Justiça por assinatura
29 Capítulo 28
Tony
Alberto não gostava de falar ao telefone. Preferia encontros rápidos, frases cortadas, olhos atentos. Mas naquela noite, aceitou a ligação. Talvez por respeito. Talvez por cansaço. Talvez porque sabia que eu não ligava sem motivo.
— O médico? — ele disse, sem preâmbulo. — Foi convidado a conhecer a Central de Atendimento.
“Convidado” era a palavra que eles usavam quando ninguém tinha opção.
— Ficou quanto tempo lá? — perguntei, tentando soar neutro.
— O suficiente. — Houve uma pausa curta demais para ser confortável. — Saiu cansado. Com o rosto amassado. Se é que você me entende.
Entendia.
— Ele disse algo de útil? — perguntei, quase por protocolo. Já sabia a resposta.
Alberto soltou um riso seco, sem humor.
— Se ele soubesse e dissesse algo de útil, Tony, nem ele nem suas meninas estariam vivos. Não acha?
A palavra meninas ainda doía mais do que devia.
— Tem o endereço dele? — insisti.
— Você e essa sua mania de cutucar vespeiro… — resmungou. — Te mando por mensagem.
O telefone vibrou quase de imediato.
Li.
E reli.
Não podia ser aquele endereço.
— Tem certeza que é isso? — perguntei. — Esse não é lugar para um médico morar.
— É o único endereço que temos. — A voz dele ficou mais baixa. — Vai com cuidado. E nada de dar carteirada. Você sabe como são as coisas ali. Seria bom se tivesse algum informante na milícia.
— É mais fácil conseguir informação da milícia do que desse sistema merda que a gente vive — respondi.
Ele ficou em silêncio por um segundo.
— Quer que eu vá junto?
O tom não era profissional. Era humano. Raro.
— Não, Alberto. — Suspirei. — Ainda me viro bem sozinho.
— Como sempre teimoso. — Ele fez uma pausa. — Me manda mensagem avisando que não morreu.
— Combinado.
Desliguei.
Antes de sair, encaminhei o endereço para as meninas.
Rua das Palmeiras Imperiais, 179 — Santo Agostinho.
Olhei o nome da rua por tempo demais.
Palmeiras Imperiais. Santo Agostinho.
De império não tinha nada.
E só mesmo um santo para ajudar quem morava ali.
Estacionei a uma quadra de distância. Caminhei o resto do caminho a pé. Não por cautela — por respeito ao território. Casas apertadas, muros improvisados, fiação cruzando o céu como se ninguém tivesse planejado nada além de sobreviver mais um dia.
Bati na porta.
Passos do outro lado.
Pesados. Arrastados.
A porta se abriu.
Roberto
Eu ainda estava tentando entender se era noite ou manhã quando ouvi a batida.
Depois da Central, o tempo tinha perdido o contorno. Tudo parecia um pouco atrasado. Um pouco fora do lugar. Como se o mundo tivesse seguido sem me avisar.
Abri a porta devagar.
O homem do outro lado não usava uniforme. Nem crachá. Nem aquele sorriso falso de quem vem cobrar alguma coisa.
Era velho. Não no sentido de idade — no sentido de cansaço acumulado.
— Roberto — ele disse. Não perguntou. — Podemos conversar?
Eu devia ter fechado a porta.
Devia ter inventado qualquer coisa.
Mas depois do que tinham feito comigo, fingir normalidade parecia inútil.
— Entra — respondi.
Ele entrou sem pressa. Olhou rápido ao redor. Não como quem julga, mas como quem confirma.
— Você foi à Central de Atendimento hoje — ele disse.
Não era acusação. Era constatação.
Meu maxilar travou sem que eu percebesse. A língua colou no céu da boca por um segundo antes de eu conseguir responder.
— Fui.
— Convidado.
Assenti.
Ele observou meu rosto com atenção profissional demais para ser curiosidade.
— Eles te pressionaram por um nome — disse. — Um contato.
Meu estômago se contraiu.
— Sim.
— E você só tinha um.
Hesitei.
— Eu só conheço ela como Luzia — falei. — Não sei mais nada. Nunca soube.
Ele me encarou por alguns segundos longos demais para serem casuais.
— Entendo.
Não disse acredito.
Disse entendo.
— Então por que você está aqui? — perguntei.
Ele demorou a responder. Caminhou até a janela. Espiou a rua. Depois voltou o olhar para mim.
— Porque agora você também está marcado — disse. — E porque, cedo ou tarde, você vai precisar escolher se vai continuar abaixando a cabeça… ou se vai me entregar algo concreto.
Algo se rearranjou dentro de mim naquele instante.
O cansaço tinha virado outra coisa. Não coragem. Não heroísmo.
Raiva prática.
— Se eu ajudar você — falei —, eles vão saber.
— Eles já sabem — ele respondeu. — A diferença é o que você vai saber também.
Olhei para minhas mãos. Ainda tremiam um pouco.
— O que você quer?
Ele me encarou com uma firmeza estranha, quase respeitosa.
— Provas. Nomes. Caminhos. Qualquer coisa que transforme você de engrenagem em problema.
Pensei na sala branca. Nas perguntas repetidas. Nos tapas corrigindo o tom. No nome Luzia sendo tratado como mentira deliberada.
— Eu não sou herói — falei.
— Ainda bem — ele respondeu. — Heróis morrem rápido.
Respirei fundo.
— Me dá dois dias — disse. — Eu sei onde procurar.
Ele assentiu uma única vez.
— Dois dias — repetiu. — E depois disso, você não está mais sozinho.
Quando ele saiu, a porta se fechou com um estalo seco.
Fiquei ali, parado, ouvindo os sons da rua invadirem o silêncio.
Eu não tinha escolhido ser parte daquilo.
Mas, já que tinha sido puxado para dentro, ao menos ia escolher o lado.
E, dessa vez, não seria o deles.
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