Justiça por assinatura
32 Capítulo 31
Diana
Esse já era o quarto ou quinto hotel de beira de estrada em que dormíamos.
Perdi a conta depois do terceiro. A lógica era sempre a mesma: a cada quatro dias, mudávamos para outro lugar barato demais para criar perguntas e feio demais para virar memória. Durante o dia, parávamos apenas o suficiente para comer alguma coisa quente, tomar banho rápido e analisar o material que o Roberto vinha trazendo — além, claro, do que tínhamos tirado da casa da dona Consuelo.
A vida tinha virado isso: malas sempre meio abertas, café ruim, arquivos espalhados sobre camas que ninguém queria deitar por muito tempo.
Foi ali, num quarto com carpete manchado e uma lâmpada que piscava sem compromisso com a própria função, que Roberto apareceu de novo.
Tony entrou primeiro, como sempre. Olhou o corredor antes de fechar a porta. Roberto veio logo atrás, carregando uma pasta fina demais para quem dizia estar “reunindo coisas”.
Ele não se sentou.
Nunca sentava.
Abriu a pasta e tirou dois folhetos dobrados ao meio. Papel grosso. Acabamento limpo. Cores neutras demais para algo que não deveria existir.
Jogou os dois sobre a cama.
— Estão circulando — disse. — Em clínicas, seguradoras, empresas parceiras. Lugares onde vocês não vão mais ser atendidas. Nem vistas.
Peguei o primeiro.
Reconheci o padrão antes mesmo de ler o título. Aquela diagramação institucional. A falsa neutralidade de quem chama exclusão de política interna.
PERSONA NON GRATA
Em letras que não gritavam — apenas informavam.
Abaixo, minha foto.
Nome completo.
Documento.
Observação genérica demais para ser inocente.
Peguei o segundo.
Sofia.
Senti algo ceder por dentro. Não foi pânico. Foi cálculo quebrando.
— Então… — Roberto inclinou a cabeça, olhando para ela. — Quer dizer que o seu nome é Sofia. Muito prazer.
O tom não era exatamente debochado. Era algo pior: uma ironia cansada, cheia de farpas acumuladas.
Sofia não respondeu de imediato. Estava imóvel na cadeira dura encostada na parede, as mãos apoiadas nos joelhos, como se o corpo tivesse decidido ficar quieto para não denunciar nada.
— Onde você conseguiu isso? — perguntei.
— Não importa — ele respondeu. — O que importa é que agora é oficial.
Oficial.
Essa palavra sempre me deu mais medo do que ameaça.
Passei os olhos de novo pelo papel. Pela minha foto, tirada de algum arquivo que eu jurava morto. Pelo texto que me reduzia a um risco administrativo.
Soltei um riso curto. Não foi engraçado. Foi reflexo.
— Bom — falei, dobrando o folheto com cuidado demais. — Acho que não preciso mais me preocupar com a reavaliação da minha licença. Ela já deve ter ido por água abaixo mesmo.
Tony me lançou um olhar rápido, daqueles que pedem menos ironia e mais atenção. Ignorei.
— Isso não é só aviso — continuei. — É mapa. Estão dizendo onde a gente não pode ir. Onde não pode pedir ajuda. Onde não existe.
— Exato — Roberto disse. — Agora vocês sabem o tamanho do território.
Sofia finalmente levantou o olhar.
— E você? — perguntou. — Também ganhou um desses?
Roberto hesitou. Foi mínimo. Mas vi.
— Ainda não — respondeu. — Acho que eu ainda sirvo pra alguma coisa.
Guardei os folhetos na pasta junto com o resto do material.
— Por enquanto — eu disse.
Ele assentiu.
O quarto pareceu menor de novo. Não pelo espaço. Pelo futuro.
Não era mais só vigilância.
Não era mais só silêncio.
Era um carimbo.
E carimbos não pedem permissão.
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