Justiça por assinatura
19 Capítulo 18
Diana
A discussão começou baixa, como quase tudo entre nós ultimamente. Nenhuma das duas tinha energia para gritar.
— Isso já foi longe demais — eu disse, apoiada na pia, sentindo o cansaço pesar mais que o corpo. — A viúva não tem mais proteção nenhuma. Estão mexendo com licença, dinheiro, aviso formal. O recado foi dado.
Sofia estava sentada à mesa, os joelhos recolhidos, os dedos marcando o lugar da página do livro que ela não lia de verdade.
— O recado sempre foi esse — respondeu. — Desde o começo. A diferença é que agora a gente entendeu.
— Entender não significa continuar — retruquei. — Significa saber a hora de parar.
Ela levantou os olhos devagar.
— Parar para quem, Diana? Pra eles? Porque pra gente isso não é parar. É fingir que não viu.
Suspirei. Não por irritação. Por reconhecimento.
— Eu não estou falando em fingir — disse. — Estou falando em encerrar direito. Em não prometer o que não posso entregar. Em assumir que insisti além do que dava para bancar.
— Você quer ir lá dizer isso pra ela? — Sofia perguntou. — Olhar na cara da Consuelo e dizer que foi erro nosso tentar?
A forma como ela disse tentar me atingiu mais do que qualquer acusação.
— Quero evitar que sobre mais uma morte nas nossas costas — respondi, firme. — Não vou transformar a vida da viúva em dano colateral da nossa teimosia.
Sofia fechou o livro com cuidado excessivo.
— E eu não vou aceitar que matem gente só porque é mais fácil desistir.
Silêncio.
Nenhuma de nós se mexeu. Não porque não havia o que dizer, mas porque qualquer frase seguinte quebraria algo que ainda precisava ficar inteiro.
— Vamos dormir — falei, por fim. — Amanhã a gente conversa melhor.
Ela assentiu, mas não olhou para mim.
Fomos para a cama como quem ocupa o mesmo espaço por obrigação. Deitadas de costas uma para a outra, cada uma presa ao próprio raciocínio. Não houve reconciliação, nem promessa, nem boa-noite.
Só o som distante da cidade insistindo em funcionar.
O telefone tocou cedo demais.
Atendi ainda sentada na cama, antes mesmo de pensar.
— Diana — a voz do Tony veio direta, sem rodeio. — Você está em casa?
— Estou. O que foi?
Houve uma pausa curta. Técnica. Daquelas que carregam notícia.
— A viúva do José — ele disse. — A Consuelo. Foi encontrada morta hoje de manhã.
Senti o corpo reagir antes da cabeça.
— Onde?
— Em casa. No jardim. Segundo o relatório preliminar, uma queda. Traumatismo craniano.
Fechei os olhos.
— Quando?
— De madrugada. Um vizinho ouviu barulho, mas só chamaram ajuda horas depois.
Respirei fundo.
— Quem assinou o laudo?
Outra pausa. Mais longa agora.
— Ainda não vi o nome. Mas a causa está como morte acidental.
Claro que estava.
— Obrigada por avisar — disse.
— Diana… — ele começou.
— Eu sei — interrompi. — A gente conversa depois.
Desliguei antes que ele completasse a frase.
Sofia já estava sentada na cama, me observando. Ela tinha ouvido tudo. Não precisava perguntar.
— Ela morreu — falei.
Sofia levou a mão à boca, o choque finalmente atravessando a postura firme da noite anterior.
— Não… — murmurou. — Não faz sentido. Você ia falar com ela hoje.
Assenti.
— Ia encerrar direito.
O silêncio que se seguiu foi diferente do da noite. Mais pesado. Irreversível.
— Isso não é acidente — Sofia disse, a voz baixa, mas firme.
— Não — concordei. — Mas vai ser tratado como um.
Levantei-me devagar e fui até a janela. A cidade seguia igual. Gente indo trabalhar. Ônibus passando. Vida acontecendo em paralelo à ausência recém-oficializada de alguém.
— Eles não precisaram mandar a gente parar — falei. — Só provaram que podem continuar.
Sofia se aproximou, hesitante.
— Diana…
— Ontem eu pensei, pela primeira vez — confessei —, que talvez fosse melhor desistir. Por você.
Ela não respondeu.
— Pensei no pai — continuei. — No juramento que fiz no enterro. Proteger você. Manter você fora disso.
Virei-me para encará-la.
— E mesmo assim, mataram a Consuelo.
Sofia respirou fundo, os olhos marejados, mas o olhar inteiro.
— Então não tem mais como parar, tem?
Balancei a cabeça, devagar.
— Não.
A viúva tinha morrido como o José: com um laudo limpo e uma explicação confortável.
A diferença é que, agora, não havia mais ninguém para encerrar direito.
Nem desculpa possível.
Só o que vinha depois.
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