Justiça
1 Capítulo I - Iniciativa
Notas iniciais
— Senhor, qual o seu nome?
Não detectei movimentação. Virado de costas para mim, a única coisa que o separava da morte certa eram suas mãos, que apertavam firme o guarda-corpo. Nitidamente o homem suava frio, o que deixava explícito o seu nervosismo. A situação era de um homem nos seus trinta e poucos anos, bem cuidado, com roupas elegantes, e morrendo de medo.
Tanto medo que era a única coisa que o impedia de saltar.
— Senhor, eu sou a Aspirante Clara Roberta da Polícia Militar do Rio de Janeiro. Não tenho segundas intenções, apenas desejo conversar. Qual o seu nome?
— Eduardo. — Respondeu rapidamente.
Sua voz estava completamente embargada. A sensação era que ele chorou por horas, mas agora não conseguia por estar apavorado. Provavelmente por estar frente a frente com sua possível morte. Eu também estaria apavorada.
— Eu não vou sair daqui. Estou decidido a pular!
— Tudo bem, Eduardo. Posso te chamar assim? Se importa?
— Chame de como quiser! Não me importo!
Acuei um pouco com medo de que ele se irritasse. Um mero deslize e o homem se jogaria facilmente. Ele parecia convicto de sua vontade ao mesmo tempo que não acreditava que havia chegado àquela situação. Aquele momento era dele, mas ele não parecia se reconhecer.
— Claro, claro. Estou apenas criando contato, quero te conhecer melhor.
Agi dessa forma para ganhar tempo. Esperava que assim que se me aproximasse o suficiente conseguiria agarrá-lo por trás e puxá-lo pra longe da beirada. Não pensava em momento algum em ser a heroína. Mas assim que tivesse oportunidade, sim, arriscaria a segurança dele e a minha para trazê-lo ao pavimento sem mais complicações.
— Por favor, não se aproxime. Eu... — O homem parecia prestes a desabar. Suas forças pareciam guardadas por um propósito que eu não sabia qual era. — Eu não espero que entenda. Eu não entendo.
— Por isso estou aqui. Quero te ajudar.
Mais uns passos enquanto ele fechava os olhos depois de uma olhadela para baixo. Cada vez que ele sofria eu sofria junto.
— Por quê?
Confesso que a pergunta me pegou de surpresa. Tão ingênua, mas tão profunda.
— Eu entrei para a polícia disposta a ajudar as pessoas. E apenas isso me move a fazer o que faço. Por isso estou aqui com você. Por você.
— Eu cometi um erro. Um crime. Não espero que me perdoe.
— Talvez não perdoe. Mas posso garantir que faço o meu dever. O senhor é forte para aceitar as consequências. Apenas siga as regras e a Justiça fará o resto.
Como se alguma coisa que falei tivesse acionado um gatilho em sua mente, ele rapidamente voltou o olhar para mim e buscou nas minhas palavras a solução. Gelei, pois achei que ele se assustaria com a proximidade. Mas não, ele pareceu não se incomodar. O que ouviu parecia muito mais importante para discutir do que a possibilidade de eu acabar com seus planos.
— Você faria justiça por mim?
— Justiça? Claro, claro que sim. É o meu objetivo de vida.
Ele riu. Esqueceu que metade de seus pés não estavam em firmamento e riu. Não havia outra oportunidade. Homens estavam preparados para me segurar assim que eu o agarrasse e com os pensamentos no som da própria risada, encontrei ali o momento perfeito para saltar sobre ele e segurá-lo.
Mas como se sentisse que não havia mais com o que se preocupar, seus olhos brilharam. Os milésimos de segundo passaram como anos. Eu pude ver a satisfação em seus olhos e o medo se esvair rapidamente. Sem que pudesse detê-lo, empurrou o corpo para trás com as mãos e arrastou as pontas dos pés para longe do concreto.
— Diogo Oliveira. — Disse.
E caiu.
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