Diana

O lugar não era neutro.

Nenhum lugar é, quando alguém chega com raiva demais para fingir educação.

O quarto de hotel era um pouco melhor do que o anterior. Lençóis limpos. Cortinas grossas. Um cheiro persistente de desinfetante barato tentando disfarçar histórias antigas. Bom o suficiente para não levantar suspeitas. Ruim o bastante para ninguém prestar atenção.

Tony avisou que ele estava a caminho. Não disse Roberto. Disse o médico. Como se o nome já fosse um risco desnecessário.

Sofia permanecia sentada numa cadeira encostada na parede, postura rígida demais para parecer casual. Mãos apoiadas nos joelhos. Olhar atento. Não estava confortável — estava preparada. Conheço esse estado. É quando ela está pronta para correr ou para reagir, dependendo de quem der o primeiro passo.

Quando a batida veio à porta, não houve sobressalto. Só confirmação.

Abri.

Ele estava ali. Olhos fundos. Ombros tensos. O rosto carregava marcas que não eram exatamente feridas, mas também não eram cansaço comum. Era o tipo de desgaste que não se resolve com sono.

— Entra — disse, sem gentileza.

Ele entrou. Olhou rápido ao redor. O quarto. As paredes. A distância entre nós. Como quem mede território, tentando entender se aquilo era abrigo ou armadilha.

— Então — disse, antes que alguém perguntasse qualquer coisa —, qual é o nome dela mesmo?

A pergunta não veio curiosa. Veio ferida.

Sofia levantou o olhar devagar, sem sair da cadeira.

— Você sempre me conheceu como Luzia.

Ele soltou um riso curto. Sem humor.

— Luzia não existe. — Olhou para mim. — Nenhum de vocês existe de verdade, não é?

— Você está irritado — respondi. — E com razão. Mas não está no direito de fazer exigências.

Ele virou para mim rápido demais.

— Eu fui arrastado para uma sala branca. Fui interrogado por horas. Mostraram fotos dela. — Apontou para Sofia sem encará-la. — E agora estou aqui, sem saber nem com quem estou falando de verdade.

— Você escolheu se envolver — Sofia disse, a voz firme. — Ninguém te forçou a se aproximar de mim.

O maxilar dele travou por um instante.

— Eu escolhi você achando que era só mais uma pessoa tentando sobreviver. — A voz baixou. — Não alguém no meio de uma guerra.

— Guerra não escolhe participantes — respondi. — Só vítimas e cúmplices. Às vezes, os dois ao mesmo tempo.

Ele respirou fundo. Caminhou alguns passos pelo quarto estreito. Parou perto da janela, mas não a abriu. Não olhou para fora.

— Vocês sabem meu nome — disse, como quem enumera perdas. — Sabem onde moro. Onde trabalho. Sabem como me pressionar.

Virou-se devagar.

— Eu não sei o nome real de ninguém aqui.

— Você faz parte do sistema — respondi. — Isso já te dá mais informação do que imagina.

Ele riu, amargo.

— Parte do sistema? — repetiu. — Eu sou tolerado por ele. Nunca parte.

O silêncio que se seguiu foi denso. O tipo de silêncio que ocupa espaço demais para um quarto pequeno.

Observei enquanto ele passava a mão pelo rosto, como quem tenta reorganizar algo que já saiu do lugar. Não disse nada, mas vi ali o pensamento inteiro, claro demais para precisar ser explicado.

Para sair de onde saiu, ele não teve escolha limpa.

Não bastou ser bom.

Não bastou estudar.

Teve que fechar os olhos em momentos estratégicos. Abrir as mãos para acordos que ninguém chama de corrupção — só de funcionamento.

O tipo de homem que acredita que venceu o sistema, quando, na verdade, foi o sistema que venceu sua moral, sua ética e sua resistência — um pouco de cada vez.

— Vocês estão em vantagem — ele disse, por fim. — Sempre estiveram.

— Não — respondi. — Cada um aqui carrega uma desvantagem diferente.

Ele me encarou.

— Qual é a sua?

— Saber exatamente o que está por trás disso tudo — respondi. — E ainda assim continuar acordando todo dia.

Sofia se levantou da cadeira.

— Você está com raiva de mim — ela disse. — Eu entendo. Mas você não foi escolhido. Você escolheu. Mesmo sem saber o tamanho do que estava tocando.

Ele desviou o olhar. Não negou.

— E agora? — perguntou. — O que vocês esperam de mim?

Troquei um olhar rápido com Tony.

— Nada que você não esteja disposto a entregar — respondi. — Por enquanto.

Ele assentiu lentamente.

Não havia confiança ali.

Nem acordo.

Só uma trégua frágil, sustentada por medo, raiva e necessidade.

Quando ele saiu, a porta do quarto se fechou sem força.

Antes de cruzar o batente, ele hesitou por meio segundo — pouco demais para virar despedida, longo demais para ser acaso.

Sofia soltou o ar que estava prendendo havia tempo demais.

— Ele é perigoso — disse.

— Sim — respondi.

— Para nós?

Pensei no jeito como ele carregava o próprio fracasso como culpa pessoal, e não como projeto de um sistema inteiro.

— Para o sistema — respondi. — Se ele resolver parar de fingir que ainda pertence a ele.

E isso, eu sabia, era o tipo de decisão que não acontece de uma vez.

Acontece em camadas.

E sempre cobra um preço.