Justiça por assinatura
25 Capítulo 24
Roberto
Estacionei longe demais da doceria.
Não por falta de vaga — havia algumas —, mas porque o quarteirão estava estranho. Movimento demais para uma hora morta demais. Gente entrando e saindo sem comprar nada. Olhares que não se cruzavam.
Desci do carro com o celular na mão, conferindo o horário outra vez. Atrasado. Pouco, mas o suficiente para aquele incômodo específico que não tem nome. Não era culpa. Era pressentimento mal formulado.
Luzia não tinha mandado mais mensagens.
Talvez estivesse escolhendo um doce. Talvez estivesse olhando vitrines. Talvez tivesse desistido.
Atravessei a rua com passos rápidos, ajustando a jaqueta no corpo. O vento estava mais frio do que prometia. Pensei em como encontros sempre começam antes do que a gente chega — começam na expectativa errada.
— Roberto Andrade?
A voz veio do lado, educada demais para ser casual.
Parei.
Dois homens. Nenhum uniforme. Nenhuma identificação visível. Um deles segurava um tablet. O outro sorria com a boca inteira, mas sem os olhos.
— Sou eu — respondi, por reflexo.
— Boa tarde. Precisamos falar com o senhor rapidamente. É coisa simples.
Simples costuma vir com prazo curto.
— Agora? Eu tenho um compromisso.
— Sabemos — disse o do tablet, sem ironia. — É sobre isso mesmo.
Olhei em direção à doceria. A fachada estava ali, intacta. Pessoas entrando. Pessoas saindo. Normalidade em funcionamento.
— Não vai demorar — continuou o outro. — É só um esclarecimento na central de atendimento. Depois o senhor segue sua rotina.
Central de atendimento.
A expressão deslizou fácil demais para soar improvisada.
— Que central? — perguntei.
— A responsável pelo seu setor — respondeu o primeiro, como se isso resolvesse tudo. — O senhor não vai querer complicar algo que pode ser resolvido em minutos.
Minutos também são uma promessa.
— Eu posso ir depois — tentei. — Amanhã.
O sorriso do homem se manteve. Só perdeu temperatura.
— Receio que não.
Não houve toque. Nem força. Só um passo dado no tempo exato para bloquear a calçada. Outro para fechar o ângulo. As pessoas continuavam passando. Alguém esbarrou no meu ombro e pediu desculpa. Ninguém parou.
Foi aí que entendi que não havia escolha. Não uma que funcionasse.
O carro deles estava estacionado na esquina, limpo demais, genérico demais. Entrei no banco de trás sem ser empurrado. A porta fechou com um som seco, definitivo, como uma decisão tomada por outro.
Durante o trajeto, ninguém falou comigo. O rádio estava desligado. A cidade passava pela janela como um vídeo em baixa resolução. Pensei em mandar uma mensagem para a Luzia. Pensei melhor e não mandei.
A central de atendimento não parecia nada.
Um prédio comum. Vidros espelhados. Nenhuma placa grande. Nenhuma recepção visível da rua.
Lá dentro, tudo era branco. Não clínico. Institucional. Corredores largos. Ar-condicionado no limite do desconforto.
— Pode sentar — disseram.
Sentei.
Uma mesa. Duas cadeiras do outro lado. Uma câmera discreta no canto. Um copo d’água que ninguém ofereceu.
— Confirma seu nome completo? — perguntou o homem do tablet.
Confirmei.
— Profissão?
Respondi.
— Frequenta a Clínica São Rafael?
— Trabalho lá.
Ele assentiu, como se já soubesse.
— Conhece essa mulher?
O tablet girou na minha direção.
A foto era recente. Luzia. Sentada. Sorrindo para alguém fora do enquadramento. O cabelo preso de um jeito diferente do habitual.
Meu corpo reagiu antes de mim.
— Sim — disse. — Ela se chama Luzia.
— Tem certeza?
Outra foto. Luzia atravessando a rua. Uma terceira, entrando numa loja. Uma quarta, desfocada, de perfil.
— Absoluta.
— Há quanto tempo se conhecem?
— Algumas semanas.
— Onde?
— Na clínica.
— Ela frequenta outros lugares com o senhor?
A pergunta era simples demais.
— Não — respondi. — Só conversamos.
Eles se entreolharam. Não como quem confere informação. Como quem decide o próximo passo.
— O senhor sabe que mentir aqui não ajuda — disse o homem que ainda sorria.
— Eu não estou mentindo.
— Interessante — ele comentou. — Porque temos registros diferentes.
Meu estômago afundou.
— Registros de quê?
Ele não respondeu. Apenas deslizou o tablet de volta para si.
— Vamos conversar com calma, Roberto. Temos tempo.
Olhei ao redor. Nenhum relógio. Nenhuma janela.
Foi nesse momento — não com as fotos, não com o convite irrecusável, não com o prédio anônimo — que a ideia se formou inteira:
Aquilo não era um engano administrativo.
Não era rotina.
Não era triagem.
Eu não tinha sido chamado por acaso.
E a Luzia — seja lá quem ela fosse de verdade — não era só alguém que eu tinha conhecido por cansaço e carência.
Ela era o motivo.
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