Justice Breaker
1 Shall I destroy your sense of justice?
Notas iniciais
Espero que gostem :3
O reflexo do jovem que estava em frente ao espelho finalmente mostrava o que ele estava planejando faz tempos. Seu uniforme militar estava impecável, e até mesmo as pequenas adaptações que ele mesmo havia feito Alguns rasgos e símbolos diferenciados — estavam perfeitamente postas. No canto de sua calça estava presa uma pistola, descarregada. Sua utilidade inicial é apenas para ameaça, mas sua munição estava guardada apenas alguns centímetros ao lado, caso devesse exercer a sua função secundária e tirar a vida de quem seu dono julgar merecer. Sem a usual gravata laçada em seu colarinho, ele estava parecendo um verdadeiro rebelde, mesmo que esta não fosse a imagem que ele pretendesse passar. O que enfatizava ainda mais esta impressão era o seu rosto, coberto pela metade por uma máscara quebrada.
Os Estados Unidos da América já havia passado por muita coisa. Guerras, crises, atentados. O país já havia se envolvido em tantos escândalos que agora, muitos anos no futuro, é um país praticamente destruído. Destruído não apenas fisicamente, mas também internamente. O novo governo dividia o país entre as partes que sobreviveram a destruição, e todas deveriam servir a sua Capital, o lugar onde todos em que lá nasceram viviam nadando em luxúria, enquanto os outros lutavam pela sobrevivência com o pouco que a nação os oferecia. Obviamente, muitos deles não estavam satisfeitos com esta situação, mas todos sabiam o que aconteceria se provocassem uma guerra interna. Entre os que vivem bem, nenhum deles levantava um dedo contra esta discriminação sem utilidade.
Alfred, provavelmente, é o único.
Muitos o chamaram de louco. Olha só ele. Se revoltando desta maneira por coisas que há séculos fazem parte do nosso cotidiano. Ele não consegue entender que sozinho não mudará esta realidade? eles disseram. Mas na verdade, nenhum deles estava realmente prestando atenção no que ele estava protestando por, mas sim apenas no fato de ele estar sendo contra algo. Porque este algo obviamente não interessava a nenhum deles.
Alfred sabe que eles não entenderiam. Além do mais, eles são apenas meros cidadãos. Eles não viram metade das coisas que o jovem já havia visto.
Sortudos. É esta a impressão que Alfred tem deles. Sortudos, mas coitados. São todos cegos. Não podem ver a realidade que os contorna. É claro que não entendem. Elas nunca estiveram em uma guerra. Nunca tiveram a sensação de matar pessoas inocentes, pela única justificativa de serem nascidos em certo país. Nunca viram o que acontece melhor, está acontecendo com os soldados de suas nações, enquanto eles estão no conforto de suas casas tomando chá da tarde. Nunca pararam para pensar no número de pessoas que já morreram, sem uma real necessidade, para protegê-las.
Por exemplo, para escreverem um romance melodramático. Tudo o que eles devem fazer é matar a heroína gentil e protetora, certo? Eles dirão: "Se ela morrer, todos vão chorar." Mas na verdade, ninguém nunca pensa mais longe do que isto. Esta tal heroína poderia ter sido qualquer um, e é certeza de que a maioria não faria nada para merecer este título. Eles deixariam a situação passar em frente aos seus olhos, mas não fariam nada. Eles teriam medo. Medo da morte.
Mas o que fez esta heroína para ser considerada assim? Ela não teve este medo. Ela se sacrificou por outros. E o que ela ganhou em troca disto? A morte. E então, chegam eles. Não existem coisas como sonhos, eles dirão. Este é o tipo de realidade sem esperança em que vivemos. Esta é a realidade.
Ele costumava amar o mundo. Amava as expectativas para o futuro, amava os fatos do passado, mas principalmente amava a situação em que estava presente. Mas a vida dele mudou significativamente após ir para a guerra. E então se dispersou todo o brilho. Aquelas eram apenas as minhas memórias de tempos passados, ou as minhas expectativas futuras. Eu estava cego, como todos eles ainda estão. Agora abertos, aqueles olhos que já viram de tudo no mundo não puderam agarrar sequer um fio de esperança.
E assim, o nosso protagonista percebeu: Nós não precisamos deste tipo de hipocrisia. Ele resolveu que, finalmente, mudaria o senso de justiça deles.
Apenas expressar suas opiniões não fora o suficiente. Se você quiser aproveitar o futuro agora, livre-se de suas ilusórias fantasias neste instante. Ele dizia. Não é bom ter um pouco de sinceridade? Não precisa ter medo disso. Mas sequer uma pessoa ouviu seus conselhos. Além de cegos, eles também estão surdos. Não conseguem entender o está realmente acontecendo ao redor, pelo simples fato de estarem felizes com suas ilusões mundanas e repetitivas. A rotina destas pessoas é tão agradável que elas não se importam em olhar para seus semelhantes que estão em situações piores. E então, ele se decidiu: Eu irei contar sobre todas as coisas que eu já vi até agora. Não apenas contar: eu irei mostrar. E nós conseguiremos mudar o mundo com a verdade escondida, então seremos nós que estaremos rindo no final.
Esta decisão pairava por sua mente, enquanto inconscientemente um sorriso surgiu em frente ao espelho. Um sorriso que demonstrava exatamente as suas intenções: Se eles não conseguiam entender apenas com revelações, que entendessem com atos.
A máscara rachada havia sido encontrada em meio a uma guerra que ele participara. Entre os destroços e cadáveres de uma vila a qual ele e seus companheiros destruíram, Alfred conseguiu enxergar. Uma criança que aparentava não ter chegado aos seus 12 anos de idade, caída ao chão. O ar não mais lhe invadia os pulmões, e seu corpo estava totalmente imóvel. Seus olhos estavam cerrados, e mesmo que não tivesse motivos para tal, sua face emanava algo parecido com tranqüilidade. Um observador desatento poderia insinuar que ela estivesse dormindo profundamente, se não fosse pela marca de bala em sua testa. Aquela criança inocente, que provavelmente estivera brincando minutos antes do ataque, jazia sem vida ao chão. Agarrada aos seus dedos, uma máscara engraçada despertou a atenção do jovem soldado. Rachada ao meio, o que antes era o fruto de uma diversão infantil tinha um desenho de palhaço, pintado sutilmente com uma tinta rosada. A imagem daquela criança raquítica sendo feliz apenas com aquele pequeno objeto de madeira passou pela sua mente, e conseguiu a abalar de maneira inigualável. Foi neste exato momento que Alfred conseguiu enxergar, pela primeira vez, o que os outros não conseguem.
Ele levou o objeto consigo. Levou, e jurou ao corpo da criança falecida que a vingaria. Vingaria ela e tantas outras, tantas mães de família, tantos humanos inocentes que foram vítimas da futilidade dos seus parentes de melhores recursos. Também prometeu a si mesmo que mostraria ao mundo a visão que ele mesmo teve, abriria os olhos destas pessoas como os seus olhos foram abertos. Assim, a sua justiça seria feita. E finalmente, chegara a hora de cumprir estas promessas. Mas elas não foram. Pelo menos, não agora.
Ele se ajeitou uma última vez no espelho, a fim de garantir a excentricidade de sua própria imagem. Saiu da pequena pousada onde havia se hospedado apenas por aquela noite, e se dirigiu a praça. A praça onde no momento milhares, talvez dezenas de milhares de pessoas estavam esperando algum anúncio importante, previamente avisado que deveria ser do estado. Para Alfred, não foi nada difícil invadir o sistema do governo e transmitir uma falsa mensagem. Posicionou sua máscara no intuito de não permitir que sua identidade fosse facilmente reconhecida, pelo menos não de cara. Subiu lentamente ao palanque, e a sua platéia esperava pacientemente por uma mensagem que nunca viria. O que eles escutaram fora completamente diferente do que qualquer um dos presentes pudesse imaginar.
_Muito obrigado a todos os presentes nesta situação honrosa que hoje estamos presenciando. Antes de tudo, eu gostaria de avisar que eu não sou de nenhum órgão governamental, e gostaria de me desculpas previamente por isto. Infelizmente, esta foi a única maneira que consegui encontrar de alertá-los sobre o que estou prestes a comentar. Mais uma vez, seu sorriso se abriu de maneira sombria, porém, desta vez, mais discreta. — Eu irei contar sobre todas as coisas que eu já vi até agora.
_Senhoras e senhores, por favor pensem sobre o que eu direi neste momento. Alguma vez os senhores já foram realmente honestos com si próprios? Eu aposto que não. Algum de vocês aqui já imaginou, por algum acaso, o que pessoas menos favorecidas estão fazendo neste momento? Pessoas que não tem rios de dinheiro para gastar em beleza, estudos e nem mesmo comida. Eu sei que a maioria aqui nunca pensou desta maneira antes. E é por isto que eu me permito dizer estas palavras: Se vocês quiserem aproveitar o futuro agora, livrem-se de suas ilusórias fantasias neste instante.
_Vocês alguma vez já estiveram totalmente seguros de que este modo de governo racista é o correto? Não. Vocês todos só seguem este militarismo por que suas vidas são tão cheias de luxo que não se dão ao trabalho nem de pensar. A esta altura, a polícia já estava adentrando o local. Mas isto não fez o jovem parar, ao contrário, ele acelerou suas informações. Procurem saber quem são as pessoas que estão exercendo o poder sobre vocês. Procurem saber o que estas pessoas andam fazendo para com nossos parentes distantes, que podem estar jogados em alguma esquina de uma cidade longínqua, sem comida há dias, definhando até a morte. Pensem, pelo menos uma vez na vida de vocês, que existe mais do que o próprio mundinho rico de que vocês fazem parte. Pensem em como era o nosso passado. Diga que você riu dos mentirosos inúteis; Dizer que você riu dos hipócritas deste governo; Digam a eles que nada irá mudar! Diga que nós não iremos desaparecer! Livrem-se destas ilusões, antes que isso tudo seja tarde demais. Soldados cercaram o palanque, e algumas pessoas começaram a sair calmamente do local. Muitas ficaram para ver o que aconteceria, e algumas permaneceram lá, refletindo sobre suas palavras. Alfred retirou a máscara e a jogou no chão antes de proferir suas últimas palavras. Vão. Destruam o senso de justiça destes hipócritas, e vão em frente. Revolucionem. Sobrevivam. Mas fujam também. Porque, infelizmente, eu acabei de ser pego por eles.
O sorriso obscuro alargou-se por todo o seu rosto. Infelizmente, este é o tipo de realidade em que nós vivemos. Por enquanto. Um estrondo ecoou, e logo depois foi possível ver o corpo de nosso breve herói caído no chão. Ele sabia que não havia morrido em vão. Muitas pessoas ouviram suas palavras, e com certeza haverá divulgação. O resto de seu trabalho será feito por outro herói, que provavelmente terá seu mesmo destino. Mas isto não importa, heróis são feitos para isso. Pois no fim de tudo, serão eles que estarão rindo no final
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