Justiça por assinatura
36 Capítulo 35
Diana
Depois de dias na estrada, cruzamos a fronteira e conseguimos estadia numa pousada nas montanhas. Longe do centro, longe demais para que qualquer coisa importante acontecesse — exatamente o que precisávamos. O tipo de lugar onde o som mais alto era o vento batendo nas árvores e o silêncio não parecia ameaça.
Depois do que vimos nos últimos dias, aquilo era quase irreal.
Protestos que começavam pacíficos e terminavam em confronto.
Ruas tomadas.
Sirenes.
Gente correndo sem saber exatamente de quê. Um país inteiro lembrando, ao mesmo tempo, que tinha sido empurrado para o limite.
Liguei a TV mais por hábito do que por curiosidade.
O noticiário local falava sobre o caso Justiça por assinatura — o nome que deram ao vazamento. Direto. Eficiente. Cruelmente adequado.
E então eu vi ele.
Roberto estava sentado ao lado do entrevistador. Terno escuro. Postura controlada. Olhos vermelhos na medida certa. Aumentei o volume imediatamente.
— …como eu já disse em outro programa, eu não sabia da existência desse esquema — ele dizia. — Sempre atendi meus pacientes com total esmero…
Chamei Sofia com um gesto seco.
— Ele está chorando — ela murmurou, parando ao meu lado.
— Performance — respondi.
— Você estava certa — ela disse depois de alguns segundos. — Ele não é confiável mesmo.
Na TV, Roberto levava a mão ao rosto.
— Eu precisava fazer algo… não podia continuar vendo meus pacientes… — a voz embargou. — Me desculpem…
O entrevistador estendeu um lenço.
Roberto aceitou.
Filho da puta.
Às vezes eu odeio quando estou certa.
— Pelo menos, com ele assumindo toda a culpa, a gente fica fora disso — Sofia comentou, sempre tentando encontrar um ponto de luz no meio do incêndio.
Por que a minha irmã precisa achar algo positivo até no desastre?
Não respondi. Fiz apenas uma careta de deboche e deixei o dia seguir seu curso lento. O tipo de tarde que parece suspensa no tempo, como se o mundo estivesse prendendo a respiração.
Já era noite quando Tony ligou.
— Cruzei a fronteira — disse. — Chego aí em algumas horas.
— Roberto está com você? — perguntei, mesmo sabendo a resposta.
— Não.
Claro que não estava.
Ele estava em todos os jornais.
Tony chegou pouco depois. Estávamos sentadas à mesa pequena da pousada, dividindo uma caixa de comida chinesa gordurosa demais para o lugar elegante demais para aquilo. Ele largou a mochila no chão e se sentou sem dizer nada.
A TV ainda estava ligada.
O plantão interrompeu a programação.
A imagem apareceu sem aviso: Roberto caído no chão, o corpo parcialmente coberto, um borrão apressado onde deveria haver dignidade. Exclusivo, dizia a tarja. Fonte próxima à investigação aponta execução.
O último ato do sistema foi matar o homem que falou.
Ninguém disse nada por alguns segundos.
Era quase poético.
Quase.
O sistema não surgiu da noite para o dia.
E eu não tenho a ingenuidade de achar que ele vai desaparecer assim — com uma revelação, uma manchete ou um escândalo bem documentado.
Sistemas como esse não caem.
Eles apodrecem devagar.
Mas agora o funcionamento foi exposto.
As engrenagens estão visíveis.
Os nomes existem.
E, mais importante: as pessoas que faziam isso funcionar sabem exatamente o papel que desempenharam.
Ninguém pode mais dizer que não sabia.
Ninguém pode fingir que era só procedimento, só protocolo, só eficiência.
Quando você aceita que a vida de alguém pode ser ajustada, readequada ou descartada por custo, você já colocou as mãos no sangue — mesmo que nunca tenha encostado em uma arma.
A cortina foi aberta.
A sujeira sempre esteve ali.
Mas agora não está mais escondida atrás de gráficos, relatórios ou palavras técnicas.
Não é só este país que vê.
O mundo vê.
Vê o que acontece quando o direito à vida vira um serviço.
Quando justiça tem prazo, tabela e assinatura mensal.
Eu não sou otimista.
Nunca fui.
Mas ainda espero que a culpa, a vergonha e o desconforto façam o que leis e promessas não conseguiram: impedir que isso seja esquecido.
Porque sistemas assim não sobrevivem só de poder.
Eles sobrevivem de memória curta.
E talvez — só talvez — lembrar seja o primeiro ato real de resistência.
Fale com o autor