Diana

A discussão começou baixa, como quase tudo entre nós ultimamente. Nenhuma das duas tinha energia para gritar.

— Isso já foi longe demais — eu disse, apoiada na pia, sentindo o cansaço pesar mais que o corpo. — A viúva não tem mais proteção nenhuma. Estão mexendo com licença, dinheiro, aviso formal. O recado foi dado.

Sofia estava sentada à mesa, os joelhos recolhidos, os dedos marcando o lugar da página do livro que ela não lia de verdade.

— O recado sempre foi esse — respondeu. — Desde o começo. A diferença é que agora a gente entendeu.

— Entender não significa continuar — retruquei. — Significa saber a hora de parar.

Ela levantou os olhos devagar.

— Parar para quem, Diana? Pra eles? Porque pra gente isso não é parar. É fingir que não viu.

Suspirei. Não por irritação. Por reconhecimento.

— Eu não estou falando em fingir — disse. — Estou falando em encerrar direito. Em não prometer o que não posso entregar. Em assumir que insisti além do que dava para bancar.

— Você quer ir lá dizer isso pra ela? — Sofia perguntou. — Olhar na cara da Consuelo e dizer que foi erro nosso tentar?

A forma como ela disse tentar me atingiu mais do que qualquer acusação.

— Quero evitar que sobre mais uma morte nas nossas costas — respondi, firme. — Não vou transformar a vida da viúva em dano colateral da nossa teimosia.

Sofia fechou o livro com cuidado excessivo.

— E eu não vou aceitar que matem gente só porque é mais fácil desistir.

Silêncio.

Nenhuma de nós se mexeu. Não porque não havia o que dizer, mas porque qualquer frase seguinte quebraria algo que ainda precisava ficar inteiro.

— Vamos dormir — falei, por fim. — Amanhã a gente conversa melhor.

Ela assentiu, mas não olhou para mim.

Fomos para a cama como quem ocupa o mesmo espaço por obrigação. Deitadas de costas uma para a outra, cada uma presa ao próprio raciocínio. Não houve reconciliação, nem promessa, nem boa-noite.

Só o som distante da cidade insistindo em funcionar.


O telefone tocou cedo demais.

Atendi ainda sentada na cama, antes mesmo de pensar.

— Diana — a voz do Tony veio direta, sem rodeio. — Você está em casa?

— Estou. O que foi?

Houve uma pausa curta. Técnica. Daquelas que carregam notícia.

— A viúva do José — ele disse. — A Consuelo. Foi encontrada morta hoje de manhã.

Senti o corpo reagir antes da cabeça.

— Onde?

— Em casa. No jardim. Segundo o relatório preliminar, uma queda. Traumatismo craniano.

Fechei os olhos.

— Quando?

— De madrugada. Um vizinho ouviu barulho, mas só chamaram ajuda horas depois.

Respirei fundo.

— Quem assinou o laudo?

Outra pausa. Mais longa agora.

— Ainda não vi o nome. Mas a causa está como morte acidental.

Claro que estava.

— Obrigada por avisar — disse.

— Diana… — ele começou.

— Eu sei — interrompi. — A gente conversa depois.

Desliguei antes que ele completasse a frase.

Sofia já estava sentada na cama, me observando. Ela tinha ouvido tudo. Não precisava perguntar.

— Ela morreu — falei.

Sofia levou a mão à boca, o choque finalmente atravessando a postura firme da noite anterior.

— Não… — murmurou. — Não faz sentido. Você ia falar com ela hoje.

Assenti.

— Ia encerrar direito.

O silêncio que se seguiu foi diferente do da noite. Mais pesado. Irreversível.

— Isso não é acidente — Sofia disse, a voz baixa, mas firme.

— Não — concordei. — Mas vai ser tratado como um.

Levantei-me devagar e fui até a janela. A cidade seguia igual. Gente indo trabalhar. Ônibus passando. Vida acontecendo em paralelo à ausência recém-oficializada de alguém.

— Eles não precisaram mandar a gente parar — falei. — Só provaram que podem continuar.

Sofia se aproximou, hesitante.

— Diana…

— Ontem eu pensei, pela primeira vez — confessei —, que talvez fosse melhor desistir. Por você.

Ela não respondeu.

— Pensei no pai — continuei. — No juramento que fiz no enterro. Proteger você. Manter você fora disso.

Virei-me para encará-la.

— E mesmo assim, mataram a Consuelo.

Sofia respirou fundo, os olhos marejados, mas o olhar inteiro.

— Então não tem mais como parar, tem?

Balancei a cabeça, devagar.

— Não.

A viúva tinha morrido como o José: com um laudo limpo e uma explicação confortável.

A diferença é que, agora, não havia mais ninguém para encerrar direito.

Nem desculpa possível.

Só o que vinha depois.