Tony

Alberto não gostava de falar ao telefone. Preferia encontros rápidos, frases cortadas, olhos atentos. Mas naquela noite, aceitou a ligação. Talvez por respeito. Talvez por cansaço. Talvez porque sabia que eu não ligava sem motivo.

— O médico? — ele disse, sem preâmbulo. — Foi convidado a conhecer a Central de Atendimento.

“Convidado” era a palavra que eles usavam quando ninguém tinha opção.

— Ficou quanto tempo lá? — perguntei, tentando soar neutro.

— O suficiente. — Houve uma pausa curta demais para ser confortável. — Saiu cansado. Com o rosto amassado. Se é que você me entende.

Entendia.

— Ele disse algo de útil? — perguntei, quase por protocolo. Já sabia a resposta.

Alberto soltou um riso seco, sem humor.

— Se ele soubesse e dissesse algo de útil, Tony, nem ele nem suas meninas estariam vivos. Não acha?

A palavra meninas ainda doía mais do que devia.

— Tem o endereço dele? — insisti.

— Você e essa sua mania de cutucar vespeiro… — resmungou. — Te mando por mensagem.

O telefone vibrou quase de imediato.

Li.

E reli.

Não podia ser aquele endereço.

— Tem certeza que é isso? — perguntei. — Esse não é lugar para um médico morar.

— É o único endereço que temos. — A voz dele ficou mais baixa. — Vai com cuidado. E nada de dar carteirada. Você sabe como são as coisas ali. Seria bom se tivesse algum informante na milícia.

— É mais fácil conseguir informação da milícia do que desse sistema merda que a gente vive — respondi.

Ele ficou em silêncio por um segundo.

— Quer que eu vá junto?

O tom não era profissional. Era humano. Raro.

— Não, Alberto. — Suspirei. — Ainda me viro bem sozinho.

— Como sempre teimoso. — Ele fez uma pausa. — Me manda mensagem avisando que não morreu.

— Combinado.

Desliguei.

Antes de sair, encaminhei o endereço para as meninas.

Rua das Palmeiras Imperiais, 179 — Santo Agostinho.

Olhei o nome da rua por tempo demais.

Palmeiras Imperiais. Santo Agostinho.

De império não tinha nada.

E só mesmo um santo para ajudar quem morava ali.

Estacionei a uma quadra de distância. Caminhei o resto do caminho a pé. Não por cautela — por respeito ao território. Casas apertadas, muros improvisados, fiação cruzando o céu como se ninguém tivesse planejado nada além de sobreviver mais um dia.

Bati na porta.

Passos do outro lado.

Pesados. Arrastados.

A porta se abriu.


Roberto

Eu ainda estava tentando entender se era noite ou manhã quando ouvi a batida.

Depois da Central, o tempo tinha perdido o contorno. Tudo parecia um pouco atrasado. Um pouco fora do lugar. Como se o mundo tivesse seguido sem me avisar.

Abri a porta devagar.

O homem do outro lado não usava uniforme. Nem crachá. Nem aquele sorriso falso de quem vem cobrar alguma coisa.

Era velho. Não no sentido de idade — no sentido de cansaço acumulado.

— Roberto — ele disse. Não perguntou. — Podemos conversar?

Eu devia ter fechado a porta.

Devia ter inventado qualquer coisa.

Mas depois do que tinham feito comigo, fingir normalidade parecia inútil.

— Entra — respondi.

Ele entrou sem pressa. Olhou rápido ao redor. Não como quem julga, mas como quem confirma.

— Você foi à Central de Atendimento hoje — ele disse.

Não era acusação. Era constatação.

Meu maxilar travou sem que eu percebesse. A língua colou no céu da boca por um segundo antes de eu conseguir responder.

— Fui.

— Convidado.

Assenti.

Ele observou meu rosto com atenção profissional demais para ser curiosidade.

— Eles te pressionaram por um nome — disse. — Um contato.

Meu estômago se contraiu.

— Sim.

— E você só tinha um.

Hesitei.

— Eu só conheço ela como Luzia — falei. — Não sei mais nada. Nunca soube.

Ele me encarou por alguns segundos longos demais para serem casuais.

— Entendo.

Não disse acredito.

Disse entendo.

— Então por que você está aqui? — perguntei.

Ele demorou a responder. Caminhou até a janela. Espiou a rua. Depois voltou o olhar para mim.

— Porque agora você também está marcado — disse. — E porque, cedo ou tarde, você vai precisar escolher se vai continuar abaixando a cabeça… ou se vai me entregar algo concreto.

Algo se rearranjou dentro de mim naquele instante.

O cansaço tinha virado outra coisa. Não coragem. Não heroísmo.

Raiva prática.

— Se eu ajudar você — falei —, eles vão saber.

— Eles já sabem — ele respondeu. — A diferença é o que você vai saber também.

Olhei para minhas mãos. Ainda tremiam um pouco.

— O que você quer?

Ele me encarou com uma firmeza estranha, quase respeitosa.

— Provas. Nomes. Caminhos. Qualquer coisa que transforme você de engrenagem em problema.

Pensei na sala branca. Nas perguntas repetidas. Nos tapas corrigindo o tom. No nome Luzia sendo tratado como mentira deliberada.

— Eu não sou herói — falei.

— Ainda bem — ele respondeu. — Heróis morrem rápido.

Respirei fundo.

— Me dá dois dias — disse. — Eu sei onde procurar.

Ele assentiu uma única vez.

— Dois dias — repetiu. — E depois disso, você não está mais sozinho.

Quando ele saiu, a porta se fechou com um estalo seco.

Fiquei ali, parado, ouvindo os sons da rua invadirem o silêncio.

Eu não tinha escolhido ser parte daquilo.

Mas, já que tinha sido puxado para dentro, ao menos ia escolher o lado.

E, dessa vez, não seria o deles.