Júpiter e Vênus
11 Ele poderia andar até nu
Notas iniciais
PEDRO
Mais de 24 horas seguidas pensando em Gabriel, calculei mentalmente, desesperado. Olhei para o pessoal ao meu redor, bebendo e comendo carne assada na maior algazarra. Quem dera ter um estado de espírito feliz para aquilo. Dei um único gole na minha cerveja até então intacta e levantei-me. Uma tempestade cairia a qualquer momento e eu não gostaria de enfrentar chuva. Nem estava curtindo o bendito churrasco mesmo.
— Como assim tu já vai, Bozza? — alguma criatura bêbada gritou.
Virei-me. Era tão somente Valdecir, um veterano da Engenharia Civil, dono da festa.
— É. — dei de ombros. — Tá tarde.
O jovem riu.
— Gente, abduziram o Bozza.
Todo o povo que estava por perto gargalhou. Ignorei com um suspiro e segui meu caminho até o portão. Meu final de semana estava seriamente estragado. E 100% da culpa era de um moreno filho da puta, chamado Gabriel, vulgo gato borralheiro. O maldito não dava licença da minha cabeça.
Caminhei até o fim da calçada. Meu SUV estava numa área de estacionamento proibido, mas quem se importava? Abri a porta e enfiei meu corpo no banco. Sem a mínima coragem, comecei a dirigir. O céu pintava-se em tons cinzentos e provavelmente chovia no outro lado da cidade. Vou matar ele, pensei assim que a memória do beijo invadiu meus pensamentos pela milésima vez. Ou trilionésima.
Mal pus o pé dentro de casa e a chuva torrencial caiu sem piedade. Respirei aliviado por ter chegado seco. Imagina, um cara fabuloso como eu se molhando nessas merdinhas. Joguei chaves e celular no sofá. Não havia ninguém no apartamento. Cruzei os braços, decepcionado. Decepcionado o caralho, ele não tá aqui pra atormentar meu juízo. Amém, né!
Sentei-me no chão e liguei a TV, na esperança de distrair a mente. Porém... Contudo... Todavia... Entretanto... Faltou energia. Soltei todos os xingamentos que conhecia na língua portuguesa. Eu não sabia porque o demônio estava me atormentando tanto, mas o motivo devia ser forte. Enfiei a cara na almofada. Rapidamente, cochilei.
Acordei horas depois. A luz havia voltado e a TV falava sozinha. Desliguei-a. Não queria mais assistir. Pelo vento batendo contra a janela, percebi que ainda chovia forte. Abracei a mim mesmo quando ouvi o som de um trovão estrondante.
Então, a porta se abriu, meio que violentamente. Gabriel. Inclinei o pescoço para trás. Ele estava completamente molhado, dos pés à cabeça. Mordi o lábio ao notar que sua camisa branca, bem filhadaputamente, colava-se aos seus músculos. Que ódio.
— Princesinha. — o garoto sorriu, apesar do estado caótico em que se encontrava.
Dei o dedo médio.
— Teu cu.
O gato borralheiro balançou os cabelos negros e continuou sorrindo.
— O teu?
Dei os dois dedos médios. Emputecido, bati o pé no chão e me dirigi ao meu quarto. Gabriel me irritava seriamente. Deitei-me na cama, xingando mentalmente minha mãe por ter metido um idiota na minha vida.
As duas operadoras que eu usava decidiram sair de área. Ou seja, tédio total. Nem dois minutos se passaram e o apartamento novamente ficou no escuro. Um segundo trovão ensurdeceu meus ouvidos. Agarrei o travesseiro. Odiava ter medo de algo tão estúpido.
Passos pesados vieram na minha direção. Aparentemente, o gato borralheiro adorava entrar no meu quarto sem ser chamado. Minha vida verdadeiramente era uma droga. Eu precisava morrer, mas não morrer de verdade. Tipo, só desaparecer da face do planeta por um tempo indeterminado. A silhueta de Gabriel surgiu na porta.
— Pedro. Tá bem?
— Tô, eu tô ótimo, eu tô fabuloso. — bufei.
O gato borralheiro ligou uma lanterna e a cravou bem no meu rosto. Puxei o lençol para cobrir meus lindos olhos sensíveis.
— Tira isso da minha cara! — murmurei. — Agora!
— Dramático.
Apontou a luz para si mesmo. Notei que ele estava sem camisa. Ele deve achar que é normal desfilar por aí assim. Dei vários socos na testa. Claro que é normal, super normal, extremamente normal, ele poderia andar até nu, mostrando a merda desse pau pra todo mundo. Raciocinei dois segundos. Nu não. Nu sim! Nu não.
— Não, princesinha. Tu não tá bem.
— Apaga essa merda! Não preciso olhar pra essa tua barriga sar... De merda e pra essa tua cara azeda e irritante!
— Okay, okay. — Gabriel desligou a bendita lanterna, deixando-nos em meio à escuridão.
Suspirei um pouco calmo. Abominava a ideia de sentir atração por um gato borralheiro. Homem! Homem! Se ao menos fosse rico, okay, a gente podia conversar a respeito do assunto. Mas ele era pobre! O instantâneo vácuo de som me incomodou. Procurei o celular no bolso da calça, todavia, lembrei que havia deixado o aparelho na sala.
— Gabriel? — perguntei. — Tá aí?
— Sentado no chão, encostado no batente da porta. — ele respondeu.
Sorri. Quer dizer, não sorri. Até parece que eu sorriria só porque o fi da puta estava... Ah, esquece. Sorri. Contudo, lembrei que eu era eu e bradei:
— Vai-te...
A outra palavra da frase era “embora”. Entretanto, o barulho de um terceiro trovão, vergonhosamente, me fez pular da cama e ir correndo para os braços de Gabriel. Eles envolveram meu corpo e me abraçaram. Tremi pelo contato com seu peito despido e quente. Pera, pera, pera, pera, pera. O que eu tou fazendo? Afastei-me. Eu não sabia nem o que falar.
Tamborilei os dedos no piso. Poderia fingir que esqueci o beijo. Entretanto... Aquilo seria mais complicado. Eu estava bem sóbrio. Enfiei a cabeça entre as pernas. Só queria voltar ao passado e desfazer o instante em que a mãe de Gabriel começou a trabalhar na minha casa.
— Pedro... — ele sussurrou.
— Hum.
— Normal ter medo de trovão. — e acariciou meus cabelos.
Seu toque grosseiro me coisou. Me devolve a intimidade que nunca te dei, fi. Comprimi os lábios. Tá certo, eu dei e agora e não sei mais como desdar. Segurei seu pulso, pelo supremo bem de minha dignidade. O gato borralheiro entendeu o recado e resignou a mão para o canto.
Volvi o rosto para sua silhueta. Um impulso esquisito quase me levou a tocar em sua barba mal-feita. É, ele tinha barba, ao contrário de mim. Aliás, o fi da puta tinha tudo o que eu não tinha: olhos claros, carinho verdadeiro de todo mundo, boas notas, etc. E eu morria de inveja, essa era a verdade. Só que ninguém precisava saber, certo?
— Tenho medo de escuro, se isso te consola. — ele soprou baixinho no meu ouvido, após um breve silêncio. — Por isso tou aqui. Não queria ficar sozinho no meu quarto ou na cozinha.
Ergui a sobrancelha.
— Sério?
— Sério. — confirmou.
Gabriel remexeu-se no seu canto e acabou colando seu braço no meu ombro. Engoli em seco. Eu precisava de distância. Minha sanidade mental estava em jogo. Entretanto, continuei no mesmo lugar. Algo prendeu minha bunda àquele chão. O que exatamente... Não sei.
— Então... Estamos quites. E ninguém precisa saber que dois machos tão se borrando de medo. — o gato borralheiro riu.
— Tá. — grunhi. — Mas se alguém souber... Eu te mato de facada, te estupro, te...
— “Estupro”? Como assim?
Puxei os cabelos. Eu só falo merda.
— Vai lavar as orelhas, imprestável! — resmunguei.
O moreno sorriu.
— Eu ouvi o que ouvi. Tomo banho diariamente.
— Não importa o que raios tu ouviu! — disse entre dentes.
— Mas eu ouvi. — ele replicou. — E aí fiquei pensando nessa cena, tu me estuprando. Como seria?
Oras, eu te amarraria na cama firmemente, pelado claro, daria um jeito de te excitar sexualmente e sent... Senhor dos Anéis, deuses do Olimpo, puta que me pariu. Necessito de um psiquiatra!
— Para de ser gay! — rezinguei. — Quer me agarrar, é? — falei num tom de zombaria.
— Até que não seria uma ideia ruim... — Gabriel provocou, apertando minha cintura. Para piorar a situação, senti uma formigação estranha no ventre. Caralho! Meti um soco na sua costela, sabendo que não iria valer merda nenhuma.
— Droga, Gabriel!
— Égua de menino violento. — e retirou a mão de mim.
Quem mandou? Quem mandou? Foi só um soco, pelo bem de minha dignidade e sanidade. Não era pra tirar! Não! Claro que era!
— Tu é uma graça. — comentou.
— Não sou palhaço, ao contrário de você. — retruquei.
— Tão tá.
Abri a boca para xingá-lo. Todavia, um quarto trovão estremeceu minha alma por inteiro. E antes de qualquer movimento meu, Gabriel me abraçou firmemente. Meu coração descompassou, parou, e bateu de novo. Era por causa do trovão. Okay? Okay. Afundei o rosto no seu ombro. Ele me apertou. Percebi que a chuva já havia cessado. Um tempo indeterminado passou e nós dois continuamos enlaçados. Somente quando a energia decidiu retornar que nos separamos. Meu rosto queimava.
[...]
Uma coisa era beber demais e beijar o gato borralheiro no meio da estrada. Outra coisa era beber de menos e se jogar nos braços do filho da puta por causa de um medinho besta. Eu já não sabia o que fazer com a vida.
Bocejei e encostei-me junto a parede. Estava morrendo de sono. Havia acordado cedo, pela primeira vez na vida. Tudo para não encarar Gabriel.
— Ei loirinho dorminhoco. — uma caneta bateu no meu ombro.
Ergui a cabeça e olhei para a frente. O professor me fitava, de braços bem cruzados. Ele era negro, ligeiramente forte e um pouco alto. Franzi o cenho. A lei da universidade não era... “Alunos são felizes, amém?”.
— Hmmm.
— Qual é a resposta disso aqui? — ele apontou para o quadro branco.
Espremi os olhos para ver melhor a equação estranha que se exibia monstruosamente. Eu não tinha nem ideia de como achar a resposta daquilo. Encolhi os ombros e abri a boca. Minha intenção era dizer: “oia, eu não sei, agora me deixa”. Mas antes que as palavras saíssem, Caio sussurrou atrás de mim:
— Vpa=Vpb+Vba, ou seja, 0,65c+0,65c=1,30.
— Vpa=Vpb+Vba, ou seja, 0,65c+0,65c=1,30. — repeti.
O professor balançou a cabeça silenciosamente e continuou a aula. Suspirei entediado e voltei à minha posição inicial. Acabei cochilando. Acordei somente quando Caio gritou no meu ouvido que era hora de sair. Levantei-me, preguiçoso, e comecei a me dirigir até a porta com o jovem.
— Qual é o problema daquele preto? — perguntei ao verificar que a sala estava praticamente vazia.
— Do Sanches? — Caio sorriu. — Sei lá. Talvez tu tenha incomodado ele, dormindo em cem por cento das aulas de Física.
— Ah, foda-se. — resmunguei.
[...]
Caio me abandonou no meio do caminho. Disse que precisava ir ao banheiro. Dei de ombros e me dirigi à lanchonete. Eu estava morrendo de fome. Sair cedo demais implicava ficar sem tomar café-da-manhã. Pelo menos, pelo menos, tinha dinheiro.
Entrei na fila inumanamente gigantesca do balcão. Calculei que mais de quinze minutos se passaram até que chegasse minha vez. Magina, uma pessoa fabulosa como eu enfrentando isso. Mereço.
— Eu quero uma Coca e um pastel de queijo. — estendi o dinheiro.
— Eu também. — uma voz feminina disse logo ao meu lado.
Virei-me, por puro reflexo. Para o meu mais absoluto desgosto, era a loirinha de Gabriel. Revirei as órbitas. Diabos de campus pequeno. Torci o nariz e fingi que nem a vi. Contudo...
— Você é o cara que mora com o Gabriel. Pedro né? — a guria fia da puta comentou.
Criatura, quem tu acha que é pra falar comigo?
— Unrum. — murmurei.
— Sou Bianca.
— Hmmm.
Graças aos céus, o carinha do caixa apareceu com meu pedido no mesmo instante. Resmunguei algo como “fica com o troco” e saí dali com minha comida em mãos. Não olhei para trás.
Me dirigi para a única mesa vazia, no canto. Comecei a comer, tranquilamente. Quer dizer, com o máximo de tranquilidade que se pode ter depois de tudo que enfrentei no fim de semana. De repente, Jéssica surgiu no meio do povo. Acenei e ela veio sentar comigo.
— E a caganeira? — a morena abriu um sorriso de orelha a orelha.
— Vai se fuder. — bufei, já me arrependendo de a ter chamado.
— Sabe que agora tenho um segredo teu e uuuuuh vou te chantagear.
Meu queixo caiu.
— Sua traiçoeira!
— Magina. — Jéssica puxou minha Coca e tomou um gole. — Sabe que te amo, amiguinho colorido fofo e fresco.
— Eu não te amo. — apontei o dedo médio.
Dei uma última mordida no pastel e limpei a boca com o guardanapo. Espreitei o celular da garota. Eu sabia que não havia senha e que Jéssica não reclamava quando eu mexia nele. Para matar o tédio, o apanhei. Assim que desbloqueei o aparelho, um primeiro nome saltou diante dos meus olhos: “Nyah”.
— Tem certeza que quer ver isso? — ela sorriu maliciosamente.
— Hmmmm. Como assim?
— Nada. — a garota encolheu os ombros.
Com a sobrancelha erguida, comecei a ler:
“Curvei-me e dei algumas mordidas na sua virilha. Como previ, uma nova ereção começou a nascer. Lambi a glande de seu pênis e comecei o sexo oral. Cada gemido de Victor era só uma motivação para que eu continuasse e seguisse em frente. Outra vez, o fiz gozar. Olhei para seu rosto vermelho. Sorri. Dali em diante, ele seria meu.
— Tira a merda dessa roupa, por favor. — suplicou.
— Não. — neguei com o dedinho, limpando o rosto na sua camisa.
— Porra!
Ele sentou-se numa velocidade sobre-humana.
— Eu tiro.
Suspirei. Menino teimoso. Deitei-me e o deixei trabalhar. Em poucos segundos, minha calça e cueca tinham sumido. Estranhamente, fiquei nervoso. Nunca fui feio, mas também nunca fui o cara mais bonito do mundo. Não como Victor. Ele segurou meu membro. Era a primeira vez que ele tocava num. Eu sabia. Senti sua língua em meus testículos e fechei os olhos. Por mais que não tivesse prática e não soubesse fazer nada, era bom.”
— Mas que diabo de porra é essa? — pulei da cadeira, largando o celular.
Jéssica cruzou os braços e riu.
— Yaoi ou... Romance gay. Lemon e tals. Costumo ler na internet. Por que tá tão nervosinho?
— Não! Não quero saber mais! — exclamei. Uma galerinha de garotos que estava por perto volveu os olhos na minha direção. Não me importei. Gente fabulosa é para ser observada. — E não tou nervoso! Tudo normal!
Mentira. Minhas mãos tremiam. Eu estava me imaginando no lugar do Victor! E adivinha quem era o outro cara? Pois é. Respirei fundo. Calma, calma. O céu é azul, as nuvens são brancas, o sol é amarelo.
— Eu tenho uma pesada impressão que tu... Ah deixa. — Jéssica ajeitou o cabelo negro num coque firme. — Não tenho certeza. Senta, deixa de ser fresco.
Balancei a cabeça. Um suor gelado escorria de minha testa. Enxuguei-o com o pulso. Afastei a cadeira de plástico e sentei-me.
— Tem impressão de que eu o quê? — indaguei com medo da resposta.
— De que tu é o mauricinho mais enjoado que conheci nessa vida. — ela jogou um guardanapo na minha cara.
— Vai tomar no cu.
Meu Iphone vibrou dentro do bolso. Puxei-o para fora. Era mensagem no WhatsApp de Caio. Franzi o cenho e abri o esquema. E... Meu coração parou.
“Pedro, tu pegou o Gabriel?”
— O que é? — Jéssica indagou preocupada.
— Eu vou matar ele. E agora é sério.
Fale com o autor