Diana

A viagem era longa.

E, conforme os dias passavam, as cidades iam mudando diante dos nossos olhos.

No começo, eram pequenos grupos. Pessoas reunidas em praças, cartazes improvisados, vozes que ainda soavam cautelosas. Protestos pacíficos, quase tímidos. Depois, vieram os gritos mais altos, os bloqueios de rua, os rostos cobertos. Em algumas cidades, o que vimos já não podia ser chamado de manifestação — era confronto.

A polícia tentava conter. Tentava.

Mas parecia tarde demais.

Anos de sucateamento, desmoralização e destruição da própria instituição cobravam seu preço. Agora que realmente eram necessários, simplesmente não estavam mais ali. Ou estavam em número insuficiente. Ou não tinham mais legitimidade alguma.

Observei pela janela do ônibus um grupo correndo quando uma bomba de efeito moral explodiu perto demais. O som ecoou no peito.

— O que será que aconteceu, Sossô? — perguntei, sem tirar os olhos da rua.

Sofia também observava, tensa.

— A gente sabia que o Tony ia soltar a bomba envolvendo as milícias… — disse ela, devagar. — Mas isso aqui… isso não é só isso.

Concordei em silêncio.

— Não tem como isso ter sido só pelo Tony — continuei. — Vou tentar achar alguma coisa na rádio.

Girei o botão até captar um sinal mais limpo. A voz que surgiu não deixou espaço para dúvida.

É, meus queridos ouvintes… médicos, seguradoras e milícias formando um verdadeiro esquadrão de extermínio da população pobre. — o locutor cuspiu as palavras. — Nunca imaginei que viveria para ver tamanho descaso, tamanha falta de humanidade e respeito pela vida humana.

Eu e Sofia nos entreolhamos no mesmo instante.

— O Tony não ia soltar tudo de uma vez — ela disse.

Assenti.

— Então foi o Roberto? — perguntei. — Mas o que ele ganharia com isso?

Sofia respondeu sem hesitar:

— Redenção.

Soltei uma risada curta, sem humor.

— Ele sempre vai ser lembrado como o cara que expôs o sistema — continuei. — Muito conveniente virar o mocinho agora.

— Acha mesmo? — ela retrucou. Havia um brilho sincero ali. Esse otimismo… sempre me incomodou.

— Quer mesmo saber minha opinião? — perguntei.

— Quero.

Respirei fundo antes de dizer:

— Acho que ele não estava puto com o sistema desde o começo. Acho que ele ficou chateado com você. Por ter se sentido enganado.

Ela fez um gesto imediato de protesto, mas não interrompeu.

— Depois — continuei — ele ficou com raiva de verdade. Porque mesmo servindo fielmente, mesmo se dobrando, o sistema nunca o aceitou. Ele percebeu que sempre seria um intruso.

Sofia ficou em silêncio.

— Nós demos a ele a chance perfeita de redenção — concluí. — E ele agarrou. Não por altruísmo puro. Mas porque era a única forma de sair dessa história sem ser apenas mais um nome descartável.

O ônibus seguiu pela estrada.

Lá fora, o mundo começava a ruir.

E, pela primeira vez, não parecia haver ninguém no controle.