Just Begun.
9 Capítulo 9
Enquanto caminhava lentamente até o portão de embarque, observava as expressões de Thomas. Seu rosto se desenhava em um sorriso malicioso e ao mesmo tempo tímido no canto de sua boca, provavelmente percebendo a minha observação. E eu poderia jurar que em seus pensamentos ele estava muito satisfeito com toda aquela situação. Aquela bendita situação em que ele me colocara. Não sabia o que esperar dessa nova fase, possivelmente conflitante. Definitivamente conflitante era a palavra certa, já que eu não conseguia imaginar outra mais adequada para descrever eu e Thomas morando no mesmo lugar. Não no mesmo apartamento, mas sim no mesmo andar... Praticamente como era no hotel. E algo me dizia que essa nova fase não seria tão fácil como eu imaginava que seria no Brasil. Aquilo me assustava, mesmo eu negando.
Senti-me acuada e covarde quando finalmente sentei no meu acento do avião e percebi que estava imensuravelmente arrependida. Queria desistir, fugir para longe daquele lugar e me abrigar no abraço de minha mãe, ah como eu queria. Mas eu não podia e nem entendia o porquê de tanta aflição. Nunca me sentira assim, e juntamente com aquele sentimento de medo que me rendia, conseguia notar a confusão se alastrar pela minha mente. Realmente, eu estava muito confusa sobre todo aquele medo que me acompanhava desde a minha chegada ao Rio, até agora.
Resolvi deixar todos aqueles pensamentos invasivos de lado e descansar até chegar ao meu novo lar. Tinha certeza que mais alguns minutos pensando naquele assunto, eu iria enlouquecer. Olhei ao meu redor e encontrei o meu olhar com o de Laís, que estava em um acento ao lado de Jay. Ela falou com a boca sem nenhum som: Durma. Resolvi que aquilo era a coisa a certa a se fazer, para evitar mais uma vez em se pensar sobre aquele assunto proibido de adentrar na minha mente. Suspirei pesadamente e tentei pegar no sono. Felizmente, eu consegui. Infelizmente, aquele sono não fora um dos mais tranquilos da minha vida, muito pelo contrario.
“Eu estava em um jardim imenso, que podia ser facilmente descrito como um bosque. Um grande bosque, rodeado de flores por todos os lados, mais especificamente, margaridas amarelas. E o aroma daquelas flores pairava no ar, juntamente com o mormaço de uma tarde incrivelmente quente. Não sabia o porquê de estar ali, e no momento em que eu observava ao meu redor, a minha expressão mudou de encantada para horrorizada em um piscar de olhos. Toda aquela cena de filme da Disney, onde borboletas voavam livremente e pássaros cantavam uma suave melodia, se transformara em um lugar sombrio. Aquele lugar definitivamente não inspirava confiança, e muito menos alivio. O vento gelado bagunçava o cabelo em meu rosto, investindo contra meu leve suéter. Folhas de carvalho giravam entre as filas de lápides de granito e as arvores chacoalhavam os galhos. Minhas mãos estavam geladas, lábios e bochechas completamente entorpecidos, mas eu continuava ali de pé, encarando aquele estranho lugar.
Havia uma mansão de pedras a minha frente, que curiosamente possuía um imã natural que me puxava em direção a ela. Aquilo estava muito estranho. Os muros eram altos, e suas superfícies possuíam cacos de vidros devidamente afiados para algum acaso não muito agradável que resolvesse visitar os moradores daquele lugar sombrio. Só não conseguia imaginar em alguma possibilidade em que visitantes aparecessem naquele lugar. Sentia arrepios por todo o corpo só de imaginar, e mesmo que indiretamente – imaginar tudo o que poderia possuir dentro daquela mansão. No momento em que eu analisava cuidadosamente todo aquele cenário de terror a minha frente, os portões gigantes a minha frente se abriram para mim. E eu inconsequentemente caminhei para dentro daquele lugar. A minha surpresa foi constatar que aquele lugar era muito menor interiormente do que exteriormente. Ali só havia duas cadeiras de balanço vazias na frente de uma casa pequena e humilde, porém aconchegante. Até o momento em que eu mudei o foco dos meus olhares e voltei até as cadeiras. E em um piscar de olhos, eu percebi que elas estavam ocupadas por um casal de idosos. Não conseguia compreender também, o porquê de cada parte minha gritar que eu os conhecia de algum lugar. Quando consegui reunir o pouco de coragem que me restava para falar, fui interrompida por uma voz.
– Estranhando por estar em um lugar tão angustiante? – O homem desconhecido deu inicio a conversa se aproximando em passos lentos até a porta da pequena casa. Ele possuía um sorriso ligeiramente maldoso nos lábios. – Se eu fosse você já começaria a me acostumar com esse lugar. Esse será o seu refugio daqui a alguns anos, na sua realidade. Realidade pura e cruel, consequências dos seus próprios atos e decisões. E não adianta fugir. Se você continuar forjando sentimentos com as maiores armaduras, você sabe que o que está destinado a acontecer, vai acontecer. – Ele parou de falar por um breve momento, apenas observando cuidadosamente os sinais de expressão que surgiam em meu rosto. Sinais que demonstravam claramente o quão apavorada eu estava. – Não fuja. Você só tem uma vida, e faz tanto esforço para evitar tudo que há de bom nela. Você realmente não percebe que seus traumas passados só serviram como experiência? Seus conceitos de felicidade estão muito longe de serem reais, e eu não preciso repetir a você que o seu final será doloroso, se você continuar agindo assim.
Eu sentia que estava presa dentro de uma bolha, e que cada palavra proferida pelo homem a minha frente, eu perdia mais um pouco de ar. Tentei inspirar e respirar fundo todo o ar que me restava e finalmente perguntei:
– O que esse lugar significa? Porque todo aquele cenário se tornou... – Eu falei sentindo a dificuldade de respirar cada vez mais forte, observando ao meu redor todo aquele lugar sombrio. – Nesse lugar tão triste?
E ligeiramente escutei uma risada sonoramente alta tomar conta daquela bolha que me sufocava. Logo depois a risada inicial foi acompanhada pelo casal de idosos que ali estavam. Aquele casal de idosos que eu insistia em pensar que os conhecia de algum lugar. Eu encarei aquele homem em choque absoluto, enquanto ele apenas me observava com aquele mesmo sorriso. Aquele olhar era maldoso e parecia possuir muita mágoa, eu só não sabia o porquê de tudo aquilo.
– Você realmente não percebe? – O homem questionou rapidamente enquanto abria seus braços em uma expressão de liberdade. – Aquela cena inicial, foi o que você pensava que era felicidade na sua vida... Tudo que você sempre almejou... Mas tão rápido como chegou, aquela cena se foi. Assim como a sua percepção do que te faz feliz. Infelizmente isso durará a sua vida toda. A sua impressão errada de felicidade, pois você é muito carrancuda para admitir que o que realmente te faz feliz, te torna fraca ao mesmo tempo. E você não quer ser fraca, não é? – Ele perguntou com uma risadinha cruel. – Você prefere perder tudo a ser fraca! E assim você vai perceber que se fechando em seu mundo, vai perder coisas e pessoas. – O homem finalizou todo aquele discurso enquanto observava minuciosamente o cenário mais uma vez mudar.
E logo depois aquele lugar se transformou em um cemitério. Ali havia uma cova funda, onde eu presumi que estava sendo enterrado alguém. Observando mais a fundo, ali também havia três pessoas. E foi então que eu percebi o que estava acontecendo. As três pessoas que estavam do lado daquela cova, eram minha mãe, meu irmão e Laís. Juntamente com a convicção de que aquele era o meu enterro, veio a minha falta de ar total.
E enfim em um solavanco nauseado eu acordei. Ainda tentando recuperar todo o ar que me faltava, minha respiração encontrava-se ofegante e descompassada, ritmada entre as batidas aceleradas do meu coração. Eu realmente havia me deixado levar pelo meu sonho. Sem perceber, vi que Max estava com os olhares fixados em mim, transparecendo preocupação com a minha real situação de desespero.
– O que aconteceu com você? Está pálida e respirando com dificuldade... – Max disse enquanto apertava as minhas mãos em um gesto de carinho. – Um pesadelo? – Acrescentando a pergunta.
– S-s-i-m. – Respondi tentando recuperar a minha fala natural, deixando de lado toda a rouquidão. – Falta muito tempo para chegarmos? – Perguntei em um tom de voz que mais parecia uma suplica.
– Uma hora, aproximadamente. – Max respondeu enquanto verificava seu relógio de pulso. – Mas não se preocupe você pode descansar, eu estarei aqui caso você tenha algum pesadelo novamente. – Falou logo após envolver meu corpo em seus braços.
E então eu finalmente senti meu corpo relaxar. A tensão esvaindo-se lentamente enquanto o calor e o conforto dos braços de Max me inundavam. Era bom estar perto dele, eu me sentia reconfortava, inundada por uma sensação de paz que a muito tempo eu não havia experimentado. Só então eu percebi que ao meu lado Thomas me encarava atenciosamente de canto de olho para que eu não percebesse. Logo, quando ele intuiu que eu havia o percebido, sua expressão inquisitiva e inocente sumiu e deu lugar a uma expressão de frieza. Se eu não o julgasse como o idiota que sente que o mundo gira em torno de si, eu podia jurar que existia um pingo de ciúmes naquele olhar. Com esse pensamento, novamente adormeci. Agora com um sono calmo e relaxante.
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