Notas iniciais
Santana estava sentada em um banco no jardim que havia no hospital, era um lugar realmente lindo e reconfortante, estava amanhecendo, o céu tomava um tom alaranjado e os raios de sol ainda estavam fracos, leves e suaves tocando a pele da morena. Mas tudo que ela conseguia pensar agora era em sua mãe, no som da ambulância chegando, na mulher ainda desmaiada, na pressa com que tudo aconteceu, todos tentavam de algum jeito acalma-la, os médicos não diziam nada, apenas que sua mãe estava acordada e fazendo alguns exames, já estavam ali a um bom tempo, Quinn, Ana e seu pai insistia que ela tinha que comer algo, que ia ficar tudo bem, queriam que ela falasse, mas a única coisa que queria era ficar sozinha com seus próprios pensamentos e lagrimas, então pediu um tempo e foi até o jardim. Todos nós sabemos que vamos perder os pais um dia, é a ordem natural da vida e sabemos que com certeza dói mais pra um pai perder o filho do que o contrario, mas mesmo assim dói, corta por dentro, o simples ato de pensar nisso causa aflição, até pros filhos que já se tornaram independentes, pra Santana era o seu pior pesadelo, desde criança tinha medo desse momento, não sabia ainda se sua mãe iria morrer se estava doente, se foi apenas um desmaio, mas o simples fato de haver essas possibilidades fazia à latina se sentir aquela criança assustada de novo, fazer todas as suas barreiras caírem, estava com medo, não conseguia respirar direito, chorava incontrolavelmente e se agarrava a si mesma em buscar de algum conforto, não estava ligando pra paisagem, para o nascer do sol lindo que acontecia em sua frente, nem para o vento gelado que tocava seu rosto, apenas conseguia pensar em sua mãe. Estava perdida em seus pensamentos olhando pra nada especifico quando sentiu uma blusa cobrir seu tronco e não precisava olhar pra saber quem era, conhecia o aroma do perfume e de quem pertencia aquele casaco que estava lhe cobrindo agora.
“Eu quero ficar sozinha..” Disse com a voz de choro.
“Eu sei que você não quer.. Sei que está com medo e sei que não quer ser forte agora, então..” Brittany disse colocando a mão no queixo da latina fazendo ela olhar em seus olhos. “Apenas sinta o que está sentindo agora San.. Deixe que eu seja forte por você agora.. Se precisar chorar, chore.. Se precisar desabafar, desabafe.. Mas por favor, não me afaste de você também, porque eu sei que agora, você só precisa de alguém pra cuidar de você.. Me deixa ser essa pessoa, ta bem?” A loira disse tudo com a calma e compreensão que se fala com um criança com medo. Santana então deixou todas às lagrimas saírem e se agarrou a loira com força, que tentava segurar o choro por ver a morena daquele jeito e afagava seus cabelos. A loira deu o espaço que a latina precisava desde a casa dos Lopez até o hospital, todos tentavam em vão fazer Santana se abrir, mas ela sabia que naquele momento onde a latina demonstrou querer ficar sozinha, era quando ela mais precisava de alguém e só então decidiu se aproximar. Santana ficou um bom tempo na mesma posição, apenas chorando e se agarrando mais a loira, o abraço da loira lhe dava certo conforto que os outros não estavam dando e ela começou a se acalmar, agora o sol brilhava por inteiro no céu, o azul tomava conta, não se via nenhuma nuvem, Santana então se afastou da loira e começou a contemplar a beleza daquele lugar, o sol brilhando e tocando seu rosto que até então não havia percebido como estava mesmo um vento gelado ali.
“Obrigada pelo casaco..” Ela disse limpando algumas lagrimas e olhando nos olhos da loira agora.
“Não precisa agradecer..” A loira disse chegando mais perto da latina e passando seu braços envolta dela que não relutou.
“Não estou pronta pra perder ela agora..” A morena disse olhando pras duas mãos e balançando a cabeça com os olhos tristes.
“Acho que nunca estamos San..” Brittany disse acariciando as mãos da latina. “Mas eu prefiro acreditar que ela vai ficar bem.. Que ela está bem!”
“E se não ficar? E se ela estiver..” Santana não conseguia dizer a palavra doente, então franziu a testa e pressionou os lábios. Ela sabia que a loira não teria respostas pra essas perguntas, ninguém tinha.
“Então eu vou começar a acreditar que todos nós vamos ficar bem..” A loira disse suspirando e então Santana percebeu que elas compartilhavam da mesma dor, de certa forma Maribel havia se tornado uma mãe pra Brittany também. “Precisamos sempre ter fé..”
“Acho que não sou boa nessa coisa de fé.. Sempre acredito que o pior vai acontecer..” Santana disse dando de ombros e encostando sua cabeça no ombro da loira.
“Essa é uma boa hora pra começar a acreditar então.. Fé é o que nos move San.. E bons pensamentos..” A loira disse beijando a cabeça da latina a trazendo pra mais perto ainda de si. Santana não disse mais nada, apenas ficou ali pensando no que Brittany havia dito.. Fé, talvez nunca houvesse tido mesmo isso, sempre esperava o pior, nunca dava uma chance as coisas com medo de não darem certas, ela estava certa, agora era uma boa hora pra ter fé. Queria ter, queria mais tempo com sua mãe, queria acreditar que ela iria ficar bem, começou a se lembrar dos momentos maravilhosos que tiveram juntas, as compras, as viagens, os almoços e jantares, as brincadeiras, os filmes que assistiam juntas todos os sábados quando ela era criança, os passeios e então algo tomou conta de seu peito, talvez fosse fé, era uma sensação boa, ela só estava pensando no pior, mas sua mãe havia tido uma vida maravilhosa e era uma pessoa muito boa, então começou a pedir, mesmo que não soubesse pra quem, mas pediu que sua mãe ficasse bem.
“Obrigada..” A latina disse pegando as mãos da loira e olhando fixamente em seus olhos.
“Pelo o que?” Brittany perguntou confusa com aquilo e com o jeito que a latina parecia melhor.
“Por me fazer ser melhor.. E por ser forte por mim agora..” Santana disse dando um beijo demorado na bochecha da loira que sorriu e suspirou admirando como na verdade quem estava sendo forte ali ainda era a latina, fazer um esforço pra mudar algo que está dentro de nós mesmos é o que nos torna realmente fortes. Brittany ia dizer isso a ela, mas foi interrompida pela voz de Quinn.
“Sua mãe já está no quarto San..” A loira disse fazendo a latina olhar rápido pra ela e se levantar.
“Posso vê-la? Ela esta bem? O que os médicos disseram?” Perguntou ansiosa.
“Por isso eu vim te chamar.. Você pode ir.. Ela disse que quer ver todo mundo.. Os médicos não disseram nada, falaram que ela pediu pra não contarem.. Mas disseram que agora ela está bem, é o que importa né..” Quinn disse sorrindo com os olhos vermelhos, com certeza ela havia chorado muito também, então Santana foi até lá e a abraçou, fazia muito tempo que elas não se abraçavam assim, era um abraço sincero o que fez Quinn chorar ainda mais. “Estou tão feliz por ela estar bem..” Quinn disse desabando.
“Eu também irmã.. Eu também..” Santana disse suspirando um pouco aliviada e se soltando dos braços da loira. “Posso ir? Vai ficar bem?” Perguntou olhando nos olhos de Quinn.
“Eu estou bem San.. Vou pegar um café e já estou indo lá.. Vai ver ela..” Quinn disse acenando pra ela ir.
“Você vem comigo..” Santana disse pegando a mão de Brittany a puxando pra dentro do hospital, estava eufórica pra ver a mãe, era uma sensação de alivio saber que ela havia acordado, mas mesmo assim sentia um mal pressentimento com o porque a mãe não havia deixado os médicos contarem o que estava acontecendo com ela.
“Tem certeza que quer que eu entre com você?” Brittany perguntou arregalando os olhos quando percebeu que a latina iria puxa-la pra dentro do quarto também.
“Eu quero.. Só se você não..” A latina disse soltando a mão da loira, percebeu que estava totalmente solta perto da loira e então tomou uma postura mais seria. “Se você não quiser entrar agora.. Tudo bem.” Disse meio triste olhando pro chão e se fechando um pouco de novo o que não passou despercebido pela loira que pegou sua mão de novo e sorriu pra ela.
“Eu quero muito entrar San..” E essas simples palavras fizeram um sorriso enorme aparecer no rosto da latina, ela amava sentir que a loira sempre estaria com ela quando precisasse. Abriu a porta devagar e o quarto era azul claro, a janela enorme deixava alguns raios de sol entrar entre as frestas da cortina, sua mãe estava deitada na cama com apenas um soro na veia e um olhar cansado, mas o sorriso era o mesmo de sempre ao ver as meninas ali, seu pai estava sentado na grande poltrona que havia no quarto e Ana estava parada ao lado de Maribel. ‘Porque todos estão aqui?’ essa pergunta rondou a cabeça de Santana antes dela se aproximar da cama e segurar uma das mãos de sua mãe e depositar um beijo, aliviada e os olhos com lagrimas retribuindo o sorriso de sua mãe, o mesmo fazia a loira ao seu lado.
“Como esta se sentindo?” Santana perguntou olhando atenta pra mãe.
“Vocês duas formariam um belo casal, sabiam?” Maribel disse do nada fazendo a latina inclinar a cabeça e franzir o cenho e Brittany arregalar os olhos.
“Acho que esse não é o melhor momento pra um comentário desses..” A latina disse sem graça, se fosse branca como Brittany com certeza estaria muito vermelha, o que no caso da loira estava e muito.
“Isso quer dizer me sinto bem San..” A mulher disse dando um tapa no braço da latina que olhou séria pra mãe. “Estou tão bem que fiz um comentário que estou querendo fazer a muito tempo.. E assustando vocês..” Maribel disse rindo e fazendo Ana rir também da cara de desconforto das duas.
“O% de chances de isso acontecer Maribel..” Brittany disse ainda com os olhos arregalados. De certa forma doeu um pouco em Santana ouvir aquilo, aquilo queria dizer que a loira não estava a vendo da mesma maneira. Na verdade nem ela entendia direito o que sentia pela loira, como cobrar algo?
“É mãe..” A latina disse fazendo sua melhor cara brincalhona. “Sem chances de eu namorar essa dai..” Disse apontando pra loira e rindo.
“Uhumm..” Ana disse meio baixo sendo irônica e recebendo um olhar reprovador de Santana.
“Mudando de assunto, você acabou de desmaiar do nada e estamos aqui falando das chances de eu e Brittany sermos um casal? Qual é.. Tem coisa mais séria acontecendo aqui.. Primeiro..” Ela ia terminar, mas ouviu a porta se abrir e Quinn entrar no quarto com um café nas mãos. “Continuando.. Primeiro, agora que a Quinn se juntou a nós, porque estamos todos aqui? E segundo, porque você não deixou os médicos nos falar nada?” A latina perguntou séria levantando as sobrancelhas.
“Eu..” Maribel agora tomou um expressão triste, não olhava nos olhos de ninguém.
“Elas precisam saber..” Ana disse assustando Santana, então havia algo acontecendo. Todos aqueles exames, consultas, sua mãe dizendo que não era nada e agora aquele desmaio, logo ela entendeu o que ela já devia ter sacado há muito tempo, que sua mãe estava doente.
“Saber do que?” Quinn se aproximou da cama com seu olhar perdido.
“Não sei se consigo falar..” Maribel disse deixando uma lagrima cair e mordia o lábio nervosa.
“É direito delas saberem disso!” O pai de Santana disse um pouco exaltado se levantando da poltrona. “Chega de guardar isso..” Ele disse parecendo cansado e olhava pra esposa implorando.
“Você está doente não é?” Brittany perguntou o que todos já sabiam. Ela havia reparado que Maribel parecia cansada às vezes, tinha muitas dores de cabeça e ia muitas vezes ao banheiro, tinha náuseas, ela vinha tendo dificuldades pra entender as coisas de uns dias pra cá e estava estranha, mas a loira pensou que era cansaço, que ela precisava de férias. Mas agora havia entendido e pelos sintomas, não era algo fácil.
“Eu tenho um tumor..” Maribel disse fechando os olhos com força e segurando o choro, ela havia pensado varias vezes em como contar as meninas sobre isso, Ana sabia desde o começo do diagnostico e Ruan soube a pouco tempo, ela achava que estava melhor e quis aproveitar a festa como qualquer pessoa, mas então o mal estar veio e ela sabia que iria ter que contar. “Aqui..” Ela disse colocando a mão em sua cabeça e com a voz chorosa olhando pra filha que agora balançava a cabeça e o rosto já estava mergulhado em lagrimas, Quinn e Brittany não estavam diferentes disso. O silencio se estabeleceu no quarto, a única coisa que se ouvia era o choro, ninguém conseguia formular uma palavra sequer pra dizer, Ana foi abraçar sua filha que estava tentando ser forte e não desabar, Brittany apertava com força a mão da latina que olhava fixamente nos olhos de sua mãe enquanto segurava sua mão e Ruan foi do outro lado da cama e segurou a outra mão da esposa. Às vezes quando se recebe uma noticia assim você não quer falar, nem ouvir ninguém, você quer apenas estar ali em silencio com alguém que você ama e tentar processar em sua mente tudo aquilo, era o que todos ali tentavam fazer, como seriam as coisas agora? Seria preciso de mais fé do que Santana imaginava.
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