Júpiter e Vênus
7 Moreno sexy no volante é perigo constante.
PEDRO
Eu nunca tinha visto Gabriel chorar. E quando falo de nunca, é nunca mesmo. Nem quando ele apanhava ou se machucava feio nos tempos de criança. Parecia ser feito de ferro. E de repente, sem mais nem menos, pego o menino entre lágrimas, aos 18 anos. Quem era forte mostrou-se fraco. Normalmente, eu teria chamado o gato borralheiro de viadinho, ou maricas. Mas eu não tive reação para aquela cena incomum.
Afrouxei o registro do chuveiro, reduzindo o fluxo de água que descia. Gabriel estranhamente marcou a semana. Apoiei a mão na parede e recordei da conversa que tivemos na janela. Jamais fui tão sincero com outra pessoa. Uma parte da minha alma foi exposta e não gostei. Falei sobre meu pai, sobre a Engenharia e até sobre a loira. Seu idiota...
Na primeira vez que vi aquela garota, rolou confusão e levei um soco de Gabriel. Na segunda vez, achei legal o fato de Gabriel ser hétero e estar com ela. Mas na terceira – quando os dois decidiram se pegar no meio do campus, minutos antes da conversa – eu a abominei, mesmo sem entender a razão.
Não estou pensando em Gabriel, resmunguei comigo mesmo. Fechei o registro, enrolei uma toalha azul na cintura e saí do banheiro. Tou ficando é doido, só o que faltava, ficar lembrando de um homem, que nem um gayzinho...
Voltei para o quarto e me pus a escolher alguma roupa legal no guarda-roupa. Era só uma festa da Agronomia, nada importante, mas eu desejava estar gostoso. Peguei uma calça jeans azul e camisa cinza de manga ¾. Para incrementar, catei um cinto marrom na gaveta. Me vesti na velocidade da luz. Ao me olhar no espelho... Sabia que ia ficar lindo.
Gabriel apareceu na porta do quarto. Ele usava uma camisa jeans de manga comprida e calça branca. Passei a língua entre os dentes. Humm, bonito. Não, bonito o caralho.
— Ridículo. — resmunguei.
— Que eu lembre, não te pedi opinião. — ele riu.
— Por isso que tem gosto ruim. — bufei.
Virei-me para o espelho, a fim de dar um retoque nos meus fabulosos cabelos. O idiota não saiu do lugar. Fi, não é porque conversamos um dia que somos BFFs.
— Sim, vai pra tua parada pegar o ônibus. — disse rispidamente. — Ou achou que ia de carro comigo?
Gabriel respondeu num tom maroto e até meio malicioso:
— Estava somente contemplando tua maravilhosa beleza. Muita gostosura num cara só, ui. — ele levantou a sobrancelha com um maldito sorriso nos lábios.
Dei o dedo médio.
— Vai se fuder.
[...]
Meus ouvidos se aguçaram ao som de música alta. Festa, pensei exultante. Estacionei o carro e chequei a hora no celular: onze e meia da noite. O campus estava cheio pra caramba. Também, pudera, as festas da Agronomia eram sempre as famosinhas. A universidade em peso comparecia.
Mal entrei e já fui empurrado para junto da galerinha da cachaça. Um desconhecido me passou um copo cheio. Aceitei de muito bom grado, e repeti a dose várias vezes. O pessoal já estava bastante bêbado, as besteiras na rodinha rolavam soltas. Eu fui acompanhando a conversa. Então alguém perguntou:
— Você é de Engenharia Civil?
Busquei com os olhos a pessoa que havia falado comigo. Era um ruivo. O cabelo fino, liso e um pouco grande o fazia parecer um espantalho. Seu corpo magricelo não ajudava em nada. Gay com certeza. O único ponto positivo que vi foi suas roupas de marca. Eu era obcecado pelas marcas: Dolce&Gabbana, Prada, Armani, Calvin Klein, etc. E tinha que admitir, o rapaz se vestia bem.
— É da tua conta? — resmunguei.
— Só fiquei curioso. — ele disse num ar de falsa inocência. — Meu nome é Nicolas, mas pode me chamar de Nick. Qual é sua graça?
Agora pronto: um gay querendo meu corpo nu.
— Acho melhor tu caçar outro bofe. Sou hétero. — falei com toda a ênfase possível, num tom grosso. — Não mexo com boiolagem.
— Será? — o ruivo bateu no meu ombro. Dei um pulo para trás. Ele tá tão perto assim?
Respondi rudemente:
— Sai fora.
Ele sorriu e abriu a boca para dizer algo, mas uma pessoa o chamou e o ruivo logo desapareceu de minhas vistas. Respirei aliviado. Não demoraria muito para eu descer a mão na cara da bicha. E não era bom se meter em confusão ainda no começo da noite.
— Olha o Pedro marcando os esquemas homo... Sempre desconfiei de ti. — Jéssica apareceu ao meu lado. Ela vestia uma sainha preta com blusa branca. Os cabelos negros estavam jogados de lado e a maquiagem realçava o que havia de bonito no seu rosto.
— Teu cu. — bufei. — O problema é que sou tão irresistível que até os gay ficam de olho.
— Humildade mandou lembrança. — ela riu. — Vem cá, para de beber ao menos um instante.
A morena me puxou para o meio da bagunça e começou a dançar. Fui obrigado a imitar seus movimentos, embora não tivesse muita coordenação motora. Nem sabia qual era a música exata que estava tocando. Depois de poucos minutos, desisti. Jéssica não ligou e foi procurar outro garoto.
Fui para um canto vazio e segurei os joelhos, me sentindo uma merda. Me chamar pra dançar pra quê? Tava tão feliz com a cachaça... Distingui ao longe a loira de Gabriel. Ela estava numa mesa com a índia que me deu os 50R$ na terça. Ao que tudo indicava, ambas estavam se embebedando juntas. E aparentavam já estar saindo do controle. Franzi o cenho. Se a coisinha namorava com o gato borralheiro, o certo era que eles estivessem chegadinhos. Tipo, no amor é love you.
Contudo, isso não era da minha conta, Gabriel que se fudesse. Voltei para o meio do povo. Achei uma menina qualquer que me deu mole e sem pestanejar, a agarrei. Nem reparei em traços físicos, só torci mentalmente para não ser uma broaca. Não esperei muito e passei a mão nos seus seios. Ela gemeu baixinho no meu ouvido. Poucos minutos depois, levei a vadia para fora do campus e fechei o serviço atrás de uma árvore. Assim que terminei, ela retornou para dentro.
Tive o ímpeto de entrar também, mas um carro prateado passou diante dos meus olhos numa velocidade sinistra. Espremi as sobrancelhas e após raciocinar bastante... Decidi conferir se meu precioso SUV estava nos conformes. Corri para o estacionamento e para minha grande surpresa, ele não estava mais lá.
— Mas que porra é essa?! — gritei exasperado.
Chutei o chão (como se resolvesse). Ganhei aquele carro no meu aniversário de 18 anos, presente de minha mãe. Ela escolheu o melhor modelo: bonito, caro e moderno. E então eu perdia o veículo desse jeito? Enxuguei o suor que de repente me desceu da testa.
— Que foi, princesinha? — uma voz zombeteira ecoou no silêncio do estacionamento.
Virei-me para trás, Gabriel caminhava a passos rápidos até mim. Ele segurava uma lata de refrigerante e sua camisa estava suja de alguma coisa.
— Meu SUV! — choraminguei. — Roubaram!
— Como assim roubaram? — ele questionou incrédulo.
— Eu não sei! Só sei que ele não tá aqui! — fiz careta, segurando as lágrimas.
— Aonde estavam as chaves?
— No meu bolso... — lamentei.
Gabriel jogou a lata num lixo próximo e pôs as duas mãos na cintura.
— Ownt... Já tá chorando, que fofinho. — e fez um beicinho sorridente.
— Vai te fuder, Gabriel! — pulei em cima dele e tentei empurrá-lo, mas o moreno agarrou meus pulsos como se fossem de boneca.
— Calma aí, jovem. A gente tem que ir na polícia... — ele segurou meu queixo e me obrigou a olhar nos seus olhos verdes, pertinho do seu rosto.
— Aquele carro vale cem mil reais! — resmunguei.
— Por isso mesmo, idiota. Só que a gente vai ter que ir de ônibus...
Torci o nariz e me afastei.
— Não ando de ônibus.
— Vai andar sim. — Gabriel deu uma gargalhada maléfica. — E se passar um nessa hora...
— Ônibus é coisa de pobre! — protestei. — Prefiro ficar sem carro do que me submeter a isso.
— Sério? — o gato borralheiro encostou-se numa moto. — Eu nem acho ruim, acho até bom. Evito a fadiga.
Cruzei os braços.
— Não ando de ônibus, me arranje um táxi.
— Tem dinheiro aí pra esse luxo? — ele deu um sorriso maroto. — Porque eu não tenho. Princesinha metida.
Aproximei-me daquela criatura irritante e pus meu dedo indicador no seu nariz ridículo.
— Princesinha é o caralho!
Ele riu.
— Princesinha.
— Gato borralheiro.
— Princesinha.
— Gato borralheiro.
— Princesinha...
— Gato borralheiro.
Levantei o dedo para enfiá-lo novamente na cara de Gabriel, mas hesitei ao perceber o toque grosseiro dele na cintura. E mais, eu estava impressado entre suas pernas. Corei feito um pimentão e pigarreei, tímido. Ele me soltou. Se eu não estivesse bêbado, teria jurado que suas bochechas ficaram meio ruborizadas. Dei uns passos atrás, me recuperando do susto.
— Pedro? — alguém chamou, interrompeu a situação constrangedora.
Ergui a cabeça e olhei para a frente, era Caio.
— Hum?
— Que diabos teu carro tá fazendo na beira da calçada?
— Quê?
Não aguardei resposta e corri para a rua. E era realmente meu carro. Acariciei seu capô, prestes a dar uns belos beijos no vidro das janelas. Meu bebê...
— Ei, obrigada pelo passeio.
Olhei de soslaio para a remetente da frase. Comprimi os lábios ao ver que era a bendita da índia.
— Você pegou meu carro, sua vadia?! — vociferei.
— Peguei. — ela sorriu. — Obrigada.
Jogou as chaves para mim. Eu as peguei no reflexo. A garota então me deu as costas.
— Vou te matar!
— Vai bater em mulher? — ela falou já se retirando sem nem virar o rosto. — Interessante. Ah, acho que fiz sexo dentro dessa belezura.
Tive o ímpeto de arrancar os cabelos daquela miserável, mas ela sumiu em dois segundos. Abri a porta do SUV e verifiquei que a garota não havia mentido. Ela transou dentro do carro, no banco de trás. A raiva correu pelo meu sangue.
— Ownt...
Virei a cara para o lado. Gabriel me observava, dando uma gargalhada maligna.
— Você sabia! — vociferei. — Seu filho da puta!
— Sabia. — ele deu de ombros. — E daí? Quer brigar?
Cerrei os punhos. Queria mesmo. Porém, no fundo, eu tinha a triste certeza de que brigas com Gabriel não davam certo. A minha recente experiência comprovava isso. Ele era mais forte. Trabalhou no sol quente levando carga desde criança. Problema econômico dele, claro. Mas o ponto era indiscutível, nunca venceria uma luta com o gato borralheiro.
— Hoje não.
— Vai lá, bebe duas latas de cerveja para ter coragem. — Gabriel provocou.
— Qual é teu problema hoje, cara?! — exclamei. — Tu sabe que não dou conta de um cara como tu.
Ele coçou a orelha.
— Espera, acho que não escutei direito... Pode repetir?
— Não. — bufei.
— É que eu ando meio surdo...
— Não dou conta de um cara como tu.
— Que bom que tu sabe. — o gato borralheiro piscou um olho.
Bati o pé, completamente zangado com a humilhação vinda de um pobretão. Um impulso me empurrou para dentro do carro. Eu queria ir pra casa, já estava de saco cheio daquela festa. Palhaçada. Contudo, assim que fechei a porta, Gabriel bateu na janela. Baixei o vidro.
— Que é, porra.
— Você bebeu. Não pode dirigir. — ele sorriu, debruçando-se sobre o retrovisor.
— Não bebi tanto. Estou lúcido. — repliquei com bico.
— Teu cu. Morre aí na rua e a culpa é a minha. Dona Juliana me mata.
Suspirei entendiado.
— Já quer ter a oportunidade de dirigir um SUV, né? Pobre. — resmunguei.
— Sai da merda desse volante e para de reclamar.
[...]
Afundei meu corpo no banco enquanto observava Gabriel dirigir. Ele parecia muito sexy no volante. Os botões superiores da sua camisa estavam abertos e eu deixei que meus olhos caíssem sobre o peitoral do rapaz. Passei a língua entre os dentes. Céus, devem ter me dado alguma droga naquela festa, só pode. Virei subitamente a cara para o lado.
— Que foi? — Gabriel questionou com um sorriso.
— Nada. — respondi secamente. — Nada. — repeti só para confirmar comigo mesmo.
Mirei a paisagem através do vidro. Com certeza, os matos selvagens que cresciam na beira da estrada eram mais interessantes que o peitoral de Gabriel. Oras...
— Tem certeza? — o fi da puta insistiu.
— Você... É bonito. — as palavras saíram da boca quase que inconscientemente.
Gabriel mordeu o lábio inferior e pisou no acelerador.
— Você bebeu demais.
— Deve ser. — suspirei. Em sã consciência, eu não teria dito aquilo.
— Mas quem bebe demais fala a verdadade! — ele exclamou e diminuiu a velocidade. — Você realmente me acha bonito.
Revirei os olhos. Idiota.
— Teu cu.
Ele riu.
— Também te acho bonito. Droga! — Gabriel balançou a cabeça com uma expressão estranha. — Você vai perder a memória como das outras vezes, não vai?
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