez, o orgasmo aconteceu e irrompeu tão forte que ela quase desfaleceu. Seu pai sorriu com orgulho. Sim, ela era mesmo uma putinha, uma menina devassa pronta para servir ao seu homem...
E assim, todas as noites ele a ensinava um pouco mais sobre o universo erótico que os unia, adestrando-a como um animalzinho obediente, servindo-se do seu corpo como se dele fosse o proprietário.
Havia somente o prazer naquele quarto. Então porque as cobertas da cama a aprisionavam e porque queria gritar, mas sua voz a abandonara? Pandora sentiu as lágrimas salgadas descerem por seu rosto e então ela estava sendo sacudida. O terror congelou seus membros, o ar ficou rarefeito.
Pandora ficou consciente de duas coisas ao mesmo tempo. Tudo aquilo era um sonho e ela estava sendo sacudida. Seus olhos se abriram e confrontaram imediatamente olhos azuis acinzentados. Hades olhava para ela, o cenho franzido.
– O que foi? Você gritou.
A sensação do sonho ainda era tão real que ela tremia. Sentia-se completamente desorientada. Estava escuro... as cortinas balançavam com a brisa fresca da noite. As grandes mãos do irmão ainda em seus ombros, o corpo meio sentado na cama, perto o suficiente para que ela sentisse o calor da sua respiração. Ela se afastou.
– E-Eu tive um pesadelo. Só isso. Eu não tinha ideia de que estava gritando. No sonho eu... não conseguia falar.
Hades ligou o abajur do lado da cama e a luz lançou sombras pelo quarto e por seu rosto preocupado.
– Não devíamos ter ficado nesta casa. – disse ele.
– Queria ser forte como você. – disse ela tentando sorrir.
– Volte a dormir. – falou o executivo levantando da cama e deixando o quarto.
Maldita hora em que concordara em ficar naquela casa. Pensou Hades, consigo. Pandora achava que ele era forte, que nada o atingia. Ela não sabia o tremor que o seu corpo experimentara ao passar pela porta da imensa biblioteca, o santuário do conhecimento que seu pai construíra em casa. Ainda estava vívido em sua memória o dia em que decidira enfrentar seus pais e deixar aquela casa. Seu pai o levara até aquele cômodo numa falsa atitude de civilidade.
“Entre”. A voz autoritária ainda reverberava dentro de si. Nunca baixara a cabeça, embora tivesse sido sempre respeitoso com seus pais quando pequeno. Entretanto, as obscenidades que presenciara o tornaram resistente e rebelde. Amava a irmã caçula e, muitas vezes, sentira medo que aquele amor se transformasse no mesmo tipo de amor doentio que via se disseminar na família.
“Então você me julga... Acha errado o que eu e a sua irmã fazemos.” O olhar raivoso contrastava com o tom calmo e articulado.
E então, tudo o que estava reprimido viera à tona... Você e a mamãe são doentes! Como podem fazer isso aos próprios filhos? Você e Pandora... Ela é uma Criança! Eu vou denunciar vocês!
A risada foi mais cruel que divertida. Elísio era um homem alto, forte, sempre cuidando do corpo e da aparência. Quem o olhasse, mesmo que atentamente, jamais diria que ele já passava dos cinquenta anos.
“Denunciar? Quem você pensa que é? O Imperador do Submundo como diz a sua mãe? Aquela cadela ordinária que sonha em foder com você? Ah, agora eu tenho a sua atenção, não é? Quer compartilhar nossa intimidade com todo mundo? Pois faça! Verá o que irão dizer da sua adorada irmãzinha e da sua mãe!”
“Eu te mato!” As palavras saíram da sua boca com tanta raiva que não percebeu a mão do pai agarrando-o pelos cabelos e batendo com a sua testa com força na parede próxima. O que aconteceu a seguir ficou nebuloso pela dor e pela vertigem. Sentiu as calças sendo abaixadas e, em seguida, seu corpo ser, novamente, agredido e movido até ficar de encontro à escrivaninha.
“Para!” Ouviu-se gritar. Mas seu pai não parou. Continuou sentindo o peso do corpo adulto sobre o seu, assim como a violação abrupta que o fez gritar. A mão pesada cobriu sua boca, enquanto as estocadas continuavam a dilacerá-lo física e emocionalmente.
Quando gozou, seu pai saiu de dentro de si, resfolegando e grunhindo de forma animalesca. Havia um brilho de insanidade e também de prazer nos olhos azuis, o rosto duro e corado...
“Vista-se e deixe esta casa! E lembre-se, se insistir com esta bobagem, vai destruir toda a sua família e não somente a mim. Deixei minha marca em você para que se lembre de quem manda, menino atrevido! Um dia, talvez, você seja o Dom, mas não enquanto eu viver.”
Hades não percebeu que estava chorando até sentir a lágrima tocar-lhe o lábio, pedindo abrigo dentro da sua boca. Tocou na maçaneta da porta e entrou. Ao tocar o interruptor de luz nada aconteceu. Ouviu um barulho e logo viu Pandora chegar com um castiçal.
– Faltou luz, mas no meu quarto sempre tem um castiçal. A mamãe sempre o deixava abastecido com velas e um isqueiro por perto. – disse ela e por um momento, a lembrança da mãe voltou de forma dolorosa.
Hades tomou o castiçal na mão e Pandora notou que ele tremia.
– Hades...
– Eu me tornei forte depois que ele me violentou, mas ainda tremo quando entro aqui. Os dois estão mortos, nada mais pode ser feito. Mas, ainda assim...
– V-Você nunca... me disse nada. Meu Deus... aquele dia... você me pediu...
– Sim, no dia em que eu pedi para que fosse embora comigo ele me fez entrar aqui... O resto, você pode imaginar.
Pandora levou a mão à boca, sentindo uma vertigem. Hades amparou-a, porém ao fazê-lo, deixou cair o castiçal bem próximo à cortina transparente. O fogo espalhou-se pelo tecido como se estivesse faminto.
– Hades! – gritou Pandora, mas o executivo não se mexeu.
– Deixe queimar. – disse ele com uma estranha calma.
– Hades, não! Vamos pedir ajuda!
– Não. – disse ele puxando-a para fora e fechando a porta. — Isso tudo acaba aqui!
Pandora estava aflita, mas Hades permanecia sereno e firme. Como um verdadeiro deus do submundo, ele a guiava com tanta segurança que ela não o questionou mais.
– Pegue o necessário. As paredes conterão o fogo por um tempo. Vou fazer o mesmo. Vamos chamar os bombeiros e ir para um hotel. – disse ele.
– N-Não há perigo de o fogo atingir ninguém, não é?
– Henri não mora aqui e os vizinhos estão isolados pela área verde.
Pandora olhou para trás vendo o brilho alaranjado e sentindo uma espécie de alívio. Parecia que estava se purificando com aquele fogo... enquanto as chamas refletiam nos olhos azuis do irmão adquirindo um brilho quase demoníaco, mas também angelical, como se ele fosse ambos e, ao mesmo tempo, nenhum. Hades apertou a sua mão e os dois deixaram a casa pela porta da frente, enquanto as labaredas foram se alastrando devagar, consumindo o interior até surgir no teto, envolvendo-o em uma fumaça densa e negra.
Os bombeiros foram chamados quando não havia muito a fazer... As chamas consumiram a grande mansão e com ela, a história sórdida que Pandora e Hades desejavam sepultar para sempre...
Assim que se instalou no hotel, Hades pegou o celular. Desejava ouvir a voz dele, fechar os olhos e reviver a sensação de tê-lo nos braços, de estar dentro dele...
– Minos...
– Sou eu!
– Eu te amo.
Minos sorriu, mas sentiu algo na voz do homem que amava.
– Hades... está tudo bem?
O executivo sorriu.
– Agora está.
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O jovem entrou animado, carregando uma garrafa de saquê numa das mãos e um saco de supermercado na outra.
– Ei, o que é tudo isso? – perguntou Hinamori, tomando-lhe o saco da mão e olhando dentro dele. – Humm... Hossomaki de camarão e Sashimi de peixe branco. Trouxe Wasabi?
– Claro! Eu disse que teríamos uma festa. Afinal, estamos no nosso apartamento. – falou Kato com um sorriso.
– Festa? Por este pulgueiro? – disse ela olhando em volta.
O apartamento pequeno se reduzia a um quarto com futon, uma mesa baixa e um computador. O banheiro mal tinha espaço para o vaso, pia e chuveiro, enquanto a cozinha era um corredor com balcão, um armário aéreo e um microondas.
– Assim você me magoa. – disse ele
– Olha, Kato. Eu tenho que trabalhar. Se eu fizer tudo direitinho posso ter a oportunidade da minha vida e podemos alugar algo maior. Vamos deixar a festa para depois.
O jovem ignorou a fala da amante e abriu a tampa da bandeja de plástico. Pegou um Hossomaki e colocou-o, inteiro, na boca. Em seguida, aproximou outro dos lábios de Hinamori. Ela deu uma mordida a contragosto, fazendo-o se despedaçar. Com habilidade, Kato pegou o alimento antes que caísse e o levou à boca, lambendo os dedos enquanto tratava de abrir a garrafa de saquê.
Hinamori continuou focada na tela do computador com os olhos estreitos e um sorriso malicioso.
– Ora, ora... quem diria que Yoshiki está de quatro por um estrangeiro... E parece que o garoto bonito é misterioso... Alguém colocou restrição no levantamento de dados dele. Isso significa que ele tem algo a esconder...
– O quê? – perguntou Kato.
– Nada, amor. Beba e coma, enquanto eu envio uma coisa pra um amigo meu.
– Amigo? Não estou gostando disso. – disse o jovem.
Ainda sorrindo, Hinamori não levou em conta a observação do amante e seguiu teclando. Desejava, desesperadamente, ser atriz e atuar na televisão. Tentara durante muito tempo e já havia ouvido tantos nãos que já tinha perdido a esperança. No entanto, a habilidade de detetive que possuía podia, finalmente, levá-la para perto do seu sonho. Porém, neste caso, ela precisaria de ajuda de um hacker competente. Estava na hora de entrar em contato com aquele que admirava e que não via há muito tempo, seu querido meio-irmão Aiacos...
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O policial não estava satisfeito. Um incêndio acidental não deixaria os proprietários tão calmos como aqueles dois. Havia algo inexplicado e ele descobriria.
– Senhor... Hades e senhorita Pandora. Poderia dizer, novamente, o que fizeram depois da chegada ao país?
Hades tocou, discretamente, a mão e Pandora.
– Chegamos pela manhã, à tarde falamos com o advogado e à noite jantamos e fomos à biblioteca. Chegando lá faltou luz e tivemos de usar um castiçal que acabou caindo e incendiando as cortinas. Foi tudo muito rápido, então peguei minha irmã e deixamos a mansão.
– Deixaram a mansão e não pediram ajuda... Pelas informações que tenho, os senhores tinham um caseiro.
– Ele não mora na mansão e sim num apartamento a três quarteirões. Não adiantava chamá-lo. Ele ia fazer o mesmo que eu fiz, chamar os bombeiros.
– Eu verifiquei a hora da chamada. O senhor levou bastante tempo para pedir ajuda e nem esperou pelos bombeiros. A casa era segurada em novecentos e vinte mil dólares. Os senhores são os únicos herdeiros. Seus pais morreram e o detalhe foi que...sua mãe foi assassinada. E me parece que os senhores estão muito à vontade com tudo isso.
– Não, é claro que não! – falou Pandora.
– O senhor está sendo precipitado e tirando conclusões erradas. – disse Hades sem se alterar.
Franzindo o cenho, o policial focou no executivo.
– Então, que tal contar a verdade, senhor Hades? Poupe ao senhor e a sua irmã que eu vá ainda mais fundo nessa história mal contada.
– Libere minha irmã, ela está grávida e precisa voltar para o hotel para descansar. Eu sou responsável pelo acidente e darei meu depoimento assim que contatar meu advogado.
Pandora abriu a boca para argumentar, porém Hades fitou-a com tanta intensidade que ela se calou.
– Venha, senhorita. – disse a policial feminina.
Contra a vontade, Pandora obedeceu. Pela primeira vez, não pensava somente em si, precisava ficar bem para proteger seu bebê. No entanto, mais uma vez, ela deixava seu irmão com toda a carga de responsabilidade e isso a entristecia. Fitou-o, mais uma vez e o que viu nos olhos acinzentados foi uma ternura tão grande que, lágrimas de agradecimento lhe inundaram os olhos. Entretanto, ela permaneceu firme e guardou aquele olhar em seu coração. Eu te amo, Hades.
O policial limpou a garganta e então tornou a encarar Hades que permanecia sem demonstrar nenhum temor.
– Pois bem, dê o seu telefonema. – disse ele.
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A casa estava às escuras, apenas uma luz avermelhada preenchia o ambiente permeado de ofegos... A música instrumental suave e penetrante ajudava a compor o clima peculiar.
Um gemido escapou do fundo da garganta de Misty. Abaixando os braços, ele agarrou os lençóis sobre os quais estava deitado. Os dentes alvos surgiram numa careta de êxtase e dor, enquanto ele afundava a cabeça no travesseiro. Sobre ele, Yoshiki derramava a cera derretida de uma vela em sua virilha, enquanto chupava os mamilos com força, até deixá-los túrgidos e então descer até a virilha e mordiscá-la, enquanto continuava com a trilha quente sobre a pele alva...
– Abra seus olhos. – ordenou Yoshiki.
O jovem os abriu e eles estavam enevoados de paixão, mas também pela droga que havia ingerido. O cristal permanecia no organismo por muito tempo e desencadeava uma excitação sem limites. E era assim que Misty se sentia, sem limites, ansiando pelo orgasmo que não vinha... seu corpo quase em combustão...
Ele puxou Yoshiki sentindo os músculos firmes das nádegas, o queria dentro de si. O professor sorriu e o penetrou com força. Misty ofegou, mas não sentia dor, somente um prazer difuso que se espalhava pela pele fazendo-a formigar. Arqueou os quadris para sentir o amante e Yoshiki se desfez dentro dele.
Misty estremeceu e gozou, embora não tivesse, plenamente, consciente de seu corpo. Yoshiki saiu de dentro dele, observando-o. O jovem arquejava, mas parecia estar longe dali. Aquilo o deixou contrariado. Embora já tivesse experimentado drogas quando jovem, não gostava de misturar os prazeres e Misty começava a extrapolar a sua incursão por este universo ilícito.
Levantou-se e foi até o banheiro. No caminho, notou que seu celular exibia o ícone de mensagem recebida. Uma onda de excitação percorreu seu corpo, novamente. Ele clicou e abriu a mensagem. Um sorriso amplo se fez em seu rosto. Aquilo era muito bom para ser verdade... Minos tinha segredos... Muito bem, eu terei muito prazer em desvendá-los... Pensou, enquanto sentia sua ereção avolumar-se, novamente.
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