Tony

Capítulo — Tony

Expliquei o caminho duas vezes.

Não porque elas não fossem capazes de entender na primeira, mas porque repetir instruções dá a falsa sensação de controle.

— Cruzem pelo sul. Nada de paradas longas. Se algo sair do combinado, mudem tudo. Rota, nome, humor — falei, olhando mais para o mapa do que para elas.

Passaportes falsos, documentos provisórios, dinheiro dividido em três bolsos diferentes. O básico para sobreviver quando o Estado deixa de existir — ou pior, quando ele existe demais.

Enquanto falava, minha cabeça já estava em outro lugar.

As seguradoras não iam cair por moral.

Nunca caem.

Mas milícia cai por dinheiro.

E, principalmente, por traição percebida.

Eu sabia exatamente para quem entregar os dados.

Muitos daqueles homens já tinham sido policiais em outras vidas. Antes de farda trocada, antes de aprenderem que o distintivo só muda de bolso. Eles entendiam números. Entendiam porcentagem. E entendiam muito bem quando alguém estava ficando com a parte maior.

O destino das meninas, eu não sabia.

Isso me incomodava.

Passei tempo demais achando que precisava saber de tudo para proteger alguém. Hoje sei que, às vezes, a melhor proteção é a ignorância honesta. Não tenho como dizer o que não sei. Não posso entregar o que não conheço.

Isso me deu paz. Um tipo torto de paz, mas suficiente.

Entreguei os passaportes.

— Boa sorte — disse, sem dramatizar.

Não abracei. Não fiz promessa. Não disse para tomarem cuidado. Quem vive como elas vivem não precisa desse tipo de conselho.

Observei até sumirem no fluxo de gente comum. Gente que ainda acredita que o mundo funciona por regras claras.

Depois, fui cuidar da outra parte.


O bar era ruim.

Do tipo que não aparece em aplicativo nenhum.

Luz amarela demais, chão grudando, copos que nunca ficam realmente limpos. Perfeito para conversas que não querem ser lembradas.

Sentei no fundo. Pedi uma cerveja quente. Esperei.

Eles chegaram aos poucos. Sempre chegam.

Ex-policiais reconhecem o cheiro uns dos outros mesmo depois de anos fora da corporação.

Conversa curta. Nenhuma pergunta desnecessária.

Coloquei o pen drive sobre a mesa e empurrei na direção do contador.

— Aqui tem os números dos planos de segurança — disse. — Lucro bruto, repasse real, diferença percentual.

Ele não tocou no pen drive de imediato.

Homem inteligente.

— Quer o quê com isso? — perguntou.

— Uma análise — respondi. — Simples. Quanto entra. Quanto sai. Quem fica com o quê.

Ele finalmente pegou o dispositivo.

— Se isso for verdade… — começou.

— É — interrompi. — E não chega nem perto de dez por cento do que vocês acham que recebem.

Silêncio.

Não era surpresa.

Era confirmação.

Dei um gole na cerveja e levantei.

— Quando os números fecharem, vocês decidem o que fazer — falei. — Eu já decidi.

Saí antes que alguém perguntasse mais.

O caos não precisa de plateia.

Só de informação no lugar certo.

E naquela noite, pela primeira vez em muito tempo, tive certeza de uma coisa:

o sistema ia começar a se devorar por dentro.