Diana

Dois dias de silêncio desde a conversa com o Roberto.

Silêncio demais para alguém que disse estar buscando coisas.

Ele mandou uma única mensagem para o Tony. Vaga. Cuidadosa demais. Disse que estava reunindo material, mas não especificou o quê, nem quando entregaria. Para mim, isso não era prudência — era margem de fuga.

Não confio nele.

Sofia prefere acreditar que a raiva vai nos unir. Que existe algum tipo de ética tardia nas pessoas cansadas. Eu acho isso ingenuidade, mas guardei a opinião onde ela não machuca: dentro.

Não estamos dormindo bem. E quando estamos acordadas, falamos pouco. Não por briga — por exaustão. Toda essa tensão vem drenando o que ainda restava de nós duas.

Além disso, estamos morando em hotéis. Já trocamos de hotel desde que falamos com ele. Viver como nômade desgasta mais do que parece. Não é só carregar malas. É não criar raiz em lugar nenhum. É nunca baixar a guarda. É sempre dormir com metade da mente acordada.

Não vou começar uma briga acusando o Roberto de ser um vira-casaca.

Seria injusto.

Afinal, eu não o culparia se ele fosse.

O que nós oferecemos a ele?

O que ele ganharia com isso?

Eu não sei o que faria na situação dele.

Quem, em sã consciência, luta contra o sistema ao lado de um trio como o nosso?

Enquanto eu girava nesses pensamentos circulares, Sofia pegou o computador.

— Vamos — disse, sem olhar para mim. — Você tem que levantar dessa cama. Está adiando há dias para responder esse questionário da revalidação da sua licença.

Suspirei.

— Que diferença faz? Eles provavelmente vão cancelar minha licença.

Não era pessimismo. Era estatística.

— Desde quando você desiste sem lutar? — Ela finalmente me encarou. — Já estamos no inferno. Agora abraça o capeta.

— Eu sou uma péssima influência pra você.

Ela sorriu de lado.

— Disso nós duas concordamos. Anda. Levanta essa bunda daí.

Resmunguei, mas sentei. Peguei o notebook.

— Ok. Vou preencher o formulário. O não eu já tenho. Agora é só ir atrás da humilhação.

Responder aquele questionário era como prestar contas a um sistema que já tinha decidido minha sentença. Datas. Cursos. Declarações de conduta. Compromissos éticos que ele mesmo violava diariamente.

Eu estava na terceira página quando ouvi a batida na porta.

Três batidas.

Pausa.

Três batidas de novo.

Tony.

Sofia levantou antes de mim. Abriu a porta só o suficiente para confirmar. Tony entrou rápido — e empurrou Roberto para dentro logo em seguida.

O quarto pareceu menor.

Roberto não sentou.

— Eu trouxe nomes — disse, direto.

Tony fechou a porta. Trancou.

Roberto abriu a mochila e espalhou papéis dobrados sobre a mesa.

— Aqui — apontou para a primeira lista. — Médicos. Como eu. Encaminhamentos. Assinaturas. Datas. Quem autorizou. Quem se beneficiou.

Me aproximei. Comecei a ler.

No terceiro nome, senti o estômago afundar.

No quinto, minha mão começou a tremer.

No sétimo, precisei apoiar os dedos na mesa para não perder o equilíbrio.

— Esse… — minha voz falhou antes mesmo de virar frase.

Reconheci o nome.

Não de processos.

De relatórios internos.

De reuniões fechadas que não deixavam registro.

Um nome que não aparecia em papel nenhum — porque não precisava.

Engoli em seco.

— Você tem noção do que isso significa? — perguntei, sem olhar para ele.

— Tenho — respondeu Roberto. — Por isso demorei.

Havia uma segunda folha. Menor.

— E isso? — perguntei.

— Pessoas que podem ajudar.

Olhei de novo. Depois para ele.

— Por quê? — perguntei. — Por que eles nos ajudariam?

Ele hesitou. Foi pouco, mas foi real.

— Porque estão cansados — disse. — Assim como eu.

— Cansados não mudam de lado — retruquei. — Cansados aprendem a se esconder melhor.

Ele sustentou meu olhar.

— Não são os mesmos motivos que os fizeram cansados. Cada um sofreu de um jeito. Cada um carrega um fardo diferente.

Fechei os olhos por um instante.

Aquela lista não era só prova.

Era uma sentença.

Para eles.

Para nós.

— Isso não explode — falei. — Isso incinera.

Roberto assentiu.

— Eu sei.

Fechei a pasta devagar.

— Vamos analisar tudo isso — disse. — Com cuidado.

Ele não pareceu aliviado.

Parecia consciente do preço.

E naquele momento entendi: não era a coragem dele que me assustava.

Era o fato de que, depois daquilo, ninguém ali ainda estava fora do jogo.