Justiça

6 Capítulo VI - Medo


Notas iniciais
Rodada 6, tema "Música K-pop, sendo o trecho: Eu nunca tive a chance de dizer que Eu te amo, que eu te amo Eu joguei fora todo meu orgulho e estou te implorando"

Senti leves mãos nos meus ombros enquanto abria os olhos lentamente. Na minha frente Gian esperava pacientemente eu me recompor. Meus olhos demoraram para se acostumar com a claridade e por um momento não consegui localizar onde estava. Foi quando Antonio surgiu na porta com três copos de café e entregou um para Gian e outro pra mim. Os barulhos eletrônicos, o branco excessivo e a expressão de Antonio me lembrou onde eu estava.

Após o incidente na empresa, corremos para o hospital. Evelyn não havia perdido muito sangue graças a ação rápida e tinha grandes chances de recuperação. Antonio não saiu de seu lado por um só momento, enquanto Gian alertava o batalhão e eu permanecia paralisada por mais uma vez presenciar uma cena daquelas.

Gian tentou me amparar dizendo que eu podia ter tido um grande azar presenciando dois na mesma semana, mas que ele vira coisas piores e eu devia me acostumar. Para mim serviu como afronta, como se ele tivesse dizendo que não era capaz, mas repensei e vi que ele estava certo. Além de ter sido eu mesma a buscar isso, eu devia parar de me afetar com o caso e parece que esse era o grande problema.

Obviamente Gian percebeu e me alertou sobre intimidade com casos e o quanto isso poderia afetar meu julgamento. Ele também fez questão de avisar aos meus superiores minhas ações recentes e isso provavelmente queimou minha imagem com o comando. De certa forma ele estava apenas fazendo seu trabalho, mas fui ingênua ao acreditar que ele havia simpatizado com a minha causa e pretendia me ajudar. Ele só estava seguindo ordens.

Acreditei que o comando mandaria voltarmos ao batalhão imediatamente, porém, como já estava tarde, o capitão nem estava lá e quem respondeu foi o oficial de serviço. Ele apenas recomendou estarmos no batalhão assim que o sol nascer e parecia que era isso que Gian estava fazendo já que não entrava luz pelas janelas e o hospital estava bem silencioso.

— Agradeço por ficarem comigo esta noite. Sei que não precisavam. — Disse Antonio após um gole de café. — Obrigado.

— Não há de quê. — Disse me levantando. — Qualquer coisa esse é o meu número. — Disse-lhe entregando meu cartão.

— Precisamos ir. — Gian alertou.

— Tudo bem. — Juntei minhas coisas. — Se cuide, Antonio.

Me aproximei de Evelyn. Sua pele estava sem cor devido a perda de sangue. Tubos saíam de sua boca e nariz e agulhas perfuravam seu braço, onde entravam medicamentos e soro. Em outro braço havia uma alimentada por sangue, onde ocorria a transfusão. Mesmo não perdendo sangue para morrer imediatamente, o choque para o corpo foi intenso e havia grandes riscos de ocorrer complicações. Como um gesto de carinho, segurei sua mão e me assustei.

— Há algo errado. — Disse olhando para Gian e Antonio. — Ela está ardendo em febre.

Antonio correu na minha direção e colocou a mão em sua testa. Gian entendeu imediatamente o que precisava ser feito e correu pelo corredor á procura de um médico. Busquei uma garrafa de água, enxarquei uma toalha e coloquei em sua testa. Enquanto isso Antonio começou um intenso discurso.

— Mãe, sei que nunca fui um bom filho e nunca serei. E sei também que nunca fui muito sentimental ou carinhoso. — Suas lágrimas já começaram a rolar, enquanto ajoelhava e dizia convicto. — Pelo amor de Deus. Mãe, a senhora sempre me ensinou sobre fé. Sempre me disse que Deus é maior que tudo. Eu não acredito nessas coisas mas eu preciso que você tenha falado a verdade, porque eu não posso te perder.

Paralisada, ouvindo aquilo, com uma lágrima solitária escorrendo pela maçã do meu rosto, houve um ultimato.

— Mãe, por favor, não se vá! Você é a única pessoa que eu tenho. Eu te amo! — Dizia enquanto se ouvia um ruído fino e insurdecedor vindo das máquinas.