Diana

Depois de dias na estrada, cruzamos a fronteira e conseguimos estadia numa pousada nas montanhas. Longe do centro, longe demais para que qualquer coisa importante acontecesse — exatamente o que precisávamos. O tipo de lugar onde o som mais alto era o vento batendo nas árvores e o silêncio não parecia ameaça.

Depois do que vimos nos últimos dias, aquilo era quase irreal.

Protestos que começavam pacíficos e terminavam em confronto.

Ruas tomadas.

Sirenes.

Gente correndo sem saber exatamente de quê. Um país inteiro lembrando, ao mesmo tempo, que tinha sido empurrado para o limite.

Liguei a TV mais por hábito do que por curiosidade.

O noticiário local falava sobre o caso Justiça por assinatura — o nome que deram ao vazamento. Direto. Eficiente. Cruelmente adequado.

E então eu vi ele.

Roberto estava sentado ao lado do entrevistador. Terno escuro. Postura controlada. Olhos vermelhos na medida certa. Aumentei o volume imediatamente.

— …como eu já disse em outro programa, eu não sabia da existência desse esquema — ele dizia. — Sempre atendi meus pacientes com total esmero…

Chamei Sofia com um gesto seco.

— Ele está chorando — ela murmurou, parando ao meu lado.

— Performance — respondi.

— Você estava certa — ela disse depois de alguns segundos. — Ele não é confiável mesmo.

Na TV, Roberto levava a mão ao rosto.

— Eu precisava fazer algo… não podia continuar vendo meus pacientes… — a voz embargou. — Me desculpem…

O entrevistador estendeu um lenço.

Roberto aceitou.

Filho da puta.

Às vezes eu odeio quando estou certa.

— Pelo menos, com ele assumindo toda a culpa, a gente fica fora disso — Sofia comentou, sempre tentando encontrar um ponto de luz no meio do incêndio.

Por que a minha irmã precisa achar algo positivo até no desastre?

Não respondi. Fiz apenas uma careta de deboche e deixei o dia seguir seu curso lento. O tipo de tarde que parece suspensa no tempo, como se o mundo estivesse prendendo a respiração.

Já era noite quando Tony ligou.

— Cruzei a fronteira — disse. — Chego aí em algumas horas.

— Roberto está com você? — perguntei, mesmo sabendo a resposta.

— Não.

Claro que não estava.

Ele estava em todos os jornais.

Tony chegou pouco depois. Estávamos sentadas à mesa pequena da pousada, dividindo uma caixa de comida chinesa gordurosa demais para o lugar elegante demais para aquilo. Ele largou a mochila no chão e se sentou sem dizer nada.

A TV ainda estava ligada.

O plantão interrompeu a programação.

A imagem apareceu sem aviso: Roberto caído no chão, o corpo parcialmente coberto, um borrão apressado onde deveria haver dignidade. Exclusivo, dizia a tarja. Fonte próxima à investigação aponta execução.

O último ato do sistema foi matar o homem que falou.

Ninguém disse nada por alguns segundos.

Era quase poético.

Quase.

O sistema não surgiu da noite para o dia.

E eu não tenho a ingenuidade de achar que ele vai desaparecer assim — com uma revelação, uma manchete ou um escândalo bem documentado.

Sistemas como esse não caem.

Eles apodrecem devagar.

Mas agora o funcionamento foi exposto.

As engrenagens estão visíveis.

Os nomes existem.

E, mais importante: as pessoas que faziam isso funcionar sabem exatamente o papel que desempenharam.

Ninguém pode mais dizer que não sabia.

Ninguém pode fingir que era só procedimento, só protocolo, só eficiência.

Quando você aceita que a vida de alguém pode ser ajustada, readequada ou descartada por custo, você já colocou as mãos no sangue — mesmo que nunca tenha encostado em uma arma.

A cortina foi aberta.

A sujeira sempre esteve ali.

Mas agora não está mais escondida atrás de gráficos, relatórios ou palavras técnicas.

Não é só este país que vê.

O mundo vê.

Vê o que acontece quando o direito à vida vira um serviço.

Quando justiça tem prazo, tabela e assinatura mensal.

Eu não sou otimista.

Nunca fui.

Mas ainda espero que a culpa, a vergonha e o desconforto façam o que leis e promessas não conseguiram: impedir que isso seja esquecido.

Porque sistemas assim não sobrevivem só de poder.

Eles sobrevivem de memória curta.

E talvez — só talvez — lembrar seja o primeiro ato real de resistência.


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