Justiça

4 Capítulo IV - Conversão


Notas iniciais
Rodada 4, tema "Comparação com figura histórica: Luís XIV, Martinho Lutero ou Alexandre, o Grande."

— Tá tudo certo, tenente. A viúva já pegou a papelada, meu trabalho aqui está feito.

— Então vamos para o batalhão, aspirante. Temos outros casos para cuidar. — Gian parecia estar cuidando de mim.

— Policial, eu gostaria que a Clara me acompanhasse. — Senhora Oliveira interviu.

— Por que motivo? — Perguntou curioso enquanto cruzava os braços.

— Eu estava com o marido dela na hora de sua morte. — Tentei salvá-la. — Ela gostaria de saber mais sobre o acontecimento.

— Como por exemplo? — Gian continuou interessado.

— Que ele estava muito aflito e com muito medo, mas não parecia querer saltar.

Por um segundo achei que havia me afobado e a senhora Oliveira poderia ficar incomodada. Porém, ela parecia ter se lembrado de nossa conversa e acenou com a cabeça. Ela confiava em mim.

— Eduardo nunca fez nada de ruim a ninguém, apenas vivia atarefado e estudando bastante. — Continuou a senhora Oliveira. — Ele não era uma pessoa ruim.

— Ele era católico? A senhora fala muito sobre bem e mal.

— Somos protestantes. Eduardo adorava a igreja.

— Senhora Oliveira, ele citou um erro. Um crime. — Entrei no assunto aproveitando o gancho. — Sabe me dizer o que pode significar?

— Não, desculpe. Infelizmente não tive conhecimento do que ele andava fazendo. Mas isso não quer dizer nada, eu o conhecia o suficiente para saber que ele nunca faria nada errado.

— As pessoas erram, senhora Oliveira. — Disse Gian de repente. — Faz parte de nós.

— Tem razão. — Senhora Oliveira puxou um lenço da bolsa. — Mas mesmo sabendo que ele é humano, sei que ele não faria isso.

— Seu marido parecia querer o melhor mesmo. — Completei. — Disse apenas querer justiça.

— Justiça? Porque ele diria isso?

— Não tenho certeza, mas algo em relação a esse erro que ele me disse.

— Isso é estranho. Ele buscava fazer o bem sempre. — Senhora Oliveira parecia querer chorar.

— Não sei se deveria dizer isso, mas ele não parecia abatido. — Tentei confortá-la. — Seu olhar estava tranquilo.

— Deus o guarde. — Disse ajeitando seu cabelo longo e loiro atrás da orelha. — Espero que pelo menos ele esteja em paz. Eduardo era um grande homem de Deus.

— Martinho Lutero. — Gian disse de repente.

Olhamos para ele sem entender. Por um momento acreditei que ele estava sacaneando a senhora, se não me enganava Martinho Lutero era um monge católico. Não entendi bem a sua colocação, mas senhora Oliveira parecia entender o que ele dizia.

— Martinho Lutero era um erudito que cresceu com uma família católica. — Continuou. — Certo dia andava por um caminho em um dia fechado, tempestuoso, até que raios começaram a cair do seu lado. Em um momento de desespero, ajoelhou e rogou aos céus para que fosse salvo. Prometeu que se saísse daquela situação com vida iria para um mosteiro e dedicaria sua vida à igreja. E foi o que aconteceu.

— Assim como Dado. Você acha que foi uma promessa? — Perguntou senhora Oliveira.

— Não é impossível. — Gian declarou.

— Espera um pouco. — Intervi. — Está me dizendo que ele se matou porque prometeu á Deus?

— Não sabemos se foi por isso, mas tem a ver. — Falou Gian. — Mas por que isso é importante?

— Apenas conversando. A senhora Oliveira debatia comigo sobre a estranha morte do marido.

Gian não parecia conformado mas serviu para que não fizesse mais perguntas. Porém eu não estava preocupada com isso, minha cabeça viajava na recente conversa. Por mais que eu não queria admitir, Gian adiantou grande parte do caso para mim. E infelizmente eu percebi que todas as possibilidades antes imaginadas teriam que ser deixadas de lado para entrar em uma nova possibilidade. A possibilidade de que, sim, Eduardo havia cometido um crime.

E provavelmente eu prometi fazer justiça por ele em troca de sua morte.