Diana

O estacionamento do shopping era grande para aquela hora. Concreto, luz branca, espaço suficiente para algo dar errado sem testemunha. Encostei o carro numa área mais afastada, onde as câmeras cumpriam tabela e nada parecia realmente existir.

Desliguei o motor, mas não saí de imediato.

Eu estava olhando. Sempre estou.

Cada carro que passava um pouco mais devagar do que o normal. Cada pessoa que caminhava sem destino claro. Cada reflexo nos vidros escuros. A cabeça repetia cenários que eu não queria testar.

Então eu vi.

Sofia atravessando o estacionamento ao lado do Tony.

Foi um alívio físico. Não elegante. Um daqueles que vêm com um peso saindo do peito sem pedir licença. Me dei conta de que estava segurando a respiração fazia tempo demais.

Saí do carro.

— Dois homens — Sofia disse assim que se aproximou, antes mesmo de qualquer cumprimento. — Bonés baixos. Um fingia ler o cardápio da doceria. O outro só observava o reflexo do vidro.

O tom dela estava controlado. Bom sinal. Mas não tranquilo.

— Não chegaram perto — continuou. — Não falaram comigo. Só ficaram. Como quem não tem pressa.

Assenti. Gente sem pressa é sempre pior.

— E o médico? — Tony perguntou.

Sofia balançou a cabeça.

— Roberto não apareceu. Disse que tinha estacionado longe. Depois disso, silêncio. O número não chama. Não responde.

Ela fez uma pausa curta demais para ser casual.

— Acho que temos mais um dano colateral.

A palavra caiu pesada. Consuelo tinha começado assim também. Uma consequência aceitável para manter tudo funcionando.

— Ou — respondi, com uma calma que eu não sentia — ele faz parte do jogo.

Sofia virou o rosto para mim. Não havia defesa ali. Só convicção cautelosa.

— Pode ser. Mas não me pareceu. Não digo que seja inocente. Só acho que ele sabe que alguma coisa está errada, mesmo sem entender o tamanho. — Pensou um segundo antes de concluir: — Ele é só mais uma engrenagem de uma máquina que funciona bem demais para quem nunca olha por dentro.

Tony respirou fundo. Aquele suspiro antigo de quem já tinha visto sistemas engolirem gente melhor do que nós.

— De qualquer jeito, vou investigá-lo — disse. — Por via das dúvidas.

Ele tirou um envelope pardo do bolso do casaco, bateu de leve na mão, como quem testa o peso da própria decisão.

— Agora vocês duas precisam ficar mais atentas. Vou preparar passaportes e documentos falsos.

Sofia franziu a testa. Eu senti o estômago apertar antes mesmo dele terminar.

— Se a situação piorar, vocês fogem — Tony continuou, direto. — Vocês não vão ajudar a Consuelo nem o José se virarem estatística. Se precisarem sair, eu jogo a merda toda no ventilador enquanto vocês cruzam a fronteira para o sul. Depois que saírem, eu fujo também.

O silêncio que veio depois não foi de discordância. Foi de cálculo.

Olhei para Sofia. Ela estava ali. Inteira. Respirando. Viva. E, pela primeira vez desde o começo de tudo, a ideia de parar não parecia covardia. Parecia proteção.

— Ainda não chegamos nesse ponto — ela disse.

— Ainda — Tony concordou.

Olhei ao redor. O estacionamento seguia igual. Pessoas com sacolas, carros entrando e saindo, ninguém prestando atenção em nada que importasse.

Foi aí que entendi o problema.

Nada parecia urgente.

E era exatamente por isso que era.