Jun'ai
1 oto nashi kawa no mizu ha fukai
Notas iniciais
Entrou no apartamento, jogando as coisas no sofá, não se importava com a organização, a faxineira arrumaria depois. A primeira lágrima havia caído quando percorria o corredor em direção ao apartamento, e agora chorava compulsivamente. Estava fazendo isso muito ultimamente, chorar. Ouvira uma música natalina na volta para a casa e isso fora o bastante para comovê-lo. Não que gostasse da data, longe disso, mas essa em especial seria provavelmente a pior de todas. Sua família nem lembrara convidá-lo para a “festa”, mas Saga não tirava a razão deles. Não havia aparecido nas últimas quatro vezes que fora convidado. Estava cansado, cansado de trabalhar e não evoluir. Não havia obtido os mesmos avanços que os outros membros da banda em evolução e isso o incomodava profundamente, sentia que nunca evoluiria mais, havia chegado no fim. Não conseguia dormir bem, por mais cansado que estivesse, apenas rolava na cama e levantava no dia seguinte às vezes sem ter dormido nem uma hora completa. E havia Shou. Os dois nunca haviam brigado tanto, ao ponto de terem cinco discussões ao dia pelo mesmo motivo – quase sempre bobo, como Saga sempre esquecer a porta aberta. Mas ultimamente Saga vinha dando razão ao que Shou dizia, pois as últimas brigas estavam sendo sobre o mal desempenho de Saga em estúdio e ao vivo. Mas isso o machucava. Machucava porque sabia que estava indo mal e não precisava de Shou para exaltar isso. Mas principalmente se sentia mal por achar que sentia algo diferente por Shou. Sentia que Shou o estava tratando assim por perceber o interesse de Saga, e não se perdoaria nunca se estragasse a amizade com Shou. Sentia-se idiota, quase ridículo. E tinha quase certeza que Shou pensava o mesmo. Shou devia ter nojo dele, outro homem interessado nele. Saga se sentiria assim também se não estivesse do outro lado, o lado que sofre, o lado que chora na noite de Natal sozinho em um apartamento frio sem nenhum maldito enfeite. Sentia que ele mesmo estava afastando Shou, provocando brigas sem motivo, tentando fugir do que sentia, mas já estava tudo perdido afinal. Já o amava e isso não mudaria, mas podia ser escondido, e seria. Saga nem mesmo queria tentar, não queria se expor ao ridículo de não ser correspondido e ainda sofrer preconceito de Shou. Não sabia se Shou faria isso, mas não queria arriscar. Sentia-se quase sujo e isso não ajudava também. Sentia-se sujo quando Shou sorria – mesmo que não para ele – e Saga o imaginava em seus braços, sentia-se sujo toda vez que pensava nele quando não conseguia dormir, sentia-se sujo pelo que sentia simplesmente. Limpou as lágrimas do rosto, sobressaltado com a campainha àquela hora da noite, – passavam das duas da manhã, estava no ensaio para o show do dia seguinte – e foi até a porta, hesitante. Espiou rapidamente no olho-mágico da porta e viu Shou olhando para o lado, um pote nas mãos.
— Shou? – Saga abriu a porta rápido, sem acreditar ser verdade. Talvez sua mente cansada estivesse pregando alguma peça em seus olhos não menos cansados – O que... o que faz aqui há essa hora?
— Eu só... não queria ficar brigado com você no Natal. — Shou o encarou, o rosto levemente corado – Mas se quiser que eu vá embora eu...
— Não! – Saga falara rápido e alto demais, fazendo Shou dar um passo para trás, mas sorrindo em seguida, ao ver que não fora a intenção de Saga. – Quer dizer... eu também não queria continuar brigado com você. – Saga sorriu forçadamente de volta.
O silêncio caiu sobre os dois por um momento, enquanto Saga fugia do olhar de Shou, que observava os olhos muito vermelhos do outro. Provavelmente tinha chorado, provavelmente pela rispidez com que Shou o tratara no último ensaio. Shou não queria magoar Saga, mas não gostava do jeito como vinha provocando discussões sem sentido. Procurou entendê-lo, mas a única coisa que parecia fazer sentido não fazia. Saga parecia sentir algo por ele antes, mas depois começou a afastá-lo, e isso não fazia muito sentido para Shou.
— Mas... – Saga tirou Shou de seus pensamentos, quebrando o quase irritante silêncio – E a sua família? Pensei que fosse passar o Natal com ela.
— Eu ia, mas não daria tempo de eu ir até o norte e voltar até o Show de amanhã. Imaginei que você ficaria sozinho também, já que nem mencionou viajar nem nada. – Shou olhou brevemente por cima do ombro de Saga, só lembrando agora da possibilidade de ele estar com outra pessoa – Está sozinho, certo?
— Estou. – Saga acrescentou, sentindo a melancolia de antes. Mas Shou ter se preocupado o fazia não ter mais a vontade de chorar de antes. Ficou assim por mais um tempo, apenas encarando o chão.
Shou percebeu a expressão de Saga, e novamente sentiu que era sua culpa tê-lo deixado assim na noite de Natal, mas pelo menos tentaria animá-lo.
— Tem certeza que não quer que eu vá? Se você quiser ficar sozinho eu entendo, Saga...
— Não, Shou, não quero ficar sozinho. – voltou o olhar ao outro, prestando mais atenção no pote em suas mãos – Fique, por favor.
— Tudo bem. – Shou sorriu, e percebeu o olhar do outro no pequeno pote que trazia, que continha qualquer coisa que servisse de jantar. Não haviam comido nada antes do ensaio e Shou tinha quase certeza que Saga não faria nada depois dele – Ceia. – sorriu novamente, acompanhado agora por Saga. Um sorriso sincero e com certeza menos triste da parte do outro, e isso fez Shou se sentir melhor.
Saga saiu da frente da porta, abrindo-a por completo e fazendo sinal para que Shou entrasse.
— Melhor entrar logo, está frio aí fora.
Shou fez o que o outro dissera e entrou, passando por Saga na porta ainda com o mesmo sorriso. Saga sorriu de volta, sentindo todo o sentimento “sujo” que antes pensara sentir transformar-se em algo novo, algo puro. Sentiu o tipo de calor dentro do peito que não sentia há muito tempo mesmo, o tipo de calor que acalma o frio mesmo em meio a uma nevasca. Shou também sentira algo diferente ao passar por Saga, mas decidiu preocupar-se com isso depois. No momento apenas tinha que fazê-lo se sentir feliz.
[fim~]
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