Júpiter e Vênus
4 Mas eu não sou gay
GABRIEL
Algumas horas antes...
— Gabriel. Preciso falar com você. — Iara, que estava sentada atrás de mim, sussurrou ao meu ouvido.
Fingi que não escutei e continuei escrevendo o conteúdo dos slides. Iara sempre tinha alguma coisa pra me contar em toda aula. Por alguma coincidência, geralmente nas disciplinas mais difícieis. Apesar da indiferença, a índia puxou meus cabelos negros com força. Virei meu rosto para a garota e resmunguei:
— O que é?
— Vou te mandar por mensagem. — ela sorriu, mostrando todos os dentes brancos.
Puxei meu celular do bolso. Em poucos segundos, ele vibrou.
Bianca tá louca pra te pegar.
Suspirei entediado e respondi:
Há muito tempo eu sei disso. Problema sexual dela.
FDP, Bianca é a menina mais cobiçada dessa faculdade. Pena que é hetéro...
Não é cobiçada por mim!
Você vai ficar com ela sim!
Não vou!
Vai!
E por que eu faria isso?
Pra eu me iludir... Aí eu pensaria que sou eu no teu lugar e a coisa toda...
Para de ser besta!
Por favor, Gabes. Por favor.
Você é doida. Isso é doentio!
Por favor, em nome de tudo que não é sagrado!
E se eu gostar? Aí você vai ter que aguentar o casalzinho. Considerando que você ama a garota.
Impossível, você é gay.
Eu não sou gay, porra!
Claro que é. Só não se tocou disso ainda porque é lesado.
Teu cu.
O teu. Se você não pegar a Bianca, vou ter certeza da sua homossexualiedade.
Olhei para outro lado da sala, Bianca era realmente linda. Cem por cento dos machos da faculdade viviam em cima dela. Por algum mistério do Universo, a menina desprezava todos eles e preferia a mim. Logo eu que não dava a mínima moral. Ela me viu encarando e sorriu. Uma mecha de cabelo loiro caiu por cima de seus olhos azuis. A cor daqueles fios lembrava-me de outra pessoa: Pedro.
Vai te fuder! Diabos, eu pego hoje se é pra provar que sou homem.
Muito homem (risos aqui). Vou marcar com ela. Te amo, best.
— Acho que não estamos mais no Ensino Médio, não é mesmo seu Gabriel e dona Iara? Penso que caso não haja vontade de assistir aula, o melhor é se retirar. A porta está aberta e vocês sabem que não coloco falta e muito menos tiro ponto. — levantei a cabeça, a professora estava ao nosso lado. Engoli em seco, ninguém nunca me chamou a atenção nem na escola.
Guardei o celular e disse:
— Tudo bem, pode continuar. Desculpa.
***
— Sua vadia. — resmunguei para Iara enquanto descíamos as escadas do prédio de Letras. — A professora foi me encher meu saco por tua culpa.
— Para de ser nerd. — a garota fez uma auréola imaginária ao redor de minha cabeça. — Somos universitários agora, filho.
Revirei os olhos e caminhei mais rápido, deixando minha amiga para trás.
— Ei, seu cachorro! — ela correu. — Não quer nem saber a hora e o lugar do esquema?
Comprimi os lábios já me arrependendo e virei para trás.
— Hum.
— Bar de seu Zé, daqui umas duas horas.
— Por que lá? — cruzei os braços.
— Porque eu quero ver né. Devia me agradecer, Bianca tava louca pra te levar pra kitnet dela. Nesse caso, a coisa toda iria ficar difícil pra ti, porque... Como eu já disse diversas vezes, tu é gay,
— Vai dar o cu, Iara!
[...]
Algumas horas depois...
— Agora vai lá e conta pra mamãe que eu te bati. — provoquei, pronto para dar outro soco. Pedro aparentemente quis revidar, mas alguém o puxou para longe antes que fizesse alguma coisa. Quando a pequena multidão viu que não iria rolar briga, dispersou-se logo. Sentei no meio-fio com a cabeça quente, repassando nos pensamentos o que havia acontecido. Ele não tem o direito de fazer isso comigo. Em público, na frente de todos os colegas da universidade.
— Meu Deus. — olhei para cima, Bianca continuava ao meu lado. — O que foi isso? Esse é o cara com quem você mora? — assenti com a cabeça, estressado. Ela também sentou-se, deixando o vestido preto encolher alguns centímetros na sua perna branca.
— A gente pode continuar o que estava fazendo em outra lugar... — a loira sussurrou no meu ouvido de um jeito malicioso.
Sem pensar duas vezes, respondi:
— Eu não tou mais no clima. — se é que estive em algum momento.
Deixei a garota sozinha e fui para a parada, na frente da universidade. Como já era muito tarde pra quem estudava no diurno e cedo demais para quem estudava à noite, o lugar estava meio vazio. No mesmo instante em que sentei no banquinho, um ônibus passou. Ignorei-o, eu não queria ir para casa. Passei a mão no cabelo e suspirei, bastante nervoso. Um som de passos ecoou pela rua deserta. Levantei meus olhos e vi Iara.
— Caramba. Você bateu no Pedro. Pensei que isso nunca iria acontecer. Estou impressionada. — ela abaixou-se na minha frente, ficando de cócoras. — Um riquinho filho da puta daquele. Como você tá?
— Nervoso? — dei um sorriso amarelo.
— Pergunta idiota a minha. Quer ir pro meu AP?
Neguei com a cabeça.
— Vou ter que encarar o jovem de qualquer jeito. Obrigado assim mesmo.
[...]
Só peguei o ônibus quando apareceu o de rota mais longa. Quando cheguei no apartamento, tudo estava silencioso e escuro. Acendi a luz da sala, Pedro dormia no sofá. Ignorei e passei direto para meu quarto. Tirei toda a minha roupa e entrei no banheiro. Eu ainda estava bastante irritado e precisava me acalmar. Caso contrário, pegaria uma faca e mataria aquele playboy no mesmo instante.
Liguei o chuveiro e deixei que a água gelada lavasse a minha mente. Uma ideia foi crescendo enquanto eu envolvia meu corpo com a espuma do sabonete. Chega de ser bonzinho. Pedro parecia uma criança, dependia de mim até para cagar. Eu sabia que no outro dia, quando a raiva tivesse me abandonado, iria querer voltar atrás. Mas eu não podia. Era uma questão de honra.
Após uns quarenta minutos, saí com uma toalha branca enrolada na cintura. Balancei a cabeça, jogando a água resmanescente dos cabelos no chão. Dane-se, o quarto era meu mesmo. Abri o guarda-roupa e procurei com os olhos alguma bermurda que estivesse limpa. Interrompi a busca ao ouvir minha barriga roncar desesperadamente. A última vez que eu havia colocado algo na minha boca foi no almoço. E já era quase onze da noite.
Fechei o guarda-roupa e fui em direção da cozinha. Infelizmente, para chegar ao cômodo desejado, eu era obrigado a passar pela sala. Novamente, vi Pedro dormindo no sofá. Mordi o lábio e respirei fundo. Com a cabeça relativamente fria, permiti-me chegar perto. Imerso no sono, o rapaz parecia algum tipo de anjo. Não aparentava nem de longe ser o mauricinho desprezível. Não resisti e sentei ao seu lado. O filho da mãe tinha uma beleza estonteante. Acariciei seus cabelos loiros, eles eram tão macios!
Abri os botões de sua camisa azul-índigo. Um peitoral muito bem desenhado foi descoberto. Inclinei meu corpo e abocanhei um de seus mamilos. Chupei-o com toda a intensidade. Deixei que uma de minhas mãos escorresse para o cós de sua calça. Não me contentei com o cós e desci mais um pouco. No momento em que senti o membro do garoto, minha consciência acordou. O que diabos eu tou fazendo?
Levantei-me rápido, completamente assustado comigo mesmo. Arregalei os olhos quando abaixei a cabeça e vi um volume entre minhas pernas. Como assim eu tou excitado? Porra! Pedrou virou-se de bruços e acabou jogando uma almofada no chão. Meu coração bateu descompassado no peito. Teria ele acordado? Fiquei observando. Depois de uns instantes, não houve outro movimento. Devia ser um alarme falso. Saí dali em segundos.
[...]
— Por que não me acordou? — Pedro entrou desesperado na cozinha. Dei uma risada maléfica e olhei para trás. Ele ainda vestia a mesma roupa da noite anterior: a camisa azul de botões e uma calça jeans. O lugar de seu rosto branco que foi atingido pelo meu soco estava inchado. E eu não iria passar gelo dessa vez. Dei uma última mordida no meu sanduíche e disse calmamente:
— Acho que é porque você já tem 18 anos. Está bem crescido e pode acordar sozinho.
— Seu filho da puta!
— Unrum. — resmunguei entendiado. — Boa aula pra você que eu já estou indo.
Peguei minha mochila vermelha, que estava debaixo da mesa. Coloquei-a nas costas, com a expressão mais tranquila que eu pude exibir. Comecei a sair, contudo, assim que pus o pé na porta, Pedro gritou:
— E a minha comida?
— Filho, tem polpa na geladeira. Você pode fazer um suquinho, é só bater no liquidificador. Se quiser comer pão com ovo, bem é só fritar o ovo e colocar no pão. Coisa mais fácil do mundo, eu garanto. — pisquei o olho e o deixei reclamando.
[...]
Dentro do ônibus, refleti sobre o que tinha feito na véspera. Eu não era gay, era? Eu não podia ser gay! Iara não estava certa de jeito nenhum! Mordi o lábio, tentando me lembrar de alguma vez que senti atração por mulheres. Não consegui. Balacei a cabeça, totalmente descrente. Eu não sou gay, meu pai vai me matar. Para um caboclo criado na roça, aquela seria a última coisa desejável para o filho. Um frio invadiu minha barriga. Tudo bem, quer dá uma de viado, dá! Mas precisava ficar excitado logo com o Pedro? Que porra é essa?
O ônibus parou no ponto de Iara e ela subiu. Assim que me viu, já foi correndo sentar-se ao meu lado. Ela usava naquela manhã um vestido estampado que destacava as curvas de seu corpo. Encostei minha cabeça na janela e nem respondi ao “bom dia” que minha amiga deu.
— Ei! Qual é o problema? Vai me dizer que já tá se sentindo culpado por ter batido no Pedro? — ela questionou me acariciando os cabelos. Respirei fundo e retirei sua mão morena dos meus fios arrepiados.
— Não... Ele mereceu.
Eu abusei do playboy. Ele estava dormindo! Mas eu não sou gay.
— E por que essa cara de quem comeu e não gostou?
— Sei lá. Tou de TPM. — dei de ombros.
— Unrum tá. — Iara olhou desconfiado.
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