Juniperus
1 Capítulo Único - "Mas que pássaro vingativo sou."
Um dia ensolarado cobria a mansão da nobre família, o belo rapaz branco como a neve e de bochechas coradas como o sangue, primeiro filho e herdeiro de seu nobre pai montava um piquenique e conversava animadamente com sua irmã e amada. Os dois jovens planejavam ir embora da propriedade para poderem desfrutar de seu amor puro e proibido, porém a moça temia por sua mãe, ela jamais aprovara o relacionamento dos dois e provavelmente ficaria imersa em tristeza ao ver sua filha partir.
— Meu pai nunca devia ter tomado uma segunda esposa. – Comentou o rapaz se sentando ao lado de sua amada e a abraçando. – Ele nunca superou a perda de minha mãe e agora a sua procura em você o amor que meu pai não demonstra ter por ela.
O jovem Stuart estava certo, a mãe de Marlenita estava sozinha e não podia suportar ver sua pequena filha ir. Mas mais que isso, ela não confiava em seu enteado e com boas razões. Os rumores pela cidade eram a maioria verdadeiros, um jovem com um passado de promiscuidade e roubo. Não, este não era o homem para sua preciosa Marlenita e ela precisaria garantir que eles não crescessem juntos. Porém ela temia que pudesse ser tarde demais.
O dia passou rapidamente para a esposa do nobre que passou todo o tempo a observar sua filha e enteado. A noite logo havia chegado, porém ela havia esquecido de trazer o sono e lembrado de trazer as preocupações. A mulher não havia conseguido dormir um minuto sequer, espreitava à janela de seu quarto encarando o majestoso junípero.
Enquanto pensava na amurada da janela ela pode perceber um estranho movimento na árvore de junípero. Um dos galhos mais firmes crescia descontroladamente em sua direção até atravessar o vidro da janela e a jogar no chão sem reação. A mulher ouviu em sua mente uma voz masculina e rouca: “Ela não está segura. Stuart deve ser morto. ”
Como que em um transe a mulher levantou-se e seguiu para o quarto de seu enteado e logo aproximou seu ouvido da porta de madeira, vozes puderam ser ouvidas. Sua filha havia se decidido. Ela iria embora com seu amado. As palavras obscuras se repetiram em sua mente e foram reproduzidas por seus lábios vermelhos. “Ela não está segura. Stuart deve ser morto. ”
Ela seguiu novamente para seu quarto. Iria livrar seu bebê daquele que julgava ser um monstro. A noite seguiu lentamente, parecia não ter fim, a mulher temia pela filha e por seu futuro.
Quando finalmente amanheceu a mulher tomou um plano, ela tinha imensas dúvidas se funcionaria, mas era sua única chance. Desceu as escadas de seu quarto e foi em direção ao grande salão de entrada pois sua filha e Stuart haviam convocado a todos para um “grande anúncio”. Assim como ela esperava, o anuncio era o fato de que Marlenita e Stuart iriam viajar pelo mundo afora.
A mãe ainda estava receosa e saiu do salão, virando as costas para todos ali presentes e deixando clara sua insatisfação pela notícia. Sua mente estava confusa e divagando, mas ela já tinha certeza do que iria fazer, seguiu em direção a cozinha e expulsou todas as criadas que trabalhavam, depois de alguns segundos colocou seu plano em prática. Chamou por Stuart diversas vezes até o jovem lhe atender.
O rapaz chegou confuso ao local, não entendia porque sua madrasta o chamaria, esperou que ela fosse brigar com ele ou implorar para que não levasse sua amada filha embora, porém a mulher apenas lhe pediu um favor, ela queria que ele pegasse maçãs dentro do baú, para que lhes fizesse uma torta de despedida. O rapaz estava surpreso com a pedida, mas pegou as maçãs, apreciando a calmaria que a mulher estava.
— Devo dizer, estou surpreso de como está reagindo bem às notícias de eu e Malenita sairmos daqui.
A mulher sorriu para o rapaz que se esgueirava para dentro do baú, para que pudesse pegar as maçãs.
— Bem, às vezes se é preciso tomar decisões na vida e assumi-las independentemente das circunstancias. Quando Marlenita nasceu, tomei a decisão de que sempre faria o que fosse preciso para mantê-la feliz, e se você a faz feliz, bem, tenho de cumprir com minha palavra.
A mulher terminou sua fala passando a mão pelo apoio do baú, logo o puxou fazendo a superfície cortante cair sobre o pescoço do rapaz, por um momento se arrependeu do feito mas ficou marcando em sua mente que isto era o necessário para manter sua filha segura.
A mulher correu para pegar o corpo e o colocou em um grande saco de tecido escuro, estava desesperada e com medo de que a vissem com o corpo, guardou a sacola em seu quarto e mandou que nenhuma criada ou até mesmo seu marido entrasse lá, depois de guardar o corpo, voltou para a cozinha às pressas e proibiu terminantemente que qualquer pessoa entrasse lá antes que ela saísse. Desaforada, ela limpou o sangue da melhor maneira que pode e jogou todas as maçãs fora.
Novamente em seu quarto, ela se deitou na cama e ficou encarando o galho de junípero que atravessava sua janela e lhe sussurrava coisas, coisas assustadoras. Ela esperava ansiosa o anoitecer, precisava se livrar do corpo do enteado. Com o coração descompassado, ela não saiu mais do quarto aquele dia, seu marido vinha lhe bater à porta, perguntando o que havia acontecido e porque ela não descia para ficar com o resto da família, sua única resposta era: “Me deixe em paz! Preciso ficar um tempo sozinha. ”
O dia passou mais lentamente do que chegou, pensamentos horríveis assolavam sua mente, uma coisa pior do que a outra, mas também havia o incentivo cruel que a voz rouca da árvore sussurrava em seus ouvidos.
Quando a noite finalmente chegou seu coração acelerou e sua mente era assombrada pela culpa. Os sussurros demoníacos voltavam em sua mente: “Isto foi melhor! Agora ela está segura, ninguém mais pode feri-la”. Levantou-se da cama às pressas e pegou o corpo coberto pelo tecido, desceu as escadas silenciosamente e correu para fora, os lábios tremeluzindo um sorriso, pegou uma pá na pequena casinha de jardinagem e correu para o grande junípero, onde enterrou o corpo aliviada.
Foram preciso mais dois dias se passarem para que notassem a falta do jovem de pele clara, uma ausência de um dia ou dois era até comum para o rapaz, três dias ainda não eram preocupáveis mas anormais. Mais alguns dias se passaram e Marlenita e seu pai começaram a se preocupar. “Mas onde está Stuart? ”. Era a pergunta que assolava por entre as paredes do castelo.
A jovem Marlenita estava desolada, em sua frágil e confusa mente, Stuart a havia abandonado, com o coração partido, se aproximou de sua mãe, que parecia demonstrar preocupação pelo sumiço do rapaz. Pobre Marlenita, tão frágil, tão inocente, jamais perceberia em sua mãe algo cruel assim.
Certo dia, Marlenita caminhava por frente da majestosa árvore que crescia em sua propriedade, estava perdida nos pensamentos tristes, porém tentando se recompor. “Se fez isso comigo, é porque não me amava! ”. Sua mente lhe gritava. Estava tão imersa em seus pensamentos que não percebeu um belo pássaro de penugem preta e vermelha pousar em um galho próximo a ela.
— Minha mãe, ela me matou,
Meu pai, por mim lamentou,
Já minha irmã, com o melhor me amou.
Meus ossos mamãe pegou,
Para descansar embaixo do Junípero colocou.
Mas que pássaro vingativo eu sou! – Cantarolou o pássaro para Marlenita.
A jovem encarou o pássaro agora com tristeza no olhar, mas em súplica lhe pediu para mais uma vez cantar. O pássaro concedeu seu desejo e mais uma vez cantou, logo depois para longe voou. Marlenita tinha os olhos cheios de lágrimas, correu em direção ao seu quarto e lá desatou a chorar.
Mesmo que com certa dificuldade, a menina havia entendido a mensagem do pássaro, sua mãe havia lhe mentido, Stuart não fugiu, mas foi morto por ela. Seu pobre e frágil coração não aguentou tanta mágoa, não poderia continuar vivendo desta forma. Com lágrimas lhe escorrendo pela face, Marlenita pegou uma pena e um pedaço de papel branco, escrevendo uma carta para sua mãe, a qual deixou acima de uma mesa de madeira em seu quarto e depois correu para fora de casa, em direção ao junípero, do lado de fora, a árvore lhe sussurrava coisas ruins, lhe pedindo favores cruéis. Um deles ela iria satisfazer, um favor para acabar com toda a dor.
A mulher andava até o quarto de sua filha com um enorme sorriso no rosto, já não se assombrava mais ao lembrar de ter matado Stuart, se dizia que havia sido por uma boa causa, e todas as circunstâncias apontavam que sim, sua filha havia voltado a falar com ela e agora estava salva, sem chances de algo ruim lhe acontecer, pelo menos era isto que a voz sussurrava-lhe todas as noites. Chegando ao quarto da filha, ela não pode encontrá-la lá, em um suspiro, deu meia volta, pronta para sair, porém percebeu um pedaço de papel sobre a mesa.
Querida Mamãe,
Suas mentiras e traição partiram
meu coração e eu não poderei nunca
perdoar ato tão odioso. O junípero
é a única coisa que pode reunir eu e
Stuart e agora você deve viver com
suas ações para o resto de sua vida
solitária.
Os olhos da mãe se encheram de lágrimas. Não! Não é possível! Minha filinha não! Seus pensamentos lhe puniam, correu para fora desejando que sua filha não tivesse feito nada, porém, quando chegou do lado de fora da casa não pode mais controlar as lágrimas, com um grande berro pelo nome da filha ela caiu no chão, a visão lhe era aterradora, sua jovem Marlenita com o corpo sem vida preso pelo pescoço em uma corda escondida na grande árvore e um pássaro branco e vermelho a rodopiar sobre sua cabeça.
— Minha mãe, ela me matou,
Meu pai, por mim lamentou,
Já minha irmã, com o melhor me amou.
Meus ossos mamãe pegou,
Para descansar embaixo do Junípero colocou.
Mas que pássaro vingativo eu sou!
Notas finais
Obrigada por lerem ^-^
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