Justiça por assinatura
4 capítulo 3
Diana
A viúva não chorava. Estava sentada com as mãos pousadas sobre a mesa, rígidas demais para alguém que já tivesse se permitido desabar. O copo de café à sua frente permanecia intacto. Frio. Assim como tudo naquela história.
— Disseram que foi intoxicação acidental — disse, por fim. A voz firme demais para quem acabara de perder o marido. — Que ele tomou uma dose maior do que a recomendada.
Assenti, mais por educação do que por concordância, enquanto examinava o laudo médico no tablet. Documento limpo, linguagem técnica, conclusões objetivas. Um texto cuidadosamente escrito para encerrar perguntas.
— Segundo eles, isso acontece — continuou. — Que é comum.
Comum é uma palavra extremamente funcional.
Deslizei o dedo pela tela. Horário estimado da morte: entre duas e quatro da manhã. Atendimento de emergência acionado às quatro e vinte. Declaração assinada por um médico plantonista cujo nome eu já tinha visto antes. Sempre em casos rápidos.
— Disseram que ele devia estar cansado — acrescentou. — Estressado. Que gente sob pressão comete erros.
Parei na lista de substâncias detectadas. Um sedativo de ação curta chamou minha atenção.
— Ele fazia uso desse medicamento? — perguntei.
— Não. Nunca.
O laudo indicava “uso regular conforme prescrição”. Nenhum número de receita. Nenhuma data. Apenas a afirmação genérica que costuma bastar quando ninguém pretende conferir.
— Ele era obcecado com horários — disse ela. — Tinha alarme para tudo. Remédios, comida, sono. Se atrasasse cinco minutos, ficava nervoso.
Pessoas assim não erram dosagem por descuido. Erram por intervenção.
Ampliei os resultados do exame toxicológico.
— Aqui eles afirmam que a ingestão foi gradual, ao longo da noite — comentei. — Um acúmulo incompatível com uso seguro.
Ela franziu a testa.
— Ele não faria isso.
— Eu sei.
Apontei para um detalhe pequeno demais para incomodar quem só queria encerrar o caso.
— A concentração no sangue indica pico súbito, não acúmulo progressivo. Isso não acontece por esquecimento ou erro de horário. Acontece quando alguém recebe tudo de uma vez.
Ela respirou fundo, como se estivesse segurando o ar desde o início da conversa.
— Eles disseram que foi negligência.
— O sistema adora essa palavra — respondi. — Negligência não exige culpado. Só silêncio.
Marquei o laudo no tablet.
Ali ainda não havia prova de assassinato.
Mas havia algo mais útil: uma mentira técnica.
E mentiras técnicas são frágeis. Quando puxadas pelo ponto certo, costumam derrubar tudo o que foi construído em cima delas.
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